O Devido Trabalho De Um Pastor: Como Eu Vou Lembrar Eugene Peterson

Nesta semana demos às boas-vindas para Eugene Peterson na nossa plataforma com o livro A Oração que Deus Ouve. Conhecido por sua paráfrase da Bíblia, A Mensagem, esse autor morreu em 22 de outubro de 2018, aos 85 anos. Traduzimos este texto para te incentivar a começar a saborear um pouco do rico legado deixado por esse irmão.

Eu só encontrei Eugene Peterson uma vez.

Em 2014, um amigo e eu publicamos uma coleção de ensaios por uma série de pastores e acadêmicos lidando com a visão de Peterson para a vida pastoral. Na primavera daquele ano, o Western Theological Seminary hospedou uma conferência baseada no livro e convidaram Peterson. Para a minha surpresa, Peterson, já na sua oitava década e aposentado de aparições públicas, concordou participar. 

A conferência caiu no seu aniversário de 82 anos.

No jantar do seu aniversário, eu me sentei na mesma mesa do que ele. Eu me lembro da nossa reverência para com a sua idade e sabedoria. Eu me lembro de ouvir as suas histórias. Eu me lembro de como ele nos fez rir. Eu me lembro de como ele sorria quando cantávamos Parabéns para ele.

Mas, naquele ponto na minha vida, Peterson já tinha deixado a sua marca em mim. Jantar com ele foi só a cereja do bolo.

Deserção Pastoral

Anos atrás, eu estava lutando como pastor para mudar os rumos de uma igreja. Eu estava convencido de que o poder da minha liderança, a profundidade da minha pregação e a minha personalidade carismática e sociável, sem mencionar a minha humildade, eram suficientes para salvar um navio de um naufrágio. Eu tentava muito ser o líder visionário que o meu bispo me convencera que eu deveria ser.

E eu tive um sucesso moderado, o que deixou tudo pior.

Eu estava cansado, e eu tinha uma inquietação persistente de que não era assim que o ministério deveria ser. Foi então que eu descobri a obra de Peterson, ou pelo menos foi aí que eu acordei e ouvi o que ele tinha a dizer.

Em alguns de seus livros, Peterson parecia briguento, reclamando com seus colegas pastorais por abandonarem seu devido trabalho, por desertarem. Ele cria que os pastores americanos tinham deixado de ser pastores e começaram a ser CEOs e gestores. Eles começaram a “gerir igrejas” ao invés de pastoreá-las. Eles tinham começado a usar a linguagem para convencer, persuadir e bajular ao invés de proclamar, orar e curar. Eles tinham se esquecido de que a igreja pertence a Deus, e começaram a crer que era trabalho deles consertá-la.

Quando eu li isso, eu soube que era assim que eu estava tentando ser pastor.

O nosso devido trabalho

Vez após vez em seus livros, Peterson usou a frase “devido trabalho” como um resumo de uma alternativa: o que ele cria constituir o coração da vocação pastoral.

E a sua alternativa era salutar. Vamos imaginar que Deus está agindo nas nossas congregações, sugeriu. Vamos imaginar que a iniciativa não pertence a nós, mas a Deus. Vamos imaginar que o nosso trabalho é discernir o que Deus está fazendo e entrar no fluxo da obra graciosa de Deus.

Peterson dizia que quando imaginamos que estamos gerindo uma igreja, fazemos perguntas do tipo: “O que faremos? Como podemos fazer as coisas se agitarem de novo?” Mas quando redescobrimos o nosso devido trabalho, levar uma congregação a discernir o que Deus está fazendo e então responder a isso, um conjunto diferente de questões nos orienta: “O que Deus está fazendo aqui? Que traços da graça eu posso discernir nesta vida? Que história de amor eu posso ler neste grupo? No que Deus deu a partida e quer que eu entre à bordo?”

Peterson convidava os pastores a caminhar pela estrada que ele pensava estar ficando em desuso.

Na sua perspectiva, as nossas congregações não são problemas a serem solucionados, mas playgrounds do Espírito Santo. O nosso trabalho é discernir o que o Espírito está fazendo e responder em fé ao convite do Espírito para brincar.

Lembrando Peterson

Eu já esqueci alguns aspectos daquela conferência em 2014. Eu não lembro qual foi a história que Peterson contou que nos fez rir. Eu nem lembro o que eu disse no paper que eu apresentei na conferência, ou da resposta de Peterson.

Mas eu nunca vou esquecer como a sua visão de ministério reconstruiu a minha. Como ele me convidou a parar de pensar que eu era o único que estava fazendo o trabalho. Como ele me lembrou que há Outro no nosso meio que também está trabalhando e que o meu trabalho como pastor era ajudar uma congregação a discernir como participar no que esse Outro estava fazendo.

Foi como ele me chamou de volta para o meu devido trabalho.

Original aqui

Traduzido por Guilherme Cordeiro.

4 Padrões Para Avaliar A Arte A Partir De Francis Schaeffer

Frequentemente somos culpados de julgar a arte com uma visão preto no branco. Podemos dizer “Gostei. É muito bom”. Ou negativamente, “não gostei, é ruim”.

Nos seus inteligentes ensaios sobre arte (publicados como A arte e a Bíblia pela IVP Classics [e no Brasil, pela Ultimato e disponível na Pilgrim]), Francis Schaeffer nos fornece ricos critérios para avaliar a arte.

A perspectiva de Schaeffer sobre a Arte

Antes de olharmos os critérios avaliativos de Schaeffer, é importante entender a perspectiva de Schaeffer sobre a arte. A minha esperança é que as citações abaixo vão instilar em você (como elas fizeram comigo), (1) uma visão mais ampla da supremacia de Cristo e (2) um senso mais profundo do que torna a criatividade valiosa.

1. A verdade do Cristianismo é universal e abrangente, e não compartimentalizada. A verdade sagrada não é desassociada da verdade secular e então exilada na “narrativa do andar de cima”.

“O cristianismo não é apenas ‘dogmática’ ou ‘doutrinariamente’ verdadeiro; ele é verdadeiro também em relação ao que está diante de nós, verdadeiro em relação a todas as coisas em todas as áreas da existência humana” (p. 18) 

2. Cristo é o Senhor de tudo. A sua redenção é para o homem todo. Isso, é claro, inclui a capacidade de criar e gozar da  arte.

“Sua alma é salva, bem como sua mente e seu corpo” (Ibid., p. 17)

“Cristo é o Senhor de nossa vida como um todo e a vida cristã deve produzir não apenas verdade — uma verdade arrebatadora —, mas também beleza” (p. 40)

3. A criatividade na Bíblia nem sempre é uma representação “fotográfica”, nem é meramente utilitária.

“Na natureza, as romãs são vermelhas; porém, estas romãs deveriam azul, púrpura e carmesim. Púrpura e carmesim podem ser variações de tonalidade no amadurecimento de uma romã, mas azul, não. O princípio é que há liberdade para se fazer algo a partir da natureza, que seja distinto dela e que possa ser levado à presença de Deus. Em outras palavras, a arte não precisa ser “fotográfica”, no sentido mais simples da palavra fotografia!” (Ibid., p. 23) 

“O templo era coberto de pedras preciosas para ornamento. Não havia razão pragmática — elas não possuíam valor utilitário algum” (Ibid., p. 24)

4. A obra criativa tem valor porque, por meio dela, espelhamos a Deus, o Criador.

“Tendo sido feitos à imagem do Criador, somos chamados à criatividade. De fato, sermos criativos ou termos criatividade faz parte da imagem de Deus em nós.” (Ibid., p. 45)

5. A arte é um meio de comunicação

“… a arte é somente a materialização de uma mensagem, um veículo para a propagação de uma mensagem particular sobre o mundo, o artista, o ser humano ou qualquer outra coisa” (Ibid., p. 48)

Em resumo, todas as coisas estão sob o senhorio de Cristo; isto inclui a arte inerentemente e a Bíblia a inclui explicitamente. E, embora não sejamos imunes à abrangência do nosso pecado, a obra criativa é, ela própria, derivada de Deus. Quando criamos refletimos a imagem de Deus.

Os quatro padrões de avaliação

Schaeffer nos fornece quatro padrões de avaliação para usar quando avaliamos a arte. Eles nos ajudam a tanto gozar da obra de arte mais plenamente e discutimos ela para além de um simples “bom” e “ruim”.

1.    Excelência técnica

“Discutiremos a excelência técnica em relação à pintura, pois com ela é mais fácil demonstrar o que queremos dizer. Consideramos aqui o uso da cor, da forma, do tom, a textura da tinta, o manuseio das linhas, a unidade da tela e assim por diante. Em cada um desses aspectos pode haver vários graus de excelência técnica. Ao reconhecer a excelência técnica como um aspecto de uma obra de arte, podemos ser capazes de dizer que, ainda que não concordemos com a cosmovisão de um determinado artista, não obstante, ele é um grande artista” (p. 53)

Algo pode ser excelente tecnicamente mesmo que deixe a desejar em outras áreas. Essa categoria dá a nós, os apreciadores, uma oportunidade de afirmar algo sobre a dignidade deste artista (e seu trabalho) como portador da imagem de Deus.

2. Validade

“Aqui questionamos se um artista é honesto consigo mesmo e com sua cosmovisão ou se faz sua arte apenas por dinheiro ou para ser aceito” (Ibid., p. 54) 

Isso não e o mesmo de dizer que um artista não deve ser pago ou reconhecido. Pelo contrário, se um artista é primariamente motivado por sucesso financeiro ou fama ao invés de a mensagem que ele está comunicando, ela será superficial ou, na melhor das hipóteses, diluídas. Em suma, a obra perdeu a sua integridade.

3. Conteúdo intelectual (cosmovisão) 

“O terceiro critério para o julgamento de uma obra de arte é seu conteúdo, que reflete a cosmovisão do artista. No caso dos cristãos, a cosmovisão comunicada por meio da arte precisa ser vista sob a ótica da Escrituras. A cosmovisão do artista não pode ser isenta do julgamento da Palavra de Deus” (Ibid., p. 55)

Este terceiro critério, creio eu, é mais importante do que todos os outros. O que o artista está dizendo sobre o mundo? É verdade? Embora não rejeitemos todas as outras categorias, se discordarmos da mensagem da obra, discordamos do próprio fim central para que ela foi criada.

E o artista não cristão? Este critério não quer dizer que todo artista precisa ser cristão a fim de ser avaliado com louvor nesse ponto (ibid., p. 57). Assim como cristãos devem afirmar verdades objetivas na natureza ao lado de cientistas não cristãos, devemos afirmar uma mensagem da arte que é verdadeira (p. ex., beleza na natureza ou na experiência da depravação humana). isso pode ser feito mesmo se o próprio artista não atribui a sua mensagem à realidade objetiva de Deus no mundo.

4. Integração entre o conteúdo e o veículo

“Nas obras de arte verdadeiramente grandiosas, há uma correlação entre o estilo e o conteúdo. A arte superior encaixa o veículo usado à cosmovisão que está sendo representada (Ibid., p. 58-59)

Embora várias formas artísticas sejam adequadas para várias mensagens, nem todas comunicam da mesma forma. Deve-se prestar atenção se não se está tentando lançar um romance por meio de tweets. Ao mesmo tempo, pode-se sair de uma apreciação da obra de Rembrandt, O Retorno do Filho Pródigo, com uma rica soteriologia.

Conclusão

O senhorio de Cristo é completamente supremo sobre tudo que é visível e invisível, o todo da vida. Isso inclui a criatividade, que é demonstrada por Deus e pelo homem, que foi feito à imagem de Deus. A Bíblia está cheia de exemplos de expressão criativa e artística. O homem espelha a Deus quando cria. Isso é bom. E enquanto esse refletir a Deus pelo homem é distorcido pelo pecado, a redenção em Cristo é para o homem todo.

Toda obra de arte comunica conteúdo, mas nem toda obra de arte é igual a outra. Buscamos o conhecimento e o entendimento do conteúdo sendo transmitido para que ele possa ser aceito ou rejeitado. Dito isso, quando avaliamos a arte, deveríamos evitar uma avaliação simplista. Devemos procurar critérios adicionais, como a excelência técnica, a validade, e a integração entre conteúdo e veículo. O artista tem dignidade. Cada artista deve ser afirmado inteligentemente por suas habilidades dadas por Deus à medida que elas são exibidas.

Original aqui.

Traduzido por Guilherme Cordeiro.

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5 Recursos Para Começar

Mexer com teologia é um negócio engraçado. Você vai encontrar pessoas que juram que ela esfria o crente junto com outras que não veem outro caminho melhor para o crescimento espiritual do que devorar o último calhamaço de teologia sistemática. Sem falar do caricato pastor que não lê um livro desde que se formou no seminário sendo exortado pelo adolescente calvinista que se encontra na fase da jaula. 

Mas por onde começar nesse admirável mundo novo da teologia?  

“Fim é lugar de onde partimos (…) E o fim de toda a nossa exploração/ Será chegar ao ponto de partida/ E o lugar reconhecer ainda/ Como da primeira vez que o vimos”, já disse T. S. Eliot. A nossa experiência de crescimento da fé cristã é muito semelhante à descrição do poeta britânico. Não importando a quantidade de estudo e avanço na fé cristã,  o Reino dos céus ainda é para os que são como crianças (Mc 10.14), a sabedoria de Deus é para os tolos e fracos (1Co 1.26-29) e o Pai escolheu revelar aos pequeninos os mistérios da fé (Mt 11.25). E para começar a estudar teologia não pode ser diferente: é comer da mesma refeição que o cristão mais maduro também come, só que ele já está com o paladar mais aguçado. Então, qual vai ser o nosso menu?

Com tantos recursos disponíveis para a edificação intelectual do cristão,  dizer “comece aqui” parece ser incrivelmente prepotente. Mas introduções são assim. E talvez o seu valor resida em fornecer tanto ao que quer começar a estudar quanto ao experiente consumidor teológico um bom mapa para o caminho à frente, mas que também destaque pontos interessantes de se voltar. Portanto, são esses recursos da Pilgrim que recomendamos para quem está só começando. 

1.        Cristianismo essencial (série de palestras L’Abri Brasil): é bom começar onde os cristãos sempre começaram. O Credo Apostólico, a Oração do Senhor e os Dez Mandamentos são o instrumental básico da instrução da igreja aos novos cristãos. Mas como podemos conectar isso tudo com a cultura contemporânea? Nessa série de palestras, Guilherme de Carvalho e Rodolfo Amorim, obreiros do L’Abri Brasil, dão a resposta. Seguindo a tradição da organização fundada por Francis Schaeffer (veja o nosso post sobre o L’Abri), essas palestras pretendem esboçar os contornos básicos da fé cristã sem se esquecer dos dilemas teóricos e práticos do homem contemporâneo.

2.        Por Que sou Cristão (John Stott): o pastor anglicano John Stott, um dos teólogos evangélicos mais populares do século XX, concebeu este livro como uma justificação da fé cristã a partir da ressurreição historicamente confirmada de Jesus e uma explicação básica do evangelho da graça para convencer incrédulos e fortalecer a fé dos crentes.  

3.        Um Guia Para a Nova Vida (Wilson Porte Jr.): Jesus ordenou o discipulado como meio de ingresso na vida da igreja (Mt 28.18-20). Mas por onde devemos começar no ensino “a guardar todas as coisas que vos tenho ordenado” (que não são poucas)?  Com atenção aos recursos básicos da instrução cristã (Credo Apostólico, Pai Nosso e Dez Mandamentos), complementados por uma exploração do evangelho e das ordenanças do batismo e da Ceia, Wilson Porte Jr. fornece exatamente o que novos discípulos procuravam: um guia didático a doutrinas comuns aos cristãos evangélicos para quem está começando.

4.        Dois Dedos de Teologia (Yago Martins): O pastor Yago Martins, do canal Dois Dedos de teologia, foi um dos primeiros brasileiros a usar a internet como meio de divulgação de teologia de qualidade. Naturalmente, ele já sofreu bastante com isso. O que lhe deu muita experiência para responder a dúvidas práticas que surgem na cabeça dos cristãos. Será que o dízimo é só para financiar pastor ladrão? Posso beber e fumar? Até onde é longe demais no namoro? E esse negócio de homossexualidade ser pecado? Colocando no papel o que já expusera em muitos de seus vídeos, este livro é um ótimo recurso para respostas diretas, mas bem-fundamentadas, a cada uma dessas perguntas.

5.        O Caminho do Peregrino (N. T. Wright): N.T. Wright é um renomado teólogo britânico anglicano, especialista em teologia do Novo Testamento, sendo um dos maiores contribuidores para discussões contemporâneas sobre a historicidade da ressurreição de Jesus e a teologia do apóstolo Paulo. Porém, seus anos como bispo de Durham lhe renderam uma preocupação pastoral permanente. Entre seus livros mais populares, nesta obra seu objetivo é alcançar  pessoas, jovens ou idosas, preparando-se para a profissão pública de fé, com uma exposição sólida de alguns pontos centrais do cristianismo

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