Deus e todas as coisas em Deus: a teologia de John Webster (Brad East)

Basta a um cristão crer que as coisas criadas, seja no céu ou na terra, visíveis ou invisíveis, só possuem uma causa: a bondade do criador que é o verdadeiro e único Deus, que todo ser está nele ou vem dele e que ele é uma Trindade…

— S. Agostinho, Manual sobre Fé, Esperança e Amor

O principal objetivo da doutrina sagrada é ensinar o conhecimento de Deus, não apenas como ele é em si mesmo, mas também como sendo o princípio de todas as coisas e seu fim último…

— S. Tomás de Aquino, Suma Teológica

Deus é. Essa é a simples declaração que temos de desenvolver e explicar […] Ao fazê-lo, enfrentamos a tarefa mais difícil e, ao mesmo tempo, a mais extensa da dogmática eclesiástica…

— Karl Barth, Dogmática Eclesiástica

Quando John Webster subitamente faleceu há pouco mais de dois anos, grande parte do mundo não percebeu. Por um lado, isso é um reflexo da baixa apreciação que o trabalho intelectual em geral — e o teológico em particular — possui hoje. Por outro lado, é extremamente coerente com o homem que morreu. Assim como João Calvino pediu para ser enterrado em uma cova anônima, John Webster procurou, ao longo de sua carreira, manter um perfil discreto; tornar sua personalidade e biografia invisíveis o máximo possível, a fim de melhor transparecer seu objeto de estudo. Ser lembrado significa — às vezes — que alguém ou alguma outra coisa serão esquecidos. Seguindo João Batista, Webster desejou diminuir para que outro pudesse crescer. 

Esse outro, aquele alguém ou alguma outra coisa, o objeto de estudo que tanto consumiu a vida e mente de John Webster, é, ao mesmo tempo, simples e impossível de dizer: Deus. Webster dedicou tudo que ele era e tinha, a inteireza de suas energias mentais (e mais um pouco), para buscar, contemplar e articular o único Deus vivo e verdadeiro da confissão cristã. Não há uma única palavra em seus prolíficos escritos intocada pela majestade imaculada da Santíssima Trindade. Sua maior vocação era a teologia, a qual, como lembrava seus leitores repetidamente, trata do mais abrangente dos tópicos: Deus e todas as coisas em Deus. O fato de essa tarefa ter pouco da pompa mundana que outrora tivera, nada significava para ele. Não se busca entender as coisas divinas em prol do reconhecimento terreno. A teologia talvez seja a única prática intelectual que, na verdade, é a sua própria recompensa: a única investigação cujo objeto proporciona satisfação para a mente que a pratica. O conhecimento de Deus recompensa o estudo sem fim. 

Quando Webster faleceu, grande parte do mundo pode não ter notado, mas alguns perceberam. Nós que conhecemos e acompanhamos seu trabalho recebemos a notícia com dor no coração.[i] Na época em que morreu, Webster fazia parte de um pequeno número de teólogos anglófanos com renome internacional: Sarah Coakley, James Cone, Stanley Hauerwas, Robert Jenson, John Milbank, Oliver O’Donovan, Kathryn Tanner, Miroslav Volf e Rowan Willians. Jenson e Cone já haviam falecido, e Hauerwas e O’Donovan estavam ambos aposentados. O resto tinha menos de 70 anos de idade e se Webster ainda estivesse vivo ele teria agora apenas 63 anos. Enquanto estes outros pensadores já tinham ou escrito suas principais obras ou estavam no processo de fazê-lo, Webster estava no começo de uma teologia sistemática de cinco volumes. Aqueles de nós que lamentaram por ele, lamentaram também a perda desse trabalho que, supõe-se, moldaria o campo de maneiras poderosas e inesperadas. 

Felizmente, Webster nos deixou com o que é ainda um tesouro de brilhantes escritos teológicos: mais de uma dúzia de livros, além de ensaios, artigos e resenhas às centenas. Muitos teólogos acadêmicos da última ou penúltima geração falaram sobre a obra de Hauerwas como uma espécie de porta de entrada para o mundo da ética cristã. Eu ouvi histórias semelhantes sobre Webster; lê-lo significa ser introduzido à teologia sistemática pela primeira vez, mesmo que a pessoa já tenha lido teologia antes. Pois a teologia contemporânea simplesmente não é mais escrita da mesma forma que Webster escrevia. É quase como se o assunto fosse mais do que apenas uma disciplina acadêmica; quase como se estivesse vivo…

A seguir, gostaria de apresentar a teologia de John Webster para aqueles que ainda não tiveram este prazer.[ii] Naturalmente, isso é apenas a proverbial ponta do iceberg. Não apenas há muito mais de onde isso veio. Como Webster gostaria de insistir, o que você captura apenas em vislumbre aqui pode ser apreciado por completo muito além de sua obra relativamente manejável: na liturgia cristã, na Grande Tradição e na Sagrada Escritura. O conhecimento de Deus recompensa o estudo, mas o conhecimento de Deus não é como o conhecimento de Wittgenstein ou da Roma Antiga ou da mecânica quântica. Não é algo morto ou inerte à sua disposição; é nada sem o real artigo. 

Antes de me voltar para o artigo real, no entanto, permita-me começar com a biografia de Webster (afinal de contas, nós estudamos a vida de Calvino mesmo sem ele desejar que o fizéssemos). Passarei então a considerar alguns pares de temas presentes em sua obra: Trindade e criação, Cristo e salvação, Escritura e igreja. Meu objetivo será expor e explicar por uma questão de clareza, enquanto me apoio o máximo possível nas próprias palavras de Webster, de modo a dar um senso de seu próprio estilo e voz, bem como deixa-lo falar por si mesmo, para que eu não represente mal seu pensamento. É uma condição invariável do comentário teológico sobrepor transparências inalcançadas, uma após a outra.

Teólogo por acaso

A primeira coisa a ser dita sobre a biografia de Webster é que ela não se encontra em quase nada do que ele escreveu. Por isso, para quem não o conheceu pessoalmente, sua formação e vida pessoal seriam quase inteiramente desconhecidas.[iii] Isso continuou sendo verdade ao longo dos mais ou menos 35 anos de sua carreira, esta marcada, pelo menos externamente, por nenhuma controvérsia e porquíssimas repostas irritadas em periódicos acadêmicos.[iv] Talvez a característica mais paradoxal do trabalho de Webster seja a maneira pela qual era, simultaneamente, profundamente antagônico a um número de tendências modernas e pós-modernas sem, por assim dizer, arranjar confusão. Em diferentes momentos da carreira de Webster pode se sentir o retumbante “Nein!” barthiano animando seus argumentos, evitando, em todo tempo, a retorica agressiva e o espírito belicoso típico de Barth e daqueles com temperamento similar.[v] No seu melhor, o trabalho de Webster carrega a marca de uma alegria serena, marcada nem pela defensividadem nem pelo desespero em relação a um mundo (e às vezes uma igreja) que ia na direção oposta; a razão para que tal postura fosse possível e racional para Webster era simples: o cabeça da igreja é o Senhor da história. Se Deus é por nós, quem será contra nós?[vi]

Assim, como disse acima, Webster buscou ser a testemunha mais imperceptível e invisível possível do Deus que se revela. Mas, como todos os pensadores, ele pertencia a um contexto, que aparecia em seus escritos e, portanto, digno de atenção.[vii] Webster nasceu no dia 20 de junho de 1955, em Mansfield, Nottinghamshire. Ele descreve a fé de sua adolescência como uma “conversão de um metodismo suburbano água com açúcar para uma sólida versão do cristianismo calvinista.” Ordenado ao sacerdócio um ano antes de seu aniversário de 30 anos, ele permaneceu na Igreja da Inglaterra até o fim de sua vida. Mas isso veio depois: primeiro ele estudou Letras e Literatura e foi para Cambridge, no final da década de 1970, para estudar Inglês, apesar de ter sido rapidamente desiludido de seu interesse. Ele se voltou, para sua surpresa, à dogmática: “Humanamente falando, eu me tornei um teólogo em grande medida por acaso.”[viii]

Sua formação foi em grande parte desprovida de dogmática, focada principalmente em questões metodológicas associadas à crítica doutrinária, ou seja, empreendendo a tarefa teológica como o tratamento de problemas levantados pelas preocupações normativas modernas. Ele olhava para essa formação e para seus primeiros trabalhos como “carentes do tipo correto de clareza, foco e coerência que só podem ser derivados de um senso da vocação da tarefa teológica.” Clareza veio depois de uma mudança de uma faculdade teológica na Inglaterra para o Toronto School of Theology em 1986, onde Webster começou “a encontrar [seu] caminho fora da crítica doutrinária, de modo a perceber que seus escrúpulos eram em grande medida mal colocados, e então descobrir que uma dogmática cristã positiva é uma ciência sábia, edificante e alegre.” O fator decisivo nessa redescoberta foi a “decisão notavelmente emancipatória do ensino confessional,” uma decisão que iluminou também seus escritos subsequentes. “Decidi trabalhar sob o pressuposto da veracidade e utilidade da confissão cristã e não dedicar muito tempo e energia desenvolvendo argumentos em seu favor ou respostas a suas negações críticas.”[ix] De fato, essa declaração captura o temperamento e o modo da teologia de Webster desde o início dos anos 90 até suas últimas obras. 

A obra de Webster pode ser dividida em quatro períodos, demarcados por três mudanças notáveis. O primeiro período é o que acabamos de discutir, seguindo seus estudos de doutorado; apesar de mais tarde sentir que esse período foi marcado por falta de foco e clareza, ele, no entanto, fez um bom trabalho introduzindo o mundo teológico de fala inglesa a Eberhard Jüngel, incluindo um livro sobre sua teologia.[x]

O segundo período ocorreu em Toronto; lá, com a ajuda de seu amigo jesuíta George Schner, ele superou o que sentiu como as restrições de sua formação e se debruçou definitivamente sobre a tarefa dogmática positiva.[xi] Parte do que o acordou de seu sono dogmático (para ressignificar essa citação) foi o estudo de Karl Barth, “o velho grandioso de Basiléia.”[xii] Durante os anos 90, Webster se consagrou como um dos principais intérpretes de Barth, mencionado ao lado de eruditos como George Husinger e Bruce McCormack. Webster chamou a atenção para uma série de aspectos ignorados da teologia de Barth, particularmente seu caráter reformado, seu foco ético e sua ênfase na ação humana e na agência criacional. Ele também insistiu que Barth deveria ser lido como um todo (não apenas o Römerbrief, não apenas a doutrina da revelação), de forma consistente tematicamente e consistentemente bíblico e, acima de tudo, como o teólogo de igreja que era — não como um crítico do liberalismo ou um polemista cultural, nem como o prenúncio do pós-modernismo ou o que quer que seja.[xiii] Estes labores deram fruto em inúmeros ensaios e livros significativos, como em The Cambridge Companion to Karl Barth, o qual ele editou. Em 1998, Webster escreveu que a recepção de Barth ainda estava em sua infância;[xiv] ele viu seu trabalho como inovador e criativo, tornando possível uma recepção mais completa, abrangente e sofisticada no futuro. Nisso, já está claro que ele foi bem-sucedido.

Em 1996, Webster se torno o successor de Rowan Williams como professor da cadeira Lady Margaret em Oxford.[xv] Nessa época, paralelamente a seu contínuo interesse em Barth, Webster começou a publicar artigos e ensaios construtivos substanciais sobre um punhado de tópicos doutrinários clássicos: Escritura, Cristo e Igreja, principalmente. O tom desses textos — eventualmente colecionadas em Word and Church, em 2001, e Confessing God, em 2005 — é confiante, confessional e persuasivo. O conteúdo é reformado em uma veia barthiana, exibindo um domínio do pensamento contemporâneo e moderno, teológico ou não. Aqui estava Webster, o dogmático, se dirigindo às principais questões da teologia cristã, com 15 anos de aprendizado aos pés dos mestres por trás dele.

Em certo sentido, esse período continuou até o fim de sua vida, mas uma importante mudança em seu pensamento ocorreu no decorrer das duas décadas seguintes (nesse período ele se mudou de Oxford para Aberdeen, onde lecionou de 2003 até 2013 e, então, mudou-se novamente para St. Andrews, onde lecionou até sua morte).[xvi] Em sua coleção de 2012, Domain of the Word, ele descreve esta mudança da seguinte maneira:                

“Leitores de volumes de ensaios anteriores (se é que alguém leu) podem notar algumas mudanças de ênfase e terminologia na presente coleção: há maior consideração de autores patrísticos e medievais e seus herdeiros na teologia escolástica pós-reforma, e se espera mais da teologia da criação e do Espírito. Talvez, acima de tudo, eu tenha encontrado minha atenção cativa pela preponderância da vida infinitamente profunda e plenamente realizada de Deus, ao explicar a substância da fé cristã, particularmente no que diz respeito às relações entre Deus e suas criaturas: Deus é altissima causa totius universi [causa altíssima de todo o universo].”[xvii]

O latim vem da Suma Teológica, simbolizando muito bem essa mudança de visão. Isso é visivelmente marcado nos escritos de Webster ao longo da última década pela presença decrescente de Barth — tanto em citação como em influência material — e pela presença crescente de São Tomás de Aquino, juntamente com outros representantes das tradições católica e escolástica. Como Tyler Wittman observa: 

“Isso foi um empreendimento consciente, uma vez que [Webster] estava tentando encontrar seu caminho para além da sombra de Barth, bem como encontrar recursos para tratar o que precisava ser tratado em Barth: um nervosismo injustificado com a mediação criacional que se manifestava em uma insuficiente doutrina do batismo e da inspiração bíblica, uma falta de especificidade acerca da instrução moral e, sobretudo, uma doutrina subdesenvolvida da criação, que ele pensava ser a fonte desses deficiências (entre outras coisas). O que estava em falta em Barth, [Webster] encontrou abudantemente nas tradições patrística e medieval: uma doutrina da criação, certa metafisica ministerial, um relato robusto dos nomes e atributos divinos e a cristologia que esses elementos possibilitavam.”[xviii]  

É notável que Webster raramente criticou Barth diretamente; isso não foi um parricídio dogmático, abandonando o jugo do professor superado.[xix] Foi o reconhecimento modesto, mas real, de que a teologia de Barth tinha suas falhas; que algumas de suas inovações eram desnecessárias e algumas de suas rejeições apressadas; que, talvez o mais condenável para o barthianos admitirem, Barth não era o meio de libertação da teologia das amarras da modernidade.[xx]

Webster morreu com sua teologia sistemática ainda não escrita, sem mencionar outros manuscritos e livros encomendados (incluindo um comentário de Efésios, a obra que eu mais esperava), significa que não veremos o fruto dessa guinada pós-barthiana para São Tomás, Santo Agostinho e o escolasticismo protestante.[xxi] Talvez nos daria impactos históricos profundos: traçando um novo caminho, remodelando o campo de alguma maneira. Nunca saberemos. Provavelmente teria ocorrido mais silenciosamente do que muitos de nós gostariam, com menos alarde do que merecia. O que ele nos deixou é mais do que suficiente, em qualquer caso. 

Trindade e Criação

Embora Webster tenha se dedicado a um número de tópicos doutrinários centrais, o locus predominante foi a doutrina de Deus ou teologia própria. (Por essa razão, denominei Webster em outro lugar como “um teólogo propriamente dito”).[xxii] Essa intensidade de foco era tanto positiva quanto polêmica: positiva, porque Deus é o principal assunto (theos) deste discurso peculiar (logos); polêmico, porque Deus tem sido frequentemente trocado na teologia moderna por itens de interesses mais gerenciáveis, geralmente de caráter sócio-histórico: pessoas, eventos, textos, instituições — o fenomênico sendo aparentemente mais passível de análise do que o númeno. Essa atenção desviada é apenas uma das muitas patologias da teologia moderna, segundo Webster. Mais precisamente, Deus deve ter prioridade dentro do sistema dogmático porque as várias doutrinas, como objetos de pensamento, devem refletir sua fonte na realidade: criação, igreja, Escritura, sacramentos e etc. têm seu ser e fim em Deus e, sem especificação do último, não pode haver nenhuma discussão teológica substancial do primeiro. 

Como Webster escreve:

“A teologia cristã é um trabalho da inteligência regenerada, despertada e iluminada pela instrução divina para considerar um objeto duplo. Esse objeto é, primeiro, Deus em si mesmo na perfeição insuperável de seu ser interior e sua obra como Pai, Filho e Espírito e suas operações externas, e, segundo e por derivação, todas as outras coisas relativas a Ele. A teologia cristã é caracterizada tanto pelo escopo de sua matéria — visa um tratamento abrangente de Deus e das criaturas — quanto pela ordem material desse tratamento, no qual o conhecimento de Deus precede e governa a economia. Todas as coisas têm sua origem em uma única fonte de vida transcendente; um sistema de teologia deve ser arranjado para que a fonte, o processo de derivação e as coisas derivadas possam, na devida ordem, se tornar objetos de atenção contemplativa e prática.”[xxiii]            

Há muito o que explorar aqui. Teologia, longe de ser uma atividade intelectual ostensivamente neutra como a química, geologia ou mesmo a filosofia acadêmica, é uma obra da mente batizada: é o que os seres humanos fazem após Deus refazê-los pelo Espírito de Cristo. Como ele escreve em outro lugar, teologia é “aquela prazerosa atividade na qual a igreja louva a Deus ordenando seu pensamento para o evangelho de Cristo.”[xxiv] De fato, como “a scientia daquilo que a fé conhece e deseja,”[xxv] a teologia é uma obra de e para a fé, a qual é um dom de Deus; além disso, é alegre, porque é um ato de louvor ao doador; e é intelectual, porque é um exercício da razão trazido à tona pela realidade inefável do Deus vivo.  A razão — criada, caída e redimida — é incapaz por si mesma de dizer uma única palavra inteligível sobre Deus, não houvesse Deus se inclinado, em amor, a revelar a si mesmo, provendo palavras suficientes para prosseguirmos.[xxvi]

Desse modo, no trabalho teológico em si, Deus é o primeiro e o último. Deus inicia, acompanha e conclui esse empreendimento. A teologia não é ousada, assertiva, curiosa, criativa — pelo menos, não nesse sentido. Ela consiste em escutar. Ela está debaixo da pedagogia divina. Deus é o professor, o teólogo, um aprendiz por toda a vida. É por uma boa razão que a igreja só designa alguém como doutor depois de sua morte. Nesta vida, não há como se formar na escola de Cristo. 

Teólogos não são filósofos especulativos, testando deuses possíveis em universos possíveis; “a dogmática cristã não está preocupada com a divindade, mas com Deus.”[xxvii] Isso tem inúmeras implicações. A primeira é apenas uma expansão conceitual da pergunta do salmista: “quem é Deus, senão o Senhor?” (18.31). O único Deus em questão para a teologia é o Senhor particularmente atestado pelas Escrituras e confessado pela igreja: Deus Pai, Filho e Espírito Santo, revelado no Êxodo e no Sinai, no Gólgota e em Pentecostes; o criador, sustentador, reconciliador e redentor de todas as coisas. Do nada, esse Deus, a Trindade indivisa e onipotente, criou tudo que é, foi e será. De modo que, por sua vez, tudo que existe não é Deus, mas é bom; o que significa dizer que Deus é a infinita fonte beneficente a cada momento de existência e o fim último de tudo.  

Por que Deus faria o que não é Deus? A existência do que não é Deus supre alguma carência em Deus? De modo nenhum. Somente Deus é a se; Deus não tem nenhuma arché ou telos além dele mesmo. Ele é “o Alfa e o Ômega, o Primeiro e o Último, o Princípio e o Fim” (Ap 22:13). A asseidade é a perfeição suprema da vida trina de Deus, uma eterna plenitude de felicidade da qual nada pode se retirar, nem se acrescentar. “O Deus trino é uma essência simples indivisível em uma tripla modificação pessoal irredutível”; “a Santíssima Trindade é uma beatitude perfeita em si mesma na ausência de criaturas.”[xxviii] Ao contrário de nós, Deus não cria por necessidade ou dependência. Deus cria por pura gratuidade. Deus é amor, e o amor de Deus cria criaturas que não precisavam ser, que não tem outra razão de ser além do prazer de Deus em que elas sejam. Essa generosidade está além de qualquer reciprocidade, sendo pura graça.[xxix] O que significa que “a impassibilidade de Deus em relação a criação, longe de ser indiferença, é uma afirmação de que o mundo tem valor em si mesmo, não como uma contraparte necessária para um ser que de outro modo seria deficiente.”[xxx]

Nós conhecemos isso pelas obras de Deus, reveladas a nós na economia da salvação. A tarefa central da teologia é traçar essas obras até sua fonte; ao invés de permanecer apenas no nível histórico, Webster recorre à tradição pré-moderna para argumentar que se não nos movermos para a vida de Deus em si, para a Trindade imanente, corremos o risco de construir nossa casa sobre a areia, por assim dizer.[xxxi] É por isso que a teologia — impopular nos ambientes acadêmicos como sempre — é devidamente entendida como contemplativa: “porque atende à divina instrução, libertando-se das distrações a fim de ser absorvida pela profundidade ilimitada daquilo com que a inteligência se defronta.”[xxxii] Pois contemplação “exige que a mente se mova através das coisas criadas para a realidade divina, sendo estas sinais e veículos da autocomunicação daquela. A contemplação é uma atenção arrebatada por Deus, a causa de todas as coisas, e não pelas coisas das quais ele é causa.”[xxxiii]

É também por isso que mesmo a exegese da Sagrada Escritura deve se atentar para além do texto, para o que Barth chama de Sache do texto, a realidade significada pelas palavras, e não apenas as palavras em si, para que a leitura da Bíblia não seja reduzida a um esforço meramente natural (como tem acontecido em muitos seminários e escolas de teologia). E é por isso também que, embora a teologia “seja uma ciência abrangente, uma ciência de tudo […] não é, no entanto, uma ciência de tudo sobre tudo, mas sim uma ciência de Deus e de todas as outras coisas sob o aspecto da criaturidade.”[xxxiv] Quanto ao significado de criaturidade, Webster oferece o que ele chama “uma regra fundamental em antropologia teológica”, a saber, que “o ser criado é e está habilitado a viver e ser conhecido apenas dentro da relação graciosa de Deus para conosco.”[xxxv] A dignidade da criatura, humana ou não, é uma função dessa relação e dessa relação apenas. 

Até agora, atentamo-nos à ordem material da teologia sistemática, à identidade do criador e à natureza das criaturas. O que dizer das outras obras de Deus e de tópicos semelhantemente derivados?

Cristo e salvação

A cristologia é o coração da teologia moderna. De Schleiermacher e Ritschl a Barth e Bultmann até Moltmann e Jenson, a teologia sistemática nos últimos dois séculos tem sido, ou teve por ideal ser, “cristocêntrica”. E há momentos, nos trabalhos iniciais de Webster, em que ele parece seguir seu antigo mestre nisso. Em seu pensamento mais maduro, no entanto, a cristologia, embora crucial para a tarefa teológica, não a absorve, nem a esgota.

Na visão de Webster, como vimos, outra doutrina domina a dogmática: “A regente e juíza sobre todas as outras doutrinas cristãs é a doutrina da Santíssima Trindade.” Por quê? Reposta: “A doutrina da Trindade não é uma doutrina entre as outras; é fundamental e penetrante. Expor qualquer doutrina cristã é expor com diferentes graus de conexão a doutrina da Trindade; expor a doutrina da Trindade em todo seu escopo é expor a totalidade da dogmática cristã”.[xxxvi] Mais sucintamente: “Todas as outras doutrinas cristãs são aplicações ou corolários da única doutrina, a doutrina da Trindade.”[xxxvii] Ainda mais sucintamente: “Em certo sentido, há apenas um doutrina cristã: a doutrina do Deus trino.”[xxxviii]

Isso não é negar “que cada elemento do ensino cristão carrega alguma relação com cristologia.” Uma  teologia sistemática bem ordenada, no entanto, “considera a cristologia não como sendo, em e por si mesma, a base, centro ou o ponto de partida de tudo o mais, mas sim como a principal parte do ensinamento cristão, tendo ampla difusão pelo corpo doutrinário em virtude de ser um elemento integral da doutrina da Trindade.” De modo que “não é a Cristologia per se, mas a doutrina do ser trino de Deus e suas obras internas e externas (incluindo a divindade do Filho e sua obra no tempo) que ocupa o lugar preeminente e predominante no ensino cristão”[xxxix] Ainda assim, por conta da preocupação desproporcional da teologia moderna com a economia divina e o histórico — fenômenos cuja suposta densidade superaria a do Deus invisível e imaterial — “a teologia sistemática deve especificar com certa minúcia o sentido no qual Deus é o objeto formal de cada doutrina cristã, incluindo a cristologia.”[xl] Em outras palavras, o princípio de que os sinais criados devem ser rastreados até sua fonte não criada se aplica até mesmo, ou talvez especialmente, com referência à pessoa e obra de Jesus Cristo. Como Webster escreve:

“Longe de abstrair da história da economia divina, a conversa teológica sobre relações de origem [dentro da trindade divina] é uma maneira de articular a profundidade infinita dentro do ser de Deus, aquele oceano cuja maré é a missão do Filho e do Espírito, pela qual criaturas perdidas são redimidas e aperfeiçoadas […] O único Jesus histórico que existe é aquele que tem seu ser em união com o Filho de Deus, o qual é eternamente gerado pelo Pai. Aqueles que se debruçam sobre os evangelhos buscando outro Jesus (quer seus motivos sejam apologéticos ou críticos) atormentam seus corações com muitas dores, pois estudam um assunto que não existe.”[xli]

Como diz em outro lugar, “não há nenhuma história de Jesus per se, em abstração de sua relação hipostática com a Palavra divina; a única história de Jesus que existe é a história do Deus-homem. A história de Jesus éa missão do Filho no mundo […] [Não há nenhum Jesus à parte do Filho eterno]; há somente o Jesus humano cuja vinda é a descida para nós da ‘própria majestade de Deus’”.[xlii]

O advento de Jesus é o ponto de apoio do cosmos, a dobradiça do tempo, a reviravolta inesperada e, portanto, é único e absolutamente diferente de todos outros eventos humanos em questão. Ainda assim, não é um puro novum, um raio em um céu sem nuvens, nem uma visitação divina sem precedentes ou antecipação. Jesus veio para Israel, o povo escolhido de Deus, como seu servo e Messias, a consumação da história que começara séculos antes com Abraão e Moisés. Deus não começou a agir em Jesus; ou, colocando de uma forma mais clara, a obra de Deus em Jesus começou muito antes da Anunciação. Jesus é o clímax, mas não começo nem a conclusão da obra de Deus no mundo.

Para Webster, portanto, a história de Jesus é um episódio na história maior da relação de Deus com os seres humanos. Webster resume e narra essa história repetidamente, geralmente de forma conceitualmente abstrata, como a seguir:

“A história é o longo, complexo, e ainda assim unificado movimento de Deus doando, sustentado e consumando a vida criada. A realidade criada é o que é ao participar nesta história com Deus. É uma história com três movimentos principais, os quais correspondem às três grandes obras externas divinas. Primeiro, há o momento da criação; Deus Pai, criador dos céus e da terra, traz as criaturas à existência do nada e concede a elas suas diversas naturezas. Para as criaturas humanas, ele concede uma natureza que não está totalmente formada, que se desenvolve ao longo do tempo, que é promulgada. Segundo, há o momento da reconciliação. As criaturas humanas rejeitam a vocação que sua natureza implica e buscam ser o que não são: autogeradas, autossustentáveis, autoaperfeiçoadas. Ainda assim, tal é a bondade do Criador que as criaturas não podem se autodestruir. Deus destina a criatura à perfeição e Deus não é impedido. Na história da aliança da graça, em cujo centro está a encarnação da Palavra que agora acolhe a criatura no poder profundo do Espírito, Deus detém o mergulho da criatura para a destruição e a resgata para si mesmo novamente. Assim, há o terceiro momento da consumação, inaugurado, mas aguardando conclusão, no qual o Criador garante que as criaturas atinjam sua perfeição. Toda realidade criada está envolta e determinada por essa história.”[xliii]

O relato de Webster sobre a obra de Cristo para salvar criaturas perdidas é bastante tradicional, localizado como está na tradição reformada (com menções a fontes patrísticas e tomistas). “O fim da missão temporal do Filho é restaurar a justa comunhão entre Deus e as criaturas perdidas. Reconciliação é efetivada e relações justas são restauradas em sua pessoa e obra, isto é, no que ele faz no que ele é.”[xliv] Webster segue a narrativa e a linguagem bíblica com calma confiança. Cristo é a soberana Palavra de Deus que se tornou carne para salvar pecadores: reconciliá-los com Deus; restaurar a comunhão com ele mesmo e uns para com os outros; perdoar seus pecados; estabelecê-los perante a justiça divina; satisfazer a ira divina; incorporá-los ao povo de Deus; transmitir-lhes vida eterna; fazê-los santos; purificá-los de todas as suas falhas através de um verdadeiro e perfeito sacrifício; triunfar sobre o diabo e todas as suas obras; matar a morte; traçar um caminho para os céus à direita de Deus; fazê-los filhos de Deus Pai através do dom do Espírito Santo: tudo isso e muito mais, Cristo veio para fazer e fez, como a obra unificada de sua pessoa, o Filho encarnado. 

Em suma, “Cristo é o cerne e o resumo das relações de Deus com a humanidade.”[xlv] Nele, aquele que vive, nós vemos o Pai; conhecemos a Deus; ouvimos o Senhor. De fato, “ele é e está presente”; ele “não está simplesmente no passado […] Ele é nosso contemporâneo”, pois “ele é conosco”.[xlvi] Como isso é verdade e como podemos ouvir sua voz hoje?

Escritura e Igreja

Frequentemente, a teologia moderna, especialmente a teologia protestante, imagina a ascensão de Cristo como implicando a sua ausência. Contudo, como o livro de Atos narra, Cristo ascende aos céus a fim de promulgar seu reino sobre a terra através da igreja. A ascensão é condição não da ausência de Cristo, mas de sua presença. Do céu, Cristo está presente para o mundo e, em particular, para a igreja no poder de seu Espírito.

Presente no Espírito para seu corpo, Cristo fala principalmente, e de forma mais clara, através dos profetas e apóstolos, ou seja, a Sagrada Escritura. “A relação particular das palavras proféticas e apostólicas com a própria palavra de Deus é diplomática; eles são os embaixadores da eloquência de Deus.”[xlvii] Por um lado, o discurso divino é cristológico: “Deus fala à medida que, no Espírito, Jesus Cristo fala.”[xlviii] Por outro lado, o discurso de Cristo é bibliológico: “Deus fala quando a Escritura inspirada fala.”[xlix] Como Webster coloca em um sermão pregado na Christ Church Cathedral em Oxford: 

“Quando ouvimos a Bíblia […] somos colocados na presença de Jesus Cristo. Ao escutarmos a leitura das Escrituras, estamos na presença daquele que fala a nós por meio de seu Espírito Santo. Esses textos antigos não são curiosidades, pequenas janelas para uma cultura religiosa antiga a qual espiamos de longe. Eles são o discurso de Cristo para nós. Ele, o Cristo vivo, presente entre nós no poder do Espírito ao nos reunirmos neste lugar, é o que fala. Ele não é distante, ele não está mudo. Ele vem até nós e se dirige a nós por meio desse servo criado, os textos antigos da Escritura, através dos quais ele fala sua viva palavra de julgamento, perdão e consolação que se renova a cada manhã. Nós ouvimos a Escritura como a voz viva do Cristo vivo.”[l]

Webster é mais conhecido talvez por seu trabalho sobre a Escritura. Seu primeiro livro que não foi uma exposição de outro teólogo nem uma coleção de ensaios, foi o pequeno volume Holy Scripture: A Dogmatic Sketch, publicado em 2003. É uma obra-prima, condensando uma visão magistral em quatro capítulos, que juntos somam um grito de guerra ou uma convocação para aqueles insatisfeitos com abordagens literárias, históricas e sociológicas dominantes da interpretação bíblica, mas sem ter certeza de onde procurar. Ao propor “uma ontologia dogmática da Sagrada Escritura”, isto é, um relato da Bíblia cristã “cuja descrição devemos implantar a linguagem da ação trina e reveladora de Deus”, Webster efetivamente declarou guerra ao discurso acadêmico predominante sobre o texto sagrado da igreja.[li]

Parte da polêmica decorre, sem dúvida, de ele ter habitado a subcultura teológica em Oxford, e na Inglaterra de maneira mais ampla, por quase uma década. Em sua visão, teólogos contemporâneos são tão ansiosos por recuperar um lugar na mesa da respeitabilidade acadêmica e cultural que trocam funcionalmente sua linguagem nativa por conceitos e argumentos seculares. Se o mundo julga que apelos a Bíblia ou a doutrina trinitária são inúteis, irrelevantes, ou semelhantes à alquimia, que assim seja. Tal linguagem — juntamente com as convicções nas quais se apoia e depende — é direito de primogenitura do teólogo, pelo qual não vale a pena trocar nenhum prato de lentilhas.[lii]             

A teologia da Escritura de Webster é exatamente isso: uma teologia da Escritura. É uma descrição da Bíblia cristã com a necessária e irredutível referência às obras e ao ser do Deus trino. Por exemplo:

“A Escritura Sagrada é o sinal e o instrumento do trato amoroso de Deus para com as criaturas inteligentes. Suas palavras humanas, formadas e preservadas por Deus, que movem seu movimento criacional sem violência à integridade de sua natureza criada, atestam a Palavra divina e compartilham o conhecimento de Deus de si mesmo e de todas as coisas. Pela iluminação do Espírito Santo, a inteligência criada é estimulada a apreender e receber o testemunho das Escrituras, e a responder à revelação divina ao vir a conhecer e desejar a Deus.”[liii]

A Escritura existe por conta da vontade preveniente da Trindade. É o que é e diz o que diz, porque Deus assim deseja. É o instrumento do discurso de Deus para o povo de Deus e, através dela, Deus o governa, guia e ensina; portanto, também é meio de comunhão. Seus autores e comunicadores humanos foram movidos pelo Espírito Santo a escrever o que se tornaria, no beneplácito de Deus, a palavra viva do Jesus ressurrecto para a igreja. O significado de suas palavras humanas, longe de esgotar-se em sua intenção original, tem sua origem e realização na eterna Palavra de Deus que se tornou carne; o que elas querem dizer, em um escopo mais curto, é Cristo: apontam para ele, aquele que nasceu de Maria e foi pregado na cruz e, seja lá o que se diga através delas, fala sobre ele e seu corpo.

A exegese, portanto, é um ato essencialmente espiritual. Assim como bibliologia se segue da teologia própria, a hermenêutica se segue da bibliologia. Não se pode saber como ler a Bíblia sem antes saber o que ela é. Sabendo o que ela é, não se pode limitar os procedimentos interpretativos aos métodos ordinários de leitura de outros textos. Pois a Escritura é diferente de qualquer outro livro: ela é sui generis. De fato, “a atividade de interpretação da Escritura é um aspecto de nossa comunhão com Cristo; interpretação é um episódio na história da reconciliação.”[liv] Deus santificou e separou este livro para o povo que santificou em Cristo, separando-os do mundo. Para os santos lerem bem a Sagrada Escritura, então, eles necessitam da iluminação do Espírito Santo. “As virtudes históricas, literárias e especulativas dos exegetas e dogmáticos são, portanto, subordinadas às graças espirituais,”[lv] pois “a leitura fiel da Sagrada Escritura na economia da graça não é obra de mestres, mas de pupilos na escola de Cristo.”[lvi]

O nome dessa escola, como vimos, é igreja, a comunidade reunida ao redor da Palavra, reunida diante do atril (embaixo do qual fica o púlpito).[lvii] A igreja, de fato, é melhor entendida como criatura verbi divini, criatura da Palavra divina, pois “a igreja é aquela assembleia humana gerada e preservada em vida pela autorrepresentação (‘Palavra’) contínua e expansiva de Jesus Cristo”.[lviii] Ou, como Webster coloca em outro sermão: “Ser igreja é ser falado por Jesus no Espírito.”[lix]

Além disso, no ponto de vista reformado, a igreja é fundamentalmente passiva. Seu ser está completamente além de si mesma; tudo que ela é, tem e faz é excêntrico e ostensivo, apontando em todo momento para outro lugar, Deus. É uma referência viva, e Deus em Cristo é seu referente singular. Não tem nenhuma visibilidade natural, apenas visibilidade espiritual. O que a torna única, o que confere à igreja sua identidade, está além do alcance das ferramentas do etnógrafo. É um regime diferente de qualquer outro, e ainda invisível a olho nu.[lx] Ou seja, “a igreja é conhecida como Deus é conhecido”: pela fé.[lxi] Ver a igreja como ela realmente é — o povo de Deus e o corpo de Cristo — requer a iluminação do Espírito Santo, não menos do que para discernir a identidade de Cristo ou a natureza da Escritura.[lxii]    

O que é a igreja? É a comunidade chamada à existência pelo Cristo ressurreto, a qual, em seu Espírito, atende à palavra de Deus dirigida a ela. É uma criatura da graça, recebendo com espanto e gratidão as boas novas que matam e revivificam. Reunindo, ouvindo, obedecendo, os membros deste corpo saem ao mundo com humildade (como pecadores) e confiança (como filhos de Deus) de que nada pode separá-los do amor de Deus em Cristo Jesus.

Que a teologia fale um nome

O que foi exposto arranha apenas a superfície da teologia de John Webster. Suas incursões tardias na teologia moral, por exemplo, fazem parte das reflexões mais ricas sobre virtudes oferecidas nas últimas décadas.[lxiii] Imagino, também, que os leitores possam estar ansiosos para aprender sobre sua política ou seus engajamentos com a teologia política. Essa é provavelmente a área mais fina de seu pensamento, e provavelmente de propósito. Se a teologia moderna tem sido seduzida por outras disciplinas, a teoria política geralmente tem sido a principal dentre elas. Webster raramente se aventurava dessa maneira, corrigindo a tendência permanecendo quase exclusivamente em sua esfera de interesse. 

Ainda assim, ele sabia dos desafios externos da teologia. No mesmo pequeno editorial no qual chama a teologia de contemplativa, ele observa igualmente que ela é apostólica. Isso significa que a teologia “é convocada a estender a instrução divina a outros, indicando, repetindo e recomendando o que ouviu”.[lxiv]Como essa tarefa apostólica funciona na prática?

Uma resposta é dada em um ensaio tardio sobre misericórdia. Ali, Webster escreve que “a teologia cristã fala sobre misericórdia falando sobre Jesus Cristo: para falar de virtudes, é necessário que a teologia fale um nome. O que ela tem a dizer sobre as misericórdias de Deus e a misericórdia humana mantém a especificidade cristã apenas caso se mantenha na mais próxima relação com esse nome e com a esfera de realidade para qual esse nome aponta e, além disso, somente nessa proximidade a teologia pode ser genuinamente útil e atraente para o seu próximo na comunidade humana.”[lxv] Ao prosseguir, ele observa que, embora esse chamado seja motivo de grande alegria, há um pathos envolvido para nós no Ocidente moderno tardio, onde o nome de Jesus não mais evoca autoridade ou respeito. Surge a tentação de evitar a menção desse nome. Talvez recorrer a “princípios comuns” seria menos constrangedor; ou, talvez, seja melhor “retirar-nos para um reduto confessional ou eclesiástico”. Ele conclui, no entanto, que “nenhuma das alternativas é necessária.”[lxvi] Por quê? Vale a pena citar sua resposta na íntegra:

“Se a teologia é verdadeiramente autorizada por seu objeto e, portanto, um exercício verdadeiramente alegre, ela sofrerá aflições simplesmente dizendo o que tem a dizer — seja sobre misericórdia, seja sobre qualquer outra coisa — sem adotar uma postura concessiva ou defensiva. Ele se dedicará à tarefa de procurar atender ao evangelho e falar sobre o que ouviu. A tarefa da teologia é o raciocínio bíblico; teologia pública é raciocínio bíblico em público. As responsabilidades públicas da teologia são melhor cumpridas explicando a fé cristã e sua compreensão da realidade a partir do cânon de textos nos quais a igreja recebe o evangelho. Isso é o que temos ouvido, diz o teólogo, isso é o bem que nos foi entregue e procuramos recomendar. O que a igreja diz para si mesma e o que a igreja diz para seu próximo fora da igreja será a mesma coisa; em ambos os contextos, a teologia deve descrever bem o evangelho e persuadir por essa descrição. Portanto, em termos de seu discurso diante do mundo, a teologia simplesmente fala o evangelho e deixa o evangelho se virar. A teologia compartilha a condição de todo discurso cristão no tempo, isto é, não se pode esperar um assentimento perfeito e frequentemente gerará reprovação, porque muitas vezes ela deve transgredir as normas discursivas vigentes. Como a Sabedoria na abertura de Provérbios (1.20ss), a teologia clama em alta voz, abordando o que muitas vezes parece ser uma audiência bem relutante. Ainda assim, novamente como a Sabedoria, o seu lugar não é apenas nos arredores do templo, mas nas ruas e mercados, no topo dos muros da cidade e na entrada de seus portões.”[lxvii]

A teologia clama em voz alta o nome de Jesus, para a igreja e para o mundo. Os resultados disso, só Deus sabe. O evangelho, como seu fiel servo aqui nos lembra, sabe se virar.


Por: Brad East. © Mere Orthodoxy. Website: https://mereorthodoxy.com/john-webster/. Traduzido com permissão. Fonte: God and All Things in God: The Theology of John Webster.

Original: Deus e todas as coisas em Deus: a teologia de John Webster. © The Pilgrim. Website: thepilgrim.com.br. Todos os direitos reservados. Tradução: Breno Seabra. Revisão: Guilherme Cordeiro.

O ponto de vista deste texto é de responsabilidade de seu(s) autor(es) e colaboradores direito, não refletindo necessariamente a posição da Pilgrim ou de sua equipe de profissionais.


[i] W. Travis McMaken reuniu mais de duas dúzias de links para homenagens online em seu blog. Veja também, por exemplo, “Editorial Announcement” and Ivor J. Davidson, “In Memoriam: John Webster (1955-2016)”, International Journal of Systematic Theology 18 (2016): 359, 360-375, bem como Michael Allen, “Toward Theological Theology: Tracing the Methodological Principles of John Webster,” Themelios 41.2 (2016): 217-237.

[ii] No que se segue, irei me basear principalmente nas três últimas publicações de Webster, as quais formam uma espécie de trilogia: The Domain of the Word: Scripture and Theological Reason (New York: T&T Clark, 2012); God Without Measure: Working Papers in Christian Theology, Volume I: God and the Works of God (New York: T&T Clark, 2016); God Without Measure: Working Papers in Christian Theology, Volume II: Virtue and Intellect (New York: T&T Clark, 2016). Por onde começar nas obras de Webster? Para leitores com pouca experiência teológica, eu sugiro um dos três volumes: Holy Scripture:A Dogmatic Sketch (New York: Cambridge University Press, 2003); Holiness (Grand Rapids: Eerdmans, 2003); ou The Grace of Truth, ed. Daniel Bush and Brannon Ellis (Farmington Hills, MI: Oil Lamps Books, 2011). O primeiro é uma breve teologia da Bíblia; o segundo uma curta séria de palestras sobre santidade, originalmente proferidas no Southwestern Baptist Theological Seminary em Fort Worth, Texas, em fevereiro de 2002; o terceiro, uma coleção dos sermões de Webster. Para leitores com experiência teológica, sugiro o primeiro volume de God Without MeasureDomain of the Word; ou Confessing God: Essays in Christian Dogmatics II (New York: T&T Clark, 2005).  A coleção anterior de ensaios é Word and Church: Essays in Christian Dogmatics (New York: T&T Clark, 2001).

[iii] Não fui aluno de Webster e não o conheci pessoalmente. Escrevendo sobre sua teologia para minha dissertação, eu troquei correspondências com ele. Ele foi infalivelmente gracioso, encorajando-me em meus estudos, comentou sobre um possível artigo e compartilhou material não publicado. Eu lamento não poder compartilhar com ele o que escrevi sobre seu trabalho.  

[iv] Em uma rara exceção a essa regra, Webster indiretamente, mas programaticamente, descreveu sua abordagem teológica na conclusão de uma resenha de um livro que ele considerou metodologicamente deficiente: “esse tipo de teologia exigiria do teólogo um tipo de ascese, um deixar de lado, uma inação a todo tipo de estímulo e uma persistência obstinada em atender um conjunto de problemas que, à primeira vista, não são nem um pouco atrativos, interessantes ou frutíferos, mas que acabariam quebrando nossas vontades e, assim, nos ensinado a verdadeira alegria. Não pode ser que essa teologia – um pouco rígida, um pouco formal às vezes, desajeitada e delicada com a elite cultural – acabe sendo não apenas edificante para a igreja, mas também para os parceiros de conversação da igreja?” (David F. Ford: Self and Salvation,” Scottish Journal of Theology 54 (2001): 548-559, p. 559. Outra discordância semelhante apareceu um ano antes, entre Webster e Thomas Weinandy. A linguagem aqui é possivelmente a mais retoricamente carregada da carreira de Webster. Webster e Weinandy (“John e Tom”) eram amigos, no entanto, e continuaram assim após a troca de pontos de vista impressos. Veja Webster, “’Fides et Ratio’, artigos 64-79,” New Blackfriars 81 (2000): 66-76; Weinandy, ” Fides et Ratio : A Response to John Webster”, New Blackfriars 81 (2000): 225-235; Webster, “A Reply to Tom Weinandy”, New Blackfriars 81 (2000): 236-237.

[v] Webster conclui uma resenha de modo especialmente apreciativo nesse sentido: “Mas acima de tudo, eu poderia desejar um livro mais gentil. Até onde eu sei, todos nós somos ‘teólogos ainda não canonizados’ (p.31), e é provável que nenhum de nós se torne um. Deveríamos ser pacientes uns com os outros no debate teológico, especialmente quando tememos que o outro tenha transgredido uma barreira; os apóstolos nos ordenam que restauremos em um espírito de gentileza e olhemos para nós mesmos, para que não sejamos tentados (Gl 6.1)” (“Webster’s Response to Alyssa Lyra Pitstick, Light in Darkness,” Scottish Journal of Theology 62 (2009), 202-210, at 210). 

[vi] “Quebrar o feitiço da ansiedade [eclesiástica] não é fácil. Para fazer isso, precisamos parar de nos considerar como de alguma maneira localizados em um ponto na história dos negócios humanos onde as regras usuais da providência não se aplicam” (Domanin of the Word, 30-31).  

[vii] A fonte primária de informações biográficas vinda das próprias mãos de Webster é ““Discovering Dogmatics,” em Shaping a Theological Mind: Theological Context and Methodology, ed. Darren C. Marks (Burlington, VT: Ashgate, 2002), 129-136. Veja também o adorável ensaio de Ivor J. Davidson, “John,” em Theological Theology: Essays in Honour of John B. Webster, ed. R. David Nelson, Darren Sarisky, and Justin Stratis (New York: T&T Clark, 2015), 17-36.

[viii] “Discovering Dogmatics,” 129.

[ix] Discovering Dogmatics,” 130. Veja também Word and Church, 10-11: “A exposição que se segue é francamente dogmática. Pressuponho a verdade do evangelho confessado pela igreja, considerando essa confissão como um ponto do qual nos movemos ao invés de um ponto para o qual prosseguimos. Leitores inclinados a ansiedade sobre a viabilidade de tal exercício encontrarão aqui pouco para acalmar seus corações. Theologia non est habitus demonstrativus, sed exhibitivus.” 

[x] Eberhard Jüngel: An Introduction to his Theology (New York: Cambridge University Press, 1986, 1991).Veja também, e.g., “Eberhard Jüngel on the Language of Faith,” Modern Theology 1 (1985): 253-276; “Eberhard Jüngel,” em The Modern Theologians: An Introduction to Christian Theology in the Twentieth Century, vol. 1, ed. David F. Ford (New York: Blackwell, 1989), 90-106; “Justification, Analogy and Action: Passivity and Activity in Jüngel’s Anthropology,” em The Possibilities of Theology: Essays on the Theology of Eberhard Jüngel in his Sixtieth Year, ed. John Webster (New York: T&T Clark, 1994), 106-42.

[xi] Webster e Schner mais tarde colaboraram como coeditores de Theology after Liberalism: A Reader (Malden, MA: Blackwell, 2000).  

[xii] “Discovering Dogmatics,” 130.

[xiii] Veja, e.g., Barth’s Ethics of Reconciliation (New York: Cambridge University Press, 1995); Barth’s Moral Theology: Human Action in Barth’s Thought (Grand Rapids: Eerdmans, 1998); Barth, 2nd ed. (New York: Continuum, 2000, 2004); Barth’s Earlier Theology: Four Studies (New York: T&T Clark, 2005); ed., The Cambridge Companion to Karl Barth (New York: Cambridge University Press, 2000). Veja também “The Christian in Revolt: Some Reflections on The Christian Life,” in Reckoning With Barth: Essays in Commemoration of the Centenary of Karl Barth’s Birth, ed. Nigel Biggar (London: Mowbray, 1988), 119-144; “Barth and Postmodern Theology: A Fruitful Confrontation?” em Karl Barth: A Future for Postmodern Theology?, ed. Geoff Thompson and Christiaan Mostert (Hindmarsh: Australian Theological Forum, 2000), 1-69; “Balthasar and Karl Barth,” em The Cambridge Companion to Hans Urs von Balthasar, ed. Edward T. Oakes and David Moss (New York: Cambridge: 2004), 241-255; “Gunton and Barth,” em The Theology of Colin Gunton, ed. Lincoln Harvey (New York: T&T Clark, 2010), 17-31.

[xiv] Barth’s Moral Theology, 1.

[xv] Veja sua famosa palestra inaugural, “Theological Theology,” em Confessing God, 11-31, juntamente com seu ensaio escrito 18 anos depois, “What Makes Theology Theological?” em God Without Measure: Vol. I, 213-224. Foi em Oxford que Webster co-fundou o International Journal of Systematic Theology com Colin Gunton, que imediatamente se tornou um local privilegiado para estudos teológicos. 

[xvi] Ele também serviu como co-editor, ao lado de Kathryn Tanner e Iain Torrance, no The Oxford Handbook of Systematic Theology(New York: Oxford University Press, 2007). 

[xvii] Domain of the Word, ix-x.

[xviii] Tyler Wittman, “John Webster (1955—2016): Reflections from One of His Students,” The Gospel Coalition, June 1, 2016. O novo prefácio de Webster à segunda edição de Word and Church e Confessing God contém breves retrospectivas críticas acerca desses ensaios construtivos anteriores, confirmando, assim, a leitura oferecida aqui das mudanças em seu pensamento.

[xix] Veja, e.g, God Without MeasureVol 1, 56-57, que discute o cristocentrismo de Barth; ou o breve comentário de que “a preocupação de Barth… é mal colocada” em relação a doutrina da inspiração, em “ὑπὸ πνεύματος ἁγίου φερόμενοι ἐλάλησαν ἀπὸ θεοῦ ἄνθρωποι: Sobre a inspiração da Sagrada Escritura” (um trabalho compartilhado em correspondência privada).

[xx] Daí a ironia da afirmação de D. A. Carson, em uma resenha de Holy Scripture, de que “Webster é mais barthiano do que bíblico” (“Three More Books on the Bible: A Critical Review,” Trinity Journal 27 (2006): 1-62, at 11). Davidson compartilha uma anedota relevante: ” ‘Esta é a visão barthiana, eu acho, ouvi certa vez um orador comentar em resposta à argumentação de John sobre alguma coisa; como era de se esperar depois que o adjetivo “B-” já foi tão desgastado, a avaliação não foi considerada como um elogio. ‘Eu não estou interessado se é barthiana ou não,’ retrucou John. ‘A questão é: é bíblico?’ ” (“John,” 32).

[xxi] Além da teologia sistemática e do comentário de Efésios (para a série Brazos Theological Commentary), outros manuscritos ou contratos incluíam, até onde posso dizer, uma terceira edição de seu pequeno volume Barth, Perfection and Presence (baseado em sua palestra Kantzer de 2007 na Trinity Evangelical Divinity School); Creation and Providence (baseado em sua palestra Hayward de 2009 na Acadia Divinity College); um livro baseado em suas palestras do Reformation Day de 2008 no Covenant College; e, possivelmente, também um livro baseado em sua série de posts sobre o fruto do Espírito Santo para o website reformation21.org. Espera-se que pelo menos alguns desses serão publicados postumamente, juntamente com outras coleções de seus ensaios e artigos anteriormente não reunidos.  

[xxii] Veja Brad East, “John Webster, Theologian Proper,” Anglican Theological Review 99:2 (2017): 333-351. Veja a seção final (345-350) para minhas críticas ao pensamento de Webster.

[xxiii] God Without Measure: Vol. I, 3.

[xxiv] Word and Church, 1.

[xxv] Domain of the Word, vii.

[xxvi] A designação da razão humana como ao mesmo tempo criada, caída e redimida em Cristo, aparece ao longo dos escritos de Webster. Veja, e.g., Domain of the Word, 115-132; God Without Measure: Vol. I, 213-224; God Without Measure: Vol. II, 141-156. Cf. Holy Scripture, 134: “O batismo é a origem e a condição pemanente da reflexão teológica.”

[xxvii] Confessing God, 110.

[xxviii] God Without Measure: Vol. I, 87, 89.

[xxix] God Without Measure: Vol. I, 90.

[xxx] God Without Measure: Vol. I, 92.

[xxxi] “A coerência de Deus em si mesmo e Deus em seus atos revelatórios é […] melhor articulada não fazendo da economia id quo maius cogitari nequit, mas indicando a identificação contínua do sujeito em ação nas obras internas e externas de Deus. Isso, por sua vez, pode ser melhor realizado contemplando a profundidade infinita de Deus em si mesmo, da qual seus atos temporais emergem. O agente divino dos atos revelatórios não é plenamente compreendido se a fenomenalidade desses atos é tratada como algo primordial, uma apresentação totalmente suficiente do agente. As obras externas de Deus carregam um excedente em si mesmas; elas se referem ao agente divino que as excede” (God Without Measure: Vol I, 8).    

[xxxii] “Editorial,” International Journal of Systematic Theology 13:2 (2011): 128-129, at 128.

[xxxiii] God Without Measure: Vol. I, 220. 

[xxxiv] God Without Measure: Vol. I, 214-215.

[xxxv] God Without Measure: Vol. II, 33.

[xxxvi]  Without Measure: Vol. I, 159. Isso é um riff da famosa afirmação de Martin Luther de que a doutrina da justificação pela fé é magister et princeps, dominus, reitor et iudex super omnia genera doctrinarum, bem como o articulus stantis et cadentis ecclesiae.

[xxxvii] Holy Scripture, 43.

[xxxviii] God Without Measure: Vol. I, 161.

[xxxix] God Without Measure: Vol. I, 43.

[xl] God Without Measure: Vol. I, 57.

[xli] God Without Measure: Vol. I, 41.

[xlii] God Without Measure: Vol. I, 156, 157.

[xliii] God Without Measure: Vol. II, 143.

[xliv] God Without Measure: Vol. I, 172.

[xlv] Grace of Truth, 80. Cf. a adorável précis que abre o ensaio de Webster “What is the Gospel?,” Grace and Truth in the Secular Age, ed. Timothy Bradshaw (Grand Rapids: Eerdmans, 1998), 109-118, p. 109: “O evangelho são as boas novas de Jesus Cristo, que é seu cerne. Em Jesus, Deus intervém na história humana, pondo fim à desordem do pecado e reconciliando todas as coisas consigo mesmo. O evangelho é boa nova porque é a ação de Deus de desorientar a bondade. O evangelho é boa nova, porque é o ato de libertação escatológica de Deus. E é boa nova, porque, em sua particularidade, ele é totalmente verdadeiro e significativo. A igreja é o que é por causa do evangelho. A igreja é uma assembléia em torno do evangelho, um evento espiritual, e não apenas uma estrutura da sociedade humana. Como assembléia em torno do evangelho, as atividades mais características da igreja são louvor, oração, ouvir a Palavra de Deus, celebrar os sacramentos, a proclamação e o serviço. A vocação da igreja é ouvir e então viver e proclamar essas boas novas.”

[xlvi] Confessing God, 131, 132.

[xlvii] Domain of the Word, 120.

[xlviii] Domain of the Word, 8

[xlix] Domain of the Word, 16

[l] Grace of Truth, 77.

[li] Holy Scripture, 2, 1.

[lii] Cf. os comentários de Webster no final de um ensaio sobre teologia e humanidades: “O entusiasmo teológico por ‘interdisciplinaridade’ é um pobre substituto para a teologia da vida da mente. Isso tende a gerar não apenas um material que é teologicamente insípido, geralmente domesticado, opaco e artificial; também assume a própria coisa que deveria estar em questão, a saber, que a teologia é uma disciplina. Uma abordagem mais sólida incluiria compromissos ‘interdisciplinares’ sob a vocação apostólica da teologia” (Domain of the Word, 191n.38).   

[liii] Domain of the Word, vii.

[liv] Domain of the Word, 48.

[lv] God Without Measure: Vol. I, 80.

[lvi] Holy Scripture, 101.

[lvii] Veja Grace of Truth, 159: “a primazia do ouvir as palavras do Cristo vivo no Espírito é expressa como a primazia da leitura da Sagrada Escritura na igreja. É o atril que é o principal lar da Palavra de Deus na igreja, não o púlpito. É a Escritura lida, não a Escritura proclamada, o primeiro ato de fala na igreja.” 

[lviii] Word and Church, 196

[lix] Grace of Truth, 159.

[lx] Cf. God Without Measure: Vol. II, 45: “O que distingue essa comunhão [a comunidade dos santos] é que ela é marcada pelo externalidade e transitoriedade. Sua externalidade consiste no fato de que sua vida é derivada da vontade e do ato de Deus, e, portanto, não é em nenhum sentido unívoco uma sociedade, assembléia, cultura — é uma reunião em torno de um mistério, não um projeto social autoperpetuante. Sua transitoriedade consiste no fato de que não é uma realização estabelecida da sociedade humana, mas uma antecipação do reino dos céus. Por isso, a igreja não é fim social da divina economia, mas a vida interina que aguarda a consumação.” Veja também God Without Measure: Vol. I, 177: “a igreja é a assembléia humana que é o coeficiente criacional social da obra externa, no qual Deus restaura as criaturas para comunhão consigo mesmo. As propriedades naturais e históricas dessa sociedade apenas se tornam objetos da inteligência (e não apenas de consideração fenomenológica) quando entendidas como elementos no jornada de salvação das criaturas, de sua origem para seu fim na sociedade de Deus.” 

[lxi] Confessing God, 182.

[lxii] A Escritura não pode ser lida isolada da Palavra divina mais do que a história de Jesus pode ser apreendida à parte do a priori de sua relação com o eterno Logos divino” (God Without Measure: Vol. I, 60).

[lxiii] Muitas das quais estão reunidas em God Without Measure: Vol. II.

[lxiv] “Editorial,” 128.

[lxv] God Without Measure: Vol. II, 49.

[lxvi] God Without Measure: Vol. II, 50.

[lxvii] God Without Measure: Vol. II, 50-51.

Totalmente promissor: Uma visão para o empreendedorismo redentivo (Praxis Lab)

O momento empreendedor

Aqui no Praxis, nós acreditamos que o futuro da cultura depende em grande medida da próxima geração de empreendedores. Os fundadores de cada empresa são artistas singulares com a oportunidade de pintar num quadro branco organizacional e criar novas obras de valor social e cultural.

Vivemos em um momento na história em que os empreendedores possuem uma influência desproporcional em tudo, de problemas sociais em que trabalhamos coletivamente até em tudo que consumimos, praticamos, cremos e desejamos. Os fundadores subiram ao status de heróis e celebridades na nossa imaginação cultural. Tecnologia, propaganda, produção massificada, redes de capitais e a normalização do empreendedorismo tornaram bem mais possível começar e crescer uma empresa que possa ter um alcance significativo e escalar. À medida que as barreiras econômicas e sociais para entrar no mundo empreendedor desaparecem, muitos sonham participar do ecossistema da inovação — segundo a Kauffman Foundation, 54% dos millennials começaram uma organização ou desejam se juntar a uma startup. 

Mas em prol de quem toda essa energia empreendedora será empregada? Por si? Pelos outros? A maior parte das empresas foi construída com base na crença de que o interesse próprio é a melhor engrenagem para o sucesso econômico e social em larga escala. Contudo, somos lembrados que o interesse próprio sem limites tem um poder destrutivo profundo tanto no fundador quanto na sociedade; e está se tornando cada vez mais fácil testemunhar esses efeitos à medida que o Vale do Silício escreve o script para o que significa ser um fundador de sucesso hoje. Muitas vezes os empreendedores e investidores de organizações com fins lucrativos começam com a ideia de que a saída é a missão — perseguindo um momento de autovalidação e de sucesso em que anos de trabalho esgotante recompensarão com poder, prestígio e riqueza. Como cultura, exaltamos os fundadores que incorporam essas ambições; justificamos nossas ações e motivações quando lhes imitamos; enquanto ainda os julgamos por seu ego e ambição ilimitada. Talvez corretamente, celebramos e menosprezamos Steve Jobs ao mesmo tempo. Perguntamo-nos se a grandeza criativa e a bondade moral são compatíveis.

Ao mesmo tempo, vemos uma explosão de atividade empreendedora que é cada vez mais ambiciosa por resultados sociais ao invés de resultados financeiros. Uma nova geração de fundadores, investidores e inovadores está abraçando uma agenda cultural explícita — para inaugurar um progresso social e ambiental sem precedentes. Como Jack Dorsey, fundador do Twitter e do Square, recentemente declarou na capa da Forbes: “o meio mais eficiente para difundir uma ideia hoje é uma estrutura corporativa.” O que é mais interessante nessa declaração não é a influência de instituições corporativas, mas a implicação de que difundir ideias deveria estar entre seus objetivos primários. De fato, para muitas das principais organizações hoje, quer sejam estruturadas como empresas, organizações sem fins lucrativos ou híbridos, ideias que geram impacto social são a missão.

Por exemplo, a missão do fundo de investimentos Social Capital é “progredir a humanidade ao resolver os problemas mais difíceis do mundo. Ao acumular tecnologia para tratar das principais necessidades humanos, almejamos gerar uma redistribuição de baixo para cima de poder, capital e oportunidades.” Ev Williams (outro cofundador do Twitter) começou a Obvious Ventures, a qual ele descreve assim: “A Obvious é uma filosofia […] [ela] é simplesmente o veículo por meio do qual investimos conjuntamente em empreendedores que partilham de nossa cosmovisão.”

Uma empresa bem financeiramente hoje é mais provável ser vista como um meio para um fim social, em vez do inverso. Num texto chamado “Dê boas-vindas aos reis filósofos do Vale do Silício”, o Tech Street Journalexplica como estudar filosofia afetou os fundadores/investidores Peter Thiel e Reid Hoffman: 

Embora tais discussões [sobre filosofia] obviamente não tenham levado Thiel e Hoffman diretamente aos seus bilhões, é razoável sugerir que foram uma prática para pensar sobre as possíveis implicações de suas ideias no mundo. Ao assistir seus vídeos [de Thiel e Hoffman discutindo sua formação filosófica], percebe-se que esses rapazes revestem o pensamento empreendedor pragmático de costume em uma camada teórica que não busca meramente responder como alcançar o product/market fit, mas o que uma ideia em particular poderia significar para o mundo se ela fosse concretizada? A renda resultante é meramente um efeito colateral de criar algo que move o mundo numa nova direção.

Essa nova onda de cultura sendo moldada pelo empreendedorismo oferece um tipo diferente de tentação para o fundador carismático — não necessariamente a promessa de riqueza, mas de boa reputação social. Tentar mudar o mundo dá trabalho e cada causa é buscada e propagandeada com tanto fervor que inevitavelmente assume uma narrativa quase-religiosa, com sua própria definição de pecado, justiça, redenção e salvação. Passamos a considerar os fundadores — e eles passam a se considerar também — em termos quase messiânicos.

Aqui no Praxis, nós acreditamos que uma visão cristã do empreendedorismo inclui tanto um sim apreciativo quanto um não profético a essas tendências.

Para a narrativa mais “mundana” que gira em torna do triunfo de alguns poucos “incluídos”, a nossa resposta é que precisamos usar nossa engenhosidade, proatividade, capital e capacidade criativa em prol dos outros. Precisamos afirmar o poder gerador de riqueza do empreendedorismo, a busca de excelência na técnica e as virtudes de uma sociedade que seja economicamente viável — ao mesmo tempo em que insistimos que o propósito dessas coisas é servir ao nosso próximo, e não a nós mesmos.

Para a narrativa mais “esclarecida” que enfatiza o impacto social e cultural, também celebramos o empreendedorismo como um poderoso mecanismo para o bem comum. Nós buscamos objetivos compartilhados sempre que possível; nós aprendemos e aplicamos as melhores práticas; nós inovamos e lideramos. Contudo, somos cautelosos com o perigo de tratar qualquer agenda social ou cultural como um objetivo supremo.

E precisamos levantar a questão: que tipo de mundo estamos tentando criar? Que tipo de mudança estamos tentando gerar? Acreditamos todos o mesmo sobre pessoalidade, dignidade, encarnação, autoridade, moralidade, poder, limites, a definição da boa vida e o final da história?

A resposta será: às vezes, sim; frequentemente, não.

Como Karl Barth colocou:

“A igreja existe para colocar no mundo um novo sinal que tanto é radicalmente diferente da maneira de ser do próprio mundo, quanto o contradiz de um modo totalmente promissor.”

Se ele está certo — e cremos que está—, então os fundadores cristãos precisam se diferenciar de outros líderes empreendedores, ao mesmo tempo em que agem com base nos mesmos sistemas e práticas. Como seus pares, eles estão dispostos a competir em mercados acirrados por meio de excelência e inovação, e serão ambiciosos na busca de impacto cultural e social. Todavia, eles serão marcados por uma motivação diferente (trabalhar pelos outros em vez de por si); uma identidade pessoal reenquadrada (mordomos em vez de salvadores); uma nova identidade comunitária (minoria criativa ao invés de elite cultural); um nível incomum de tolerância a riscos (descansando na graça ao invés de se matar de esforço); um método alternativo (começar com propósitos ao invés de viabilidade); e uma intencionalidade redirecionada (ser pioneiros culturais ao invés de magnatas do mercado).

Isso é difícil, mas a nossa experiência ao trabalhar com centenas de empresas no Praxis nos dá esperança. Nós vimos em primeira mão que muitos empreendedores atualmente estão buscando uma oportunidade singular de demonstrar um evangelho profundo que vem de cima para baixo por meio das empresas que dirigem. Eles estão na vanguarda de fundadores que vivem na contracorrente cultural — atraídos para criar empresas não tanto como meio de poder, renome e riqueza, mas por seu desejo de se valer do quadro branco do empreendedorismo para renovar o espírito da nossa época no seu segmento específico da sociedade. Eles humildemente veem a sua capacidade de fazer cultural como um dom de Deus e desejam entregar suas vidas em prol de outras pessoas.

A essa bela alquimia de semelhanças e diferenças, de ambição e generosidade, de esforço consistente e contentamento profundo, chamamos de empreendedorismo redentivo.

Design para renovação

Como cristãos professos, somos chamados a ser agentes da obra renovadora de Deus em cada área da vida. Isso é uma expressão da vocação humana compartilhada que recebemos no jardim em Gênesis 1 — ostentar a imagem de Deus no mundo por meio de nossos esforços culturais e comunitários à medida que ele dirige todas as coisas para a restauração do fim dos tempos.

À luz dessa vocação comum do povo de Deus, vemos o empreendedorismo como uma forma poderosa de amar e servir ao nosso próximo; de substituir tendências e narrativas desumanizantes e escravizadoras com outras mais bíblicas, humanizadas e libertadoras; criar caminhos para a dignidade e florescimento humanos; promover a virtude e a justiça na comunidade; e, ao fazê-lo, restaurar o espírito da nossa era. O empreendedorismo, visto desta forma, é uma das vocações mais profundamente cristãs.

O resultado líquido do empreendedorismo redentivo é a renovação: curvar certo aspecto da cultura, da sociedade ou da indústria para refletir mais da bondade e glória de Deus; ver a vinda de “teu reino, assim na terra, como nos céus”. Essa visão de renovação se pauta pela esperança (antecipando a obra de Deus de “reconciliar consigo mesmo todas as coisas”) ao invés de pela nostalgia (antecipando um momento de maior poder cultural para o povo de Deus). Somos disciplinados, mas otimistas, em nossas ambições, sabendo que Deus fortalece nossos esforços e está no controle de seus frutos.

A oportunidade redentiva para uma empresa se capta (ou se perde) quando a ideia é formada. Estamos tão acostumados à maneira do mundo de fazer as coisas que precisamos nadar contra a corrente e avaliar duramente para o processo de geração de ideias que nos levou ali, em primeiro lugar.

De forma geral, os empreendedores (e as empresas) tentam entender para onde o mundo está indo, aproveitando-se dessas tendências para consideráveis ganhos financeiros. A empresa de inovação IDEO popularizou o design thinking, que começa com a desejabilidade, derivada de um entendimento cuidadosamente pesquisado do usuário final. Semelhantemente, a aceleradora de startups Y Combinator sugere que o melhor conselho para startups é simplesmente “fazer algo que as pessoas querem”.

Embora essa mentalidade ajude as empresas a concentrar sua importante atenção nos clientes, nós cremos que ela prejudica o trabalho imaginativo no estágio conceitual — seduzindo os fundadores a serem levados irrefletidamente pela corrente cultural, ao invés de tentar redirecioná-la. Se os fundadores cristãos procuram “se juntar a Deus na renovação de todas as coisas”, para citar o acadêmico da Praxis, Jon Tyson, precisamos de uma técnica diferente para geração de ideias nas startups. Precisamos ir além de desejabilidade (“o que as pessoas querem?”) e buscar o florescimento (“o que o mundo precisa?”).

Para fazer essa mudança, precisamos de um entendimento mais rico dos propósitos de Deus para o mundo (teologia) e o que está acontecendo no mundo (cultura). Somente quando entendemos bem o que a nossa teologia tem a dizer sobre o nosso domínio cultural escolhido e quando desenvolvemos uma profunda percepção dos padrões culturais que humanizam (e dos que desumanizam) nesse domínio, poderemos confiantemente entrar na área de invenção e criatividade. É aí que usamos nossas capacidades empreendedoras e processos de inovação para encontrar ideias e oportunidades que podem ser verdadeiramente uma força para o bem que buscamos na cultura. Como Dallas Willard disse maravilhosamente bem:

A compreensão é a base do cuidado. Você precisa primeiro entender se você vai cuidar de uma petúnia ou de um país.

Tendo esse fim em vista, frequentemente encontramos fundadores cristãos comprometidos que desenvolveram uma profunda compreensão dos fundamentos demográficos, técnicos, psicológicos e econômicos de sua empresa — porém, se contentam com um entendimento teológico e cultural raso que dilui seu potencial redentivo.

Para um design redentivo, começamos o processo de geração de ideias com reflexões teológicas e culturais — e depois desenvolvemos ideias empreendedoras como uma resposta criativa.

Para dar partida nessa mentalidade e abordagem, tem sido frutífero moldar o processo de design para renovação por meio de temas que integrem reflexões teológicas e culturais. Considere as oportunidades empreendedoras e os modelos de negócio inexauríveis nesses temas, pouco discutidos:

  • O papel das imagens na reeducação do desejo
  • Branding direcionado por virtudes e formação de identidades
  • Distribuição em massa do melhor da cultura
  • Ambientes físicos para o florescimento
  • Reconstituindo a vergonha cultural como uma expressão de dignidade
  • Empreendimentos sociais experimentais
  • A restauração de discursos civis
  • Liturgias compartilháveis e práticas de bem comum
  • Co-criação para oportunidade e equidade

O mentor da Praxis Hans Hess foi provocado por certas dessas ideias quando fundou a Elevation Burger em resposta a um crescimento alarmante na resistência populacional a antibióticos, devido primariamente ao seu uso disparado em gado. Projetou-se que 200.000 pessoas morreriam em 2025 por conta de sua incapacidade de receber tratamento com antibióticos. A origem do Elevation Burger foi um lamento sobre o sofrimento humano (teologia), conjugado a reflexões sobre causa e efeito (cultura), concretizados por meio de um processo sólido de inovação com produtos e branding (empreendedorismo). Os seus hambúrgueres orgânicos, produzido a partir de bovinos alimentados em pastos com vegetação nativa, não apenas estão movimentando um setor comercial em ascensão, como também influenciam players maiores na indústria alimentícia a mudarem de acordo, como a Panera.

Podemos comparar e contrastar esse tipo de criação empreendedora com a abordagem de Peter Thiel em De zero a um. Thiel argumenta que temos talentos demais focados em inovação incremental — empreendimentos que levam o mundo de “de 1 a n” — e poucos focados em reviravoltas tecnológicas radicais que nos levam “de 0 a 1”. Contudo, numa sociedade ocidental com recursos econômicos e tecnológicos desproporcionais, talvez o nosso maior chamado não seja inovação técnica radical, mas uma renovação sistêmica radical. Como criadores num mundo caído, mas ainda “totalmente promissor”, podemos aplicar uma visão do evangelho ao longo de toda migração “do 0 ao 1 ao n” — injetando compaixão, esperança e beleza em cada fronte, quer estejamos trabalhando em genética, petróleo, moda, construção civil ou mídia. Quando a nossa esperança repousa no caminho de Jesus, a inovação e a disrupção voltam a ser servos, ao invés de mestres, de nossa visão empreendedora.

Dez princípios para o design renovador

  1. Todo empreendimento pode ser redentivo. Empreendimentos redentivos não se limitam a determinado setor, escala, estrutura, posicionamento confessional ou tipo de personalidade dos fundadores. Muitos dos melhores exemplos de empreendimentos redentivos são negócios maduros e lucrativos com nenhum modelo social explícito. Eles identificaram um aspecto caído específico na esfera que ocupam e são intencionais quanto a sua restauração.
  2. Empreendimentos redentivos têm cada um o seu resultado líquido de renovação. Cada empreendimento redentivo, quer uma startup de tecnologia para o consumidor final ou uma organização educacional sem fins lucrativos, foi feito para levar algum canto do mundo em direção ao florescimento: de indignidade à dignidade, da isolação à comunidade, da escravidão à liberdade, do egoísmo à generosidade, da tolice à sabedoria, do engano à verdade, da ansiedade à paz, do consumo ao contentamento.
  3. Empreendimentos redentivos precisam começar com uma questão diferente do que as normalmente realizadas pelos empreendedores. A primeira questão não é “O que funcionará como empresa?” Pelo contrário, deveria ser: “O que é bom para o mundo, segundo o seu Criador?” Então o fundador pode inovar para concretizar isso de uma forma factível. O empreendimento é concebido como uma resposta criativa à lacuna entre o que o mundo é hoje e como ele será em seu estado restaurado.
  4. O empreendimento busca ativamente uma cultural organizacional virtuosa que valoriza as pessoas acima dos lucros em relação a stakeholders internos e externos.
  5. O empreendimento concebe suas ofertas — seus produtos e serviços — como concretizações de renovação, não simplesmente como soluções a problemas ou necessidades imediatas. Os líderes perguntam: “Os nossos produtos e serviços são experimentados pelo consumidor de uma forma que encoraja o seu florescimento relacional, físico e espiritual?”
  6. O empreendimento — com ou sem fins lucrativos — tem um modelo de impacto claramente definido, para assegurar que os efeitos próximos e remotos do empreendimento sobre as pessoas e sobre o ambiente sejam positivos, liquidamente. Os líderes perguntam: “Quais dos nossos produtos e serviços realmente alcançam sucesso a nível pessoal, social, ambiental e industrial?”
  7. O empreendimento foca não só em como ele opera (cultura organizacional), no que ele faz (ofertas) e nos seus efeitos (modelo de impacto) — mas também no que ele diz sobre o mundo (narrativa). Os líderes entendem as mensagens predominantes na cultura e buscam reforçar essas mensagens (se elas concordam com a visão cristã) ou as minam e reescrevem, caso contrário.
  8. Um empreendimento redentivo não necessariamente possui um posicionamento confessional explícito ou um conjunto de critérios de contratação, mas certamente transforma o entendimento cristão do mundo em cultura, decisões e balancetes. Esse tipo de empreendimento invariavelmente será uma apologética demonstrativa da verdade do evangelho.
  9. O próprio empreendimento é um ministério primário. Como os líderes alocam o dinheiro dentro do negócio é menos importante de como eles o distribuem fora do negócio. É de bom tom que fundadores tenham um plano ativo de filantropia e investimento fora da empresa e é recomendável que um empreendimento financie “coisas cristãs” (o que quer que isso signifique); mas não pode ser uma versão de “roubar Pedro para pagar Paulo”, caso o empreendimento apenas financie ministérios redentivos, sem ser ele mesmo redentivo.
  10. Excelência no setor é o mínimo para se considerar um empreendimento redentivo. Sem isso, o empreendimento terá um impacto pequeno ou insustentável. Uma cultura moldada pelo evangelho dá muito espaço para graça, virtude e equilíbrio; contudo, deixa pouco espaço para a mediocridade.

Cuidando do ecossistema

Como nos juntamos enquanto comunidade cristã para encorajar a formação de toda uma geração de empreendedores redentivos?

Se não vemos muitos fundadores vivendo esta visão como gostaríamos, o nosso instinto natural é dar prioridade a escalonamento e força. Temos a tendência de diagnosticar o problema em termos de não ter um suprimento forte o suficiente de líderes e definir a solução como conseguir mais empreendedores cristãos de alta capacidade para começar suas empresas. Nós ofereceremos talentos, mentoria e redes de financiamento para ajudar os líderes a escolher as melhores instituições e fluxos para desenvolverem suas habilidades de liderança.

O discurso padrão é mais ou menos assim: o empreendedorismo é importante; o ecossistema atual é inóspito ou indisponível para crentes; queremos mais cristãos representados nesse campo difícil e competitivo; logo, vamos criar um “ecossistema alternativo” para descobrir, treinar, conectar, apoiar e financiar cristãos para que consigam chegar à elite do poder cultural por meio do empreendedorismo.

Contudo, essa abordagem ainda é insuficiente porque ela rapidamente se reduz à lógica de guerras culturais tribais e mundanas hoje presente em cada área de influência cultural, da política ao cinema: precisamos mais dos “nossos” na área de formação cultural para que possamos assegurar nossa representação, influência e impacto.

Precisamos ir mais fundo e perguntar: por que precisamos de mais fundadores cristãos, em primeiro lugar? Segundo nosso posicionamento, não é para capturar influência cultural ou financeira para a comunidade cristã — é porque o mundo necessita profundamente dos empreendimentos que só os cristãos podem gerar e somos constragidos por amor ao próximo a iniciá-los.

Não é porque os cristãos são pessoas melhores (não somos), mas porque temos as boas novas de um evangelho de cima para baixo de um Deus que se importa com cada centímetro quadrado da criação.

Se o que os cristãos acreditam sobre o mundo é Verdade — que Deus criou o mundo em amor e quer reconciliar todas as coisas consigo —, então, empreendimento por empreendimento, e especialmente depois de centenas e milhares de empreendimentos, a comunidade cristã mobilizará uma diferença singular, positiva e material para o mundo por meio da prática do empreendedorismo.

Tendo uma quantidade maior de fundadores cristãos fortalecidos não beneficiará apenas a cristãos, mas a todos. Para pessoas fora da nossa fé, podemos dizer: mesmo se não acreditarem como nós, se os empreendedores cristãos fizerem o seu trabalho, o mundo será um lugar melhor. Como William Temple colocou:

“A igreja é a única instituição que existe primariamente para o bem daqueles que não são os seus membros.”

Como expressão da igreja, portanto, empreendimentos redentivos existem para seus clientes e para o seu próximo, não para seus sócios; e criá-los é mais um ato de amor que de controle.

Precisamos reconhecer que, mais que escala ou força, a oportunidade primária para empreendedores cristãos é a sua singularidade. Precisamos de fundadores que, como Daniel e seus colegas durante o exílio babilônico, ultrapassem seus pares em excelência — ainda que tenham uma visão, motivação e prática totalmente diferente. Para alcançar isso, até os nossos métodos de recrutamento e desenvolvimento de liderança precisam ser diferentes.

Porque precisamos de uma geração de fundadores com uma imaginação alternativa para o propósito e a prática de empreendedorismo sob o senhorio de Cristo, precisamos de pipelines e ecossistemas que auxiliem empreendedores de fé a prosperarem nos termos do mercado e outros que formem e reforcem nos fundadores uma visão diferente do que seus empreendimentos são, antes de tudo.

Isso significa que precisamos de investidores e programas projetados para alimentar e incentivar fundadores em potencial a passarem pelas melhores universidades, treinamentos, empregadores e redes de contatos — mesmo que corramos o risco de tornar os fundadores parecidos demais com o mundo ao seu redor.

Da mesma forma, precisamos de incubadoras, redes de contatos e aceleradoras crentes; programas de empreendedorismo em faculdades cristãs; e empresas lideradas por cristãos que tutoreiam e desenvolvem fundadores em potencial — ainda que corram o risco de formar fundadores que são subculturais demais e, portanto, menos competitivos e efetivos.

Pelas próximas décadas, podemos usar a nossa compreensão crescente da humanidade — em seus aspectos teológicos, culturais, sociológicos e técnicos — para criar produtos, serviços, ambientes e sistemas que verdadeiramente levem ao florescimento? O esforço empreendedor é a fronteira de fé e trabalho, à medida que nos juntamos a Deus na renovação de todas as coisas — que, como diz James K.A. Smith, envolve “o redirecionamento e a reorientação de nossas capacidades de fazer cultura”.

Esta é a esperança do evangelho no mundo das startups: uma geração de empreendedores que utilizem seu dom de maior capacidade de fazer cultura para criar empreendimentos que são totalmente promissores para o reino de Deus.


Por: Praxis. © Praxis. Website: https://journal.praxislabs.org/full-of-promise-534310dca752. Traduzido com permissão. Fonte: Full of Promise, 20 de maio de 2020.

Original: Totalmente promissor: Uma visão para o empreendedorismo redentivo. © The Pilgrim. Website: thepilgrim.com.br. Todos os direitos reservados. Tradução: Guilherme Cordeiro Pires.

O ponto de vista deste texto é de responsabilidade de seu(s) autor(es) e colaboradores direito, não refletindo necessariamente a posição da Pilgrim ou de sua equipe de profissionais.

Imagem: Victor Garcia no Unsplash

Sabedoria e tolice nas respostas cristãs ao coronavírus (Alastair Roberts)

Ao observar respostas cristãs ao coronavírus, talvez nada tenha se destacado mais para mim do que a forma que elas revelam hábitos fundamentais da mente, característicos tanto da sabedoria quanto da insensatez.

A literatura bíblica de sabedoria muitas vezes é negligenciada em nossas igrejas. Seu caráter sapiencial não se encaixa bem dentro dos limites estreitos do nosso ensino focado em informação e doutrina. Suas formas mais abertas e menos definidas de conhecimento perturbam a segurança do nosso dogmatismo. Seu foco empírico e pragmático desconforta nossas abstrações ideológicas e nosso desinteresse pessoal. A sua visão de um mundo comum e cognoscível compartilhado por todos os seres humanos é resistida pelo nosso desejo de afirmar o monopólio cristão da verdade.

Até em círculos cristãos que fazem apelos confiantes à “sabedoria,” o seu verdadeiro caráter pode ser facilmente distorcido, muitas vezes por causa de um desejo de subjugar a sabedoria à ideologia e suas formas de crença. A “sabedoria” pode ser apresentada às pessoas como se fosse um sistema pré-pronto completo do que devemos pensar, ao invés de ser uma formação vitalícia no pensamento responsável e disciplinado e na arte de viver bem. Certa posição ideológica pode ser identificada com a “sabedoria”, mesmo que faça o trabalho de pensar no lugar da pessoa. Podemos ser treinados em um sistema completo a ser concretizado, sem nos obrigar a assumir a responsabilidade da tarefa sapiencial de relacionar a reflexão profunda e baseada em princípios com a atenção empírica ao mundo. Para muitos, a sabedoria, pelo que parece, é principalmente pertencer a um lado — o lado que, por acaso, eles defendem. Isso lhes absolve da tarefa de ouvir, se engajar receptiva e humildemente com pessoas de vários contextos, crenças e perspectivas diferentes.

Todas essas graves deficiências na instrução, compreensão e prática da sabedoria se tornaram forte e dolorosamente evidentes em muitas respostas cristãs ao coronavírus.

Grande parte da literatura de sabedoria é dirigida ao simples, dando à pessoa que não tem sabedoria e experiência um faro pela sabedoria e o caráter para recebê-la. Trata-se de obter um instinto para a forma da sabedoria, mesmo antes de ter desenvolvido conhecimento ou ter a sabedoria formada em você. Trata-se de como o inexperiente se conforma à sabedoria apesar da sua falta de experiência. Geralmente, não se trata tanto das especificidades do conteúdo daquilo que se acredita, mas sobre como você começa e continua a acreditar naquilo.

Mas a literatura de sabedoria também é uma literatura para reis. Isso pode parecer um paradoxo, mas, ao examinar mais de perto, faz sentido. De muitas formas, o rei é chamado para ser o simples por excelência, sem expertise alguma. Da mesma forma, a sabedoria é amplamente construída sobre as virtudes do justo ainda simples e nunca deixa essas virtudes pra trás. Na verdade, ela repousa mais e mais sobre elas à medida que a sabedoria cresce.

O rei sábio não é o expert universal. Pelo contrário, ele deve ter maestria na tarefa de julgar. E ele exerce bem esse julgamento através dos seus dons no discernimento, escolhendo e ponderando o conselho dos experts. Governar com conselheiros experientes é bem diferente de ser governado por eles. Conhecimento e expertise em áreas de conhecimento específicas são levados em consideração no julgamento do rei sábio, mas ao exercer esse julgamento ele considera e pondera um grande número de vozes de especialistas antes de determinar um curso de ação específico.

Como o rei sábio não é o especialista universal, ele deve chegar em seu sábio julgamento por outros meios, e isso é complicado.  Os meios pelos quais ele faz isso são praticamente os mesmos pelos quais o simples chega em qualquer tipo de sabedoria, só que com um grau maior de desenvolvimento. Por causa do vasto escopo de suas responsabilidades, a compreensão do rei da sua falta de conhecimento cresce rapidamente junto com a extensão das obrigações sujeitas a seu julgamento sábio.

Como Scott Alexander observa, as pessoas que se anteciparam e se prepararam melhor para o coronavírus geralmente não eram especialistas da área, mas as pessoas que deram atenção aos especialistas, sendo capazes de sintetizar o conhecimento de diversos especialistas e exercer julgamento prudente em situações incertas com grandes riscos envolvidos. Isso é um tipo importante de sabedoria.

Agora eu gostaria de esboçar brevemente alguns princípios fundamentais de um relato cristão da sabedoria que deveria nos guiar em como respondemos ao coronavírus e outras crises parecidas.

1.   O sábio encontra segurança na multidão de conselheiros

Os sábios se cercam de uma multidão de conselheiros. Por outro lado, os tolos simplesmente apelam aos “especialistas” que confirmarão os seus desejos; dispensam os demais como agentes de alguma conspiração ou cegos por uma agenda ideológica; ou se absolvem da tarefa de discernir ao apelar para o fato de que “os especialistas discordam.” Os tolos geralmente apelam aos especialistas para validar suas posições, ao invés de genuinamente se familiarizarem com o escopo da conversa entre especialistas de diversas perspectivas.

O conselheiro solitário é perigoso, assim como a panelinha de conselheiros unânimes — sejam “ortodoxos” ou minoritários (aqueles que são minoritários por temperamento frequentemente podem confundir suas críticas ao mainstream com questionamentos genuínos, não se atentando como suas próprias posições estão sujeitas a críticas sérias). A verdadeira sabedoria deve ser encontrada na atenção à multidão de conselheiros, onde as perspectivas de muitas pessoas bem-informadas e sábias são constantemente cruzadas, testadas, revisadas, afiadas e provadas através do diálogo, que geralmente é dirigido pelo governante criterioso.

Uma das marcas típicas dos lunáticos é que eles simplesmente rejeitam seus semelhantes que defendem a posição predominante como se fossem conspiracionistas, malignos ou até estúpidos, ao invés de se engajar em um diálogo genuíno de boa-fé com eles e permitindo que suas posições sejam examinadas dessa forma. Eles falarão da estupidez dos especialistas mainstream sem sequer conversar com eles face a face ou mesmo se dispor a entender de verdade suas perspectivas e argumentos. A maioria dos verdadeiros especialistas tende a tratar os especialistas que discordam deles com muito mais respeito.

2.   O sábio examina rigorosamente as questões

Tolos prontamente acreditam em uma causa sem sequer investigá-la de perto e ouvir as críticas feitas a ela (Pv 18.17). Eles rotineiramente julgam antes de ouvir. Eles também prestam atenção e espalham rumores, relatos imprecisos e histórias suspeitas, enquanto falham em buscar diligentemente pela verdade da questão. O sábio, por sua vez, examina cuidadosamente antes de proceder ao julgamento ou entendimento da questão.

Em diversas respostas ao coronavírus, eu fiquei impressionado com a frequência com que as pessoas espalham informações que claramente não leram ou entenderam, simplesmente porque — depois de uma olhada superficial — elas pareciam validar suas crenças. Elas não seguem de perto as perspectivas que assumiram, buscando críticas e exames minuciosos que verifiquem sua veracidade. E quando se prova sua falsidade, eles não voltam atrás para se corrigirem.

3.   O sábio conhece as limitações do conhecimento

Os tolos são ingênuos e logo saltam para a crença ou descrença. Eles também são presunçosos — amam a confiança orgulhosa de uma falsa certeza. Eles carecem da capacidade de ponderar os muitos testemunhos e pontos de vistas divergentes e contrários para chegar a uma percepção mais clara do assunto, sem confiar completa e inquestionavelmente num dos lados, nem os rejeitando automaticamente quando as tensões aparecem. O sábio, por sua vez, conhece as limitações e incertezas do conhecimento e desenvolve a humildade correspondente. O sábio resiste ao anseio de pular prematuramente para a segurança de convicções firmes — porém falsas. Ele suporta fielmente a luta do conhecimento limitado ou até da falta de conhecimento a fim de investigar os assuntos de forma diligente e completa.

O coronavírus é um desafio que possui uma infinidade de “incógnitas conhecidas” e “incógnitas desconhecidas”. Responder a essas incertezas extremas exige tanto esforços preventivos decisivos e rápidos para minimizar alguns dos riscos extremos aos quais podemos estar sujeitos, quanto uma investigação transparente e intensa sobre a forma exata da ameaça que estamos enfrentando. A incerteza não aparece muito no pensamento do tolo (salvo quando ele apela para a suposta indeterminação de opiniões entre especialistas como uma desculpa para insistir confiantemente nos seus próprios interesses). O tolo tende a apostar com excesso de confiança em suas expectativas e pensa pouco nas muitas contingências que estão em jogo.

O tolo zomba do suposto pânico e medo das pessoas que, embora não estivessem necessariamente esperando que o coronavírus se espalhasse em janeiro, tomaram medidas de precaução para garantir que estivessem preparadas para essa eventualidade. Da mesma forma, ele zomba agora das pessoas que estão tomando medidas de precaução contra outros cenários reais, mas de menor risco. Ele não está realmente envolvido na urgente tarefa de reduzir os riscos através da busca do conhecimento, porque ele sempre teve a mesma opinião convicta sobre o assunto.

4.   O sábio está em guarda contra o bajulador

O sábio reconhece que o perigo do bajulador não se encontra apenas na forma de uma obsequiosidade exagerada para conosco. A bajulação também se expressa no estudo ou no especialista que corrobora a nossa complacência ou orgulho dos nossos próprios caminhos, reforçando nosso senso de superioridade intelectual e moral, enquanto mina a competência de nossos oponentes. O tolo é cronicamente suscetível ao bajulador, porque este afaga o orgulho e a resistência à correção e ao crescimento tão característicos do tolo.

O tolo se agarra aos estudos ou especialistas que corroboram suas crenças e práticas preferidas, enquanto resiste ao engajamento atento e receptivo de visões que o desafiam (ou nem mesmo examina atentamente aqueles que presume lhe apoiar, porque esse exame pode perturbar suas convicções). A falta de humildade e o desejo de bajulação do tolo o tornam demasiadamente resistente ou até insensível às repreensões, correções e desafios. Você precisa adular o tolo para ganhar a atenção dele.

A ideologia é amiga do tolo. Ela garante às pessoas que, se elas simplesmente comprarem seu sistema de crenças, possuirão todas as respostas e não precisarão aceitar a correção de nenhum dos seus oponentes, a fim de revisar significativamente suas crenças à luz da experiência e da realidade ou até reconhecer as limitações do seu conhecimento.

O sábio, em contrapartida, sabe que as feridas de um amigo são fiéis e busca a correção. Ele se cerca de outras pessoas sábias que estão preparadas para o corrigir. Ele é cauteloso com a ideologia.

5.   O sábio ama a repreensão e a sabedoria que dela resulta

O tolo não considera cuidadosamente as posições opostas para descobrir qual elemento de sabedoria pode estar neles, mas salta para qualquer desculpa que possa encontrar — o tom, o alinhamento político, a personalidade do orador e assim por diante — para dispensá-las e ignorá-las. Fundamentalmente, mesmo que não perceba, ele odeia a sabedoria, visto que a tarefa da sabedoria é desconfortável demais para ele e, por isso, a evitará a qualquer custo. Por outro lado, o sábio suportará um desconforto considerável para buscar a sabedoria onde quer que ela se encontre. Ele voluntariamente se expõe a repreensões severas, correções embaraçosas, alienação social ou perda de orgulho pessoal a fim de aprender a partir com seus críticos e oponentes, voltando atrás de posturas já formadas. Tudo isso para crescer em sabedoria.

O sábio constantemente tenta aumentar sua sensibilidade para com a verdade através da prática de atenção minuciosa, enquanto que boa parte do esforço intelectual do tolo é gasto para se safar das verdades inconvenientes ou para racionalizar seus erros (por exemplo, o leitor sábio das Escrituras tenta ler o texto de acordo com os termos do texto, enquanto o leitor tolo tenta evitar o significado do texto ao introduzir ambiguidades de modo que ele possa impor seu próprio sentido ao texto). O sábio busca diligente e desejosamente a sabedoria, enquanto a sabedoria precisa ser enfiada à força na boca do tolo.

6.   Os tolos encontram refúgio no escárnio e no desprezo

Quando um tolo é confrontado com uma perspectiva indesejável, sua resposta característica é escárnio, ridicularização ou rejeição, ao invés de engajamento cuidadoso e pensativo. A leviandade e a zombaria são um refúgio contra a correção. A Escritura frequentemente enfatiza que esse é o modus operandido tolo quando desafiado. O tolo também calunia os sábios como desculpa para não os ouvir.

Tolos tipicamente se sentem ameaçados pela proximidade de perspectivas contrárias e precisam de mecanismos de defesa contra elas. Esse é o caso até mesmo entre tolos que defendem verdades genuínas. Para muitos cristãos, a ridicularização dos outros funciona primariamente para atender à necessidade psicológica do tolo de se endurecer contra todos os outros pontos de vista — de garantir que ele não sinta qualquer atração de verdades em outras posições que possam prejudicar a sua autoconfiança imerecida. De fato, até o próprio evangelismo pode ser pervertido de um compartilhamento amoroso da verdade com o próximo para uma declaração autodefensiva da verdade contra ele a fim de resistir um encontro genuíno com perspectivas diferentes.

Aqueles que possuem uma confiança genuína em seu conhecimento e um comprometimento real com a verdade são instintivamente menos propícios a usar o escárnio. O sábio pode usar a zombaria, mas é uma das ferramentas menos usadas em seu arsenal, daquelas que é preciso muito cuidado para manusear.

7.   A verdade se evidencia por testemunhos consistentes

Os sábios estão preocupados com demonstrar consistência em seus pontos de vista, já que a concordância entre testemunhos e perspectivas são evidência da verdade em determinada questão. No entanto, as crenças de um tolo geralmente são notórias por suas grandes inconsistências. Elas carecem das marcas da verdade, porque são adotadas por sua utilidade em confirmar o tolo em seus caminhos, e não por sua verdade. O tolo saltará entre posições inconsistentes só por serem convenientes. A consistência das posições e crenças dos tolos são encontradas, não na concordância da substância delas, mas no fato de que todas elas, de alguma forma, consolidam ainda mais os tolos em seus métodos e crenças anteriores. Além disso, a preguiça intelectual dos tolos significa que eles não buscam diligentemente crescer na verdadeira consistência (embora alguns possam desenvolver certa consistência em suas falsidades com o único intuito de imunizá-las contra questionamentos, ao invés de buscar a própria verdade). 

8.   O tolo fala demais

O tolo ama expressar sua opinião, mas possui bem menos prazer no trabalho duro de conquistar o direito de ser ouvido. O tolo saberia de tudo ainda que nada estudasse. O tolo vocifera a sua tolice e não se cala na presença daqueles mais sábios do que ele. Submeter-se ao sábio ao guardar sua língua é esforço demais para o orgulho do tolo, que odeia a correção e a vergonha de honrar a maior sabedoria de outros. O discurso incessante do tolo é uma defesa contra o ouvir e uma forma de evitar a aceitação dos limites do seu conhecimento, ao mesmo tempo em que expõe constantemente como seu conhecimento é limitado.

9.   Os sábios aprendem pela experiência e se revelam nas crises

O sábio sempre reflete e tira lições de suas experiências e práticas. A sabedoria na Escritura geralmente se vê nos resultados e nossa sabedoria e tolice são mais evidentes em retrospecto, quando um intervalo suficiente de tempo e  uma distância adequada do ego se colocam entre nós e nossa sabedoria ou tolice passadas. Confrontados com uma crise como o coronavírus, é importante refletir honestamente sobre como nossas ações e hábitos passados nos prepararam ou nos deixam despreparados para este momento. Os sábios se comprometem a essa tarefa muitas vezes dolorosa de autoexame e reforma, e buscam em primeiro lugar silenciar o bajulador dentro de si, sendo honestos quanto a seus fracassos. O sábio tenta internalizar a voz da repreensão sábia.

Essa pandemia é um momento de provação e humildade. É um momento em que força ou fraqueza, verdade ou falsidade, fidelidade ou infidelidade estão sendo reveladas. Os sábios estarão profundamente atentos em um momento como este, (re)considerando as pessoas com quem andam, as vozes a que ouvem, as crenças que defendem, as práticas que observam, etc. Em momentos de humildade, os limites das previsões, providências e da nossa força se revelam. No entanto, nesses momentos de humildade, quando o orgulho de muitos se fere, a sabedoria do humilde, do cautelosa e do modesto, que reconheceram seus limites mesmo em tempo de fartura, manifesta-se.

10.    O tolo é caracteristicamente imprudente e descuidado, sem medo racional e cautela

O tolo é marcado por uma rejeição da preocupação racional com os perigos do seu estilo de vida e um excesso de confiança imprudente (Pv 14.16). O tolo é um apostador inveterado, tomando riscos compulsivamente. Ele ignora as advertências sobre perigos futuros, cegamente convencido de que tudo continuará da mesma forma, que suas ações descuidadas não produzirão consequências.

Quando consegue escapar do desastre, age como o jogador que aposta toda sua fortuna no cavalo com as melhores chances e se exalta quando ganha. Ele não considera as muitas vezes em que sofreu por causa da sua imprudência e fracasso ao considerar as incertezas do futuro (aliás, quando esses riscos envolvem a vida das pessoas, o tolo está quebrando o sexto mandamento, ainda que sua aposta vença). O tolo é uma criatura confinada ao presente imediato. Para ele, o futuro é apenas a continuação do presente. Ele não considera seus erros passados, nem reflete nos riscos expostos a si e a outros no futuro.

O sábio, por sua vez, considera e se prepara para as incertezas do futuro. Ele é treinado em antecipar e se proteger de várias eventualidades possíveis e não simplesmente aposta nos seus resultados preferidos.

11.    O tolo é despreparado

Uma das principais características dos tolos no ensino de Jesus — o tolo que construiu a casa na areia, o tolo que buscou construir grandes celeiros, as virgens tolas — é que todos eles são despreparados. Sua fixação no presente e na continuação das suas condições, sua resistência à correção, sua preguiça e falta de vontade de buscar a sabedoria e o prazer teimoso em seus caminhos os levam a serem pegos de surpresa pelo desastre previsível. A loucura deles se manifesta claramente pela falta de preparo com os desastres que os atingem. O tolo, no entanto, frequentemente zomba do sábio em suas ponderadas preparações — “Por que esse pânico todo!?”. Ainda assim, quando os desastres acontecem, geralmente são os tolos os descontrolados, que não sabem o que fazer.

O tolo focado no presente encontra dificuldade em reconhecer o perigo e se arrasta em direção a ele. Em 29 de fevereiro, ele diria que é ridículo considerar a tomada de medidas contra o coronavírus, visto que apenas uma pessoa tinha morrido nos EUA por causa do vírus. Um mês depois, esse número era 4.066 e ele diria que havia apenas umas duas mortes em sua cidade. Agora, dois meses depois, as mortes passaram de 62 mil e ele ainda está procurando maneiras de ignorar as muitas formas nas quais esse número pode crescer muito mais, a menos que medidas significativas sejam adotadas. Ameaças futuras simplesmente não são consideradas naqueles que se concentram estreitamente no presente imediato.

As pessoas e nações que melhor se prepararam para a crise do coronavírus foram aquelas que tomaram ações decisivas antes que as circunstâncias posteriores forçassem alguma ação. Aqueles que atrasaram a ação e arrastaram seus pés, querendo evitar qualquer senso de “pânico” ou reação exagerada geralmente são aqueles que agora se acham nas situações mais restritas, em que retornar a qualquer coisa que se assemelha ao “normal” se prova o mais difícil ou onde as maiores apostas devem ser feitas (ainda que essas apostas sejam bem sucedidas, elas não deveriam precisar ser feitas). Esses são os países que estão lutando freneticamente para adquirir suprimentos, equipamentos médicos e de proteção, ferramentas para testes, rastreamento e outras medidas — tudo isso em um período de tempo extremamente curto. Estar preparado nos dá muito mais liberdade para a ação e um risco muito menor de pânico no futuro.

Quando confrontados com riscos como os apresentados pelo coronavírus, sobre o qual sabemos muito pouco, alguns argumentam que não sabemos o suficiente para justificar uma ação extrema e é bem provável que a ameaça apresentada seja realmente mínima. Eles acusarão os defensores de medidas mais extremas de afirmarem uma falsa certeza. De toda forma, isso é bastante equivocado, porque a boa política deve sempre levar em consideração em suas decisões aquilo que não sabemos — tanto as incógnitas conhecidas quanto as desconhecidas. Ainda que seja possível ou até provável que eles estejam certos — e por mais que todos esperemos que estejam —, em uma situação de incerteza, é loucura apostar nos modelos mais otimistas. O sábio pode ser e muitas vezes é otimista, ao mesmo tempo em que toma precauções necessárias contra aquilo que acredita ser eventualidades menos prováveis, porém, potencialmente devastadoras. As medidas extremas que têm sido instituídas na maioria dos países não são apenas uma resposta às ameaças conhecidas, como também às ameaças realistas, mas desconhecidas, que precisam ser estudadas através da pesquisa científica.

A ameaça de um novo coronavírus nunca foi apenas sobre seu número absoluto de mortes (mitigadas ou não). O problema sempre foram os vastos e dispendiosos encargos e limitações que as sociedades normalmente deveriam assumir quando confrontados com ameaças de proporções extremamente incertas, especialmente quando permitiram que essas ameaças se agravassem e só restassem alguns planos de ação arriscados e drásticos para executar.

Por que as sociedades ocidentais dedicaram recursos tão custosos e extensivos para atacar o terrorismo, quando comparado à ameaça de queda de móveis, que normalmente mata mais pessoas por ano? Enquanto a ameaça de queda de móveis claramente é limitada e nunca crescerá em grande escala, a ameaça do terrorismo possui limites muito mais flexíveis. O mesmo é verdade para o novo coronavírus. Enquanto a severidade das gripes sazonais pode flutuar a cada ano, elas geralmente fazem isso em limites claros (e as pessoas deveriam ler as estatísticas da gripe com muito mais cuidado, especialmente quando as comparam com os dados muito mais sólidos que temos para as mortes por coronavírus). Um novo coronavírus como o COVID-19, que é muito mais mortal do que a gripe, representa uma ameaça que está muito menos delimitada pelo nosso entendimento científico. Nós não sabemos quão eficaz e duradoura qualquer imunidade será. Não sabemos se devemos esperar ondas piores no futuro. Não sabemos se o vírus irá se mutar para algo mais mortal ou menos. Não sabemos quão eficazes as vacinas serão ou quanto tempo demoraremos para encontrarmos uma. Ainda não sabemos quais serão os efeitos a longo prazo na saúde das pessoas que tiveram a doença.

O fatalismo pode ser uma proposição atrativa para o tolo, visto que ela o absolve do imperativo da ação responsável. Muitos fatores que determinam as consequências futuras em toda sorte de áreas atualmente estão em nossas mãos. O tolo, no entanto, não leva em conta o futuro, o considera como inevitável, para o qual sua ação é irrelevante. Tem sido preocupante observar quantas pessoas não conseguem diferenciar projeções condicionais de predições e expectativas. As várias projeções que apresentaram as mortes nos piores cenários vieram com números projetados radicalmente diferentes — e nunca predições certas — para cenários nos quais as pessoas respondiam de maneira eficaz e situações em que não respondiam. O fracasso em considerar como a diferença entre resultados futuros drasticamente diferentes depende de nossa ação presente não é evidente para o tolo, que pode ser muito mais suscetível a simplesmente pensar que a única alternativa é uma previsão certeira que pode ou não se concretizar, desconsiderando os possíveis efeitos que sua ação presente pode causar e o fato de que respostas rápidas e eficazes em reconhecer ameaças podem evitar crises, garantindo que elas não se materializem totalmente.

12.    O sábio demonstra domínio próprio

Em Provérbios, os sábios se identificam particularmente por meio de seus corações, enquanto os tolos se identificam por meio de suas bocas. O coração é um reino de meditação, reflexão e deliberação. É o lugar onde se ponderada e se avalia antes de se expressar em palavras ou ações. O tolo, por sua vez, não possui o domínio do seu coração e é definido por seus impulsos desgovernados, especialmente no discurso e temperamento. A agressividade do tolo surge, em parte, disso. Na falta de um coração controlado, ele se sente ameaçado pela proximidade de opiniões divergentes e carece da humildade para aprender e ser corrigido. Então, ele precisa lutar.

O tolo, por conta de sua falha marcante em considerar e se preparar para as incertezas do futuro, também se coloca em uma posição em que a reação aos eventos é muitas vezes a única opção que lhe resta. O sábio, ao reconhecer a incerteza do futuro e se preparar para diversas eventualidades, consegue muito mais tempo e flexibilidade de resposta quando crises improváveis ocorrem.

O sábio internaliza as vozes de muitos conselheiros sábios em seu coração, sendo capaz de se dar o tipo de conselho que considera diferentes pontos de vista. O tolo, por sua vez, tem apenas um monólogo interno, e não aprendeu a ser sábio consigo mesmo.

O domínio próprio do sábio reconhece as muitas formas em que nosso pensamento tende a funcionar como autorracionalização, se não administrado corretamente. Muitas vezes nosso pensamento é dirigido pelas nossas paixões. Uma das coisas mais preocupantes que testemunhamos foi o sequestro dos discursos sobre o coronavírus pelas paixões do partidarismo político, algo que tem sido especialmente evidente no contexto americano. Ao invés de buscar a verdade de forma imparcial e colaborativa, tudo se dissolveu em guerras culturais. Enquadra-se a questão pelo contraponto das pessoas ruins ou estúpidas do outro lado do espectro político. As pessoas são dominadas pela necessidade de resistir à concessão de qualquer ponto às pessoas que desgostamos ou de manter a veracidade e presciência do nosso lado ou ideologia. Toda reflexão valiosa será rapidamente asfixiada nesse contexto.

Talvez a maior parte do pensamento sábio se deva ao domínio próprio. Upton Sinclair — pelo menos a citação é tipicamente atribuída a ele — comentou: “É difícil fazer um homem entender algo, quando o seu salário depende de ele não entender isso!” O raciocínio enviesado é um problema imenso em uma situação que, por exemplo, se persuadir da legitimidade de medidas radicais para combater o vírus colocaria em risco o seu sustento, perturbaria a sua ideologia política ou iria contra seus instintos ou tendências de personalidade. O pensamento correto exige que investiguemos cuidadosamente nossas motivações e nos protejamos contra desvios da nossa opinião por conta delas.

O domínio próprio é especialmente importante em contextos antagônicos e carregados, onde nossos pensamentos podem ser puxados para antagonismos reativos. Quando isso acontece, logo perdemos a capacidade de ouvir e ponderar corretamente a crítica dos outros. Devemos vigiar a nós mesmos de perto: no momento em que nos envolvemos em debates com o intuito de provar que o outro lado está errado, por exemplo, caímos em um perigo real de começar a priorizar a vitória do nosso lado ou a derrota do outro lado em detrimento da busca pela verdade. É importante que busquemos e/ou criemos contextos — seja na solitude, longe das paixões da mídia e cenários social e emocionalmente carregados, ou no discurso de boa-fé entre pessoas de perspectivas divergentes — em que o verdadeiro teste do nosso pensamento possa acontecer. Nesses contextos podemos genuinamente ponderar e considerar posições de vários lados e chegar calmamente a opiniões estruturadas. As paixões do partidarismo que influenciam a maioria das pessoas hoje tornaram a verdadeira reflexão quase impossível.

Se você perceber que um contexto em que você está se dirige por antagonismos ideológicos e políticos e suas paixões concomitantes, de modo a evitar uma autorreflexão crítica, detalhada e contínua, eu fortemente sugiro que você se afaste. Será difícil pensar claramente nesse contexto, já que as suas próprias tendências antagônicas instintivas entrarão em ação e a autorracionalização rapidamente tomará o lugar da busca pelo autoconhecimento crítico. É bem difícil pensar claramente quando você está obcecado com as pessoas que estão erradas na Internet. Afaste-se da droga da catarse ao atacar posições opostas a sua. Coloque sua máscara primeiro: se acalme, clareie sua mente, domine suas emoções, se dê espaço e preste atenção, buscando descobrir os pontos fortes e fracos nas diversas perspectivas em uma atmosfera muito menos carregada.

Obviamente, realizar isso exige o desenvolvimento de um “coração” forte para meditar, refletir e deliberar longe das paixões intrusivas do seu ambiente e sociedade. Isso exige a internalização de uma multidão de vozes que possam abalar a sua perspectiva. Isso exige desenvolver a tranquilidade necessária para estar cercado de pessoas com opiniões fortemente contrárias, sem se sentir ameaçado por elas. Quando as pessoas carecem desse “coração” e do domínio próprio que ele manifesta, o pensamento não escapará da tirania das paixões.

13.    O tolo segue o rebanho

O tolo busca companhia e tentará encontrar ou criar uma proteção social contra perspectivas desagradáveis que lhe desafiem. O escárnio e desprezo, mencionados acima, geralmente são feitos em companhia. O tolo se cerca de pessoas que confirmam suas crenças e rotineiramente tenta afastar de seus grupos sociais pessoas que discordem de suas visões. As crenças, valores e pontos de vista do tolo raramente divergem muito do seu grupo, que tipicamente é uma tribo ideológica projetada para protegê-lo da exposição genuína e ponderada à diferentes opiniões inteligentes ou ao tipo de solidão no qual ele possa formar em sua própria mente. Ele nunca se esforçou por longos períodos para desenvolver uma interioridade marcada pela reflexão e meditação solitárias ou pela introspecção. Assim, ele geralmente carece dos recursos para responder ao invés de apenas reagir. Quando o rebanho pisa, o tolo pisa com eles, achando difícil se afastar das paixões contagiosas daqueles que o cercam.

14.    O sábio reconhece que a verdade é cosmopolita

Uma das características importantes da sabedoria é o seu cosmopolitismo. A literatura de sabedoria da Bíblia é relacionada a um projeto sapiencial antigo maior e inclui vozes não israelitas como vozes de sabedoria, tanto inspirada quanto não inspirada. A literatura de sabedoria não é uma revelação direta, única e exclusiva para Israel, mas, em sua grande parte, reflexões inspiradas sobre realidades comuns à toda humanidade — o mundo e os eventos, pessoas e realidades dentro dele. Os egípcios, babilônicos, gregos, romanos e muitos outros pagãos sensatos também estavam engajados na tarefa da sabedoria, e os israelitas poderiam aprender com eles, mesmo que as suas literaturas de sabedoria não tivessem a mesma natureza inspirada que a de Israel. A sabedoria de Salomão é corretamente comparada com a sabedoria de outros homens do Oriente e pessoas de outras nações que foram ouvi-lo, ao mesmo tempo em que reconheciam a sagacidade e discernimento de Salomão da realidade. Mas o povo de Deus nunca teve monopólio sobre a sabedoria prática obtida através do engajamento reflexivo com a realidade, a qual é propriedade comum da humanidade, embora seja absorvida em diferentes graus.

Algumas das marcas desanimadoras de muitos contextos cristãos são: a mentalidade fechada e defensiva; o fracasso em interagir receptivamente e aprender com não cristãos inteligentes; e o quanto o seu pensamento é conduzido pelo antagonismo e estreitamento político e ideológico (veja os comentários de Alan Jacobs sobre isso).

Eu conheço pouquíssimos cristãos que estiveram à frente e profundamente informados sobre a crise do coronavírus logo no início. Eu já estava alerta com sua seriedade desde o primeiro mês do ano — comprei máscaras no dia 24 de janeiro — porque seguia um amplo espectro de vozes fora do raio ideológico que pode dominar os discursos dos cristãos e da nossa sociedade (discursos que são extensivamente emaranhados), que muitas vezes brincam com os impulsos da tolice. Por causa da forma na qual eles são estruturados e promovidos, esses discursos funcionam mais para prender as pessoas em ideologias partidárias que aliviam seu desconforto do que para reconhecer as limitações do seu conhecimento e a contestabilidade das suas crenças e comportamentos do que expor o difícil desafio da verdade às pessoas.

Uma grande quantidade de vozes das quais eu tenho me beneficiado e aprendido, muito mais do que tenho da grande maioria dos cristãos que eu sigo, vem de várias perspectivas nitidamente contrárias, com as quais eu possuo diferenças bem profundas — racionalistas, tecno-futuristas, neoliberais, ateus, psicólogos evolucionários, direita alternativa, cristãos liberais, judeus, hereges dos mais diversos tipos, feministas de várias vertentes, marxistas, pós-modernistas, progressistas, teóricos de raça, neorreacionários, etc. No entanto, visto que muitos deles estão rigorosamente engajados com aspectos específicos da realidade comum do mundo de formas que poucos cristãos estão, vale a pena ouvir e aprender com eles. Cristãos que são guiados por uma mentalidade fechada e estreita podem ficar tão preocupados em definir como essas posições estão erradas e por que deveríamos rejeitá-las que raramente param para considerar se elas podem estar vendo coisas que não estamos.

Um número altamente desproporcional desses interlocutores tem sido chamado de “grandes dissociadores,” pessoas que são capazes de colocar um parênteses — sem necessariamente negligenciar ou rejeitar — nas desagradáveis conotações emocionais, ideológicas, morais, sociais e políticas de suas ideias a fim de avaliar rigorosamente o valor real delas. Muitas dessas vozes têm sido suprimidas pelos nossos discursos públicos e institucionais, visto que elas são mais comprometidas ao engajamento rigoroso com a realidade do que são com lealdade ideológica, ou com a evitação do desconforto ou ofensa. Essa é uma das razões do porquê as pessoas envolvidas nos discursos culturais dominantes estiveram alheias ao coronavírus por tanto tempo. O vírus não se encaixa em nenhuma das questões partidárias — ele não é sobre justiça social, o Trump, o Brexit, o feminismo, o transgenerismo, etc. Ele exige uma postura atenta e humilde a uma realidade que excede nossas narrativas, categorias e preocupações. As posturas ideológicas opinativas que são tão atrativas para o tolo simplesmente não estão esquipadas para compreender isso.

E é interessante ver como um senso de realidade comum pode juntar um grupo tão diverso apesar de grandes diferenças. Embora haja perigos reais e importantes em abandonar a preocupação com as conotações de ideias — visto que pensar sobre ideias nunca é apenas uma reflexão desapegada da realidade, mas sempre é investida na tarefa de agir dentro da realidade — essa dissociação tem o feito de recuar muitos dos impulsos instintivos da tolice, para a qual as conotações e associações das ideias são rotineiramente usadas para descartar todo desafio indesejável.

Quando lidamos com essas vozes, devemos reconhecer que a tarefa da sabedoria não é segura de forma alguma. Muitas vezes aprenderemos com serpentes, ao mesmo tempo que resistiremos imitar o seu caráter. Nossos interlocutores podem acreditar em ideias profundamente voláteis e perigosas, e é preciso astúcia para discernir seus erros e lidar com crenças e ideias mais voláteis — porém, potencialmente verdadeiras — com o cuidado apropriado. Precisaremos determinar se realmente somos maduros o suficiente para interagir com elas mais diretamente. Ainda assim, é melhor um cuidado moderado no perigoso caminho da sabedoria do que a abordagem daqueles que, mesmo continuando presos em um grupo ideológico, sem o engajamento real com os desafios, erroneamente pensam que estão envolvidos com a busca da sabedoria.

Um dos problemas que os cristãos enfrentam na crise do coronavírus é o fato dos seus “contrapúblicos subalternos.” — escolas, universidades e outras instituições — os enclausurarem contra um mundo mais amplo de acadêmicos, políticos e outros influenciadores, de forma a limitar bastante a sua confiança e redes de informação. E a dissociação da educação pastoral do mundo maior da universidade — um corpo institucional do cosmopolitismo e unidade da sabedoria — também não ajuda. Para muitos leigos, seus pastores serão seus guias naturais em como se relacionar a várias posições políticas e acadêmicas. Se os pastores são educados em um casulo ideológico, com pouca exposição às pessoas de fora, eles podem incentivar a desconfiança em autoridades e especialistas, além de atrofiar as redes de informação da sua congregação.

15.    O sábio honra e se submete às autoridades

Como Oliver O’Donovan observa, “uma autoridade é de quem eu dependo para me mostrar as razões para agir.” (The Ways of Judgment. Grand Rapids, MI: Eerdmans. 2005, p. 131). Como ele desenvolve:

“Onde a autoridade está, ali a liberdade também está; e onde a autoridade se perde, a liberdade também se perde. Isso vale para todos os tipos de autoridade. Sem adultos que exigem comportamento maduro, a criança não é livre para crescer; sem professores para estabelecer padrões de excelência, os estudantes não são livres para se destacar; sem profetas para encorajar ideais de virtude, a sociedade não é livre para realizar seu bem comum. Estar sob autoridade é ser mais livre do que ser independente” (p. 132).

A sabedoria começa com o temor do Senhor e a honra aos pais, com a postura humildade e submissa apropriada e o reconhecimento da autoridade. A pessoa simples não sabe como agir corretamente, mas a submissão aos pais e a outras autoridades o capacita a agir sabiamente, mesmo sem uma compreensão interna da razão para tal conduta.

Se não temos essas autoridades, nossa capacidade para sabiamente seria drasticamente reduzida. Quando cada homem faz o que é certo segundo seus próprios olhos, ele pode agir com certo grau de sabedoria apenas dentro dos horizontes da sua própria vista. Contudo, em uma sociedade com boas autoridades, é muito mais fácil ordenar as ações das pessoas para fins sábios e bons. E todo mundo pode ser mais livre como resultado. Leis de segurança alimentar, por exemplo, me libertam para comer minha refeição com certa confiança que não seria possível em uma sociedade sem autoridades eficazes e sábias, que supervisionam essas questões para seus cidadãos.

O sábio reconhece os limites da sua visão e a importância da submissão às autoridades, o que pode estender o escopo da realidade para o qual suas ações são bem ordenadas. Tolos, por sua vez, odeiam se submeter às autoridades que estão acima deles. Eles são orgulhosos e insubordinados e apenas apreciam autoridades quando apoiam suas preferências. Eles saltarão para a desobediência, resistência e oposição às autoridades, enquanto instintivamente rejeitam que elas podem saber muito mais do que eles.

A submissão às autoridades não precisa ser cega. Autoridades podem ser provadas através do seu caráter visível. O músico virtuoso que desenvolveu as habilidades que reivindica ensinar aos outros tem uma autoridade visível que alguém que não exibisse essas habilidades não teria. A submissão às autoridades pode ser encorajada pelo reconhecimento de que eles são investidos e preocupados com o nosso bem. O filho sábio vê no amor dos seus pais uma garantia para a submissão confiante.

Autoridades saudáveis frequentemente darão razões para as obrigações que impõem sobre as pessoas. Uma autoridade não depende, para sua legitimidade, do fornecimento de uma justificativa para o subordinado (e o “mas por quê!?” desafiador pode ser uma resposta comum do desobediente), nem do entendimento do subordinado. Ainda assim, a boa autoridade está preocupada em ser examinável, racional e, quando possível, aberta ao cumprimento voluntário e maduro através da prática de persuasão daqueles prontos a recebê-la. Por fim, as boas autoridades podem provar a si mesmas através do seu histórico, demonstrando os resultados da sabedoria ao longo do tempo.

De todo modo, até quando confrontados com autoridades profundamente imperfeitas, os sábios reconhecem a importância da submissão. Ela não exige uma concordância ou aceitação incondicional. Há maneiras submissas de levantar questionamentos e preocupações, de pedir reconsideração às autoridades ou negociar com elas. Essa interação submissa com as autoridades também tende a iluminar o verdadeiro caráter delas. O sábio deseja entender as razões para as obrigações postas sobre ele pela autoridade, mas é humilde o suficiente para não exigir essas razões por reconhecer a legitimidade da autoridade e sua necessidade de se submeter a ela. A perda da autoridade sobre nós e o surgimento de uma situação em que todos fazem o que é certo segundo seus próprios olhos é uma situação perfeita para os tolos.

Naturalmente, a tolice, sendo inclinada à rebelião e à insubordinação, julga mal a autoridade. O tolo presume que as autoridades não se preocupam com o seu povo ou o bem comum; resiste em reconhecer a sabedoria dos outros; ama rejeitar a competência de qualquer um acima dele; e viram os olhos da forma mais preconceituosa ao avaliar o histórico de qualquer autoridade. Em contrapartida, os sábios operam com a presunção em favor da autoridade que é exibida ao longo da Escritura. Os sábios se deleitam na boa autoridade; buscam a autoridade, esforçam-se para se submeter à autoridade da melhor maneira possível; e desejam ver e encorajar o bem nelas sempre que possível.

Onde há grande desconfiança ou mesmo paranoia em relação às autoridades, ou quando uma valorização radical da autonomia individual ou da família leva a uma resistência às autoridades superiores, o grau em que a sabedoria é alcançável — ou o grau em que as pessoas podem viver nos termos dela — pode ser bastante reduzido. Um problema aqui é que muitas pessoas não possuem conexões pessoais significativas com pessoas no governo, na academia e nas várias formas de campos específicos. E muitos sentem um senso parcialmente justificável de que as pessoas nesses contextos não são confiáveis, que elas não têm os melhores interesses em seus corações. A perda de instituições mediadoras realmente tem um impacto aqui, visto que elas servem para nutrir a confiança nos governados e exigir maior confiabilidade daqueles que governam.

Redes de autoridade estão relacionadas a redes de confiança e informação. A crise do coronavírus tem servido para revelar quão estreitas, rasas, homogêneas e binárias as redes de autoridade, confiança e informação de muitos cristãos são. Nessas redes, o peso da confiança parece repousar bastante sobre algumas poucas autoridades dominantes importantes, que podem oferecer segurança através da sua projeção da confiança e certeza extremas. No entanto, uma rede de confiança saudável é mais parecida como o sistema de raízes de uma árvore, que suporta o seu vasto tronco com uma ampla e diversificada distribuição de peso na rede de raízes. Nenhuma das raízes seria suficiente para suportar o peso do todo. Essa distribuição ampla significa que não estamos colocando muito peso em uma parte específica. Significa que algumas partes podem falhar sem que tudo caia.

Um problema característico do evangelicalismo em alguns círculos é sua oscilação entre a desconfiança paranoica e níveis extremos de credulidade (o que é solo fértil para toda sorte de teorias da conspiração, modismos de saúde, e assim por diante), uma dinâmica que muitas vezes resulta em alienação e isolamento social. Seja o governo e políticos, escolas, estabelecimentos científicos ou médicos, a “elite secular” ou qualquer outra coisa, os níveis de suspeita podem ser extremos, levando os evangélicos a colocarem um peso excessivo sobre as opiniões e especialidades de pessoas em seus próprios círculos estreitos, muitos dos quais simplesmente não sabem o que estão falando e têm poucas vozes de apoio suficientes para dar um peso real a suas opiniões.

* * *

Retornando ao ponto que eu comecei, é essencial estender nossos círculos de conselheiros, para que não coloquemos muito peso em certo especialista ou lado. Devemos nos dedicar a desenvolver o cosmopolitismo da sabedoria. Devemos realmente ouvir as vozes que estão fora dos nossos campos e fazer de forma caridosa, não apenas encontrar alguma razão para rejeitá-las. Na multidão de conselheiros, seremos afastadas do nosso desejo por gurus infalíveis. Seremos capazes de extrair muito mais discernimento a partir de muitos sábios que possuem diversos defeitos em uma conversa honesta do que de apenas um sábio, ainda que tenha menos defeitos.

Acredito que cristãos também precisam pensar cuidadosamente sobre algumas das formas nas quais nossa capacidade de sabedoria tem sido reduzida pela nossa dependência excessiva das instituições do nosso próprio “lado” cristão e pelo distanciamento delas de uma sociedade muito maior, onde somos cotidianamente expostos a desafios. Talvez uma das maiores verdades da sabedoria é que nossa capacidade para a sabedoria reside, não tanto no nosso poder ou capacidade cerebral, mas em um espírito controlado e em um sistema fundacional extenso e cuidadosamente gerenciado da confiança, autoridade e informação, a que podemos recorrer e por meio do qual podemos nos basear em ideias provenientes de diversas fontes. Precisamos estender nossas redes de confiança, autoridade e informação, distribuindo o peso delas de forma mais equilibrada. Devemos dominar nossos espíritos — mantendo a calma, buscando a paz com os outros quando possível e nos dedicando à busca da verdade, e não do conflito.

Ao se esquecerem dessas coisas, muitos cristãos acabaram tomando o caminho dos tolos.


Por: Alastair Roberts. © Alastair Roberts. Website: https://alastairadversaria.com/2020/05/02/wisdom-and-folly-in-christian-responses-to-coronavirus/. Traduzido com permissão. Fonte: Wisdom and Folly in Christian Responses to Coronavirus, 2 de maio de 2020.

Original: Sabedoria e tolice nas respostas cristãs ao Coronavírus. © The Pilgrim. Website: thepilgrim.com.br. Todos os direitos reservados. Tradução: David Brum. Revisão: Guilherme Cordeiro Pires.

O ponto de vista deste texto é de responsabilidade de seu(s) autor(es) e colaboradores direito, não refletindo necessariamente a posição da Pilgrim ou de sua equipe de profissionais.

Imagem: “Sabedoria e tolice”. Desenho de Ruby Lindsay

O fardo de criar filhos: em louvor à simplicidade cristã (Myles Werntz)

Foto por Glen Carrie

A América do Norte, em muitas áreas, está lutando contra uma decadência que ela não pode justificar, mas da qual não pode escapar. Por décadas, a América do Norte consumiu mais do que a conta de seus recursos e agora, por uma variedade de razões, está se tornando insustentável. À medida que o preço das casas e dos remédios aumenta, e os salários diminuem, o chamado à simplicidade material do evangelho simplesmente faz mais sentido. Mas, para a igreja da América do Norte — desacostumada a ver a simplicidade como uma virtude —, tal busca pode ser mal interpretada como frugalidade ou talvez minimalismo.

Parafraseando Atos 19.15, conheço desconto, mas e esta simplicidade, quem é? A simplicidade e suas semelhantes se apresentam a nós com diversas faces: os movimentos das casas pequenas, os boêmios que vivem em suas vans, o Novo Monasticismo. Mas a simplicidade é algo difícil de buscar, porque é fácil que o Mamon, que reside no centro da nossa cultura, venha com uma roupagem nova. Vícios como o materialismo, afinal, podem estar tanto no excesso como na falta, ou tendo mais posses do que precisamos ou ficando obcecados em se livrar delas.

Teologicamente, uma ética da simplicidade (diferentemente do materialismo) pode ser posta da seguinte maneira: porque a vida de Deus é indivisa, nós somos — enquanto criações de Deus — feitos para buscar uma unidade de ação, recusando a seguir a dois senhores. Se as obras de Deus são não somente para o florescimento da criação, mas também indivisas nesse intento, as obras das criaturas de Deus devem espelhar isso, uma vez que se ordenam em torno das coisas concernentes a Deus de tal forma que vivamos nossas vidas com singularidade de propósito e orientação, com a acumulação de bens como uma transbordar desse desejo singularmente orientado.

A simplicidade, em certo nível, é certamente sobre o consumo, sobre desapegar e se desfazer de certas coisas. Mas a simplicidade — se deve refletir o que Deus é — vai além disso, envolvendo afeições, oração e crescimento em virtude. Entretanto, como seres criados aprendemos as coisas de Deus pelas coisas da terra e não é fácil desvencilhar uma da outra. A dificuldade da simplicidade é que, como a frugalidade e o minimalismo, ela envolve se desapegar dos bens materiais, mas por razões diferentes e mais profundas do que uma espécie de inconformismo cultural. Uma coisa é arrumar o quartinho da bagunça; outra é doar precisamente o que torna nossas vidas confortáveis por causa da oração e do serviço.

Como pais, a simplicidade material parece ser um estado natural do que desejamos escapar, estocando o que pudermos para quando o caçula tiver tamanho para usar, ou para quando o mais velho sentir fome depois da janta. Então, como pai, eu recebo exortações como a de Basílio o Grande mais com um revirar de olhos do que com assombro reverente. Não que e pense que ele está errado per se, ou que o bispo de Cesareia estivesse enganado na sua teologia, porque estudos empíricos mostram o que as Escrituras já sabem: a riqueza corrompe, e a riqueza absoluta corrompe absolutamente.[i] Quando Basílio afirma, por exemplo, que “o casaco que você não usa guardado no seu guarda-roupa pertence àquele que precisa dele; os sapatos apodrecendo no seu guarda-roupa pertencem àquele que não têm sapatos”[ii]sou atingido pela força retórica e reduzido ao pó; fico desnudado perante a luz das palavras desafiadoras de Jesus.

E eu mal começo a cantar os louvores de Basílio, e uma nota dissonante logo aparece:

“Espera aí”, eu me lembro. “Basílio não teve filhos.”

Como Brent Waters aponta em seu trabalho sobre a família no pensamento cristão,[iii] a igreja nos primeiros séculos tinha posições divididas quanto ao que fazer em relação às famílias, especialmente quanto a como dar espaço moral ao funcionamento interno de uma forma social que necessita mais do que pessoas solteiras. Porque, começando com Agostinho — sendo refratado nos escritos monásticos —, a solteirice e a vida despegada que vem com ela são a norma preferida para a vida cristã. Livre das demandas da vida doméstica, somos livres para buscar uma vida ordenada de oração e serviço.

Nas palavras de Basílio, me lembro, entretanto, da observação de Hannah Arendt sobre a política, que todas as formas de política no mundo antigo presumiam que tinha alguém por trás para lavar a roupa, escravizado ao tedioso mundo material, cheio de lavatórios e educação infantil.[iv] Para que o agente livre fosse livre e materialmente concentrado, tinha alguém privado da liberdade e materialmente dividido trabalhando nas sombras. Voltando a Basílio, não é exatamente que seja certo alguém ter dois casacos, mas e se — pelo bem do argumento — eu quiser passar meu casaco mais velho para o meu irmão mais novo? Ou se, por causa de onde vivo, o inverno for um frio congelante seguido por uma temporada mais quente? Como pai, certamente sou livre para deixar meus filhos suarem em nome do reino de Deus, mas certamente isso também é agir injustamente para com eles. Mas com certeza os pais não devem ser enxergados como cidadãos teológicos de segunda classe, fadados a nunca alcançar a plenitude de um discípulo, e a sempre se sentir divididos entre duas direções, sempre tendo uma caixa sobrando no sótão com coisas para o caçula.

Novos movimentos minimalistas, proliferados pelas mídias sociais, só exageram essa tensão. Se ignorarmos a ironia de pagar por uma placa escrita “Viva com simplicidade”, os movimentos minimalistas de viver em vans, cozinhas simples e piso natural de madeira oferecem a certo nível uma visão esteticamente agradável de uma vida material ordenada, simples. Claro, bancadas limpas tem muito pouco a ver diretamente com uma vida moral ordenada. Porém isso não significa que essas formas estéticas de simplicidade são erradas, porque ordem e limpeza certamente não são, em si mesmas, coisas erradas. E Basílio, ainda que com toda sua rigidez, não pretende humilhar nós que, buscando ser prudentes, guardamos um segundo casaco para o filho mais novo. Mas que parte de criar filhos poderia ser compatível com essa visão do evangelho, de ser indiviso e unificado em nossas vidas morais e em nossas casas?

Refazendo a visão utópica

Os guias teológicos sobre essa questão, ainda bem, sabiam que a simplicidade não era uma ideia, preferindo talvez exemplos a puras ideias. Por exemplo, na Regra de Bento de Núrsia, escrita um pouco depois do tempo de Basílio, o abade do monastério era para o monge como um guia, um exemplo visível do que a vida espiritual deveria ser. Ele é alguém que não é novo na fé, alguém que cresceu em sabedoria e que agora está apto para guiar os jovens noviços em sua jornada. É esse tipo de exemplo que eu necessito tarde da noite quando, depois que minhas crianças foram para cama, me encontro rastejando penitentemente sobre legos em busca de ordem doméstica. Criar filhos, particularmente em sua repetição mundana, pode parecer um esforço inútil; nas noites, procuro um Bento, mas geralmente ele já foi para cama, livre de tigelas sujas de mingau, com cânticos esquecidos em sua cabeça.

A grande tentação dos exemplos de simplicidade — seculares ou santos — é a hagiografia, contar suas vidas como se suas realizações fossem alcançadas sem luta. Basílio era um homem da política eclesiástica, assim como Bento, cada um com esqueletos em seus guarda-roupas eclesiásticos. É com grande gratidão que temos as cartas de Basílio, por exemplo, em que ele nos conta de seus sofrimentos e de suas lutas em sua igreja. É isso que falta, de muitas formas, no minimalismo moderno — para cada podcast ou blog sobre criação de filhos que cria a imagem de perfeição material ou simplicidade há erros de gravação e estantes mal iluminadas escondidos. Mas exemplos de disciplina material — teológicos ou seculares — nos oferecem uma imagem valiosa até quando o fazem mal: o dom da aspiração. Ainda assim, separado dos erros de gravação, separado das cartas de Basílio, o ícone de Basílio se torna uma imagem impossível, um fardo e não uma libertação.

A própria Escritura sabe desse perigo e, portanto, oferece exemplos deste caminho de esvaziar a si mesmo. Em Atos 2.42-47 vemos uma descrição brilhante da igreja pós-Pentecostes, onde encontramos as práticas litúrgicas da igreja primitiva — sua aderência ao ensinamento e suas vidas de adoração — terminando com o relato de visão radical de compartilhar todas as coisas em comum, de dar a cada um segundo o que necessitavam. Repetido em Atos 4 (e ecoado em muitas afirmações paulinas sobre como as igrejas deveriam doar a outras igrejas, como o trabalho deveria ser feito e como refeições deveriam ser comidas), alguém poderia facilmente ver onde Basílio pode dizer a sua congregação com convicção que ter muita propriedade é o mesmo que roubo. Mas, como as cartas de Basílio, as Escrituras também contêm descrições sinceras de quão difícil é este desafio e como as pessoas falham. Nós presenciamos as divisões entre ricos e pobres em Corinto, perguntas sobre o que fazer com os preguiçosos e o desafio da riqueza em Tiago. Como Peter Brown demonstra, nossas idealizações quanto à igreja primitiva evaporam quando percebemos que, quase 400 anos depois, a divisão entre os ricos e os pobres tinha ficado maior dentro das igrejas.

Visões de simplicidade material nos cativam, mas só podemos participar delas quando percebemos que isto não é uma visão utópica, mas uma luta posta perante nós. Ter uma visão audaciosa não é o mesmo que ter uma visão audaciosa como parte dos nossos desejos diários e do nosso orçamento mensal. É significativo, então, que esta luta seja citada pela Escritura e pelo registro teológico não como uma vergonha, mas como um motor interno da própria visão. Em outras palavras, a politicagem de Basílio na igreja era parte de concretizar o sonho, assim como quando Bento reconhece que alguns monges devem ser expulsos, e quando a Escritura nos conta de Ananias e Safira.

Esses vislumbres dos bastidores dessa utopia em processo são importantes para o pai que busca simplicidade e unidade em sua vida, porque não há muitos exemplos diretos para nós na Escritura. Não há pais lutando para ouvir e agir de acordo com as palavras de Jesus para vender tudo e ter tudo em comum; o jovem rico e Zaqueu eram, assim presumimos, casados, mas estavam imunes às ofertas audaciosas de dar metade do que possuíam. E a nossa luta é esta: como pai, sou tanto discípulo, como professor, estudante e mestre; eu os levo comigo na minha jornada, sempre ciente que eles não conseguem suportar tanto quanto eu. Assim, os pais não apenas vivem a jornada do discipulado, mas a levam nos próprios corpos, divididos entre o que podem suportar e as concessões que devem fazer por seus filhos, os fortes pelos fracos. Os pais precisam ser olhados com muita graça aqui, penso eu, porque levar o fardo uns dos outros, para quem está de fora, pode parecer como botar a mão no arado e olhar para trás.

A visão material radical da Escritura tem em vista nossa libertação, despojando-nos de nossos bens; perdemos de vista o ensino da igreja primitiva de que, como Basílio indica, a riqueza é venenosa para nós. Mas visões idealistas de simplicidade — boas novas para o solteiro abastado — se tornam um fardo para o pai prudente, criando uma utopia, na qual estou sempre nas trevas exteriores pelo bem da estabilidade de minhas crianças. O que precisamos não é abandonar a visão, mas lembrar sempre que ela estará no caminho, que a visão é o melhor resultado de inúmeras horas de práticas e tentativas fracassadas.

Mantendo a visão material

Se idealizar a simplicidade é o perigo mais óbvio — um que nos tenta ao desespero —, há também um segundo perigo oposto a este. Em Atos 2, a visão radical da vida material é pareada com práticas de adoração e liturgia, a fim de indicar que o ápice dessa visão (compartilhar os bens) não é possível senão ao ser parte de uma comunidade de adoração. E é aqui onde emerge a tentação: ler demais na passagem ao invés de aceitar o simples desafio dela. Até porque quem poderia culpar um pai que quer ensinar a seu filho que passagens como esta — por mais difíceis que sejam — na verdade estão ensinando sobre ter um coração correto? Ao ler as descrições utópicas de Atos, alguns intérpretes dos primeiros séculos reconheceram o perigo de ter o materialismo no centro da teologia, se preocupando demais com o mundo em detrimento da própria alma. Ou, como se demonstra no meu mundo, de que vale compartilhar seu trem com seu irmão se você fica se gabando disso? Doar é difícil; amar doar é fruto da graça, uma imagem da perfeição que almejamos.

Ao tratar da famosa passagem de Jesus confrontando o jovem rico, Clemente de Alexandria propôs que o que Jesus realmente queria dizer não era literalmente que ele desse tudo, mas ter certeza de que o coração dele estava correto, de que ele amava a coisa certa. Ao interpretar a passagem desta forma, Clemente estava tentando demonstrar que o que realmente está em jogo no materialismo é a nossa alma. Mas, ao fazer isso, Clemente involuntariamente deu a justificativa que mina a força das palavras de Jesus: a condição do coração. O que importa, Clemente pensou, era a ordenação dos desejos da pessoa e como a pessoa amava a Deus. Em outras palavras, o cristão não estava em perigo diante das riquezas, conquanto servisse a Deus em seus afetos e não a Mamon. E assim, seguindo Clemente, eu permito que meu sótão se encha de caixas de amores potenciais, de cestos de roupas um número maior prudentemente socados ali, guardados para combater a temporada de crescimento dos filhos que virá com o ano que vem.

Se a tentação de alguém é levar a simplicidade material muito a sério — buscando-a como um fardo utópico, e não como uma jornada a ser percorrida — a tentação oposta é não levar a simplicidade nem um pouco a sério. Por mais que eu ame meus filhos, os apetites deles ainda não conseguem discernir entre o suficiente e o excesso; eu devo, de acordo com Jesus, ser como eles em sua confiança, não em seu juízo. “Pelas crianças”, assim como “viva com simplicidade”, pode ser um mantra de autojustificação para cobrir uma multidão de pecados: ser discípulo e pai é ver esses dois termos não como incompatíveis, mas como a mesma coisa.

Assim como Paulo escreveu aos solteiros que seguissem a Cristo com suas vidas sexuais, ele escrever para os casados; assim como Jesus ordenou que seus discípulos saíssem de casa, ele cuidou de sua própria mãe como sua discípula. Se nosso ímpeto para a simplicidade ignora as dificuldades da vida material e exclui a profundidade dos nossos relacionamentos, negamos o valor do mundo material no processo. O desafio da simplicidade material, por mais difícil que seja, é oferecido aos pais enquanto pais. Mas o que isto pode querer dizer? Como podemos entender isto?

Em louvor à simplicidade cristã

A simplicidade cristã, se bem vivida, pega os impulsos frágeis e a estética quebrada do minimalismo e as completa de forma que engloba a tudo isto. A atratividade de movimentos como o Novo Monasticismo, que enfatiza vidas materialmente simples, é que eles não presumem de forma implícita que o discípulo ideal é aquele homem de muitas posses e nenhum filho, ou — de maneira mais clara — eles não me forçam a escolher entre o meu desejo de simplicidade e o meu desejo por filhos criados em nome de Jesus. Porque uma família deve abraçar seu discipulado conjunto, como reflexos da igreja, estranhos ajuntados pela graça de Deus para o nosso bem. E, assim, membros desses movimentos os adotam junto com suas crianças, simplificam suas vidas, compartilham suas posses pelo bem de seu próximo e do reino. Simplicidade, em outras palavras, se torna um esforço comunitário, compartilhado pelos nossos reinos domésticos. Os orçamentos das casas são abertos para a comunidade, não como uma matéria de piedade, mas como transparência perante Deus e perante um ao outro. Nessas comunidades, as crianças aprendem com seus pais e se juntam a eles neste caminho rumo a Cristo.

As redes dessas comunidades, desde Evanston, a Waco e Durham, encontram formas de atrair famílias inteiras a esta visão, reconhecendo que o cuidado pelas crianças não está em conflito com a simplicidade do evangelho e que ambos andam juntos. O que eles entendem é que o verdadeiro obstáculo para a simplicidade não é somente se alguém atinge um grau maior ou menor de minimalismo, apesar de que as Escrituras veem uma superabundância de bens como danoso a nós. O verdadeiro obstáculo à simplicidade é a busca dessa visão como uma jornada de Prometeu, criando fogo espiritual através de meios heroicos ao invés de humilde cooperação.

Em seu livro recente sobre solteirice na igreja, Jana Bennett[v] nota que frequentemente a vida espiritual ideal presume amplos recursos materiais para ser alcançada. A mãe solteira, por exemplo, deve prover para seus filhos e servir à sua piedade, esquecendo que as famílias com ambos os pais tem mais tempo e recursos para satisfazer o trabalho e as obrigações familiares. O oposto é verdade nessa busca por simplicidade: o ímpeto pela simplicidade material pode ser mais facilmente assumido por solteiros do que por famílias com crianças. O que seria um benefício numa versão burguesa do discipulado — recursos adequados para responder às obrigações sociais e religiosas — é aqui uma responsabilidade.

O verdadeiro perigo da visão utópica da simplicidade não é pensar que a simplicidade é alcançável, mas que ele é alcançável sozinha. O que precisamos, para que a simplicidade material não seja restrita aos jovens ou aos solteiros, é um ethos de levar os fardos, para que todos sejam capazes de viver nesse mundo que o evangelho descreve, um mundo que no Instagram é retratado como uma realização pessoal, mas que só é possível como um esforço coletivo. Considere novamente as palavras de Jesus em Marcos como um desafio a seus discípulos (10.29-30):

Jesus respondeu: Em verdade vos digo que ninguém há que tenha deixado casa, ou irmãos, ou irmãs, ou mãe, ou pai, ou filhos, ou campos, por causa de mim e do evangelho, que não receba cem vezes mais, agora no presente, em casas, irmãos, irmãs, mães, filhos e campos, com perseguições, e no mundo vindouro, a vida eterna.

Nessa passagem, o ímpeto pela simplicidade material como um imperativo do evangelho se depara com, na economia cristã, um depósito infindável de recursos, à medida que casas se abrem para a hospitalidade, estruturas familiares se expandem em círculos de preocupação e recursos amplos o suficiente para alimentar bocas extras. Os discípulos modernos — incluindo os que têm filhos — são atraídos a um arranjo onde todos têm o que precisam, porque a simplicidade material é uma jornada de comunidade, não uma realização heroica de um santo particular. A caminho deste lugar, várias metáforas aparecerão e nós deveríamos observar seus exemplos. O casal que mora no trailer e que viajam de cidade em cidade, como nômades, deveriam prover inspiração sem se tornarem exemplos idólatras; os monásticos sem filhos e os comunitários solteiros oferecem orientação e sabedoria sem se tornar uma forma singular de simplicidade material. Mesmo os movimentos de minimalismo no Instagram — feitos para magnificar a simplicidade em nome da simplicidade —, podem nos oferecer mais ouro egípcio que podemos remodelar em ferramentas úteis para o templo. O que precisamos não é recusar sua inspiração, mas assumir essas jornadas de simplicidade como um corpo, levando os fardos uns dos outros.


Por: Myles Werntz. © Mere Orthodoxy. Website: https://mereorthodoxy.com/burden-parenting-praise-christian-simplicity/. Traduzido com permissão. Fonte: The Burden of Parenting: In Praise of Christian Simplicity.

Original: O fardo de criar filhos: em louvor à simplicidade cristã. © The Pilgrim. Website: thepilgrim.com.br. Todos os direitos reservados. Tradução Arthur Guanaes. Revisão: Guilherme Cordeiro Pires.

O ponto de vista deste texto é de responsabilidade de seu(s) autor(es) e colaboradores direito, não refletindo necessariamente a posição da Pilgrim ou de sua equipe de profissionais.


[i] https://newrepublic.com/article/120092/billionaires-book-review-money-cant-buy-happiness. Acesso em 8 ago. 2018.

[ii] BASÍLIO, “I Will Tear Down My Barns”, In: St. Basil the Great: On Social Justice. Crestwood, NY: St. Vladimir’s Press, 2009, p. 70.

[iii] WATERS, Brent. The Family in Christian Social and Political Thought. Oxford: Oxford University Press, 2007.

[iv] ARENDT, Hannah. The Human Condition. Chicago: University of Chicago Press, 1998.

[v] BENNETT, Jana Marguerite. Singleness and the Church: A New Theology of the Single Life. Oxford: Oxford University Press, 2017.

John Milbank: um guia para os perplexos (Peter Leithart)

I. A TEOLOGIA COMO DISCURSO MESTRE.

Conheci John Milbank, meu orientador de doutorado, em um evento de boas-vindas patrocinado pela Faculdade de Teologia da Universidade de Cambridge para os novos alunos de pós-graduação. Durante a reunião, cada membro do corpo docente se apresentou e descreveu uma área de especialização. Não me lembro do qualquer outro tenha falado, mas Milbank se apresentou como um teólogo “interessado em tudo e no Deus que está além de tudo”. Essa é a especialidade dele: tudo e algo mais.

Ele não estava brincando. O escopo do trabalho de Milbank é de tirar o fôlego, sua profundidade é intimidadora, sua dificuldade é notória, sua combatividade é lendária. A densidade de seus escritos é, em parte, uma questão de sintaxe, que às vezes emula a dos teóricos pós-modernos. Com frequência, é trabalhoso ler Milbank, pois sua escrita é um emaranhado de referências. Milbank escreve como se seus leitores o acompanhassem enquanto ele lança frases como:

A relação da sociologia com De Bonald não é reconhecida tão frequentemente quanto a relação do marxismo com Hegel, em parte porque o trabalho de Durkheim ocluiu o trabalho de Comte, e Durkheim não se referiu aos reacionários católicos da maneira que Hegel foi reivindicado por Lukacs.[1]

Ele sabe do que está falando; já nós, meros mortais, não nos movemos com tanta elasticidade de uma época ou campo para outro.

Milbank é muitas coisas. Um teólogo político: seu primeiro livro foi uma crítica teológica da teoria social; seu último [até a data de escrita deste texto], um manifesto pelo pós-liberalismo (The Politics of Virtue [A política da virtude], com Adrian Pabst). Um teólogo filosófico: ele escreveu um livro sobre Tomás de Aquino (Truth in Aquinas [Verdade em Tomás de Aquino], com Catherine Pickstock), diversos ensaios sobre ontologia e ética e uma metafísica das dádivas (Being Given [Ser dado]). Um teólogo pós-moderno que se digladiou intelectualmente com Jacques Derrida, Jean-Luc Marion e Slavoj Zizek (com quem foi co-autor de A Monstruosidade de Cristo). Um platônico, um “agostiniano pós-moderno”, um tomista anti-escotista de estirpe lubaciana (vide The Suspended Middle [O meio suspenso], sobre Henri de Lubac e a nouvelle theologie). Um arqueólogo de uma modernidade antimoderna submersa, encarnada em uma tradição que se estende desde Nicolau de Cusa, através de Vico (tema de sua tese de doutorado), até J.G. Hamann e John Ruskin. Um socialista cristão, que vez ou outra tece elogios a Marx; um não hegeliano que compartilha da aspiração hegeliana de preencher a lacuna entre a razão e a razão cristã; um radical que critica o progressismo liberal de esquerda; um inimigo do aborto que defende o império; um oponente do casamento gay que apoia os direitos homossexuais; um amante de tudo que seja inglês, com um prazer infantil em elfos, duendes e outras pessoinhas; um erudito e rabugento no Twitter; e um poeta (The Mercurial Wood [A madeira mercurial]; The Legend of Death [A lenda da morte]).

A amplitude e a intensidade do trabalho de Milbank inspiraram a formação da Ortodoxia Radical (O.R.), um dos movimentos teológicos mais enérgicos dos fins do século 20. Liderada por Milbank, Catherine Pickstock e Graham Ward, a O.R. produziu diversos livros, múltiplas séries de livros, incontáveis resenhas, e uma indústria caseira de artigos científicos. Milbank tem seus discípulos, mas sua influência se estende para muito além daqueles que se identificam com a O.R. Milbank promoveu um ethos entre os teólogos mais jovens, uma confiança de que a teologia que não teme ser teológica pode dar uma contribuição singular às enfermidades intelectuais e culturais da modernidade tardia.

Dificuldade e influência não são, em si, sinais da grandiosidade de um teólogo. Se um teólogo é verdadeiramente grande, ele é deve ser um discípulo de Jesus, o que significa que, no fundo, ele será como uma criança. Milbank é um grande teólogo, e, por trás de sua ambição e complexidade, para além da pirotecnia, jaz uma simples premissa: no atual contexto cultural e político, a ortodoxia cristã representa uma posição “radical” e somente tal radicalismo é capaz de abordar as raízes das crises da modernidade tardia.

Milbank definiu a pauta da O.R. e de seu próprio trabalho na emocionante primeira página de seu primeiro livro Teologia e Teoria Social. Ele escreveu seu livro tanto para teóricos sociais quanto para teólogos. Sua mensagem aos primeiros é convencê-los de que os pressupostos que regem a teoria moderna estão intimamente relacionados às mudanças na teologia e prática cristãs, o que se opõe à auto-imagem da teoria social enquanto um discurso secularizado. Aos teólogos, sua mensagem é ainda mais desafiadora: Milbank busca “restaurar, em termos pós-modernos, a possibilidade da teologia enquanto metadiscurso”. Essa possibilidade somente pode se realizar caso a teologia moderna se arrependa de sua falsa humildade:

pathos da teologia moderna é a sua falsa humildade. Para a teologia, isso é uma doença mortal, pois, uma vez que renuncia à sua aspiração de metadiscurso, ela se torna incapaz de articular a palavra do Deus criador, estando fadada a se transformar na voz oracular de algum ídolo finito, como a erudição histórica, a psicologia humanista ou a filosofia transcendental. Se a teologia não almejar mais posicionar, qualificar ou criticar outros discursos, será inevitável que esses discursos venham a posicioná-la: pois a necessidade de uma lógica organizadora máxima não pode ser ignorada. Uma teologia “posicionada” pela razão secular é vitimada por duas formas típicas de confinamento. Ou ela vincula idolatricamente o conhecimento de Deus a algum campo imanente do conhecimento em particular — causas cosmológicas ‘últimas’ ou necessidades psicológicas e subjetivas ‘últimas’ — ou é confinada a sugestões de uma sublimidade que está além da representação, servindo então para confirmar negativamente a ideia questionável de uma esfera secular autônoma, completamente transparente à compreensão racional. [2]

Essa declaração programática — quase uma declaração de guerra — estabelece a trajetória da crítica de Milbank à razão secular e à ordem secular que desta se origina e a qual apoia, bem como de suas propostas para uma ordem pós-secular ou pós-liberal. Isso subjaz seu trabalho em metafísica e pós-modernismo. Isso explica sua atração por não teólogos como Vico, Hamann e Ruskin. Tudo o que Milbank escreveu é uma aplicação desta premissa: o trabalho da teologia é “articular a palavra do Deus criador” como a “lógica organizadora máxima” de todo pensamento e prática cultural.

Resumir esse extraordinário conjunto de obras é correr o risco de ser superficial por um lado e excessivamente complexo por outro. No esforço de escapar a esses riscos, eu sintetizei uma porção de trechos centrais ao discurso milbankiano, de modo a permitir ao leitor não iniciado não apenas avaliar as conclusões de Milbank, mas também sentir o movimento de seu pensamento.

II. A CRÍTICA DA TEORIA SOCIAL.

“Houve um tempo”, começa Milbank, “em que não havia o ‘secular’”. Ele continua:

E o surgimento do secular não foi o mero remover de algo supérfluo, como normalmente sugere a sociologia em suas teorias da “dessacralização”, a imagem de retirar de um véu sagrado, para que um certo reino de pura humanidade e natureza seja trazido à tona. Tal retrato presume que haja uma humanidade pura, que permanece sempre lá sob o véu do sagrado e da religião, sem relação com este sagrado, e assume que o humanismo é o destino natural da história, o telos inevitável ​​para os qual todas as sociedades humanas se dirigem. Ambos pressupostos devem ser contestados. [3]

Qual Charles Taylor, Milbank rejeita as teorias subtracionistas da secularização.

A abordagem de Milbank do secular é parcialmente desconstrutiva. Para Milbank, não existe uma organização puramente “natural” da vida humana. A vida humana é sempre um híbrido de natureza e cultura orientado por crenças, códigos de conduta, símbolos e rituais. O que a filosofia política (Locke e Rousseau, por exemplo) tem chamado de “estado natural” de igualdade nada mais é que uma codificação alternativa. Não é possível retirar as camadas de crença e codificação cultural e recuperar uma natureza humana em estado puro e imaculado.

A modernidade secular é uma codificação/organização particular da vida social humana, tão natural como qualquer outra — apenas diferente. O secular não estava espreitando por detrás da máscara da sacralidade; ele precisou ser imaginado, instituído e construído. A ordem secularizada parece natural porque os teóricos e economistas políticos do início da era moderna imaginaram o secular como uma esfera “natural” de puro poder, onde o interesse egoísta reina livre das restrições “artificiais” da religião e da moralidade. A teoria secularista se encaixa na moderna realidade social e política porque a própria teoria secularista participou de sua construção. A teoria social moderna constrói o objeto de sua própria teorização.

Milbank apresenta também uma genealogia da razão secular, de modo a demonstrar que ela foi construída a partir da matéria deformada da teologia e prática cristãs. O próprio “secular” é, em si, um conceito cristão. Para a patrística e o medievo, “secular” (saeculum) era um tempo, o período entre a queda de Adão e o advento final de Cristo. Portanto, toda a vida humana durante essa era é “secular”, tanto a Igreja quanto o Estado. Sob este saeculum, a paz perfeita não pode ser alcançada, medidas coercitivas e guerras ainda são necessárias, as pessoas nascem, vivem, decaem e morrem. Por mais abrangente que seja, o secular cristão é uma intrusão na boa criação e um dia será transformado em um novo céu e uma nova terra.

Os pensadores modernos espacializam o secular, concebendo-o como um espaço permanentemente separado da esfera “religiosa” ou “sagrada”. Por outro lado, a razão secular privatiza o sagrado. Ao limitar a religião, os teóricos constroem uma esfera pública na qual não há espaço para considerações religiosas ou morais, uma esfera pública dominada pelo poder e pelo lucro.

Para os modernos, tal secular espacializado é tido por natural, não no sentido escolástico (segundo o qual a natureza participa da lei eterna de Deus), mas no sentido grociano: mesmo que Deus não existisse, as leis naturais do universo ainda existiriam e poderiam ser conhecidas. Uma chave para esse desenvolvimento é o moderno renascimento do conceito estóico de conatus, o instinto universal de auto-preservação. Para a modernidade, o conatus serve como chave hermenêutica para o reconhecimento do natural em meio à vida social e econômica. O conatus sustenta uma visão do espaço secular como um domínio governado por cálculos de interesses particulares. É um conceito especialmente útil, já que aparenta ser ateológico, extraído da análise racional da experiência humana, e não da revelação. É útil para explicar — isto é, construir e defender — uma esfera secular espacializada.

Milbank realiza movimentos desconstrutivos e genealógicos semelhantes ao traçar a formação da sociologia moderna. Ele não trata a sociologia como uma “disciplina”, mas como uma cosmovisão, um ponto de vista filosófico, uma perspectiva teológica. Ele a chama de teologia e igreja disfarçada, que oferece um relato de sociedade e história incompatível com o relato cristão. O vínculo com a teologia é, em parte, genético: os teóricos sociais católicos do século 19 formularam a metafísica que seria, mais tarde, incorporada às teorias de Durkheim e Comte. Ainda, tal qual a economia política secular, a sociologia serve ao sistema de autodefesa da razão secular: ela não investiga uma entidade preexistente chamada “sociedade secular”, mas constitui e defende o secular em seu processo de teorização. A sociologia é uma igreja: ela evangeliza para a religião privada e disciplina o público secular excomungando a religião.

A sociologia surge a partir de questões acerca da relação entre o indivíduo e a sociedade não respondidas pelos primeiros economistas políticos modernos. A teoria do contrato social repousa sobre um enigma original: os homens no estado de natureza devem se comunicar uns com os outros para formar uma sociedade política, mas só podem se comunicar caso antes já existam uma linguagem compartilhada e uma cultura compartilhada (mesmo que rudimentar). Ou seja: a sociedade política só pode ser fundada se a sociedade política existir antes de sua fundação. Esse dilema é uma variação da pergunta: “Os indivíduos constroem a sociedade? Ou a sociedade é quem constrói indivíduos?” Por sua vez, Milbank acha que essa é uma aporia fundamental que não devemos tentar resolver: as sociedades são compostas por indivíduos que são formados por sociedades.

A sociologia esperava solucionar a aporia e optou por considerar a “sociedade” em vez do “indivíduo” como o dado fundamental, anterior à política ou ao estabelecimento de objetivos e aspirações individuais, anterior à cultura e religião. Nessa perspectiva, a sociedade não precisa de explicação; ela é uma explicação. O método propriamente sociológico atribui realidades políticas, econômicas, culturais ou religiosas a “causas” sociais mais profundas.

Milbank oferece a cidade medieval como um contraexemplo histórico ao quadro sociológico. Na cidade medieval, guildas e corporações foram inspiradas e infundidas pelo cristianismo. A vida política estava imbuída de regras, símbolos e rituais religiosos. Através de mecanismos como o preço justo, a economia foi moldada visando à caridade. Nesse cenário, o “social” não é sequer um fator destacável, ou mesmo distinguível. Tampouco a religião: no medievo, a religião sempre é, em si, social, tal qual a sociedade medieval é sempre, em si, religião. Quanto mais uma ordem social existe “dentro” da religião, tanto menos é possível isolar fatores sociais para explicar a religião.

Diante dessa evidência (e há muitas outras evidências, visíveis em quase todas as sociedades tribais estudadas), por que os sociólogos tratam a “sociedade” como uma variável independente, fundamental e explicativa? Em particular, por que os fatores sociais são considerados mais fundamentais que a religião? Novamente, a teologia é aqui uma chave para a formação da razão secular. A sociologia se comprometeu com o que Milbank chama de “metanarrativa protestante liberal”, um relato da história universal que traça estágios no desenvolvimento religioso — do mito e da magia, passando pelas religiões da salvação, até a moderna religião privatizada da ética e do humanitarismo.[4] Ao invés de enxergar o desenvolvimento do cristianismo ocidental do período patrístico, passando pelo medievo, até a modernidade como uma série de alterações contingentes no ethos e doutrina cristãos, Max Weber e Ernst Troeltsch elevaram esta história a uma metanarrativa, um desvelar gradual do que era latente no cristianismo desde o princípio, tal qual um desvelar da verdade universal da própria religião.

Milbank se opõe a isso, em grande parte, por universalizar uma história particular e contingente. Mas ele também demonstra que a metanarrativa protestante liberal é cúmplice do secular. O “progresso” caminha no sentido da privatização da religião, em direção ao individualismo, ao antirritualismo. Armada desta narrativa, a sociologia guarda a suposta neutralidade da ordem liberal contra qualquer sentido ou objetivo substancial englobante. Qualquer infiltração de religião pública pode ser “cientificamente” descartada como uma perigosa manifestação de paixões religiosas ultrapassadas ou primitivas. A sociologia defende a ordem secular que ela ajuda a constituir e alega estudar.

Há aqui um óbvio preconceito ocidental: sociedades avançadas e progressistas têm religiões como as nossas. Weber se opôs explicitamente a qualquer tentativa de “orientalizar” a esfera pública, a todos os esforços que visem “capturar” a esfera pública e direcioná-la a alguma concepção substancial de justiça ou bem. O que é descartado, o que se torna teórica e metodologicamente impossível, é exatamente uma visão cristã da ordem social. A sociologia secular rejeita a caridade cristã enquanto domínio público, a caridade enquanto fundamento da ordem social. Ela exclui a religião cristã, ou seja, exclui a realidade social da igreja. A acomodação da teologia à sociologia secular é sua própria autodestruição.

Observe que, ao contrário de muitas críticas religiosas à sociologia, a queixa de Milbank não é de que a sociologia seja reducionista. Ele não reclama que os sociólogos tenham se esquecido de que, além de fatores sociais, existem também fatores religiosos e iniciativas individuais que devem ser levados em consideração. Uma reação como essa nada mais é que uma concessão à razão secular na medida em que reconhece que fatores “religiosos” e “sociais” podem ser divorciados. A posição de Milbank, muito mais radical, é de que não há nada puramente “social” que possa ser isolado do complexo de realidades culturais, políticas e religiosas. A religião pode, e talvez deva, adentrar a própria formação da estrutura social. O problema não é que a sociologia seja reducionista; o problema é que não há um “social” ao qual outra coisa possa ser reduzida.

Nada disso significa que a sociologia não ofereça considerações relevantes sobre a vida humana. Milbank prontamente reconhece que os sociólogos descobrem “correlações” genuínas entre, digamos, classe social e afiliações religiosas (os episcopais tendem a ser da classe alta; os pentecostais, da baixa). O problema está sim nas explicações da sociologia (“Ele é episcopal porque é da classe alta”; “ele é contra o aborto porque é um homem branco privilegiado”).

Para os teólogos, o problema é mais fundamental. Ajustar a teologia às descobertas científicas da sociologia é uma recusa ao cumprimento do dever, uma vez que a teologia, como articulação da palavra divina, deve ver a si própria como o “discurso mestre” que situa os demais discursos, incluindo a sociologia. Um teólogo que se ajusta à sociologia nega, implicitamente, que o cristianismo possua em sua raiz uma narrativa própria da vida social e política. Ele abandona a tradição de Irineu, Agostinho, Tomás de Aquino, Calvino, Lutero, Barth e Balthasar, todos os quais desenvolveram uma visão da vida social e política a partir da Bíblia e do evangelho. Os teólogos certamente devem aceitar o serviço da sociologia enquanto serva, mas devem fazê-lo com a convicção de que a teologia já é, ela mesma, uma teoria social.

III. CRIAÇÃO, POESIA, METAFÍSICA.

Uma das principais reivindicações da razão secular é que o reino do factum, o feito, o humanamente construído, é um domínio secular, um reino da racionalidade instrumental e mecânica. Esse relato se inicia com a constatação básica de que a maior parte de nosso ambiente é produto do trabalho humano. Minha casa, meu computador, minhas roupas e até o quintal lá fora existem dentro do reino do “feito”. Nada disso ocorre naturalmente (até o meu quintal é aparado, mais ou menos), e tudo isso é completamente contingente e dispensável para a existência do mundo. Para os modernos, a ordem do mundo em que vivemos não é ordenada e estabelecida por Deus; é um produto do trabalho e da experimentação humana. Portanto, o reino da manufatura humana é um reino secular.

Além disso, para a razão secular, o fazer humano tem um propósito puramente instrumental. Nós fazemos coisas para obter os meios de nossa própria autopreservação. Construímos casas para nos guardar das intempéries, aviões e automóveis para viajar mais velozmente. O reino do feito não é o reino de uma humanidade que busca a Deus, mas um espaço da razão instrumental e do auto-interesse egoísta. Assim, o reino do feito é secular.

Milbank desafia essa equiparação do feito e do secular, mas reconhece, antes, que o reino do “feito” é contingente e não natural. Nossa ordem social e nossas conquistas tecnológicas não caíram do céu. Elas são produtos do trabalho humano.

Mas, na teologia cristã, nossos esforços criativos são uma “cooperação” humana com a criatividade de Deus. Assim, Milbank reconhece que os seres humanos não são capazes de criar ex nihilo e que a história é o desenrolar do que já se encontra presente na mente de Deus. Todavia, insiste ele que a criatividade humana é verdadeiramente criativa, isto é, não apenas um mero reorganizar da matéria, mas um verdadeiro fazer de coisas novas. As sementes “criam” novas plantas, os seres humanos produzem novos seres humanos, bem como constroem pontes, estradas, etc. Milbank combate assim uma compreensão unívoca da criação como um jogo de soma zero, que supõe que, se Deus é criativo, nós não o somos. Em vez disso, ele insiste (de modo explícito) na analogia: porque Deus é criativo, nós também o somos.

Embora frequentemente aliado a Tomás de Aquino, Milbank o utiliza aqui como exemplo de tal concepção por sua compreensão sobre a criatividade humana. Segundo Tomás, o ser é um efeito da criação e não depende de contribuição alguma proveniente da causalidade finita; a agência criativa requer não somente “possuir um ser”, mas “ser em si”. Assim, somente Deus cria. A causalidade finita não alcança, portanto, as subsistências particulares, mas apenas os acidentes ou ao nível de gênero e espécie. Embora causas finitas possam dar novas formas às coisas, elas não são capazes de, em um sentido criativo mais profundo, criar as coisas.

Tomás busca, justificadamente, proteger a singularidade da existência de Deus in se, mas ao fazer isso, afirma Milbank, ele teria erroneamente restringido “a causalidade transitiva humana ao nível da forma/matéria, ao invés do nível de esse/essentia” e, portanto, deixado de ver que “a singularidade, a subsistência independente de cada coisa nova que surge não é apenas uma modificação ou uma realidade finita preexistente (…), mas também parte de um contínuo irromper ex nihilo.” Para Tomás de Aquino, a criação humana é “mera bricolagem”. [5]

Frente a isto, Milbank defende que, embora a criação original seja única, a essência da existência criada é o perpétuo originar, um contínuo vir a ser de novas coisas e situações. Uma mesa não é mera “madeira reorganizada”; é algo ontologicamente novo, que não existia antes de ser construído. A invenção humana cria novos tipos de coisas — lâmpadas, livros e computadores.

Em resposta à alegação de que o feito é tão somente “instrumental” e “secular”, Milbank sustenta que o fazer deve ser entendido como um esforço em direção à autotranscendência, como “poesis”. O termo é de origem aristotélica, mas Milbank dá um retoque cristão a Aristóteles. Aristóteles distinguiu entre práxis, relativa a ações cujos efeitos permanecem dentro do sujeito, e poesis, ações “transitivas” que se agregam a algo externo ao sujeito. Milbank apaga essa distinção ao apontar que nenhuma ação permanece integralmente dentro do agente apenas, já que a pessoalidade humana é realizada exteriormente em sua relação com os outros e a criação, onde nos formamos através do que fazemos. Como resultado, o ser humano é “um ser fundamentalmente poético”. [6] Como Milbank explica:

Podemos ficar tão impressionados com o reconhecimento aristotélico de que somos as nossas ações, em vez de uma vontade sem conteúdo que se oculta por detrás delas, que deixamos de perceber a contestabilidade da ideia de ações “nossas”, ações sem saída, a que possuímos. […] Logo, deveríamos começar com a percepção de que toda ação é uma exteriorização e um deslocamento, toda ação é “poética”, uma perda e um ganho, tanto uma autoexposição quanto uma autoimposição. A distinção entre “ações” e “fazeres” surge apenas conforme a convenção social e linguística, que determina que certos fazeres sejam mais vigorosamente atribuídos a uma pessoa do que a outras, razão pela qual se considera que “permanecem” com ela e, portanto, a “caracterizam”. [7]

Embora “todas as culturas codifiquem uma diferenciação entre agir e fazer”, essa diferença sempre será em si uma construção “poética”, uma definição culturalmente determinada de “quais ações externas importam e quais não”.

Provocativamente, Milbank sugere que é o platonismo residual que nos leva a crer que nossas “ideias” preexistem e independem de nossas estruturas e produtos culturais. Milbank sustenta que não fazemos coisas tão somente para dar expressão pública a ideias pré-existentes. Pelo contrário, é a ideia que é formada e transmitida através da feitura do que fazemos. Em parte, essa é uma questão sobre a linguagem: conhecemos e temos ideias por meio da linguagem, sendo ela mesma um produto cultural. Descobrimos o que nós pensamos ao expor argumentos no espaço público, onde poderão ser debatidos. Ele também aponta o fato de que as coisas que fazemos não são meras expressões do que já existia de modo perfeitamente delineado em nossas mentes. Há um saldo positivo no real feitio das coisas que supera nossa prévia concepção delas. Nossos pensamentos se realizam no mundo material da construção humana.

Por detrás dessa valorização da criatividade humana há uma alegação sobre a teologia propriamente dita. Nicolau de Cusa especulou acerca da Segunda Pessoa da Trindade como a “Arte” de Deus, de modo que, sem negar a fórmula Nicena, ele pudesse falar de uma espécie de “fazer” ou de arte eternos na geração do Filho pelo Pai, que tornou “a criatividade interior de Deus definidora da essência divina”. Dessa maneira, o factum se tornou um dos transcendentais. O “fazer”, a criatividade, está entre os principais atributos da Trindade; uma “criação” ad intra fundamenta o ab extra. [8] Na leitura de Milbank, Cusa tornou a criação, e não o Ser [esse], o principal conceito filosófico. [9]

Feito à imagem de Deus, o homem é homo creator e, assim como o Pai nunca está sem sua eterna “Arte”, os artefatos humanos não são uma realidade secundária enxertada em uma existência “natural” mais básica, mas são “completamente equiprimordiais” com a própria humanidade. [10] Sendo o fazer humano um reflexo da eterna natureza trinitária e do trabalho incessantemente criativo de Deus, ele não é “secular” ou “neutro”, mas sim um alçar-se à transcendência, uma imitação e participação na ação continuamente criativa de Deus.

IV. ONTOLOGIA DE VIOLÊNCIA, ONTOLOGIA DE PAZ.

A partir do resumo da crítica de Milbank ao secular e à sociologia, é evidente que ele se utiliza das ferramentas da teoria pós-moderna, seja a desconstrução de Derrida ou a genealogia foucaultiana. Porém, Milbank, fundamentalmente, é tão contrário à teoria pós-moderna quanto à razão secular moderna. Apesar de sua alegada isenção, o pós-modernismo se baseia em uma ontologia implícita, que está relacionada com uma prática política perniciosa.

Milbank coloca a genealogia contra os genealogistas. Tanto Nietzsche quanto Foucault afirmaram ser mestres da suspeita; seu método cético revelaria o que verdadeiramente se passa na história. Nietzsche reduz a história a um exercício da vontade de poder. O cristianismo seria, então, especialmente perverso exatamente por mascarar sua vontade de poder sob uma aparente renúncia ao poder.

Milbank levanta suspeitas contra dos heróis da suspeita. Ele pergunta: como pode a genealogia justificar sua afirmação de que a violência é a realidade fundamental da história? É difícil imaginar como um genealogista poderia defender genealogicamente essa reivindicação. A genealogia nietzschiana repousa sobre um compromisso metafísico anterior. Embora Nietzsche anuncie o fim da metafísica, na verdade, ele apenas oferece uma metafísica diferente. Os genealogistas se concentram no poder e na violência porque assumiram o que Milbank descreve como uma “ontologia de violência”.

A filosofia pós-moderna é fundamentalmente uma forma de gnosticismo que trata a criação como se fosse inerentemente, metafisicamente, caída, conflituosa e violenta. Nenhuma redenção é possível. Toda diferença é diferença em conflito. Para Derrida, por exemplo, a interpretação inevitavelmente violenta o texto original; interpretar é sempre subverter. Por que seria assim? Porque, para Derrida, não há base ontológica para uma harmonia da diferença. Violência e conflito são assim “ontologizados”, projetados como a realidade última. Em suma, a teoria linguística de Derrida repousa  em premissas gnósticas. É a teologia herética novamente contribuindo para a formação de um discurso secular.

Tal como a sociologia, a genealogia termina com um relato paradoxalmente a-histórico da história. Para a sociologia, “sociedade” é algo imutável que produz o cambiante cenário religioso, cultural e político. Para a genealogia, o poder é reificado enquanto fundamento a-histórico por detrás dos padrões cambiantes da história. Milbank é aqui mais “pós-moderno” e historicista do que Nietzsche, na medida em que rejeita a noção de que exista um “alicerce” imutável da história. Há tão somente o padrão em constante mudança, misteriosamente governado pela providência de Deus.

A genealogia termina por ser cúmplice da violência que afirma expor e desmascarar. Afinal, se a violência é a verdade das coisas, então talvez as sociedades transparentes quanto ao seu compromisso com a violência sejam também mais verdadeiras do que aquelas que ocultam esse compromisso. Assim, os regimes fascistas e as sociedades heroicas são mais honestos e, portanto, mais morais do que as sociedades cristãs. Milbank sugere que Nietzsche tenha lido Agostinho de trás para frente: ele concorda com Agostinho que a virtude pagã era mera autoafirmação e violência, mas se deleita nesta visão, ao invés de, como Agostinho, condená-la à luz de uma configuração alternativa da vida humana.

Para Milbank, a Cidade de Deus de Agostinho é especialmente relevante. Agostinho “desconstrói” a antiga virtude romana, mostrando que as virtudes dos pagãos eram “vícios esplêndidos” que se reduzem a um exercício competitivo de violência. Para os romanos, o homem virtuoso é aquele que suprime suas paixões e obtém vitória sobre elas. Politicamente, isso se traduz em império: ao controlar suas paixões, o romano alcança glória e preeminência. A virtude é a conquista em meio a um conflito e a Pax Romana é a virtude romana em escala monumental; a paz romana é estabelecida pela violência, uma contenção da violência através do exercício ou da ameaça de violência.

Para Milbank, ontologia, política e ética formam um conjunto coerente, quer no interior do pós-modernismo, do pensamento antigo ou do cristianismo. Antiga ou pós-moderna, essa ontologia política da violência está enraizada nas cosmologias que concebem a “criação” enquanto a narrativa do demiurgo que controla o caos. Como Milbank expressa de maneira impressionante, os antigos são incapazes de vislumbrar a virtude sem conflito e competição; portanto, são também incapazes de imaginar a virtude no céu, onde todo conflito cessou. Para Agostinho, ao contrário, a virtude se encontra preeminentemente no céu, já que a virtude é, em si, harmonia e amor.

Assim, apesar de todas as suas diferenças, o pós-modernismo e a filosofia antiga compartilham um compromisso com a violência. Por esse motivo, nenhum renascimento da virtude antiga é capaz de enfrentar o desafio do niilismo pós-moderno. A batalha entre a virtude antiga e o niilismo pós-moderno é apenas uma disputa familiar. O que necessitamos é de uma ontologia totalmente diferente, que rejeite a ultimidade da violência.

O cristianismo agostiniano fornece uma alternativa sob a forma de uma contra-história em resposta à genealogia, uma contra-ética em resposta à virtude antiga e uma contra-ontologia de paz em lugar de ontologia da violência.

A contra-história é a história de Israel, Cristo e sua Igreja. Esta é a “metanarrativa” cristã dentro da qual todas as outras histórias e eventos devem encontrar seu significado. A igreja “se define tanto em continuidade quanto descontinuidade com a comunidade de Israel; posteriormente, ela se define em uma descontinuidade ainda maior para com as sociedades ‘políticas’ do mundo antigo. Esse relato da história e crítica da sociedade humana não é de forma alguma um apêndice ao cristianismo — pelo contrário, pertence à sua própria ‘essência’”. Esta é “uma enorme reivindicação acerca da própria capacidade de ler, criticar e expor o que acontece nas demais sociedades humanas”, que “é parte essencial da Igreja Cristã”. [11]

Na visão de Milbank, “a renúncia da teologia a esta reivindicação, de modo a permitir que outros discursos — as ‘ciências sociais’ — sejam portadoras de leituras ainda mais fundamentais, equivaleria a uma negação da verdade teológica. A lógica do cristianismo envolve a afirmação de que a ‘interrupção’ da história por Cristo e sua noiva, a Igreja, é o evento fundamental, que interpreta todos os demais. E este é, acima de tudo, um evento social, capaz de interpretar outras formações sociais, pois as compara com sua própria nova prática social”.[12] Agostinho conseguiu, a partir da perspectiva desta história, reescrever a história do paganismo e expô-lo como fundado em violência, interesse egoístico e desejo de domínio. De igual modo, Milbank busca desconstruir a razão secular.

A contra-ética é uma ética eclesial. O cristianismo não rejeita por completo a antiga associação entre ética e polis. Para o cristianismo, a ética ainda se localiza e se realiza na comunidade, mas esta comunidade é a nova comunidade da Igreja. Dentro dessa contra-sociedade, uma nova prática social é formada. A igreja é uma sociedade em que a prioridade é o perdão dos pecados e carregar o fardo um dos outros substitui a rivalidade e a vitimização. A nova polis da igreja oferece um modelo pastoral de governo que, com o passar do tempo, sangra para transformar a prática política. Ainda existe, aponta Milbank, espaço para a coerção sob certas circunstâncias; todavia, esta não é o exercício de domínio enquanto um fim em si, mas é sempre, como defendeu Agostinho, uma correção para o bem daquele que é coagido. Mesmo a coerção é infundida e qualificada pelo amor.

Como resultado, a paz da cidade cristã não é a falsa paz de Roma, uma paz alcançada pela violência dissuasiva. Ao contrário, no Espírito, a Igreja se esforça em direção à verdadeira paz, que é harmonia absoluta e amor, o consenso em amor. Para o cristianismo, a virtude não é a supressão das paixões, o reprimir do desejo, mas um redirecionamento do desejo para seu correto objeto. Nem a paz nem a virtude se baseiam na violência.

A contra-história e a contra-ética são ambas sustentadas por uma contra-ontologia da paz. Diferentemente da antiguidade e do pós-modernismo, o cristianismo não enxerga a diferença como inerentemente conflituosa. Ao contrário, ele reconhece a diferença como condição de possibilidade para comunhão e harmonia. A realidade última é o Deus Triúno, que não é uma mônada indiferenciada. Ele é três e, assim, a diferença não é um fato ameaçador. Ademais, a diferença trina não é uma diferença de antagonismo e conflito violento, mas uma diferença em unidade, uma diferença unida em amor, uma harmonia na diferença.

Na visão de Milbank, a modernidade secular é, em si, um regime de violência que não pode ser superado nem pela violência da antiga virtude, nem pelo pós-modernismo. Para Milbank, é o cristianismo quem fornece a única alternativa abrangente à ordem secular, moderna ou pós-moderna.

V. CONCLUSÃO.

Este ensaio não é uma refeição completa, sequer o prato principal. Mal merece ser chamado de aperitivo. É mais uma amostra que, torço eu, será tentadora o suficiente para que o leitor fique sedento por mais.


Notas:

  1. Theology and Social Theory. Oxford: Blackwell, 1990, p. 61. A frase foi escolhida de modo um tanto aleatório dentre centenas de frases similares em meio à obra de Milbank. 
  2. Theology and Social Theory, p. 1. 
  3. Theology and Social Theory, p. 9. 
  4. Esta narrativa foi profundamente moldada pela disciplina acadêmica dos estudos bíblicos. A hipótese documental JEDP [também conhecida no Brasil como Teoria das Fontes] acerca das origens do Pentateuco supõe que os antigos israelitas eram piedosos protestantes de uma igreja sem ligação com o poder político (com o carinhoso Deus do J), que degeneraram no catolicismo (com o austero e distante Deus do P).
  5. The Religious Dimension in the Thought of Giambattista Vico, 1668-1744: Part 1: The Early Metaphysics. Studies in the History of Philosophy #23; Lewiston, NY: Edwin Mellen, 1991, pp. 23-26, 28. 
  6. The Word Made Strange: Theology, Language, Culture. Oxford: Blackwell, 1997, p. 124. 
  7. Theology and Social Theory, pp. 356-357. 
  8. Theology and Social Theory, pp. 27-30, 82-84, 126-132. 
  9. Theology and Social Theory, pp. 22. 
  10. Theology and Social Theory, pp. 31, 88, 101. 
  11. Theology and Social Theory, pp. 387-88. 
  12. Theology and Social Theory, pp. 388. 

Por: Peter Leithart. © Mere Orthodoxy. Website: https://mereorthodoxy.com/john-milbank/. Traduzido com permissão. Fonte: John Milbank: A Guide for the Perplexed

Original: John Milbank: um guia para os perplexos © The Pilgrim. Website: thepilgrim.com.br. Todos os direitos reservados. Tradução: Matheus Carvalho. Revisão: Guilherme Cordeiro.

.O ponto de vista deste texto é de responsabilidade de seu(s) autor(es) e colaboradores direito, não refletindo necessariamente a posição da Pilgrim ou de sua equipe de profissionais.

O que não te mata: o evangelho da fraqueza, vulnerabilidade e esperança (Tish Warren)

Foto por Jordan Madrid

Bem, pode aguentar que eu vou reclamar, vou chorar minhas pitangas, mas tenho algo a dizer.

Três semanas atrás (em junho de 2015), recebi uma mensagem de voz da minha mãe me dizendo que meu pai tinha sofrido um ataque cardíaco num cruzeiro no meio do golfo do México. Depois de um dia assustador na enfermaria do navio, meu pai (com minha mãe ao seu lado) desembarcou por motivos médicos em Cartagena, Colômbia. Em dois dias, de algum jeito eu fiz um malabarismo burocrático para conseguir uma renovação relâmpago do meu passaporte e voar para a Colômbia com minha irmã. Para nossa alegria, meu pai começou a melhorar. Voltamos para casa. Uma semana depois, com meu pai já a salvo nos Estados Unidos, fiz uma viagem de 30 horas com duas crianças pequenas para comemorar a formatura do meu esposo. Na volta para casa, meus filhos ficaram doentes. Passei noites limpando vômito, lavando lençóis e consolando uma criança tristonha de 4 anos.

Agora estou acabada. Exausta. Completamente.

O tempo que passamos na America do Sul foi um furacão de alegria misturada com sofrimento — dias divididos entre desvendar a incrível beleza colombiana (e seus bichos-preguiça!) e esperar no hospital, tentando traduzir as perguntas médicas. O tempo que passamos na viagem foi de ver grandes amigos e celebrar as realizações do meu esposo, mas também de intrigas familiares, longos dias de viagem e noites compridas de enfermidade.

Em meio a tudo isso, o velho ditado passava na minha cabeça: o que não te mata te torna mais forte. Ele ecoava, enchendo minha cabeça enquanto eu segurava a mão de meu pai no hospital e acariciava as costas da minha filha enquanto ela se dobrava sobre o balde ao lado da cama.

A razão pela qual eu pensei tanto sobre esse clichê é que ele não me convencia nem um pouco. Eu não sinto que esses dias difíceis, esses estresses e sofrimentos e desafios, estão me tornado mais forte. Ao fim dessas três semanas, me sinto profundamente fraca e vulnerável.

Eu citei essa frase famosa para o meu marido e ele me lembrou que foi Nietzsche, que via a força como o fim supremo, quem primeiro a disse. Originalmente a frase, como está escrita em seu Crepúsculo dos ídolos, diz o seguinte: “Da escola de guerra da vida: o que não me mata me torna mais forte.”

Ao envelhecer nesta vida, enfrento, dia a dia, coisas grandes e pequenas que são difíceis e que ainda não me mataram. E estou descobrindo que o que não me mata me torna mais fraca, e talvez não tenha problema nisso— talvez este seja o caminho da redenção. Na escola de amor da vida, o que não nos mata nos torna mais necessitados e, portanto, mais aptos a dar e receber amor.

As pessoas que mais admiro são aquelas que sofreram e, no processo, se tornaram lindamente fracas — como pregos, sem se endurecer nem ficarem amargurados, mas homens e mulheres que aceitaram as vulnerabilidades com alegria e aceitação e confiança. Uma heroína minha é minha amiga Marcia; ela é uma daquelas viúvas com grandes histórias. Ela aprendeu muito da vida e tem algumas histórias de sofrimento, mas seu apetite pela bondade e beleza é contagiante. De alguma forma, seu sofrimento a permitiu viver de forma vulnerável e empática num mundo tenebroso. Para mim, ela é quase resplandecente, como um balão chinês, feito com um papel fino o suficiente para a luz brilhar de dentro dele.

No ensaio de Walker Percy, Stoicism in the South [Estoicismo no sul], ele argumenta de forma convincente que o cristianismo do sul dos Estados Unidos, em que eu cresci, é influenciado mais por uma filosofia estóica do que por uma noção radical de um Deus que se esvaziou e se tornou fraco. Esse tipo de pensamento estoico pode se esgueirar na nossa fé e nos fazer acreditar que nós temos o suficiente de autocontrole, coragem e poder, e que nós podemos de alguma forma evitar o aguilhão do sofrimento.

Eu creio, proclamo e tenho ensinado 2Coríntios 12, a surpreendente mensagem que Paulo recebe de Deus: “A minha graça te é suficiente, pois o meu poder se aperfeiçoa na fraqueza.” E tudo que eu quero é ser como S. Paulo: me gloriar alegremente na minha fraqueza. Mas, na vida diária, meu padrão é o estoicismo — eu avanço, evitando sentimentos profundos, abaixo a cabeça e apenas continuo. Quando dou de cara com meus próprios limites, ou quando me deparo com a dor ou o medo, quer seja na escuridão mais densa ou nas lutas diárias e ordinárias deste mundo quebrado, geralmente reajo com autoproteção, com raiva, ou arranjando um monte de coisas para fazer ou me distrair.

Quero aprender as habilidades e hábitos de abraçar a fraqueza. Quero aprender a encarar a perda, a senti-la e trazê-la a Cristo em oração, silêncio e gemidos. Quero aprender a admitir perante Deus, os outros e mim mesma minhas necessidades e limitações, sem me esconder ou dar desculpas.

Mas nessa mistura estranha de cristianismo e estoicismo em que estamos submersos, me pego tentando evitar a vulnerabilidade — tentando ser perfeitamente forte e segura — enquanto ao mesmo tempo sigo ao Cristo da cruz. Muitos anos atrás, numa quarta-feira de cinzas, me ajoelhei na igreja para receber as cinzas ao lado de uma garotinha que talvez tinha 9 ou 10 anos. Nosso pastor marcava nossas testas com cinzas, fazendo o formato de uma cruz, uma lembrança de nossa esmagadora fraqueza, um sinal de que toda nossa vaidade e realizações acabarão numa sepultura. Então ouvi minha vizinha virar para sua mãe e sussurrar “A minha cruz está bonita?”

Eu ri. Era uma pergunta absurda. Ela tinha um borrão preto na testa. Claro que não estava bonito. Mas eu também ri porque vi meu coração naquela pergunta. Quero caminhar esse caminho da cruz e ainda assim parecer que estou bem: eu sou forte, competente, tenho tudo na minha vida indo mais ou menos bem. Quero evitar a vergonha da minha fraqueza, do fato de que estou quebrada, com meus pecados mais vergonhosos e difíceis de administrar ainda presente. Quero andar com Jesus, mas também quero parecer bonita.

Mas a mensagem do evangelho é humilhante para aqueles que querem ser fortes. Cristo veio para os enfermos, os fracos, os vergonhosos. O caminho da cruz é um caminho de fraqueza, necessidade e profunda vulnerabilidade. No ensaio de Marva Dawn The Tarbernacling of God and a Theology of Weakness [O tabernacular de Deus e uma teologia da fraqueza], Dawn nos lembra que:

Ainda que Cristo tenha efetuado expiação por nós por seu sofrimento e morte, o Senhor efetua o testemunho para o mundo através da nossa fraqueza. De fato, Deus usa mais da nossa fraqueza do que da nossa força. Assim como as potestades extrapolaram seus limites e viraram deuses, o nosso poder pode se tornar rival de Deus. Como os Salmos e Isaías nos ensinam, Deus não nos tira das nossas tribulações, mas nos consola em meio a elas e “troca” nossa força perante elas. Por nossa união com Cristo no poder do Espírito, na nossa fraqueza demonstramos a glória de Deus.

Cristãos também acreditam que esse caminho da cruz, de forma misteriosa, mas real, também é um caminho de alegria. Essas semanas difíceis me tornaram mais fraca, mas, pela obra do Espírito, elas, assim espero, podem me tornar mais viva, mais capaz de demonstrar a glória de Deus enquanto minha força se esvai. Claro, os borrões nas nossas testas, esse pecado e morte, esse evangelho humilhante, não são muito bonitos. Mas somos amados pelo nosso Criador e, portanto, levados da cruz para a ressurreição.

Não há esperança real no estoicismo, em só aguentar e respirar fundo até um dia morrer. Em Cristo, a esperança nasce da fraqueza e da necessidade. À medida que Deus me guia pelo sofrimento e pela alegria, sejam grandes ou pequenos — essas coisas que não me matam —, minha oração é que seja uma escola de amor, um caminho para aprender a verdadeira vulnerabilidade, aprender a imitar a Deus como filhos amados que receberam amor e que podem ser vulneráveis o suficiente para dá-lo também.  

Por: Tish Harrison Warren. © ArtHouseAmericaBlog. Website: https://www.arthouseamerica.com/blog/that-which-does-not-kill-you-the-gospel-of-weakness-vulnerab.html. Traduzido com permissão. Fonte: That Which Does Not Kill You: The Gospel of Weakness, Vulnerability, and Hope

Original: O que não te mata: o evangelho da fraqueza, vulnerabilidade e esperança © The Pilgrim. Website: thepilgrim.com.br. Todos os direitos reservados. Tradução: Arthur Guanaes. Revisão: Guilherme Cordeiro Pires.O ponto de vista deste texto é de responsabilidade de seu(s) autor(es) e colaboradores direito, não refletindo necessariamente a posição da Pilgrim ou de sua equipe de profissionais.

Liderando depois da nevasca: por que agora toda organização será uma startup

(Andy Crouck, Kurt Keilhacker e Dave Blanchard(Andy Crouck, Kurt Keilhacker e Dave BlancharL

Resumo

  1. O novo coronavírus não envolve os líderes simplesmente “aguentarem” por alguns dias ou semanas. Pelo contrário, precisamos tratar o COVID-19 como uma nevasca, um inverno e uma “pequena era do gelo” econômica e cultural — uma mudança definitiva e drástica que provavelmente afetará nossas vidas e empresas por anos.
  2. Devido à natureza complexa e interconectada da nossa sociedade e economia, a maioria das empresas e organizações sem fins lucrativos estarão “falidas de facto” a partir de hoje, na medida em que os pressupostos que sustentavam suas instituições não são mais verdadeiros.
  3. A prioridade dos líderes deve ser aumentar a confiança no seu playbook o mais rápido possível, desenvolver outro que honre a sua missão e as comunidades que servem, e tornar a maior parte dos ativos da empresa — pessoal, capital financeiro e social — dependentes de relacionamentos e confiança.
  4. O potencial criativo para esperança e visão não tem paralelos hoje — mas, paradoxalmente, essa criatividade só estará plenamente disponível se também dermos espaço ao luto e lamento.
  5. Nós escrevemos este texto por amor a líderes cristãos e seu trabalho, com humildade num tempo de considerável incerteza e uma esperança em oração de que Deus frustrará essas previsões, na sua graciosa providência, agindo miraculosamente por meio da criatividade humana neste tempo

Não vamos voltar ao normal. Se você é líder de uma empresa, é hora de reescrever a sua visão — aquela apresentação que tantas empresas têm que resume o que vocês são, a quem vocês servem, por que vocês o servem e o que vocês fazem e como vocês o fazem. Neste ensaio, vamos explicar por que pensamos que chegou a hora da maioria das organizações — empresas, organizações sem fins lucrativos e até igrejas — remodelar o nosso trabalho à luz do que cremos ser não uma “nevasca” que durará semanas, não um “inverno” que durará meses, mas algo mais próximo ao começo de uma “era do gelo” de 12 a 18 meses em que boa parte de nossos pressupostos e abordagens precisarão mudar para sempre. Quase todos nós podemos e devemos manter os três primeiros slides da nossa apresentação, mas todo o resto deve ser reavaliado.

Escrevemos especialmente para líderes de empresas e organizações sem fins lucrativos que são cristãos, porque os cristãos são os mais preparados para encarar a realidade atual com realismo de olhos abertos e esperança sem paralelos. Neste ensaio, nós esboçamos os maiores desafios que enfrentaremos e alguns passos que podemos tomar, reconhecendo que todos nós estamos sujeitos a profundas incertezas não só sobre o futuro, mas também sobre o presente. Nós escrevemos confiantes de que Jesus é Senhor, que mesmo neste momento ele está agindo poderosamente nas nossas vidas e que Deus é bom.

Este momento apresenta a maior crise de liderança que já enfrentamos. Será um momento de incrível criatividade, embora também seja um momento de inevitável dor e perda. Vamos descobrir que, embora muitos recursos estejam subitamente disponíveis para nós, o recurso mais essencial ainda está disponível e a realidade mais importante não mudou. A realidade é que Deus nos chamou num momento como este, nos deu uma missão e uma comunidade a quem servir, e ainda temos o recurso mais importante, que é a confiança no contexto do amor. Tudo depende de quão rápida e completamente iremos agir para usar esse recurso, a partir de hoje.

A nevasca

Michael Osterholm, um especialista em doenças infecciosas da Universidade de Minnesota, tem falado sobre a visão de “nevasca” para a crise atual. Essa é, na nossa opinião, a forma que a maioria dos americanos estão respondendo atualmente ao COVID-19 e às medidas restritivas aplicadas por autoridades de saúde pública. Tratar a crise como uma nevasca é reconhecer que as coisas estão bem difíceis, fornecer apoio emocional e prático para as necessidades imediatas e exortar as pessoas a tomarem medidas extraordinárias que não só seriam impensáveis em outros tempos, mas também são insustentáveis por um longo período de tempo. Se a crise gerada pelo COVID-19 é uma nevasca, ela logo acabará, todos vamos sair dos nossos abrigos e voltar à vida como era antes. O nosso papel na nevasca é esperá-la passar.

De fato, porque a natureza desta crise se evidencia completamente apenas em hospitais de algumas cidades americanas e mais remotamente em lugares como Itália e Wuhan na China — lugares onde trabalhadores da linha de frente estão totalmente sobrecarregados com seu trabalho e de fadiga, demais para comunicar com o mundo externo — há muitas pessoas (embora menos a cada dia) que precisam se convencer de que a nevasca chegou. Muitos já lideraram bem nesse período, e ainda precisam continuar liderando, para convencer os americanos que uma crise aguda e urgente requer ação imediata.

O problema é só que quase ninguém trabalhando com saúde pública — certamente não Osterholm — crê que uma nevasca é a melhor analogia para entender esta crise. Na verdade, como Osterholm disse em diversas entrevistas, devemos estar pensando mais como “o começo de um inverno”

O inverno

O inverno pode começar com uma nevasca, mas é uma estação que dura meses, não apenas num evento único. Em climas mais frios, o inverno significa que eventos mais agudos periodicamente (nevascas) se intercalam com um período contínuo em que a atividade humana precisa se adaptar a condições amargamente inóspitas.

Isso é quase certamente a realidade do COVID-19 nos Estados Unidos e em vários outros países. Isso não será um evento durando algumas poucas semanas. O presidente dos Estados Unidos, aconselhado por especialistas bem respeitados em saúde pública como o Dr. Anthoy Fauci e a Dra. Deborah L. Birx, afirmou em 16 de março que os americanos deveriam esperar que as medidas para combater a disseminação do vírus durasse até “julho ou agosto”.

Embora autoridades americanas federais e locais estejam ordenando e orientando medidas com um prazo de duas ou três semanas (com instruções de permanecer em casa em muitos locais) até oito semanas (orientações para cancelar eventos públicos), ninguém deveria imaginar que a estação do COVID-19 terá terminado neste tempo, certamente não numa escala nacional. O governador do estado de Nova York, Andew Cuomo, afirmou que os casos na cidade de Nova York não atingirão o seu pico em 45 dias (por volta de 1º de maio). Mas a cidade de Nova York, bem como Seattle e a região metropolitana de San Francisco, está consideravelmente mais desenvolvida em relação a outras regiões do país, que provavelmente verão o mesmo crescimento exponencial de casos nas semanas vindouras. Como o presidente e seus conselheiros afirmaram, os americanos devem esperar que medidas drásticas serão necessárias pelos próximos quatro ou cinco meses, e não semanas.

Assim como no inverno, haverá variantes regionais. Por exemplo, as formas mais extremas de distanciamento social, como a ordem em San Diego em 17 de março que parecia proibir aglomerações de qualquer tamanho fora de unidades familiares ou de lares, e as ordens recentes em California e Nova York, nunca foram tentadas por meses. Isso é uma resposta a nevascas. Essas medidas certamente terão um efeito no número de novos casos, incluindo casos críticos, e irão “achatar a curva” até certo ponto e aliviarão a pressão dos sistemas de saúde locais. À medida que a curva achatar, a pressão em autoridades de suspender as restrições mais drásticas será intensa — apropriadamente, porque tal isolamento é extremamente difícil para seres humanos aguentarem e carrega seus próprios riscos relacionados a doenças e mortalidade.

Então é provável que em poucas semanas algumas regiões, especialmente aquelas que experimentaram “nevascas” em seu sistema de saúde mais cedo, suspendam as restrições até certo ponto. Mas outras regiões terão de implementá-las pela primeira vez. E a verdade difícil de engolir é que qualquer relaxamento das restrições provavelmente levará a um aumento dos casos. Por várias semanas, a China relatou casos decrescentes de COVID-19 a nível nacional, refletindo o sucesso do país em reduzir o valor epidemiológico chamado de R (o número de pessoas infectadas por um único vetor) a menos de 1. Nos últimos dias, à medida que boa parte da China voltou a trabalhar, o valor nacional de R na China novamente voltou a ultrapassar a marca de 1.

Lutar uma pandemia com as características do COVID-19 não é rápido.

Há uma grande controvérsia sobre o sucesso de países como Coreia do Sul, Cingapura e, acima de tudo, Taiwan de conter o COVID-19, sem aplicar até agora as medidas extremas que estão sendo impostas em muitos lugares dos Estados Unidos. Esses países podem nos dar certa esperança de que, para estender a metáfora, o inverno para alguns poderá ser relativamente ameno. Mas a vida nesses países está longe de normal até hoje, eles são bem diferentes culturalmente dos Estados Unidos e eles tomaram passos mais cedo na crise que agora podem não estar mais disponíveis para nós.

No final das contas, o que resta é que, mesmo agora que lidamos com a nevasca atual e convencemos outras pessoas que a nevasca chegou, todos nós deveríamos nos preparar para um inverno em que aspectos incontáveis da nossa sociedade seriam reconfigurados. Mesmo nas semanas mais leves, a vida será radicalmente diferente do que foi nas semanas passadas; e, como o inverno no norte dos EUA, uma tempestade de neve pode surgir a qualquer momento e parar a vida de todo mundo.

Lidar com isso, por si só, já seria um grande desafio para os líderes. Mas o nosso conselho e planejamento para as organizações que lideramos e aconselhamos é preparar para uma terceira realidade também.

A pequena era do gelo

“O ano de 1816 é conhecido como o ano sem verão”, começa a página da Wikipédia em inglês sobre o tema. A erupção do monte Tambora no que hoje é a Indonésia levou a uma nuvem de cinzas que reduziu a radiação solar, causando várias colheitas fracassadas e uma baixa enorme nas temperaturas, com geadas no verão registradas por toda Europa e América do Norte. 1816 chegou ao fim do que é conhecido por muitos climatologistas como “A pequena era do gelo”, uma baixa de temperaturas que durou vários séculos no hemisfério Norte e moldou profundamente a história europeia.

A metáfora é óbvia. Assim como o inverno é mais crônico e duradouro que uma nevasca, e requer formas diferentes de adaptação, sendo medidas mais abrangentes do que simplesmente se retirar por alguns dias ou semanas — da mesma forma, há eventos de ainda maior escala que mudarão o clima ao longo de incontáveis estações posteriormente.

A pequena era do gelo durou pelo menos trezentos anos. Ninguém espera que os efeitos do COVID-19 serão dessa magnitude — nós temos a dádiva inestimável da medicina moderna, bem como sistemas de comunicação e coordenação, que quase certamente permitirão o nosso mundo mitigar os efeitos diretos do vírus dentro de poucos anos. A Gripe Espanhola durou de 1918 a 1920 numa era em que não havia testes ou vacinas efetivas. Isso parece ser o pior limite possível para o COVID-19 também. Um período geralmente aceitável para o desenvolvimento de uma vacina efetiva — embora haja incertezas enormes aqui — é 18 meses.

Mas 18 meses não é uma estação — para os nossos propósitos, parece mais uma era. Um exemplo simples é a teoria de Maryanne Wolf, neurocientista da TUFTS, de que há uma janela de aproximadamente três anos, de 7 a 9 anos de idade, quando as crianças fazem a transição entre leitura “iniciante” e “fluente”. As crianças que perdem essa janela, por várias razões, parecem nunca adquirir habilidades de leitura genuinamente fluente, mesmo com várias instruções adicionais posteriormente na vida. Na verdade, tragicamente, muitas crianças nos Estados Unidos deixam de adquirir fluência durante essa janela de tempo. Interrompa a educação de toda uma nação de crianças com 7 anos de idade e as consequências culturais contínuas, e o decréscimo no desenvolvimento humano, serão irremediavelmente trágicas.

E isso é apenas um exemplo para o nosso país. Esforços incontáveis para desenvolvimento e suporte global funcionam com a menor das margens nos lugares mais cruéis do mundo e dependem de um fluxo de recursos de países ricos. Mesmo a menor interrupção nesses fluxos é uma questão de vida ou morte. Na pequena era do gelo, dada a ausência de esforços extraordinários para mobilizar generosidade e sacrifício, a interrupção não seria pequena.

Quais são as razões para pensar que estamos entrando nesse período extenso, nesse “ano sem verão”? Em 16 de março, uma das melhores equipes científicas do mundo, trabalhando no Imperial College de Londres, publicou um artigo muito bem embasado modelando os efeitos prováveis de “intervenções não farmacêuticas” quanto a achatar a curva do COVID-19 no Reino Unido e nos Estados Unidos. Embora várias partes do artigo sejam técnicas, todo e qualquer líder de qualquer organização de qualquer tamanho deveria tirar tempo para ler o artigo e se familiarizar com seus principais argumentos.

A tese desse artigo é simples, em poucas palavras: quaisquer medidas que terão sucesso em “achatar a curva” nas próximas semanas ou meses também estenderão a curva. À medida que formos capazes de salvar nosso sistema de saúde da falência total imediatamente, isso acontecerá a custo de criar as condições culturais e econômicas de “inverno”, provavelmente até o final de 2021 — até que a população gradativa e naturalmente adquira imunidade (com o custo de várias enfermidades e mortes) ou o desenvolvimento de uma vacina. Ademais, embora possa ser possível suspender as medidas mais extremas, pelo menos por curtos períodos de tempo, qualquer impacto significativo para reduzir os danos da doença exigirão mudanças vastas e contínuas no comportamento social.

Em termos epidemiológicos, o que estamos encarando provavelmente se comportará hoje como uma nevasca, nos próximos meses como um inverno e nos próximos anos como uma pequena era do gelo — e isso se a supressão ou contenção do vírus der certo e evitar um fracasso catastrófico do sistema de saúde e milhões de mortos nos próximos meses (tanto por causa do COVID-19, quanto por outras causas decorrentes da disfunção do sistema de saúde).

E ficou bem claro nesta semana que não estamos lidando apenas com epidemiologia, mas com economia e política também. A Gripe Espanhola afetou um mundo que ainda não era tão moderno, com rotas comerciais lentas e simples entre as nações. Este vírus agora está fechando a maior parte do continente europeu, pode reduzir a antiga nação do Irã a seus joelhos e terá efeitos imprevisíveis a longo prazo na China. E essas são apenas algumas das regiões mais agudamente afetadas hoje. O destino de todo o mundo está interligado por conta da rede de comunicações e de comércio, e eventualmente todo o mundo vai sofrer junto.

A economia mundial provavelmente vai experimentar uma série de eventos de queda comparáveis no mínimo à Grande Recessão de 2008-2009 e possivelmente até mesmo à Grande Depressão na década de 30. O principal economista da J.P. Morgan previu que o PIB dos EUA cairia 14% só no segundo trimestre de 2020. “Uma queda dessa magnitude seria mais aguda que a que aconteceu no quarto trimestre de 2008 — o pior período da Grande Recessão — quando a economia encolheu 8,4%” (Reuters). Nesta semana, centenas de milhares de desempregados surgiram nos Estados Unidos demitidos de indústrias fechadas não só por causa de uma nevasca, mas por todo um inverno e que podem ser prejudicadas por toda a pequena era do gelo que recai sobre nós.

A economia global presumivelmente se recuperará algum dia. Ela pode se recuperar num formato de V ou de U, como é comum depois de epidemias. Ela se recuperou de forma tão espetacular depois da Primeira Guerra e da Gripe Espanhola, que, em certos aspectos, foram piores do que qualquer coisa que veremos acontecendo nos próximos anos (Embora há algumas semanas nós nem teríamos previsto escrever um ensaio desses também). Mas, quando se recuperar, o mundo todo será diferente, e o nosso mundo também.

Nós observamos que quase ninguém está planejando para um cenário de “era do gelo”. É claro, ninguém pode dizer com certeza o que vai acontecer — o estudo do Imperial College de Londres alega explicitamente não considerar avanços potenciais em áreas como testes, diagnósticos, “rastreio de contato” e gerenciamento de doenças, que poderiam ter efeitos positivos dramáticos. Isso realmente poderia acontecer, até nas próximas semanas, onde haveria uma “cura milagrosa” dramática (ou um tratamento, mais especificamente) que mudaria todo o padrão substancialmente.

Apesar dessas esperanças (ou sonhos), nós cremos que todo líder e organização — cada organização sem fins lucrativos, cada igreja, cada escola, cada empresa — deveria se planejar para cenários que envolveriam um abalo que dure anos.

Quase todos nós estamos numa nova empresa

De hoje em diante, a maioria dos líderes precisa reconhecer que a empresa em que eles estavam não existe mais. Isso não se aplica apenas a empresas, mas também a organizações sem fins lucrativos e, em certos aspectos importantes, a igrejas.

É claro que há exceções. Numa opinião bem imprecisa, talvez 10% das empresas possuam modelos de negócios (com ou sem fins lucrativos) que não serão afetados pela crise em sua maior parte, para o bem ou para o mal. Empresas tendo contratos de longo prazo com o governo como sua principal fonte de renda, por exemplo, poderão continuar com seus negócios. Talvez outros 10% estarão numa posição providencial de fazer contribuições imensas para aliviar o sofrimento e gerar mais valor nessa nova realidade, simplesmente ao escalar suas atividades atuais. Em larga escala, vemos empresas como Zoom e Amazon muito bem posicionadas para providenciar serviços essenciais na realidade vindoura, embora pequenas empresas e organizações se vejam nessa posição também.

Os 80% restantes se encontrarão com um playbook estratégico e operacional — primariamente em relação a oferta de produtos, modelo de negócio e estrutura do pessoal — que simplesmente não vai se adaptar bem nas condições prováveis de nevasca, inverno e pequena era do gelo.

Para ser transparente aqui, a nossa organização, a Praxis, está dentre esses 80%. Nós somos muito abençoados de ter reservas financeiras e doadores comprometidos para não falir. Mas construímos esta organização de 9 anos de idade com base em eventos coletivos com líderes empresariais do mundo todo para fazer mentoreamento, conferências para atender comunidades e um curso para estudantes durante o verão, tudo isso gerando uma comunidade extraordinariamente rica construída com base em encontros profundos uns com os outros e com Deus a serviço do empreendedorismo redentivo. No momento, até o nosso time mais central não pode se reunir na nossa sede em Nova York. Não sabemos quando poderemos viajar de novo, mas tudo está incrivelmente incerto nos próximos meses, na melhor das hipóteses (como viagem nas partes do inverno que têm mais tempestades de neve).

Se a sua organização sem fins lucrativos depende de reunir pessoas em grupos médios ou grandes — e é verdadeiramente aterrador considerar quantas dependem, quer para banquetes de arrecadação, programas extracurriculares ou culto público no caso de igrejas — você não está no mesmo ramo de negócios hoje. E isto não é simplesmente uma nevasca que você pode esperar passar. Nós não podemos predizer quando tais aglomerações voltarão a ser rotina, mas não será em questão de semanas.

De fato, nós na Praxis estamos nos planejando para um cenário em potencial que assume que, daqui 12 a 18 meses, o maior grupo que poderemos juntar presencialmente para formação e trabalho criativo será de cerca de 10 pessoas, quase sempre a nível local. Mesmo se isso for drástico demais, nós não sabemos como será o formato da economia global e os recursos que estarão disponíveis para as pessoas quando viagens e aglomerações maiores se tornarem possíveis, em teoria. Talvez um dia a sua organização, ou alguma versão dela, voltará a abrir para negócios. Talvez a nossa também. Por ora, se queremos cumprir a nossa missão, nós temos um planejamento mínimo para um contexto consideravelmente diferente.

Uma típica apresentação de um pitch de investimentos para uma empresa ou uma organização sem fins lucrativos começa com uma necessidade evidente de uma audiência ou conjunto de investidores e uma visão fundamental de como essa necessidade pode ser tratada de forma a aumentar o desenvolvimento humano. Esses são os três ou quatro primeiros slides da sua apresentação. Você não precisa descartar esses slides — eles representam, cremos e oramos, um chamado dado a você por Deus. Se você serve jovens em situação de risco, esses jovens ainda estão lá, encarando mais riscos do que nunca e você tem uma ideia genial para lidar com suas necessidades e capacidades fundamentais. Mas o resto da sua apresentação — a parte que descreve as estratégias, táticas, modelos financeiros e parceiros que você pode mobilizar — é funcionalmente diferente. Quer você administre uma empresa de software para escolas públicas, uma organização sem fins lucrativos fundamentada em doadores diários pensando em necessidades globais, uma empresa com produtos dependentes não só de consumidores, mas da indústria, ou uma imobiliária que dependa de contratos de longo prazo, você construiu uma série de pressupostos que não poderão sobreviver a uma “era do gelo” de 12 a 18 meses. Você construiu uma apresentação fundamentalmente nova que reflete as novas realidades da comunidade que você serve, e as ferramentas que estarão disponíveis para você hoje.

O nosso maior recurso é a confiança

Neste momento, muitos tipos de recursos estão indisponíveis para nós. Mas há um recurso principal que, pela graça de Deus, ainda pode estar disponível, que é a confiança.

Ao longo do seu trabalho antes da nevasca, a sua empresa ou organização construiu relacionamentos com pessoas. Membros da comunidade, vendedores, sócios, investidores, stakeholders de vários tipos — acima de tudo, talvez, a sua equipe de contribuidores ou voluntários. Você está vinculado a eles, a pelo menos alguns deles, não só por contratos ou transações, mas por respeito, amizade e até amor.

A confiança é o nosso maior recurso na sociedade humana. Sem confiança, nós nos relacionamos como competidores com uma mentalidade de escassez. Com confiança, nós descobrimos métodos criativos que desbloquearão a abundância que nunca encontraríamos sozinhos. Todo trabalho e vida humanos significativos acontece debaixo de um arco de confiança ou, para usar uma palavra mais forte biblicamente, debaixo de um pacto — o abrigo de respeito e amor mútuo que forma uma espécie de toldo que nos protege de um mundo selvagem e perigoso, dando espaço para grandes atos de sacrifício e beleza.

A fim de encontrar o que fazer com esse novo playbook para a missão e as pessoas a nós confiadas, precisamos agir a cada momento com base em métodos que se baseiam, e alimentam, a confiança.

Essa é uma das razões por que adicionar novas pessoas a seu time hoje, especialmente pessoas que você não conhece, seria o mesmo que abuso de liderança. Se o seu playbook atual não funciona e terá de ser substituído com um novo conjunto de estratégias e táticas, como você poderia saber qual é o conjunto de habilidades apropriado para o trabalho que você vai realizar? E como você pode prometer responsavelmente um fluxo de renda para alguém neste momento? Nenhuma organização, a não ser que esteja nos 20% de exceções descritos acima, deveria tentar somar novas pessoas à sua equipe chave agora, dada a ausência de uma confiança bem-estabelecida.

Da mesma forma, qualquer um pode sentir quase instintivamente que agora é um momento inviável para buscar novos doadores ou novos clientes. O capital de investimento não está completamente indisponível, mas os investidores dispostos a investir em plena queda — sem um relacionamento anterior com a empresa — quase certamente terão motivos predatórios e fins exploratórios.

Não, as pessoas que podem te ajudar mapear o caminho para cumprir a sua missão nos anos vindouros são as pessoas em que você tem a maior confiança hoje — aqueles que estão na missão junto com você. Desse modo, todos os esforços da liderança agora se reduzem a manter e mobilizar a confiança.

Essa confiança começa não com uma preocupação por nós mesmos, mas com uma preocupação pelos outros. Talvez seja a primeira vez nas nossas vidas em que cada pessoa com quem iremos interagir nos próximos dias, até investidores ou filantropos, estará experimentando uma vulnerabilidade sem precedentes. Eles estão experimentando um risco e talvez uma perda financeira hoje, mas estamos apenas nos primeiros dias de uma pandemia. Poucas pessoas vão passar por este tempo sem ver alguém que amamos sofrer e bem possivelmente morrer. Muitos estão contemplando a sua mortalidade de novas maneiras. Devemos a todos que encontramos compaixão, paciência e preocupação enormes, antes de lhes envolvermos nas nossas necessidades.

A confiança se constrói com transparência e honestidade sobre a nossa situação, moldada de acordo pelo investimento de cada pessoa naquele negócio. Precisamos comunicar muito mais com todo mundo no ecossistema da nossa organização, frequentemente com um novo grau de abertura sobre os desafios que estamos enfrentando. Ao mesmo tempo, a confiança se constrói (para pegar emprestadas as palavras do grande líder Max De Pree) quando os líderes suportam vulnerabilidade e dor ao invés de descarregá-las em outras pessoas. Nós precisamos ter novas formas de processar nossos medos que não envolvam aumentar a ansiedade das outras pessoas.

A confiança também se constrói por meio de uma das tarefas mais duras de liderar: tomar medidas para reduzir custos e gerenciar o fluxo de caixa, de forma que a empresa possa sobreviver. Isso é devastador para todo mundo que se importa com pessoas, mas, quando a alternativa é a extinção da organização, é essencial. Há formas de cortar gastos com pessoal que são generosas sacrificialmente e honram às pessoas envolvidas, e às vezes há alternativas à total extinção dessas posições, como reduções compartilhadas e gerais em horas de trabalho ou em remuneração, com aqueles que mais recebem sofrendo o maior corte. Por mais difícil que seja, se não fizermos decisões diretas sobre a nossa equipe e outros custos à luz do fluxo de caixa, nós vamos frustrar a confiança que outros depositaram em nós. (Isso não é mera teoria para nós. Na verdade, em 2003, Kurt demitiu Andy num emprego em outra organização com uma decisão executiva que era absolutamente necessária e também profundamente generosa e honrável, e continuamos amigos até hoje.)

Todo este trabalho de se basear e construir em cima da confiança vai gerar criatividade renovada. Podemos começar a fazer questões fundamentais juntos. Quais opções estão abertas para nós mesmo nas profundezas do “inverno”? Que ferramentas e recursos estão à nossa disposição? Quais reservas de talento e habilidades, dinheiro e ativos, sistemas e processos podem ser empregados de novas formas?

Lidando com todas as três realidades

Nós retratamos essas realidades como aninhadas e interconectadas — como líderes, precisamos reagir prontamente à nevasca à nossa frente e se adaptar para sobreviver o inverno inevitável sob condições severas e reimaginar nossas organizações para aguentar a dureza de uma possível pequena era do gelo.

Pode ser útil considerar como alocar a atenção da liderança a esses três horizontes. O nosso conselho é direcionar imediatamente uma porcentagem substancial da nossa atenção à reinvenção para a pequena era do gelo, mesmo que estejamos inclinados a funcionar mais num contexto de nevasca e inverno. Precisamos garantir que o nosso pessoal estará num contexto seguro e bem cuidado durante a nevasca, enquanto construímos planos e tomamos ações decisivas em relação a fluxo de caixa, cadeias de fornecimento, alterações de clientes e capacidade do time. Contudo, exortamos todo líder a perceber que a sobrevivência da sua organização nas próximas semanas e meses, talvez anos, depende bem mais de inovação radical do que cortes estratégicos.

Isso quer dizer que será preciso iterar e testar bem rápido nas próximas semanas. No Praxis, nós reelaboramos o nosso time central de doze pessoas em grupos de trabalho pontuais, mirando em seis projetos que são viáveis nas condições atuais de “nevasca”, buscando alocar respostas a algumas das maiores necessidades e oportunidades das nossas comunidades nas próximas duas semanas. Nós estamos em contato intenso com nossos parceiros empreendedores, nossos doadores e nossos mentores. Vamos nos comprometer com o aprendizado e certamente alguns experimentos darão mais certo e durarão mais que outros, mas nós estamos construindo em cima da nossa profunda confiança uns nos outros para discernirmos juntos sobre como fazer o empreendedorismo redentivo avançar num ambiente completamente diferente.

Luto e perdas, visão e esperança

Estamos num tempo de luto. Muitos dentre nós amam o nosso trabalho e as pessoas com quem trabalhos. Pensávamos que se construíssemos uma organização baseada em integridade, talentos e abordagens inovadoras, o resultado seria o sucesso. Nós investimos tempo e relacionamentos em construir e manter esse sonho. Mesmo que outros enfrentem perdas ainda maiores, a perda de modelos de negócio que poderiam funcionar com alegria, lucro e de formas que valorizem as pessoas é uma perda real. Nenhum líder irá aguentar durante esses dias sem dar espaço para todas as fases do luto identificados tantos anos atrás por Elisabeth Kübler-Ross: negação, barganha, raiva, depressão e aceitação. Nós e aqueles que lideramos experimentarão todas essas fases, mais de uma vez, nos próximos dias.

Mas também estamos num momento para uma nova visão e esperança. Nós temos o privilégio no Praxis Lab de trabalhar com empreendedores — pessoas que se inquietam com o modus operandi atual e que tomam todos os riscos para criar novas coisas no mundo. Uma das nossas maiores alegrias agora é conversar com nossos empreendedores associados e nossas classes de empresas e organizações sem fins lucrativos. Eles veem, como todos os outros, os desafios imensos que chegam até nós. Mas eles são ágeis por natureza, dispostos a aprender e se adaptar e convencidos de que há oportunidades mesmo nas profundezas do inverno.

O estranho cerne da fé cristã é que essas realidades não são separadas. Luto e perda andam juntos na fé cristã com nova visão e esperança de uma forma singular, porque fazem parte da história da cruz e da ressurreição, Não há luto maior que o Calvário, a crucificação do próprio Filho de Deus por aqueles que viera salvar. Não há esperança maior que a Páscoa. E o Senhor pascal ressurrecto se fez conhecido a seus discípulos por meio de suas chagas nas mãos, pés e lado. Quando ressuscitarmos e reinarmos com ele sobre a nova criação, ele ainda terá a aparência de um Cordeiro que foi morto. Nós também teremos nossas cicatrizes, e os líderes de nosso culto serão os mártires, aqueles que sacrificaram tudo para testemunhar a ele.

A criatividade cristã começa com o luto — o luto de um mundo que deu errado. Ela o reveste de lamento — o grito estridente da Sexta-feira da Paixão, o silêncio do Sábado Santo — e ainda se achega ao sepulcro no começo da manhã de domingo. Nós estamos sepultando e nos despedindo de tantas coisas nos últimos dias e ao redor do mundo todo as pessoas estão sepultando e se despedindo daqueles que amam. Mas nós não choramos como quem não tem esperança. Se chorarmos com Jesus, e dermos espaço para outros chorar, podemos ter a esperança de que seremos visitados pelo Consolador, o Espírito que pairou sobre a criação antes de ela ser formada. E esse Espírito nos guiará nas escolhas que temos de fazer, mesmo com os dias mais difíceis à nossa frente.

E se estivermos errados?

Nós reconhecemos que líderes que tomarem decisões estratégicas com base nesses conselhos enfrentarão riscos reais. Não importa quão sacrificial seja a nossa postura e quanto tentemos honrar e servir a outros, a confiança deles em nós será esticada até o limite e, em alguns casos, irá se romper. Esse é o preço da liderança.

Tudo que podemos dizer é que o quadro que pintamos neste documento é o mais preciso e prático que podemos fazer hoje. Se ele for verdade, não há tempo a perder. A cada dia, recursos materiais diminuirão e sem uma liderança ativa e corajosa, outros vão perder sua confiança em nós ou vão simplesmente parar de prestar atenção em meio às emergências que enfrentamos. Líderes precisam agir imediatamente para começar a reimaginar suas organizações, começando com conversas compassivas e francas com seus boards e membros de seus times sobre o que enfrentarão.

Dito isso, todos os autores são otimistas por temperamento e também sabemos que nem todo mundo está lendo as tendências da mesma forma. Podemos estar errados sim. O inverno pode ser ameno e acabar rápido; a pequena era do gelo pode nunca chegar. O tanto de criatividade humana dedicada a vencer o COVID-19 é realmente arrebatador. A seriedade e competência de muitas autoridades públicas e a mera iniciativa e resiliência das pessoas ao nosso redor é humilhante e encorajadora.

Mas eis a questão: se estivermos errados, e a nevasca passar, o inverno for ameno e a pequena era do gelo nunca chegar, as nossas organizações já saberão o que fazer. Se essa crise se encerrar miraculosamente e a nossa sociedade continuar relativamente incólume, podemos oferecer nossa gratidão fervorosa a Deus, celebrar em alto e bom som as profissões médicas que colocarão suas vidas em jogo e voltar a versões refinadas de nossas playbooks atuais, com um senso disciplinado e fortalecido da nossa dependência de Deus e do próximo, e uma maior apreciação de cada dia das nossas vidas. Nós todos estaríamos surpresos e estupefatos se for esse o resultado desses dias.

Mesmo se for esse o resultado, as nossas organizações estarão bem mais fortes por passar pelo difícil trabalho descrito aqui. Pois a tarefa essencial diante de nós é fortalecer bastante a nossa capacidade de trabalhar em relacionamentos de confiança, em pequenos grupos locais, usando todas as novas ferramentais digitais e de comunicação. Na verdade, essa é a tarefa que deveríamos ter feito o tempo todo. Se pudermos voltar a certa “normalidade” de 2019, mas com nossos programas e serviços, playbooks comerciais e até nossos relacionamentos purificados por um planejamento criativo, as nossas organizações serão bem mais fortes.

E aqui está outra realidade aterradora: essa não será a última pandemia, nem o último desastre. De toda forma, mesmo quem está em um país “desenvolvido” onde estaremos protegidos por um tempo dos piores tipos de vulnerabilidades, bilhões de seres humanos estiveram vivendo com base nesse nível de vulnerabilidade o tempo todo, enquanto boa parte do mundo não dava a mínima para seu sofrimento. Nós, seres humanos, somos bem mais dependentes de Deus e do próximo do que reconhecemos em tempos de prosperidade e tranquilidade. Não deveríamos desejar voltar à normalidade dos anos passados, em que tanta injustiça passava batido e que inúmeras vulnerabilidades coletivas sistêmicas cresciam e cresciam.

De todo modo, líderes responsáveis não têm escolha, a não ser assumir que estamos no inverno e uma era do gelo por prazo indefinido está diante de nós. Nós estamos jogando um jogo que ninguém vivo jogou. Estamos, por razões que apenas Deus sabe, na linha de frente, no time de fundadores. Vamos agir com coragem, hoje, para construir o melhor que pudermos, por amor ao próximo e para a glória de Deus.

Andy Crouch trabalha com teologia e cultura no Praxis Lab. Kurt Keilhacker é o presidente do board do Praxis, bem como sócio-administrador no Elementum Ventures, uma empresa de venture capital em estágio seed. Dave Blanchard é cofundador e CEO do Praxis. Original disponível aqui. Todos os direitos reservados.

Traduzido por Guilherme Cordeiro. As posições deste artigo não representam necessariamente a visão da Pilgrim ou de seus funcionários. Este texto apenas poderá ser copiado para outras plataformas digitais e escritas com permissão expressa da equipe The Pilgrim.

7 ideias para melhorar as suas devocionais em 2020 com a Pilgrim

Já aconteceu com todo crente. Você acumula três planos de leitura bíblica, desempoeira o devocionário comprado na Black Friday, separa um horário certinho para seu “momento com Deus”, pensa em várias estratégias diferentes para aplicar isso durante a sua rotina e… nada muda. Você ainda não consegue ter momentos devocionais frequentes.  Logo depois, você se vê acessando redes sociais no lugar da sua devocional.

A longo prazo, essas distrações se revelam destrutivas. Ao invés de Cristo formado em você por meio das devocionais, você progressivamente se assemelhará a um adorador das suas distrações. Como Tish Warren coloca:

“Nós temos hábitos cotidianos, práticas formativas, que constituem liturgias diárias. Ao buscar primeiro o meu celular a cada manhã, eu desenvolvi um ritual que me treina para determinado fim: entretenimento e estímulos por meio da tecnologia. Independentemente do que eu digo ser a minha cosmovisão ou subcultura cristã particular, o meu hábito diário inconsciente estava me moldando para ser uma adoradora de telas brilhantes” (Liturgia do Ordinário. São Paulo: Pilgrim, 2019, p. 46)

Assim, como você pode se tornar um verdadeiro adorador de Cristo ao invés de um “adorador de telas brilhantes”? Que tal usar essas mesmas telas brilhantes para te ensinarem mais sobre Cristo? Temos aqui 7 ideias de como utilizar o nosso aplicativo em 2020 para crescer na graça e no conhecimento de nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo (2Pe 3.18).

1.Ouça o devocional “Manhã e Noite” de Charles Spurgeon

Pergunte a quem quiser, é indiscutível que Charles Spurgeon foi um dos maiores pregadores evangélicos de todos os tempos. As suas breves meditações de menos de 5 minutos são mais acessíveis, profundas, consistentes biblicamente e confortadoras pastoralmente do que muitas pregações contemporâneas. Para começar e terminar os seus dias com a Palavra de Deus (e gostar do processo!), este livro é inegociável.

2. Ouça o capítulo de sua leitura diária com a Bíblia NVT

Talvez você já tenha escolhido o livro bíblico, o conjunto de versículos, devocionário ou plano de leitura bíblica anual que você vai seguir em 2020. Todavia, qualquer crente com um ritmo consistente de devocionais diárias já deve ter percebido como é fácil esquecer o texto bíblico durante o resto do dia. Que tal você meditar nele com mais um sentido? Em vez de simplesmente lê-lo com os olhos, ouvi-lo com os ouvidos pode ser mais uma maneira de ficar essa porção das Escrituras na sua mente.

3. Estude com uma Bíblia de Estudo

“Bíblia Sagrada com reflexões de Lutero” para os entusiastas da história da Reforma protestante. “Bíblia do Pregador” para os irmãos com o dom de ensino. “Bíblia da Família com Estudos de Jaime e Judith Kemp” para o culto familiar. “Bíblia da Mamãe” ou “Bíblia do Papai” para aqueles que querem lembrar dos seus filhos até no seu momento devocional. “Bíblia Sagrada Bom Dia” para juntar sua meditação bíblica com sua jornada devocional diária. “O Livro dos livros – edição literária da Bíblia” para uma leitura mais esteticamente confortável. Ou simplesmente a sua versão favorita da Bíblia (ARA, NTLH, ARA, King James, NVT, etc.) pode ser o que você precisa para facilitar a sua leitura bíblica diária. Muitas vezes, o seu desânimo para ter tempo diário com as Escrituras se deve a você não estar lendo elas direito. Que tal usar uma dessas Bíblias, todas elas disponíveis na Pilgrim, para retirar mais esse obstáculo do caminho?

4. Confira a nossa esteira de “Devocionais”

Mesmo com as diversas versões da Bíblia propostas acima, você ainda pode querer a ajuda de um bom escritor para trazer reflexões práticas para o seu dia-a-dia. Você pode se refrescar com as meditações diárias do talentoso pregador Hernandes Dias Lopes com sua série de Gotas para alma. Passar 90 dias em Gálatas, Juízes e Efésios ou em João 14–17, Romanos e Tiago com Tim Keller. Começar suas manhãs a cada dia do ano com “Bom dia!” de Stormie Omartian; treinar as linguagens de amor com Gary Chapman; ou simplesmente se alimentar do bom e velho Pão Diário. Se você estiver na dúvida sobre qual utilizar, basta ler uma ou duas reflexões de cada um e escolher o que você mais gostar. O que importa é se firmar no hábito de ler esse devocionário todo dia.

5. Coloque em prática os compromissos de Sabedoria digital para a família

Sim, já falamos de muitos livros que você pode usar esta tela brilhante na sua frente para ser edificado. Mas você também crescerá na fé sabendo quando pôr de lado essa tela para conviver com pessoas reais no mundo real, especialmente aquelas mais próximas de você. No livro Sabedoria digital para a família (original Pilgrim), Andy Crouch sugere, e explica detalhadamente cada um, dos dez compromissos a seguir:

1. Desenvolvemos sabedoria e coragem juntos como família.

2. Queremos criar mais que consumir. Então, preenchemos o centro de nossa casa com coisas que recompensam a habilidade e o engajamento ativo.

3. Fomos projetados para um ritmo de trabalho e descanso. Então, uma hora por dia, um dia por semana, e uma semana por ano, desligaremos nossos dispositivos e louvaremos, festejaremos, oraremos e descansaremos juntos.

4. Acordamos antes de nossos dispositivos, e eles “vão dormir” antes de nós.

5. Temos por objetivo “não ter telas antes que nossa idade tenha chegado a dois dígitos” — na escola ou em casa.

6. Usamos telas com um propósito, e as usamos juntos, em vez de usá-las sem propósito e sozinhos.

7. O tempo no carro é tempo de conversa.

8. Os cônjuges têm a senha um dos outro e os pais têm completo acesso aos dispositivos dos filhos.

9. Aprendemos a cantar juntos em vez de deixar a música gravada e amplificada tomar conta de nossa vida e adoração.

10. Nós comparecemos aos grandes acontecimentos da vida. Aprendemos a ser humanos quando estamos presentes nos momentos de maior vulnerabilidade. Esperamos morrer nos braços uns dos outros.

Estranho, não é? Parece radical demais, mas, ao mesmo tempo, soa como um alívio muito necessário para a nossa vida corrida em família. Talvez seja difícil fazer devocionais individuais na sua casa ou cultos domésticos com a sua família justamente porque não existem limites para a tecnologia no seu lar. Hora de planejar a sua devocional também é hora de abençoar a sua família.

6. Ouça audiolivros em comunhão

Assim como numa dieta, a sua alimentação espiritual diária não trata apenas de o que você come, mas também de como você come. Ou seja, ao planejar suas devocionais de 2020, repense em como absorver todo o conteúdo disponível. Uma forma que vai ser especialmente edificiante é ouvir audiolivros em comunhão. Ao invés de simplesmente lê-los e absorver o máximo de informações possíveis, espalhe o conteúdo deles. Você pode estudar um livro junto com seu pequeno grupo ouvindo seus trechos favoritos e discutindo-os depois. Você pode compartilhar trechos dos audiolivros nas redes sociais e perguntar o que os seus amigos pensam. Você pode simplesmente se sentar com a sua família todo dia e ouvir a Bíblia em atitude de oração. Essa é uma forma de compartilhar dons espirituais e fazer com que você “seja encorajado pela fé mútua, vossa e minha” (Rm 1.11-12). 

7. Repense sua rotina com Liturgia do Ordinário, Refresh e Reset.

Por fim, o obstáculo para a regularidade das suas devocionais pode ser uma rotina pesada demais. Ela pode ser pesada por ser tão ocupada que você não tem energias para passar um tempo com o Senhor. Ela pode ser pesada por não permitir você relembrar e reaplicar o que você aprendeu com a sua Bíblia naquele dia ou no domingo. Ela pode ser pesada porque você não vê como ela pode glorificar a Deus nela. De todo modo, não adianta reservar 15 minutos para Deus no seu dia se todos os outros te afastam dele.

Assim, a nossa última orientação é refazer as suas rotinas para que você tenha espaço para as suas devocionais. E não qualquer espaço. É preciso de um espaço bom o suficiente para que você consiga se concentrar. Além disso, é preciso um espaço aberto o suficiente para que aquele momento devocional contagie todos os outros momentos do seu dia e os redirecione para Deus. É como se você estivesse procurando um lugar para colocar uma flor na sua casa: você precisa de um espaço arejado para ela sobreviver e de um espalho bem-posicionado para que toda a casa seja embelezada pela presença dela.

Portanto, para corrigir a sua rotina pesada e abrir espaço nela para você se concentrar devocionalmente, utilize os livros Reset (David Murray), para homens, e Refresh (Shona Murray), para mulheres. Mesmo que você não sofra de burnout, essas obras são perfeitas para você repensar a sua rotina de forma bíblica e saudável para o seu corpo e mente.

Quanto ao problema de como permitir a sua devocional contagiar todos os outros momentos, o livro Liturgia do ordinário (Tish Warren) é inigualável. Com ele, você vai aprender a ver como todo o seu dia tem um significado espiritual. Há uma lição sobre Deus sendo ensinada da hora de acordar até cair no sono, desde coisas triviais como perder as chaves até desagradáveis como brigas conjugais. Tish, ela própria bem ocupada cuidando de seus filhos e sendo dona de casa, é a companheira perfeita para anotar essas lições junto com você.

No fim, a ideia central de Liturgia do ordinário é o que lhe fará alcançar o real propósito de ter um momento diário com Deus na presença de Deus : levar todos os outros momentos a Ele também. Quando você calibra os olhos da fé com a Palavra todo dia, cada dia se torna uma devocional ao Senhor.

Autor: Guilherme Cordeiro, editor de conteúdo na The Pilgrim.

Dê um presente de Natal com a Pilgrim

Natal é sobre compartilhar. É sobre Deus compartilhar da vida humana em Jesus Cristo, como um de nós. É sobre compartilharmos uns com os outros o que temos em Cristo. Por isso, nós da Pilgrim montamos uma forma de você compartilhar um pouquinho da sua assinatura premium com sua família e amigos. 

Funciona assim: se você já é assinante, basta entrar no seu aplicativo até a noite do dia 25/12/2019 e acessar a seção “Presente”. Depois de preencher o seu nome, de quem você quer presentear e qual mensagem você quer enviar para ela, você poderá enviar o presente por e-mail ou WhatsApp para o destinatário. Pronto! Essa pessoa receberá um link para nosso site, onde ela poderá escolher o audiolivro favorito dela da linha Pilgrim Books. Depois de concluir o registro e resgatar o vale-presente (válido até 06/01/2020), esse audiolivro será dela! 

“E se eu não for assinante?” Bem, o mais fácil é você fazer a assinatura e ter acesso a dezenas de audiolivros, mais de 3000 ebooks, além de artigos, resumos e cursos. E com 7 dias de teste grátis! Porém, se você ainda quiser provar um dos nossos audiolivros originais, disponíveis em português apenas na Pilgrim, basta encontrar o assinante mais próximo e pedir que ele lhe envie o link seguindo o processo acima. E não se esqueça de resgatar o vale-presente antes de 06/01/2020. Depois disso tudo, o seu audiolivro está disponível para acesso na aba “Comprados”. 

“Glória a Deus nas maiores alturas, e paz na terra entre os homens a quem ele ama” (Lc 2.14)

Feliz Natal!

Desafio de leitura Pilgrim para 2020 #PilgrimChallenge

J. C. Ryle uma vez disse que “poucas coisas são tão amadas por alguns, e tão desprezadas e negligenciadas por outros, quanto livros, e especialmente livros de teologia”. Porém, não importa se você está mais perto do amor ou da negligência, provavelmente você diz que quer ler mais e melhor, mas não tem tempo de ler mais ou melhor. E é por isso que vamos lançar o Pilgrim Challenge.

O Pilgrim Challenge é um desafio para ajudar você ler mais e melhor em 2020. A sua leitura será incrementada não só por você determinar uma meta de quantidade de livros, mas também por se diversificar. Você se verá forçado a ler livros que você nunca escolheria naturalmente. Lendo o que você nunca leria sozinho, você pode acabar aprendendo o que você nunca descobriria sozinho.

O desafio está dividido em cinco listas, que correspondem ao grau de dificuldade, intensidade e diversidade das leituras. As listas maiores incorporam os itens das menores.

  • VOLTINHA: total de 13 livros, com uma média de 1 livro a cada 4 semanas.
  • PASSEIO: total de 17 livros, com uma média de 1 livro a cada 3 semanas.
  • VIAGEM: total de 26 livros, com uma média de 1 livro a cada 2 semanas.
  • MIGRAÇÃO: total de 52 livros, com uma média de 1 livro a cada 1 semana.
  • PEREGRINAÇÃO: total de 104 livros, com uma média de 2 livros a cada 1 semana.        

Caso um livro se inclua em mais de uma categoria, escolha apenas uma. Não há uma ordem dentro de cada lista. Você pode escolher um plano para seguir até o final do ano ou ir avançando aos poucos a partir do primeiro deles. Não se sinta pressionado a ler um livro no exato período de tempo proposto, o que importa é alcançar a meta final do desafio escolhido.

Colocamos ideias diferentes para cada livro. Sinta-se livre para adaptar a lista de acordo com os seus interesses e recursos. Você pode adotar alguma das seguintes alternativas:

  • Divida a lista com a sua família, de forma que cada um fique responsável com uma categoria durante determinado período de tempo. Compartilhem o que vocês aprenderam com cada livro e recomendem a sua melhor leitura no final do ano.
  • Comece a ler conforme for mais adequado para o seu tempo. De acordo com o número de semanas que você levar para terminar esse livro, escolha o plano correspondente.
  • Termine o primeiro livro que você escolher o mais rápido possível. De acordo com o número de semanas que você levar para terminar esse livro, escolha o plano correspondente.
  • Ignore a quantidade de livros proposta a cada plano e simplesmente monte um plano próprio escolhendo as categorias mais desafiadoras para você.
  • Divida a lista com a sua igreja ou pequeno grupo, de forma que cada um fique responsável com uma categoria durante determinado período de tempo. Escrevam resenhas e elejam o melhor livro da sua igreja ou pequeno grupo no final do ano.

Porém, não se esqueça de que o propósito dela é ser desconfortável para você, em algum nível. Afinal, é isso que desafio significa.

Para baixar, você pode escolher a imagem e guardar em algum dispositivo para consulta ou optar pelo PDF, com um formato mais simples e fácil de imprimir.