Jesus, o Criador, Carpinteiro, Jardineiro e Rei (Jordan Raynor)

“Ele é a imagem do Deus invisível, o primogênito sobre toda a criação; porque nele foram criadas todas as coisas nos céus e na terra, as visíveis e as invisíveis, sejam tronos, sejam dominações, sejam principados, sejam poderes; tudo foi criado por ele e para ele” (Cl 1.15-16)

Vamos começar meditando sobre a primeira manifestação de Jesus à humanidade bem nos primórdios do tempo.

A passagem citada acima deixa claro que Jesus — junto com o Pai e o Espírito Santo — estava presente na criação do mundo. Além disso, “tudo” foi criado por ele. Em outras palavras, Jesus é o Deus Criador de Gênesis 1.1: “No princípio, Deus criou”.

Antes de Deus nos falar que ele é amor, antes de ele nos falar que é santo, antes de ele nos falar que ele é Salvador, Deus quer que você e eu saibamos que ele é um Deus criativo, produtivo e trabalhador.

Como já escrevi em outro lugar, essa ideia de um Deus que trabalha é singular na longa lista de histórias sobre a origem do mundo. Qualquer outra religião reivindica que os deuses criaram os seres humanos para trabalhar e servir aos deuses. Nenhuma delas ousaria dizer que o próprio Deus trabalha — muito menos introduzir esse fato bem no começo da história.

Essa verdade carrega a maior importância para o trabalho que fazemos hoje. O trabalho não é periférico ou um meio sem sentido para um fim. O trabalho é central para quem Deus é, portanto, configura-se central para quem somos como imagem dele. Essa é uma das grandes implicações dessa primeira revelação de Jesus Cristo.

E não é um trabalho qualquer que Deus faz. É um trabalho criativo — o trabalho de tomar riscos para criar novas coisas para o bem de outras pessoas. É o trabalho de empreendedores e artistas, contadores de histórias e executivos, publicitários e pais. E, como veremos a seguir, é esse tipo de trabalho que Jesus fez em sua segunda manifestação quando ele nasceu na casa de um carpinteiro.

O Natal na casa do carpinteiro

“E logo que os anjos se retiraram, indo para o céu, os pastores disseram uns aos outros: Vamos já até Belém para ver isso que aconteceu e que o Senhor nos revelou. Foram, então, com toda pressa, e acharam Maria e José, e o menino deitado na manjedoura; e, vendo-o, contaram a todos o que lhes havia sido dito sobre o menino; e todos os que ouviam os pastores ficavam muito admirados. Maria, porém, guardava todas essas coisas, meditando sobre elas no coração. E os pastores voltaram glorificando e louvando a Deus por tudo o que tinham visto e ouvido, como lhes fora falado” (Lc 2.15-20)

Daqui a alguns dias, celebraremos a segunda manifestação de Jesus para toda a humanidade naquela manhã do primeiro Natal.

Ao fixar nossos olhos no bebê na manjedoura, eu encorajo você, caro leitor, a expandir o campo de visão para o resto da cena. Separe um tempo para focar não apenas no rei que acabou de nascer, mas também na casa em que ele nasceu e no que isso significa para o trabalho futuro de Jesus.

Desde a aurora do tempo, Deus sabia que ele teria de enviar Jesus à terra para nos resgatar. Sabendo disso — e sabendo do propósito supremo da vida de Jesus na terra —, o fato de que Deus escolheu que Jesus crescesse na casa de Maria e de um carpinteiro chamado José deveria nos surpreender.

Deus poderia ter colocado Jesus numa família sacerdotal como o profeta Samuel ou João Batista. Ele poderia ter crescido na casa de um fariseu como o apóstolo Paulo. Porém, Deus colocou Jesus na casa de um artesão, fazendo um trabalho que provavelmente se parece bastante com o trabalho que eu e você fazemos hoje.

O biblista Dr. Ken Campbell nos informa que a palavra grega tektōn que a maioria das versões bíblicas traduz como “carpinteiro” em Marcos 6.3 seria mais corretamente traduzida como “construtor”, alguém que “trabalha com pedra, madeira e às vezes metal” para criar algo novo. Segundo o Dr. Campbell, Jesus e José eram essencialmente donos de uma pequena empresa familiar, “negociando serviços, adquirindo material, completando projetos e contribuindo para pagar as despesas da família”.

Parece familiar? Deveria. Na cultura judaica do primeiro século, o trabalho mais semelhante ao nosso seria provavelmente o de artesãos e construtores como Jesus e José.

Essa verdade dá imensa relevância e dignidade ao trabalho que eu e você fazemos para reorganizar a criação a cada dia. Se você jamais duvidou que o seu trabalho importa ou que seu chamado é tão significante quanto o de um pastor ou de um “missionário em tempo integral”, lembre-se do Natal. Lembre que aquele bebezinho cresceria até arregaçar as mangas e nos lembrar da bondade do trabalho.

Jesus, o Jardineiro

“Maria, porém, ficou em pé, chorando diante do sepulcro. Enquanto chorava, abaixou-se para olhar para dentro e viu dois anjos vestidos de branco, sentados onde estivera o corpo de Jesus, um à cabeceira e outro aos pés. E eles lhe perguntaram: Mulher, por que choras? Ela respondeu: Porque levaram o meu Senhor, e não sei onde o puseram. Ao dizer isso, ela se virou para trás e viu Jesus em pé, mas não o reconheceu. Jesus lhe perguntou: Mulher, por que choras? A quem procuras? Pensando ela que fosse o jardineiro, respondeu-lhe: Senhor, se tu o levaste, dize-me onde o puseste, e eu o levarei. Então Jesus lhe disse: Maria! Virando-se, ela lhe disse na língua dos hebreus: Raboni! (que significa Mestre)” (Jo 20.11-16)

Vimos que a primeira manifestação de Jesus à humanidade foi nos primórdios do tempo e que a segunda foi na manhã do primeiro Natal. Agora, veremos a terceira.

Você provavelmente já leu a passagem acima dezenas, talvez centenas, de vezes. E, se você for como eu, você sempre se perguntou sobre como é estranho Maria confundir Jesus como “o jardineiro”, como se fosse um detalhe esquisito, e irrelevante, das Escrituras.

Mas nenhuma palavra das Escrituras está lá por acaso e, como o renomado teólogo do Novo Testamento N. T. Wright recentemente esclareceu para mim, este detalhe não é exceção. Parece que João está apontando para algo de fato bem significativo.

Para percebermos isso, precisamos primeiro voltar para Gênesis, quando Deus criou Adão e Eva e os colocou no Jardim do Éden para que trabalhassem e “enchessem a terra”. O pecado não existia ainda, mas o trabalho sim, tornando o seu trabalho de jardinagem uma adoração no sentido mais puro.

Todavia, evidentemente, alguns versículos depois, o pecado entra no mundo. O trabalho ainda é adoração, mas agora também é árduo. O pecado também inaugurou a necessidade para que Jesus viesse naquele primeiro dia de Natal e sacrificasse sua vida três décadas depois.

Mas tudo começa a mudar na Páscoa. A ressurreição reconfigura o mundo quando Jesus inaugura a vinda do Reino dos Céus. E, na sua primeira aparição à humanidade, Jesus se revela a Maria se parecendo com um jardineiro. Por quê? Aqui está o que Wright diz em seu livro Surpreendido pela esperança: “Na nova criação, o antigo mandato humano de cuidar do jardim é dramaticamente reafirmado quando João, em sua história da ressurreição, retrata Maria confundindo Jesus com o jardineiro. A ressurreição de Jesus é a reafirmação da bondade da criação” e, como eu argumentaria, do próprio trabalho. 

Ao aparecer como um jardineiro, Jesus está deliberadamente nos apontando de volta para Adão e Eva, os primeiros jardineiros e trabalhadores do mundo. Ele está nos mostrando que o nosso trabalho como cidadãos de seu Reino vindouro não se reduz a “salvar almas” ou ajudar mais pessoas a ganhar uma entrada no Reino (embora seja importante). Jesus está nos mostrando que é hora de trabalhar no jardim outra vez, cuidando da terra — de “encher a terra” com os indicadores do Reino que começaram a vir à vida naquela manhã da primeira Páscoa.

O advento final

“Levanta-te, resplandece, porque é chegada a tua luz, e a glória do Senhor nasceu sobre ti […] Levanta-te e olha ao redor; todos estes se ajuntam e vêm a ti; teus filhos vêm de longe, e tuas filhas se criarão ao teu lado. […] A multidão de camelos cobrirá a tua terra, os camelos novos de Midiã e Efá; todos os de Sabá virão; trarão ouro e incenso e proclamarão os louvores do Senhor. Todos os rebanhos de Quedar se reunirão em torno de ti; os carneiros de Nebaiote te servirão; serão aceitos no meu altar, e eu glorificarei a casa da minha glória. Quem são estes que voam como nuvens e como pombas para as suas janelas? As ilhas me aguardarão, e primeiro vêm os navios de Társis, para trazer teus filhos de longe, e com eles a sua prata e o seu ouro, para o nome do Senhor, teu Deus, e para o Santo de Israel, porque ele te glorificou. Estrangeiros edificarão os teus muros, e os seus reis te servirão; porque te feri na minha ira, mas no meu amor tive misericórdia de ti. As tuas portas estarão sempre abertas; não se fecharão de dia nem de noite, para que as riquezas das nações sejam trazidas a ti, e os seus reis sejam conduzidos com elas”. (Is 60.1,4,6-11)

Vimos que Jesus se manifestou primeiro como Criador, depois como carpinteiro e finalmente como jardineiro. Hoje, esperamos o advento final, em que Jesus assume seu trono eterno como Cristo Rei.

A passagem acima é uma das minhas favoritas da Bíblia inteiro. Neste texto, Isaías está pintando uma visão profética da “nova Jerusalém” de Apocalipse 21 onde “[Deus] habitará com o seu povo” e Jesus reinará como rei eternamente.

Mas preste atenção ao que mais está acontecendo nesta cena. Pessoas de todas as nações estão vindo à nova Jerusalém, e não é de mãos vazias. As pessoas de Társis trazem seus navios. As pessoas de Midiã e Efá trazem seus animais. As pessoas de Sabá trazem ouro e incenso. Jesus está convidando essas pessoas para trazerem seus melhores artefatos culturais — “a riqueza das nações” — ao seu reino eterno.

O teólogo do Novo Testamento N.T. Wright escreve em seu livro Supreendido pela esperança: “O que você faz no presente — ao pintar, pregar, cantar, montar saneamento básico […] construir hospitais, cavar cisternas, lutar pela justiça, escrever poemas […] amar seu próximo como você mesmo — perdurará no futuro de Deus. Essas atividades não são simples maneiras de tornar a vida presente um pouco menos brutal […] Elas fazem parte do que podemos chamar de construir para o reino de Deus”.

Em outras palavras, o trabalho que fazemos entre o primeiro advento e o último importa.

O Reino dos Céus não está sem cultura. Baseado nesta passagem e em outras dicas ao longo das Escrituras, estou disposto a apostar que ele está cheio dela.

A minha oração é que a mesma esperança nos inspire todas a fazer o nosso melhor trabalho para a glória de Deus e o bem dos outros. E quem sabe? Talvez um dia, Christus Rex — Jesus, o Rei — graciosamente acolherá essas obras de nossas mãos em nosso lar eterno.


Por: Jordan Raynor. Website: https://jordanraynor.com/twbw/#carpenter Jordan Raynor, 2021. Traduzido com permissão. Fonte: Jesus the Creator, Carpenter, and King.

Original: Jesus, o Criador, carpinteiro, jardineiro e rei. © The Pilgrim. Website:  thepilgrim.com.br. Todos os direitos reservados. Tradução: Guilherme Cordeiro Pires.

O ponto de vista deste texto é de responsabilidade de seu(s) autor(es) e colaboradores direito, não refletindo necessariamente a posição da Pilgrim ou de sua equipe de profissionais.

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