Todo cristão é missionário em tempo integral

Cresci com medo de sermões sobre o tópico de missões. Não é porque eu não ame missões, na verdade, não posso em pensar em algo tão alucinante quanto compartilhar o nome de Jesus com um mundo perdido. Amo que 1Pedro 2.0 fala para anunciarmos “as grandezas” de nosso Deus, falando para outras pessoas sobre a obra miraculosa que Jesus fez em meu favor. Porém, há anos, toda vez que sabia que meu pastor pregaria sobre missões por estarmos entrando em mais uma “semana missionária”, eu me retorcia porque sabia que o sermão iria me deixar cheio de culpa porque eu não “iria” para “todas as nações” fazer discípulos de Jesus Cristo.

Nunca vivi fora dos Estados Unidos e nunca me vi numa vocação que tradicionalmente seria considerada “ministério em tempo integral”. Passei toda a minha carreira como um empreendedor na área de tecnologia e um escritor. Eu construí empresas e escrevi livros para sobreviver. E por meio desse trabalho — um trabalho que muitos na igreja podem chamar de “secular” — já vi o Senhor fazer coisas incríveis para alcançar os feridos com o evangelho.

É lamentável que, quando a maioria das igrejas fala sobre missão hoje, elas, na maioria das vezes, falam quase exclusivamente em termos de cristãos deixarem seus empregos e os locais em que Deus lhes chamou para irem para outra cultura como “missionários em tempo integral, apoiados por doações”. Odeio como tanta gente na igreja fala sobre missões, porque eu amo o evangelho de Jesus Cristo e estou cansado de ouvir — sutilmente e às vezes nem isso — que, porque você e eu gastamos mais de 40 horas semanais com nossas empresas, vamos para a escola, fazemos contas, criamos artes e levamos crianças para lá e para cá, não somos “missionários em tempo integral” comprometidos com fazer discípulos de Jesus Cristo por onde quer que formos.

Chamar um cristão de missionário em tempo integral é redundante. Nem precisa ser dito. Seja você um estudante, um empreendedor, um garçom, um médico, um zelador, um advogado, uma mãe ou um professor, você é missionário em tempo integral chamado para fazer discípulos por onde quer que você for nesta vida! A Palavra de Deus deixa claro que você e eu podemos ser obedientes à Grande Comissão sem mudar nossa vocação ou localização. Você pode ver o seu trabalho como uma missão em tempo integral a começar por hoje.

Se essa ideia parece nova ou recente, é porque a igreja comprou três mitos não bíblicos sobre missões que veremos ser refutados pela Escritura.

Mito de missões n. 1

A ideia de que todo cristão é um missionário em tempo integral pode parecer uma ideia nova ou recente. Por quê? Como veremos hoje, a Palavra de Deus deixa cristalinamente claro que cada um de nós é chamado a fazer discípulos de Jesus Cristo não importa qual seja o nosso emprego ou onde vivamos. Então por que esse conceito parece ser novo? Creio que é porque a igreja comprou três mitos sobre missões que veremos que a Escritura refuta.

O primeiro mito que a igreja subscreveu por algum tempo agora é que o trabalho é em grande parte inútil a não ser que você trabalhe como “missionário em tempo integral”.

Você já sentiu que o seu trabalho é menos importante ou significativo para a eternidade porque você não é pastor ou “missionário em tempo integral”? Esse sentimento é muito comum hoje, mas a boa notícia é que ele não é nada bíblico.

Gênesis 1.26-31 nos lembra de que o trabalho era parte do plano original e perfeito de Deus para o mundo. Nesta passagem, vemos Deus ordenando a humanidade a co-criar com ele — para “frutificar” e “enchei a terra e sujeitai-a”. Esse chamado não é só para a procriação. É um chamado para a civilização. É um chamado para criação cultural, de seguir a orientação de Deus para trabalhar e trazer coisas que não estavam aqui antes.

Se você for para Gênesis 2.15, você verá que Deus colocou Adão no Jardim do Éden e o chamou para o “trabalhar e cultivar”. Em 2.19, ele convida Adão a dar nomes a toda criatura viva. Deus está chamando Adão para ser um governante, um jardineiro, um agente de brands — trabalhos que hoje seríamos tentados a chamar de “secular” ou ao menos ver como menos significativos do que trabalhos como pastor ou missionário transcultural.

Mas eis a verdade: Deus chamou seres humanos para trabalhar mesmo antes da Queda. Assim, todo trabalho é intrinsecamente significativo e é um meio primário pelo qual revelamos o caráter de nosso Deus Criador e servir ao próximo.

Mito de missões n. 2

A fim de abraçar a ideia de que todo cristão é missionário em tempo integral, há um segundo mito de missões que precisamos usar a Escritura para refutar. Aqui está: o chamado de pastores e “missionários em tempo integral” é de algum modo “superior” ao chamado de outras vocações.

Como vimos na devocional de ontem, Deus chamou os seres humanos para trabalhar, dando um significado intrínseco a todo trabalho. Assim, não deve haver uma sensação de que o chamado vocacional de uma pessoa é superior, mais significativo ou mais relevante para a eternidade do que outros.

Mas o fato é que uma hierarquia implícita de chamados na igreja hoje que diz que, se você realmente está comprometido com Jesus, você abandonará o seu trabalho atual e “passará para o próximo nível” espiritual sendo um pastor ou missionário apoiado por doações.

Essa ideia não é nova. É um mito com que a igreja tem lutado por séculos. Martinho Lutero, João Calvino e outros líderes da Reforma Protestante lutaram veementemente contra essa hierarquia humana de chamados, argumentando que todo trabalho é tanto um chamado de Deus quanto o trabalho de um pastor ou sacerdote.

O que é particularmente risível sobre esse mito é o fato de que adoramos um Deus que passou a maior parte do seu tempo na terra trabalhando como carpinteiro! A Bíblia nos dá pouquíssimos detalhes sobre a vida de Jesus entre as idades de vinte e trinta anos, antes de ele começar seu ministério público. Uma das únicas coisas que a Escritura observa sobre esse grande período de tempo é que ele era conhecido na sua comunidade por seu trabalho como carpinteiro (ver Marcos 6.3)!

Pense nisso por um momento: desde o princípio do tempo, Deus sabia que ele enviaria Jesus à terra para redimir a humanidade. Sabendo disso — e sabendo o propósito final da vida de Jesus nesta terra — o fato de que Deus escolheu que Jesus crescesse na casa de um carpinteiro chamado José deveria nos surpreender.

Deus podia ter colocado Jesus numa família de sacerdotes, como o profeta Samuel ou João Batista. Ele podia ter crescido na família de um fariseu como o apóstolo Paulo. Mas não, Deus colocou Jesus na família de um carpinteiro onde ele passaria mais do que a metade da sua vida ministrando a outras pessoas ao fazer o que imaginamos ser mesas realmente excepcionais.

Agir como se o chamado do clero é superior a qualquer outro chamado é nada menos que desprezar Jesus Cristo. É um mito antibíblico dizer que há algum tipo de hierarquia de chamados. A verdade é que adoramos um Deus que trabalho e dá dignidade e sentido a todas as vocações.

Mito de missões n. 3

O terceiro e último mito sobre missões de que falaremos esta semana é que, a fim de cumprir a Grande Comissão você precisa “sair” da sua vocação e localização atuais.

Alguns anos atrás, ouvi um dos sermões mais revolucionários sobre a Grande Comissão pelo Dr. Kennon Vaughan. Focando na palavra “ide” no mandamento de Jesus em Mateus 28.19. Dr. Vaughan disse: “a palavra ‘ide’ irá ‘desbloquear o sentido para nós sobre como devemos fazer a Grande Comissão. A palavra ‘ide’ significa literalmente ‘tendo ido’. ‘Ide’ não é um mandamento, [Jesus] não está lhes dizendo para ir, mas sim dizendo ‘Tendo ido, fazei discípulos!’ Assume-se o ide. Em outras palavras, Jesus está dizendo: ‘Tendo ido daqui, enquanto vocês forem, convertam os homens em discípulos.’ Jesus não andou mais de 1500 quilômetros da sua cidade natal, mas ainda assim ele diz para fazermos discípulos de todas as nações e eu ousaria dizer que Jesus é o maior discipulador na história do mundo. Não se trata de quão longe ele foi, mas do que ele fazia enquanto ia. O mesmo é verdade para eu e para você.”

Não sei você, mas, até uns anos atrás, eu nunca havia ouvido uma pregação da Grande Comissão assim. “Enquanto vocês forem, façam discípulos”. Isso muda tudo.

Embora Deus realmente possa estar te chamando para mudar a sua vocação ou a sua localização, isso certamente não é um requerimento para cumprir a Grande Comissão. A verdade é que Jesus chamou cada um de nós para ser um missionário em tempo integral, fazendo discípulos enquanto vamos para nosso trabalho e para nossas vidas.

Quando entendemos que o trabalho é intrinsecamente bom e significativo, que o chamado do clero não é maior que o da congregação e que Jesus ordenou-nos a fazer discípulos enquanto estamos indo pela vida… isso muda tudo.

Não importa qual é o seu cargo no emprego — você é ordenado a fazer discípulos.

Não importa se você vive em Nova York ou em Nova Délhi — você é ordenado a fazer discípulos.

Não importa se você é pastor, estudante, empresário, dona de casa, contador, garçom ou artista — você é ordenado a fazer discípulos.

Não em algum ponto no futuro distante. Não quando você se aposentar da sua vocação atual. Não apenas na próxima viagem missionária. Hoje. Você é um missionário em tempo integral. Que incrível privilégio. Que incrível responsabilidade.


Por: Jordan Raynor. © Jordan Raynor. Website: https://my.bible.com/users/gcpdf/reading-plans/11395-every-christian-is-a-full-time-missionary/subscription/696722770/day/4/segment/0. Traduzido com permissão. Fonte: Every Christian is a full time missionary.

Original: Todo cristão é missionário em tempo integral de Jordan Raynor. © The Pilgrim. Website: thepilgrim.com.br. Todos os direitos reservados. Tradução: Guilherme Cordeiro Pires.

O ponto de vista deste texto é de responsabilidade de seu(s) autor(es) e colaboradores direito, não refletindo necessariamente a posição da Pilgrim ou de sua equipe de profissionais.

Imagem de Will Suddreth em Unsplash.

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