Vendo Deus na escuridão (Brad East)

Uma resenha de Oração da noite por Tish H. Warren

Te louvo porque

tu és artista e cientista

em um. Quando eu 

de algum modo temo teu poder,

tua habilidade de operar milagres

com um esquadro, te ouço

murmurar para ti mesmo

em notas que Beethoven

sonhou, sem alcançar.

Tu percorres tuas escalas

em água de chuva e do mar, tocas

os acordes da manhã

e da luz crepuscular, escultura

de sombras, juntas folha

a folha, quando chega 

a primavera, as estrofes de

um imenso poema. Falas

todas as línguas e nenhuma,

respondendo nossas mais complexas

orações com a simplicidade

de uma flor, confrontando-nos,

quando tentamos te domesticar

para nosso uso, com a revolta

de vírus sob nossos olhos.

— R.S. Thomas, “Praise”


Quando a COVID-19 chegou até nós era a época da quaresma, e para muitos de nós, nem a covid nem a quaresma terminaram. É a estação litúrgica da COVID-19, é o que dizem: uma exceção ou emergência no calendário eclesiástico, um período contínuo e aparentemente eterno de isolamento, confusão e perda. A penumbra de uma praga nos cobriu como uma mortalha, e os cristãos, tanto quanto os todos os demais, não têm completa certeza do que dizer ou fazer, ou para que lado seguir nesse crepúsculo repentino e desorientador. 

Uma quaresma desemboca na outra, sendo unidas por um vírus. Aqui estamos novamente. A quaresma é uma estação penitencial, mas não é uma questão de masoquismo ou refletir no que é triste só porque é triste. Jejuamos porque o corpo precisa lembrar do espírito. Meditamos sobre os nossos pecados não para nos fixarmos neles, mas para confessá-los perante Deus. Fixamos nossos olhos em Jesus, o Cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo, ao Verbo feito carne, a luz do mundo que brilha nas trevas — porque as trevas não prevaleceram contra ela.

O penúltimo ato da quaresma é despir o altar na Quinta Feira Santa. Da mesma forma, a quaresma despe os batizandos. Ela nos despe de cada artificio de nossa suposta autonomia, de toda afirmação possível de que somos donos de nós mesmos, de toda tentativa vergonhosa de protestar que algo em nossas vidas não é um presente vindo de outra pessoa. “E o que tens que não tenhas recebido” (1Co 4.7) é a pergunta da quaresma, e ela não nos deixará quietos até que nos rendamos. Nossas vidas, e tudo que há nelas, são um presente. A nós só nos cabe receber e ser gratos. 

Assim é a quaresma em tempos comuns, pelo menos. O coração quebrantado e contrito que Deus não desprezará deve surgir de dentro; não pode ser imposto de fora. Ainda assim, a longa quaresma do ano passado — a quaresma de lockdowns e demissões, isolamentos e funerais, nascimentos sem avós e festas sem a família — realmente foi uma imposição. Não a escolhemos, e nunca a teríamos escolhido.

A questão não é se ela também pode operar nos nossos corações. Ela pode. A questão é, embora vejamos no horizonte a alvorada de boas notícias (de forma imediata, a vacinação em massa; de forma definitiva, o domingo de Páscoa), qual operação será essa e se nós o receberemos ou o resistiremos.


Tish Harrison Warren escreveu seu novo livro, Oração da noite: para quem trabalha, vigia e chora, antes da COVID-19. Mas a leitura faz parecer que ela já sabia o que estava por vir. É uma obra de melancolia sacra. Nasceu de sofrimento, dor e perda: a perda inesperada de seu pai e de dois filhos não nascidos. O livro não propõe regras para a vida. Não provê um plano para o sucesso. Não ousa ser feroz, nem abusar de sua culpa, te aconselhar a se afundar nela. Em resumo, não contém técnicas nem faz garantias.

            Mas oferece uma oração.

            A oração vem do Livro de Oração Comum (LOC), no ofício das completas. É uma oração que não somente Warren, que é pastora na Anglican Church of North America (ACNA), mas toda sua família começou a recitar junto cada noite em seu período de dificuldade. Como todas as orações da LOC, esta é de uma simplicidade elegante:

Vela, ó Senhor amado, com os que trabalham, vigiam ou choram nesta noite. Manda que teus anjos guardem os que dormem. Cuida dos enfermos, Cristo Senhor. Dá repouso aos cansados. Abençoa os que estão à beira da morte. Consola os que sofrem. Compadece-te dos aflitos. Guarda os alegres. Tudo isto te suplicamos somente por teu grande amor. Amém.

Essas palavras viraram um mantra ao cair da noite. À medida que as palavras penetravam nas feridas do seu luto, elas tomaram vida própria. Abriram novos horizontes na prática de Warren da fé. Em Oração da noite, cujos capítulos são estruturados por cada frase sucessiva da oração, ela compartilha o que aprendeu.

O resultado é um exercício sábio, comovente e primoroso de teologia contemplativa escrita para crentes ordinários. Alcançar tal coisa é raro nos escritos cristãos populares dos dias de hoje, os quais geralmente vêm em três formas: profundo, mas nichado; raso, mas acessível; ou possivelmente sub-cristão. O fato de Warren escapar dessas armadilhas — acima de tudo mediante sobriedade espiritual, clareza de prosa e seriedade intelectual — não será nenhuma surpresa aos leitores de suas obras anteriores. Em Liturgia do ordinário, Warren conseguiu sintetizar meio século de trabalho acadêmico sobre comunidade, hábitos, disciplinas e adoração para leitores que claramente estavam sedentos por isso. Uma passagem breve desse livro nunca me abandonou, e serve como ligação para seu próximo livro:

Quando Jesus morreu pelo seu povo, ele me conhecia pelo nome na particularidade deste dia.[1] Cristo não redimiu a minha vida teoricamente ou abstratamente, a vida que eu sonhei viver ou a vida que eu pensava que deveria viver, idealmente. Ele sabia que eu estaria hoje do jeito que eu estou, na minha casa do jeito que ela está, nos meus relacionamentos com sua beleza e miséria específicas, nos meus pecados e lutas peculiares. (pg. 31)

Em outras palavras, se o objeto da redenção de Cristo sou eu e não uma versão instagramizada de mim, então é a minha vida de verdade, e toda o marasmo quotidiano dela, que interessa a Cristo. É com isso que ele trabalha. Fazer o jantar e trocar fraldas, ir para o trabalho e mexer no celular: isso tudo é mundano, sem dúvida, e até entediante. Ainda assim, essa é a matéria da redenção. É a zona da graça. É o lugar onde, se eu apenas me permitir vê-lo, o Cristo ressurreto me encontra e me diz para tomar minha cruz e segui-lo. E tal como a cruz é sem glamour ao extremo, assim também o é a maioria do que conta como discipulado. Sinais e maravilhas são a exceção, não a regra. Ou melhor, com Jesus, o reino de Deus “não vem com aparência exterior […] Pois o reino de Deus está entre vós” (Lc 17.20-21).

Se o discipulado tão sem espetáculo, então é razoável esperar que nossa vida na igreja seja similarmente ausente de fogos de artifícios. E assim o é. E nós podemos, Warren argumenta, ou recalcitrar inutilmente contra os nosso aguilhões e exigir que a vida da fé nos proveja uma série infinda de experiências extraordinárias, cuja qualidade subjetiva não pode ser alcançada, nem refutada; ou podemos aceitar a natureza rotineira de seguir a Jesus, e buscar dessa forma os antigos caminhos dos hábitos santificadores. A primeira opção é uma passagem expressa para o burnout espiritual — embora sua estada contínua na fecunda religiosidade do evangelicalismo americano de fato sugira que tenha poder para ficar. De todo modo, Warren opta pelo segundo, que também calha de ser a forma que a igreja têm escolhido através dos séculos.

Para essa tradição mais comum, a liturgia e os sacramentos funcionam como um tipo de âncora ou guia para os fiéis, assegurando nosso relacionamento com Cristo mediante nossa presença corporal uns para com os outros e mediante a presença real de seu próprio corpo para nós e entre nós. Pela repetição de rituais de adoração, o Espirito nos une uns aos outros e ao nosso cabeça, o Senhor Jesus; e está é precisamente a repetição que opera nossa comunhão. Pois não precisamos depender de nossos sentimentos instáveis, muito menos de espontaneidade ou talento, para facilitar a presença do Espírito. A comunhão dos santos já nos deu o roteiro, antigo e bem utilizado. Esse roteiro é um registro da vida de Deus com seu povo; mais do que um registro, é um mapa: como chegar daqui para lá. Ao confiar em Deus e no povo de Deus, portanto, mantemos o roteiro litúrgico: entra ano, sai ano. E ao fazer isso, nos encontrando e nos aprofundando nele, seguindo os santos como estes seguiram a Cristo. Até dizemos as orações deles. Afinal, o Espírito promete nos fornecer palavras quando as nossas falharem. Uma forma que ele faz isso é ao nos dar as palavras dos fiéis que se foram.[2]

Faz sentido, então, que, quando Warren se encontrou numa sala de emergência, coberta de sangue e incerta sobre o que estava acontecendo, ela tenha gritado a seu marido, acima do som das máquinas e das enfermeiras: “As completas! Eu quero orar as completas!”

* * *

            Três temas, ou compromissos, são o fundamento que informam Oração da noite. Primeiro que Deus não impede as coisas ruins de acontecerem. Segundo que todos nós somos defensores implícitos da teologia da prosperidade. E terceiro que Deus é amor.

No começo do livro Warren lembra de uma frase que ouviu num sermão anos atrás: “Você não pode confiar que Deus vá impedir que coisas ruins aconteçam com você.” Isso a deixou, nas palavras dela, boquiaberta. Ela sabia que coisas ruins aconteciam no mundo. E Deus certamente previne que toda sorte de coisa ruim nos surpreenda, a cada segundo. Todavia ela compreendeu que confiar em Deus não é confiar que ele sempre fará isso. Mais perigosamente, não devemos confiar em Deus só quando ele nos protege do mal. Coisas ruins — terríveis, trágicas — vão acontecer conosco. Isto é um fato. E nossa confiança em Deus não depende desse fato. Ambos estão relacionados, mas não desta maneira.

Nossa tendência de confundir a função de uma com a outra é, no entanto, reveladora. O modo como vivemos revela nossas crenças mais profundas. Por essa medida, todos nós em algum nível cremos num tipo de teologia da prosperidade.[3] Pois “em algum lugar silencioso de nossos corações, sentimos o favor de Deus quando as coisas dão certo para nós e sua desaprovação — senão a sua ausência — em nossas frustrações.”

A aflição verdadeira nos vira de cabeça para baixo e nos deixa todo perdido, esse tipo de sofrimento que não tem trégua nem descanso nessa vida, “quando a estrada é longa e provavelmente não haverá final feliz […] Queremos que o sofrimento tenha um começo, meio e fim claros, de um jeito que possamos entender, uma história com uma resolução coerente. Nós resistimos uma visão do cristianismo sem resultados imediatos, sem vantagens evidentes.”

Quando Cristo nos encontra nas nossas aflições, ou nas dos outros, ele “expõe as promessas vazias de uma cultura consumista, e até de uma fé consumista — de que prazer, prosperidade, saúde e realização mundana sejam verdadeira abundância.” Não são. Na verdade, são produtos falsificados e máscaras em nossos dramas diários de negação, enquanto fingimos para nós mesmos e para nosso próximo que, nas palavras de Stanley Hauerwas, vamos sair dessa vida vivos.

O evangelho não é um conto de fadas. Longe de aceitar nossa negação da morte, ele nos põe face a face com a nossa própria mortalidade — de fato, com aquilo que Warren, seguindo Thomas Long, chama de “Morte com M maiúsculo”. A quaresma se inicia com a Quarta Feira de Cinzas, quando somos marcados com o sinal da morte de Cristo e lembrados de que somos pó e ao pó voltaremos. O livro de Warren é sobre a escuridão, que é apenas outra forma de dizer que é sobre a morte. Ela não vai permitir que escondamos o rosto aqui. Ela não vai permitir que desviemos os olhos. Viver na verdade significa reconhecer que você e eu e todo mundo que amamos vai, um dia, morrer.

Alguém pode responder: isso talvez seja uma dose amarga de realismo, mas dificilmente é boas novas. Se tudo está acorrentado à morte e não podemos confiar que Deus nos botará longe do alcance da morte (e de suas diversas antecipações), então Deus serve para quê? Por que confiar nele, para começo de conversa? A resposta, se é que isso é uma resposta, percorre o livro como um reluzente fio: porque Deus é amor (1 Jo 4.8). Isso quer dizer, o Deus revelado em Jesus Cristo é ele mesmo o amor que move o sol e as demais estrelas. É então um erro confiar nele para nos tornarmos invulneráveis nesta vida. Porque o movimento é o contrário: ele, embora invulnerável por natureza, se tornou vulnerável por amor de nós. “Jesus deixou um lugar sem noite para entrar nas nossas trevas”, escreve Warren. Então embora seja verdade que Deus não impeça que coisas ruins aconteçam conosco, também é verdade que “Deus não impediu que coisas ruins acontecessem com o próprio Deus.”

Deus, em resumo, não responde ao nosso sofrimento com uma palestra; ele se junta a nós e torna os nossos sofrimentos dele. Com efeito, o sofrimento dele é curativo; o Deus que chora com Santa Maria de Betânia (Jo 11.32-35) não sofre sem propósito — “pelas suas feridas fostes sarados” (1Pe 2.24). Mas o sofrimento do nosso Senhor não põe um fim ao nosso, antes, o envolve e o inunda com as presença. Gememos ansiando pelo dia em que ele “destruirá neste monte a coberta que envolve todos os povos e o véu que está posto sobre todas as nações”, quando “tragará a morte para sempre, e, assim, enxugará o SENHOR Deus as lágrimas de todos os rostos” (Is 25.7-8, ARA). “Mas — espere —”, diz Warren, “antes vamos chorar bastante uma última vez. A redenção não pula as trevas, mas sim exige que até a última lágrima seja derramada.” Per crucem ad lucem: pela cruz, à luz. Ou antes, a luz do Senhor só nos encontra no escuro.

Esta é a boa nova do evangelho, mesmo que provavelmente ele não certifique a vitória em que Warren chama de “briga de faca existencial” ou teodiceia. Ele nos dá Deus; ele não nos dá uma explicação. Ele permite, e até encoraja, o lamento, mas exorta a reclamação do cliente insatisfeito, como se Jesus estivesse um “Deus com a performance baixa”, deixando de manter o seu lado da barganha. Uma visão transacional desse tipo reflete uma falha fundamental em compreender a natureza da encarnação. Na véspera de sua paixão, o próprio Jesus orou ao Pai com lágrimas e sangue no Getsêmani — mesmo quando seus amigos mais próximos dormiam ali por perto. Ele se manteve vigiando naquele momento, e ainda vigia: ele “não dormita.” Em nossa agitação e noites solitárias, portanto, “Deus está conosco e ele conhece a nossa fragilidade e vulnerabilidade tão certamente quanto ele conhece a palma de nossas mãos.” Em tempos como estes, “oração ajusta nossos olhos para ver Deus nas trevas”, onde ele sempre esteve e de onde nunca saiu.

Assim como os lutos e perdas de nossas vidas ordinárias, a escuridão coletiva do ano passado não foi prevista nem escolhida. Muitos têm sido mais sortudos, apesar de tudo, mas o fardo é compartilhado. Será que este fardo poderia ser uma oportunidade de espiar a presença de Deus entre nós? Será que essa escuridão poderia ser um meio de contemplar a luz de Cristo? Warren diz:

Pensamos que disciplinas espirituais são hábitos que iniciamos, como ler a Bíblia, orar e ir à igreja. Essas são as partes explicitamente espirituais de nossos dias. O resto da nossa vida é simplesmente aquilo pelo que passamos, as coisas inertes compostas por tempo, acaso e biografia. Porém, muitas vezes as práticas espirituais mais fundamentais e formativas de nossas vidas são as coisas que nunca escolheríamos. As formas mais profundas de encontrar a Deus são frequentemente aflições.

            A quaresma está chegando ao fim. Tivemos nossa porção do pão da aflição, e mais um pouco. A luz está começando a raiar. A Páscoa está vindo. Mas a verdade é que não temos que esperar. Jesus já está aqui, conosco, nesse vale de sombras. Ele sempre esteve. E sempre estará, venha o que vier. 


[1] Se Stanley Hauerwas um dia escrever uma continua a seu ensaio “How to Write a Theological Sentence” [Como escrever uma frase teológica], ele deveria incluir esta aqui.

[2] Eu reflito mais sobre essas linhas em “The Church and the Common Good.” [Link: https://www.cardus.ca/comment/article/the-church-and-the-common-good/]

[3] Aqui Warren aponta o leitor ao Everything Happens for a Reason: And Other Lies I’ve Loved, de Kate Bowler; assino em baixo dessa referência. Veja também o novo livro de David H. Kelsey, Human Anguish and God’s Power.mereorthodoxy.com/fear-covid19/


Por: Brad East. © Mere Orthodoxy. Website: https://mereorthodoxy.com/prayer-in-the-night-book-review/. Traduzido com permissão. Fonte: To See God in the Darkness: On Tish Harrison Warren’s “Prayer in the Night”.

Original: Vendo Deus na escuridão: sobre Oração da noite de Tish Harrison Warren. © The Pilgrim. Website: thepilgrim.com.br. Todos os direitos reservados. Tradução: Arthur Guanaes. Revisão: Guilherme Cordeiro Pires.

O ponto de vista deste texto é de responsabilidade de seu(s) autor(es) e colaboradores direito, não refletindo necessariamente a posição da Pilgrim ou de sua equipe de profissionais.

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