Como Jesus se sente perto de você (Stephen Witmer)

Uma resenha de “Manso e humilde” de Dane Ortlund

Há um ano, enquanto eu revia as recomendações de um livro sobre o evangelho publicado já faz dez anos, eu percebi chocado que, dos 17 conhecidos líderes cristãos que contribuíram com sua recomendação, 6 tinham abdicado ou sido removidos de suas posições ministeriais. Isso é uma taxa de mais de 30% em apenas 10 anos — e ela parece crescer cada vez mais. Embora fracassos de liderança não sejam novidade, duas coisas foram particularmente surpreendentes nos últimos anos: primeiro, as razões para a saída frequentemente foram diferentes de pecado sexual.

Considere essas descrições (todas provindas da revista Christianity Today) de líderes conhecidos que abdicaram ou foram removidos de suas posições:

  • “manipulação, imposição, falta de comunidade bíblica”
  • “arrogância, respondendo a conflitos com um temperamento instável e palavras duras e liderando os ministérios e os presbíteros de uma forma impositiva”
  • “abuso espiritual por meio de bullying e intimidação, exigências exageradas”
  • “insultos, menosprezo e agressões verbais”
  • “diversas expressões de orgulho”

Esses líderes, por conta de sua dureza, raiva ou orgulho, foram desqualificados para o ministério.

Em segundo lugar, infelizmente, os problemas de liderança aconteceram perto de casa. Todas as descrições acima foram de líderes que se conectam com a The Gospel Coalition de uma forma ou de outra. Não é simplesmente um problema “lá fora”. Em tempos em que muitos líderes seculares são cada vez mais intolerantes, rudes e sem limites, é importante que os cristãos ouçam à instrução de Jesus de “não ser assim” entre nós (Mt 20.26). Muitas vezes, acaba sendo assim.

Há outro problema sério, sendo este mais sutil e menos dramático, enquanto igualmente atroz e amplo, tão comum em púlpitos e igrejas.

Por que nos sentimos secos espiritualmente?

Muitos cristãos que conhecem o evangelho ainda lutam para experimentar e se deliciar no Cristo dos evangelhos. Talvez se deva em parte a eles não terem certeza se ele se delicia neles. Eles vivem com uma ideia de que Cristo frequentemente só os aguenta até certo ponto; que faltam apenas alguns pecados para acabarem com a paciência dele; que ele resmunga mais do que se regozija quando pensa neles; que, mesmo sendo disposto a perdoar, ele o faz de forma relutante e retraída. Eu lembro uma conversa com uma santa idosa em que ela me confidenciou ter lutado por anos com uma culpa oculta. Embora ela confiasse em Jesus, ela nunca sentia que fazia o suficiente. Na cabeça dela, Jesus sempre ficava na mão.

Todos esses problemas causam danos incontáveis. Líderes explosivos deixam de exibir o coração de Cristo; cristãos que não se alegram com o evangelho em que creem deixam de conhecer o coração de Cristo em primeira mão. No fundo, ambos os problemas fluem de uma falha em experimentar Jesus como ele realmente é. Sejamos honestos: quem ama a Jesus, numa perspectiva reformada e centrada no evangelho, precisa aprender a ver e conhecer a Jesus como ele realmente é tanto quanto qualquer outra pessoa. Mesmo com nossa excelente teologia, ainda precisamos urgentemente conhecer o que faz o coração de Cristo pulsar, junto com nossos amigos em outras tradições.

Essas são algumas razões pelas quais sou grato pelo novo livro escrito por Dane Ortlund: Manso e humilde: o coração de Cristo para quem peca e para quem sofre. Em 23 curtos capítulos, Ortlund  nos (re)introduz ao “coração de Cristo para pecadores e sofredores”. Ortlund quer que conheçamos quem Jesus realmente é, o que é mais natural para ele e o que flui dele de forma mais instintiva (p. 12). Em seu cerne, Jesus é manso e humilde. No fundo, o coração de Jesus é um coração tenro, aberto, acolhedor e compreensivo — um coração que se regozija em amar o seu povo até mais do que eles se regozijam em receber o seu amor.

Argumentação incansável

Porque conhecemos a Jesus principalmente por meio do texto bíblico, o livro de Ortlund se concentra incansavelmente na Bíblia. Porque somos auxiliados em nosso entendimento da Bíblia por meio da sabedoria daqueles que vieram antes de nós, este livro frequentemente recorre à sabedoria puritana, que perdura há séculos particularmente em autores como Thomas Goodwin, Richard Sibbes e John Bunyan.

Já que a mensagem da Bíblia sobre o coração de Jesus é uma verdade a ser sabedoreada — e não apenas conhecida — e já que os puritanos eram pastores espirituais — e não apenas gigantes intelectuais —, este livro é mais uma teologia pastoral que um livro-texto. Ele busca confortar e consolar, acolher seus leitores numa experiência mais ampla e mais vívida de Cristo. Há rigor intelectual — resumindo acertadamente o fluxo dos livros bíblicos numa interpretação contextualizada, tratando regularmente autores da história da igreja e lidando muito bem com questões hermenêuticas e teológicas difíceis (p.ex., a intercessão de Cristo hoje sugere que há algo faltando na cruz?).

Ele também é devidamente qualificado. Ortlund reconhece que o Cristo manso e misericordioso também se inflama com santa ira e sempre age com perfeita justiça (p. 26-28; 108-111). Na verdade, uma das contribuições mais importantes do livro é o seu argumento de como amor e juízo se encaixam no coração do Deus trino. Seguindo Goodwin e com base em passagens tais como Isaías 28.21, Jeremias 32.41 e Lamentações 3.33, Ortlund argumenta que o juízo de Deus — embora certamente faça parte de seu caráter e governo soberanos — ainda é uma “obra estranha”. Ele julga com uma relutância que é diferente da maneira como se sente sobre suas obras de misericórdia e redenção. O mais fundo de seu coração — o seu desejo mais íntimo — é demonstrar misericórdia ao seu povo.

Como experimentar o amor de Cristo

Num livro que busca não apenas persuadir a mente, mas também sarar o coração — alimentar uma nova experiência de Cristo —, a linguagem é crucial. Belas verdades devem ter belas formulações. Palavras e imagens precisam passar pela mente e se aninhar no coração. Simplesmente pare e leia essas figuras de linguagem e formas simples e brilhantes de expressar essas verdades:

  • “Assim como o gás hélio carrega um balão, o jugo de Jesus o faz com seus seguidores. Flutuamos pela vida com sua mansidão sem fim e sua humildade supremamente acessível” (p. 20-21);
  • “A intercessão é um “atualizar” constante da nossa justificação na corte celestial” (p. 80); e
  • “O seu coração pelos seus não é como uma flecha, que se atira rápido, mas cai igualmente rápido; ou um corredor, rápido na partida, mas que logo perde o ritmo e fraqueja. O coração dele é como uma avalanche que ganha forças com o tempo, como um incêndio florestal, se intensificando à medida que se espalha.” (p. 203).

Explicando a intercessão de Cristo, Ortlund nos pede para imaginar ouvir Jesus orando no cômodo mais próximo. Com base na exposição de Hebreus 4.15 por Thomas Goodwin, Ortlund nos pede para imaginarmos um amigo tomando nossas mãos e colocando-as “no peito do Senhor Jesus Cristo” de modo que pudéssemos sentir “a força vigorosa das afeições e anseios mais profundos de Cristo” (p. 43).

Ortlund acredita que “é impossível o afetuoso coração de Cristo ser celebrado demais, superestimado ou exagerado” (p. 27-28). De fato. Particularmente para quem precisa ser diariamente convencido da prontidão de Cristo para perdoar e nos abraçar mais uma vez.

Facetas inexploradas de um diamante.

A abordagem do livro de “facetas-de-um-diamante”, que estuda Cristo a partir de vários ângulos ao invés de construir um argumento cumulativo capítulo a capítulo, corre o risco de parecer um pouco repetitivo de vez em quando. Mas este diamante em particular é tão maravilhoso que vale a pena estudá-lo com atenção. Na verdade, eu amaria ver algumas outras facetas exploradas.

Como o amor de Jesus por pecadores se relaciona com a sua paixão pela glória de Deus? Perguntar e responder essa questão garantiria que não teríamos uma visão autocentrada ou claustrofóbica do amor de Jesus por nós. Como o amor de Jesus por pecadores se relaciona com o amor trinitário de Deus dentro dele mesmo? Jesus foi amado pelo Pai antes da fundação do mundo (João 17.24) e ele torna o nome do Pai conhecido a seus discípulos a fim de que “o amor com que me amaste esteja neles, e eu também neles esteja” (João 17.26). O que significa que o amor de Deus por Deus agora está dentro de nós?

Anteriormente no livro, Ortlund pergunta a seus leitores: “Você vive ciente não só da obra expiatória dele pela sua pecaminosidade, mas também do coração dele que anseia por você, mesmo em meio a sua pecaminosidade?” (p. 14). É uma questão crucial, que faríamos bem em meditar. Oro para que muitos leiam este livro com atenção e que Deus o utilize para moldar líderes cristãos mais mansos e humildes, e cristãos mais confiantes e alegres. Cristãos que sabem lá no fundo que eles são alegremente bem-vindos no coração desejoso e afetuoso de Jesus.


Manso e humilde foi publicado em português pela Pilgrim. Adquira-o aqui.

Por: Stephen Witmer. © The Gospel Coalition, 2020. Website: https://www.thegospelcoalition.org/reviews/gentle-lowly-dane-ortlund/. Traduzido com permissão. Fonte: “How Jesus Really Feels About You”

Original: Como Jesus se sente perto de você. © The Pilgrim. Website: thepilgrim.com.br. Todos os direitos reservados. Tradução: Guilherme Cordeiro. Revisão: Arthur Guanaes.

Imagem:  Unsplash

O ponto de vista deste texto é de responsabilidade de seu(s) autor(es) e colaboradores diretos, não refletindo necessariamente a posição da Pilgrim ou de sua equipe de profissionais.

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