Teologia teológica (Michael Allen)

A geração dos baby boomers [nascidos entre 1945-1964] ainda comanda grande parte do mundo, e, infelizmente, seu maior teólogo já morreu. John Webster, falecido em maio de 2016, desempenhou um papel importante no mundo cristão de língua inglesa. Sua realização singular foi ter se tornado um expositor ao invés de um inovador conceitual, um teólogo dogmático em vez daquela figura teológica moderna, o sistemático criativo e revisionista. Tenho a sorte de ter passado meus anos formativos aprendendo com ele. 

Nascido em 1955, Webster era um lacônico yorkshireman e um anglicano da baixa-igreja que tinha pouca consideração pela pompa e pretensão da vida inglesa de classe alta. Educado na Universidade de Cambridge, ele ocupou cargos como professor na Universidade de Durham e no Wycliffe College, na Universidade de Toronto, após os quais foi nomeado Professor Lady Margaret de Divindade em Oxford. Seu tempo em Oxford não foi feliz e, quando surgiu a oportunidade ele foi para o norte, para o austero distrito de Aberdeen, na Escócia, para assumir o cargo de professor na universidade de lá. Nos últimos anos antes de sua morte prematura, ele lecionou na Universidade de St. Andrews. 

Sua peregrinação profissional foi acompanhada por sua peregrinação intelectual. Webster foi treinado no fogo dialético da teologia barthiana. Nos primeiros anos de sua carreira acadêmica, ele se debruçou sobre a teologia de Eberhard Jüngel, uma figura alemã de destaque na geração que sucedeu Barth. Ao longo de sua carreira, no entanto, ele se voltou para a tradição clássica do escolasticismo protestante como uma extensão do cristianismo patrístico e medieval. Na época de sua morte, Webster era o mais eminente proponente de um projeto assumidamente protestante de ressourcement, o “retorno às fontes” que havia tanto renovado a teologia católica romana no século 20.  

A teologia de Webster é melhor entendida em termos de três temas. Primeiro, Webster insistiu que a teologia deve começar com Deus. Neste sentido, ele permaneceu sempre no mesmo lado de Karl Barth. Mas o segundo tema marcou uma ruptura com Barth (pelo menos segundo a maneira em que o grande teólogo suíço é tipicamente compreendido). Webster veio a insistir que a teologia cristã, que começa com Deus, deve disciplinar sua reflexão com a metafísica. Seu terceiro tema é o papel central da exposição. O teólogo não é crítico ou criativo, antes é a Palavra de Deus que é tanto crítica quanto criativa e em um grau muito maior do que qualquer humano jamais poderia ser. Se o teólogo, portanto, deseja participar do poder crítico e criativo de Deus, ele deve “ouvir, ler, marcar e digerir interiormente” a Palavra de Deus. A teologia é, antes de tudo, um comentário. Em cada um destes aspectos, Webster se voltou contra as tendências culturais, não apenas do mundo ocidental mais amplo, mas na teologia cristã dominante.

Karl Barth adquiriu uma reputação proeminente através de seu comentário explosivo de Romanos, que posteriormente foi chamado de “uma bomba no parquinho dos teólogos”. Nessa obra, Barth fala vividamente sobre Deus e a ação de Deus na transformação do nosso mundo contra as platitudes liberais de progresso humano. Décadas depois, John Webster igualmente abordou o tema da prioridade da ação de Deus e desafiou os métodos frequentemente centrados no homem que dominam grande parte da teologia moderna.

Seu ensaio seminal, “Theological Theology” [Teologia Teológica], foi originalmente sua palestra inaugural como Professor Lady Margaret de Divindade na Universidade de Oxford em outubro de 1997. Webster começa abordando a natureza da universidade saudável. O ensaio é caracterizado, em parte, por sua habilidade de autocrítica e por sua transparência acerca de sua “antropologia do conhecimento”. Por esse termo, Webster se refere ao fato de que toda abordagem educacional adota uma visão particular da pessoa humana.

Na perspectiva de Webster, a pesquisa moderna universitária se fundamenta em uma visão da “individualidade responsável”. Essa antropologia é “identificada não com as especificidades da formação, costumes ou treinamento, nem com os hábitos da mente e do espírito que são adquiridos a partir da participação em uma tradição particular, mas sim a partir da interioridade”. Na medida em que a interioridade é enfatizada, a Bildung (formação) é marginalizada. A interioridade nos convoca a “encontrar” a nós mesmos ao invés de nos submeter a uma tradição que irá formar e moldar nosso pensamento. A pedagogia da Wissenschaft (uma ciência antiautoritária e “livre de valores”), então, preenche o vazio. A universidade se concentra mais na técnica do que no cultivo moral.

Webster então observa que o eu interiormente definido também redefine o papel dos textos na educação. Os textos deixam de ser considerados autoridades a serem citadas e obedecidas e se tornam recursos a serem utilizados. Uma pedagogia dedicada ao cultivo da interioridade busca reunir, por assim dizer, um cânone pessoal ao qual o eu confere autoridade. Essa pedagogia é caracterizada pela oposição ao cânone dos grandes livros e pela afirmação de “pensamento crítico”.

A teologia cristã moderna absorveu em grande medida esse ethos, Webster observa. Uma falta de coragem teológica marcou o declínio da teologia cristã. Essa falha enfraqueceu a teologia, reduzindo dramaticamente sua influência na universidade e na cultura intelectual do Ocidente. Teólogos não foram encurralados; eles assumiram sobre si mesmos a pedagogia da interioridade. Webster traça o declínio de um conceito distintamente cristão de Deus em áreas doutrinárias. A revelação perde sua reivindicação de autoridade; a ressurreição de Jesus se torna um problema a ser administrado com raciocínio “hermenêutico”. Essa perda de autoridade leva a uma “desordem dentro da dogmática cristã” e a “hesitação da teologia em apresentar reivindicações teológicas”.  

Essa é uma visão errônea da teologia. Webster argumenta que as ações de Deus registradas na Escritura não são apenas o assunto central da teologia — são o fundamento e a racionalidade de qualquer abordagem verdadeiramente teológica: “Falar sobre Deus descreve não apenas o assunto que a teologia investiga, mas também, fundamentalmente, informa o caminho de seus próprios processos de investigação”. Deus é o fundamento e a base de toda teologia. O estudo teológico não pode ocorrer à parte de uma consciente dependência das criaturas em relação a nosso Criador, Pai e Redentor intelectual. A graça do evangelho não apenas define uma parte da vida espiritual humana; ela estabelece o espaço para a atividade intelectual teológica dos agentes humanos. 

Em resumo, teólogos devem fazer teologia como se Deus importasse, de fato, como se Deus estivesse presente. Minha frase favorita de Webster é a seguinte: “Deus não é convocado à presença da razão; a razão é convocada diante da presença de Deus”. A teologia é singular entre as ciências, pois seu objeto fala e revela, vivifica e julga.

Webster frequentemente repreendia os protestantes modernos por reduzirem Jesus e suas boas novas a um item da intervenção divina no passado — algumas belas obras na Palestina do primeiro século — e por falharem em ver que o Cristo triunfante e assunto aos céus continua a ministrar graça e a cuidar de seu rebanho. A presença celestial de Cristo à direita do Pai informa o pensamento cristão e devemos permitir que assim seja para não pensarmos que fomos deixados por conta própria apenas com nossas técnicas científicas em nossos esforços para encontrar, conhecer e falar de Deus. A graça não é apenas o conteúdo da doutrina, mas também o contexto dentro do qual a proclamação cristã se torna real.

Muitos teólogos modernos sugerem que afirmações metafísicas conduzem à opressão, falham em honrar diferenças e diversidades contextuais e manifestam arrogância. Alguns sugerem que qualquer recurso à metafísica mistura Deus com outros seres, domesticando-o como se ele fosse parte do que Stanley Hauerwas chamou de o “mobiliário metafísico do universo”.

Webster pode ter parecido, a princípio, um campeão das manobras anti-metafísicas da teologia protestante moderna. Eberhard Jüngel, o tema da dissertação de doutorado de Webster, foi um notável crítico das afirmações metafísicas totalizantes e arrogantes. Webster também escreveu bastante sobre a teologia e a ética de Karl Barth. Barth foi contemporâneo de Heidegger e tem sido interpretado como profundamente desconfiado de qualquer esquema metafísico em nome da dialética. 

De acordo com essa leitura, Barth olhou para trás, para a Encarnação a fim de definir (ou redefinir) o que “Deus” deve ser, em vez de começar com alguma noção (supostamente idólatra) de divindade. Uma dinâmica semelhante é assumida para caracterizar a teoria ética de Barth, que rejeita a lei natural. Até que ponto Barth era “antimetafísico” é uma questão altamente debatida nos estudos de Barth.

Webster evitou esses debates, hesitando quanto a se engajar nas discussões da Barth Society que marcaram o final dos anos 2000 e início dos anos 2010. Ele foi atraído por elementos da teologia de Barth que eram menos enfatizados pelos “barthianos”. Webster desempenhou um papel fundamental ao defender a função distintiva e substancial da teologia moral dentro do pensamento de Barth. Mais importante, ele se concentrou na exegese e na teologia histórica de Barth e encorajou seus alunos a fazerem o mesmo. Como resultado, seus estudantes não se fixaram na relação entre Barth e Hegel ou Barth e Heidegger (temas comuns dos estudos de Barth). Eles foram direcionados à intepretação de Barth de Zwínglio, das Confissões Reformadas e do Evangelho segundo João. Seu livro Barth’s Earlier Theology detalha o período em que Barth, conhecido até então como um pensador apocalíptico que protestava contra o liberalismo dominante, percebeu que precisava fundamentar seu trabalho teológico novamente nos distintos recursos teológicos encontrados na Escritura e nos grandes textos da tradição cristã.

Webster seguiu o mesmo curso em seu próprio desenvolvimento teológico. Ele define “teologia teológica” como um engajamento com os textos cristãos clássicos, em especial a Sagrada Escritura. Webster era bem versado nos debates teológicos modernos, mas ele leu Barth como fazendo “teologia teológica” no refeitório do apóstolo Paulo, Tomás de Aquino e Lutero, ao invés de na sala de aula de Kierkegaard e Schleiermacher. Em seu pensamento (assim como no de Barth), a exegese não é necessariamente incompatível com os interesses metafísicos, embora os conceitos metafísicos atinjam sua validade teológica apenas na medida em que iluminam e esclarecem o significado da Escritura. O mesmo é verdade para a teologia histórica. As habilidades literárias e expositivas de grandes intérpretes do passado da igreja permitem uma entrada mais profunda no mundo das Escrituras.

Ao comentar sobre os anos de Barth como um jovem professor, Webster escreve: ele estava “estocando sua mente com essa tradição de textos e ideias e colocando-as para trabalhar na rearticulação dos fundamentos da confissão protestante do evangelho”. O mesmo pode ser dito da própria carreira de Webster como teólogo. Ele procurou aprofundar sua vocação teológica com exegese e teologia histórica. Para ele, trabalhar dentro da tradição significava aprender a colocar a linguagem cristã em uso com confiança e firmeza. Isso de forma alguma impediu sua própria voz teológica. Como T. S. Eliot argumentou em “Tradition and the Individual Talent” [Tradição e Talento Individual], ser moldado por uma tradição é a única base segura para o tipo de criatividade que não é obstinação vazia e autoexibição. 

À medida que Webster se debruçava nos clássicos da tradição teológica, seu trabalho se tornava cada vez mais nítido e vigoroso. Ele publicou monografias e coleções de ensaios em uma intensidade notável durante seus últimos 15 anos: Word and Church [Palavra e Igreja] (2001), Holiness [Santidade] (2003), Holy Scripture [A Escritura Sagrada] (2003), Confessing God [Confessando Deus] (2005), Domain of the Word [O Domínio da Palavra] (2012), e os dois volumes de God Without Measure [Deus Imensurável] (2015). Como clérigo, ele pregava regularmente, particularmente em seus anos em Oxford (The Grace of Truth, republicado como Confronted by Grace [Confrontado pela Graça], uma coleção de seus sermões que logo se juntou a outra antologia homilética, Christ Our Salvation [Cristo, nossa salvação]). Projetos futuros foram planejados, em especial uma dogmática de cinco volumes. 

Ao avaliar este corpo de trabalho, alguns sugeriram que Webster mudou, deixando Barth e o protestantismo moderno para trás e se voltando para uma versão do tomismo reformado. É verdade que ele se deleitava com a exegese das escrituras e o gênio teológico do Doutor Angélico. Ele também se arrependeu de suas rejeições anteriores dos manuais escolásticos (principalmente as versões protestantes posteriores e, até certo ponto, também as versões medievais). E há momentos em seus escritos que ele parece mais tomista que reformado, especialmente no que diz respeito aos sacramentos (veja suas breves observações sobre o batismo em “Communion with Christ” [Comunhão com Cristo]).

Mas essa maneira de compreender Webster — como tendo mudado de um campo para outro — confunde ferramentas conceituais com substância teológica (escolásticos reformados, por exemplo, muitas vezes adotaram ferramentas tomistas para articular posições anticatólicas). A importância de Webster vem de sua reconsideração fundamental da influência de Barth sobre os teólogos protestantes modernos que buscam sustentar o cristianismo ortodoxo. Em seus últimos anos, ele escreveu um ensaio sobre “The Place of Christology in Systematic Theology” [O lugar da cristologia na teologia sistemática]. Nele, ele questiona o “cristocentrismo” e argumenta que a doutrina da Trindade deve ser o ponto de partida da teologia.

Webster observou frequentemente que o cristocentrismo de Barth era bem mais refinado do que seus intérpretes concediam. Ainda assim, ele concluiu que a teologia não deve começar com a encarnação, pois a estranha glória da encarnação se manifesta apenas quando alguém já foi catequizado quanto à beleza singular do Deus vivo e verdadeiro. Deve-se começar com a vida interior do próprio Deus, e só então se voltar para suas obras externas entre suas criaturas (seja a criação ou a encarnação).

Michael Root, escrevendo sobre o legado de Wolfhart Pannenberg no First Things (“The Achievement of Wolfhart Pannenberg, março de 2012), diferencia entre teólogos virtuosos e aqueles teólogos cujos trabalhos assumem uma forma mais escolástica ou eclesial. O que torna um teólogo virtuoso? Root identifica “a mente criativa que reformula o campo, os Schleiermachers e Barths da disciplina, figuras prometeicas que abrem o caminho que os outros devem seguir”. Ele escreve: “Muito trabalho acadêmico na teologia moderna parece menos o estudo de Deus ou da mensagem cristã sobre Deus, e mais o estudo da criatividade de grandes teólogos”. Entretanto, a criatividade não era considerada uma marca de grandeza para os teólogos do passado. Contrariamente ao preconceito que premeia a invenção, Webster observou que a curiosidade é um vício, especialmente na teologia.

Poucos têm a virtude intelectual de “serem criativos”, então a abordagem contextual é mais comum. Quão difícil pode ser “falar por experiência própria”? Webster levava a sério a contextualização, mas a rejeitou como um princípio teológico:

“Independentemente do que mais quisermos dizer sobre a igreja e a teologia, isso, ao menos, deve ser dito: a igreja e a teologia permanecem no espaço entre a vinda de Jesus em humilhação e sua vinda em glória. Esse espaço — e não qualquer espaço cultural, seja pós-moderno ou outro — é determinante para o que a igreja e a teologia podem e devem ser. Em outras palavras: a teologia cristã e, portanto, a escatologia e a antropologia cristã, é responsável em seu contexto, mas sua responsabilidade não é diretamente definida a partir desse contexto.”

O cenário canônico permanece definitivo para pensar sobre nossa localização na vida contemporânea. Gênero e raça são interessantes, mas são menos interessantes do que saber se alguém está em Adão ou em Cristo.

É porque o drama da redenção é o contexto final para o trabalho teológico que a obra do próprio Deus pode ser alegre e não repressiva. Em vez de “atualizar” e “redimir” elementos supostamente irracionais e opressivos da tradição cristã, Webster argumentou que os teólogos devem conceder “uma dignidade adequada ao ouvir em arrependimento”. Ele exaltou o gênero clássico de comentário — não apenas a exposição das escrituras, mas também o trabalho da teologia histórica. Repetidamente ele lembrou seus leitores que a doutrina cristã costumava olhar para as Escrituras, para os textos cristãos como os credos e confissões da Igreja e para a literatura cristã clássica, argumentando que a exposição e a citação eram essenciais, não apenas ornamentais, para a retórica teológica. A teologia não deve buscar aprimorar as Escrituras e a oração. Sua tarefa é ajudar o leitor a retornar àquelas línguas primárias com mais atenção e entendimento.

Webster seguiu seu próprio conselho. Seus ensaios posteriores forneceram frequentemente uma análise expositiva detalhada do que poderia parecer tópicos doutrinários, éticos e metafísicos restritos. Ele tratou da criação a partir do nada e tirou cinco consequências surpreendentes. Ele refletiu sobre o termo “criatura” e desenvolveu as implicações metafísicas do conceito conforme foi utilizado na teologia cristã ao longo dos tempos, argumentando que tal conceito conduz a uma antropologia mais substancial do que a exegese usual da imago Dei. Ele rejeitou a “criatividade”, buscando em vez disso o deleite e a atenção intelectual que vêm de ver coisas novas em fórmulas clássicas e termos bíblicos.

Seus últimos ensaios dogmáticos foram comentários extensos sobre textos clássicos (veja a coleção de 2012, The Domain of the Word: Scripture and Theological Reason, e a coleção de dois volumes de 2015, God Without Measure: Working Papers in Christian Theology). Seu foco recairia sobre O Pedagogo de Clemente de Alexandria, A Redução das Ciências à Teologia de Boaventura ou Meditações sobre a glória de Cristo de John Owen. Frequentemente, Webster recorreu aos manuais escolásticos, seja a Summa Theologiae de Thomas ou as joias variadas da dogmática reformada, como Junius, Turretin ou a Sinopse de Leiden (a variedade de fontes se encaixa na tradição reformada clássica, embora raramente tenha marcado o trabalho de estudiosos de Barth ou protestantes modernos.) Webster era eclético. Nenhum único texto ou época era essencial. Barth permaneceu importante (Bavinck também). Mas a grande tradição ganhou claramente seu entusiasmo agradecido. Seu método, se podemos chamá-lo assim, era entrar com paciência e atenção na grande conversa dos textos cristãos clássicos. Foi para isso que ele treinou seus alunos — e essa lição continua sendo sua contribuição mais duradoura.

Quando Jason Byassee e eu entrevistamos Webster para o The Christian Century em 2006, ele disse que sua educação inicial não o havia preparado bem para este trabalho de ressourment. A teologia inglesa ainda estava sofrendo os efeitos da “crítica doutrinária” e o engajamento caridoso e paciente de textos teológicos clássicos não era a norma. De muitas maneiras, então, Webster se viu necessitando de reeducação nos anos 1990. Ele vislumbrou uma prática teológica não cativada pelo projeto liberal de traduzir a teologia em idiomas contemporâneos supostamente mais relevantes e muitas vezes centrados no homem (ele também se preocupava com a suposta contrarreação pós-liberal, que frequentemente se apoiava fortemente na filosofia analítica e na teoria cultural, excluindo o envolvimento com a literatura cristã clássica). Sua reeducação continuou nos anos 2000 à medida que ele trabalhava texto sobre texto, doutrina sobre a doutrina. Não é por acaso que ele descreveu suas coleções de ensaios como “working papers” [documentos de trabalho], uma descrição de gênero destinada a evocar a ideia de um peregrino viajante ainda em sua jornada rumo a seu destino.

Ensaios como “On Evangelical Ecclesiology” [Sobre a eclesiologia evangélica], “Biblical Reasoning” [raciocínio bíblico] ou “Trinity and Creation” [Trindade e criação] mostram Webster seguindo o modelo de Barth na década de 1920, o jovem brilhante professor que estava sistematicamente se educando para ser um verdadeiro teólogo em vez de uma celebridade teológica. Perto do fim de sua breve vida, Webster disse que a tarefa da teologia era indicar — apontar os leitores para — Deus e isso tem precedência sobre qualquer tarefa crítica. Tal tarefa não se enquadra no status quo. Em vez disso, como Webster sabia, a correção verdadeira e duradoura ocorre quando se olha para o Deus do evangelho: “O temor do Senhor é o princípio da sabedoria”. A reforma que a igreja e o mundo sempre precisam vem do “ouvir em arrependimento”.

John Webster não era otimista. Em sua maneira franca de falar, ele deixou claro que não acreditava que os males da modernidade, a atração do pensamento antimetafísico ou os impulsos antropocêntricos da teologia liberal tivessem sido de alguma forma “derrotados”. Isso teria conferido a sua teologia criatividade demais! Mas ele tinha esperança de que um forte contraponto a essas tendências tivesse se estabelecido na conversa teológica. Ele estava certo. É possível — na verdade, imperativo — retornar aos ritmos comuns e regulares da prática teológica cristã clássica. Como autor, sim, Webster descreve esse retorno. Mas foi como mentor para muitos que ele nos convidou a sermos leitores e destinatários gratos da Sagrada Escritura e das joias literárias dos clássicos cristãos que resplandecem com a verdade do evangelho.


Por: Michael Allen. © First Things, 2020. Website: https://www.firstthings.com/article/2020/11/theological-theology Traduzido com permissão. Fonte: “Theological Theology”

Original: Teologia teológica. © The Pilgrim. Website: thepilgrim.com.br. Todos os direitos reservados. Tradução: Breno Seabra. Revisão: Guilherme Cordeiro Pires.

Imagem:  Unsplash

O ponto de vista deste texto é de responsabilidade de seu(s) autor(es) e colaboradores direito, não refletindo necessariamente a posição da Pilgrim ou de sua equipe de profissionais.

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