Ser discípulo (Rowan Williams)

O discipulado, como indica nosso título, é um estado de ser. O discipulado trata de como vivemos — não só das decisões que tomamos ou cursos que fazemos —, do que nós somos. É bem revelador que bem no começo do evangelho de João, um texto a que, óbvio, retornaremos depois (Jo 1.38-39), quando os dois discípulos de João Batista vêm a Jesus, eles dizem, como se fosse: “Rabi, o que você está dizendo?” e Jesus responde: “Venham e vejam”, e eles permanecem com ele pelo restante do dia. O evangelho nos ensina que o resultado prático quando pensamos sobre discipulado tem a ver com permanecermos.

Não é por acaso que, posteriormente no mesmo evangelho, a linguagem de permanência seja utilizada para falar sobre a relação do discípulo para com Jesus. Em outras palavras, o que te torna um discípulo não é aparecer de vez em quando. “Discipulado” pode se referir a ser um aluno, no sentido estrito da palavra grega, mas isso não significa aparecer de vez em quando para um curso ou uma pregação. O discipulado não é um estado intermitente; é mais como um relacionamento permanente. Na Antiguidade ser um aluno era mais importante do que é atualmente. Se você dissesse para um aluno moderno em potencial que a essência de ser aluno é depender de cada palavra do mestre, seguir os seus passos, dormir na soleira da porta dele caso você perdesse algumas pérolas de sabedoria que caíssem de seus lábios, observar como ele se comportava na mesa ou na rua, bem, a resposta não seria muito positiva.

Porém, na Antiguidade, era algo nessa direção. Ser aluno de um professor era se comprometer a viver na mesma atmosfera e respirar o mesmo ar do que ele — não tinha nada de intermitente nisso. O discipulado, nesse sentido, era um estado de ser em que você olhava e ouvia sem interrupções. Por exemplo, era muito mais como os monges iniciantes são tratados nos relatos sobre os pais do deserto, que simplesmente ficam por lá esperando entender a mensagem, que ocasionalmente dizem desesperadamente aos monges mais velhos: “Dá-nos uma palavra, pai” e o monge mais velho diz algo profundo do tipo: “Chore pelos seus pecados”, e depois tem mais seis semanas de silêncio. Ou talvez como o relacionamento (mesmo hoje) entre um iniciado budista e o seu mestre Zen, onde há um relacionamento parecido. Você fica ali; você observa; você absorve um jeito de ser e você entra nesse estado de ser. Você aprende ao compartilhar daquela vida; você aprende olhando e ouvindo. Então, “Rabi, onde você vai ficar … ‘Venham e vejam’ … Eles viram onde ele estava ficando e permaneceram com ele pelo resto do dia” é um bom começo para se pensar sobre discipulado. E, como sugeri, eu não acho que seja por acaso que João coloque isso bem no começo do evangelho. Se é para entendermos o que ele tem a dizer sobre o discipulado, precisamos aprender sobre permanecer e compartilhar, e esse estado duradouro de ser discípulo.

Depois terei um pouco mais a dizer sobre compartilhar um lugar, uma atmosfera, um estado de ser. Mas vamos simplesmente ficar com o que isso envolve por um momento e pensar sobre isso em termos de discipulado como um estado de consciência. O discipulado não é quem simplesmente anota as ideias e sai por aí pensando nelas. O discípulo fica onde está para que possa mudar — de modo que mude como ele vê e experimenta o mundo. O grande poeta anglo-galês Davi Jones escreveu em um de seus últimos poemas sobre a relação do poeta para com Deus: “é fácil perdê-lo com a virada de uma civilização”. E o discipulado enquanto consciência é tentar desenvolver — crescer — nessas capacidades que te auxiliem a não perder Deus — Jesus Cristo — na virada de uma civilização, ou em qualquer outro lugar. A consciência é inseparável aqui de uma espécie de expectativa e eu acho que essa é uma das características que mais claramente marca o verdadeiro discípulo.

O verdadeiro discípulo é uma pessoa com expectativa, sempre assumindo que uma coisa nova emergirá do mestre, algo que rasgará o ordinário e lançará nova luz na paisagem. O mestre logo vai falar ou mostrar algo; a realidade vai se abrir para você quando você estiver junto do mestre e então a sua consciência (como foi frequentemente dito por quem escreve sobre oração contemplativa) é como um observador experiente de pássaros que simplesmente senta, preparado, alerta, sem tensão ou agitação, sabendo que é esse o tipo de lugar em que algo extraordinário surge à vista.

Eu sempre gostei da comparação da oração com a observação de pássaros. Você fica bem paradinho porque algo pode vir à vista e às vezes isso é simplesmente ficar um dia todo sentado olhando para chuva sem muita coisa acontecer e eu suspeito que muitos de nós sabem que boa parte da nossa experiência com a oração é exatamente isso. Mas há ocasiões estranhas em que você vê o que T.S. Eliot chamou de “a reflexão de luz à luz da asa do guarda-rios” que fazem valer a pena. E penso eu que viver nessa expectativa — viver em consciência, com seus olhos suficientemente abertos e a sua mente suficientemente solta e atenta para ver o que vai acontecer — tem muito a ver com o discipulado apresentado pelos evangelhos. Não é interessante que, nos evangelhos, os discípulos não só escutam, mas que também se espera que eles vejam? Eles são as pessoas seguindo as pistas desde o princípio.

Vemos isso de forma diferente em cada um dos evangelhos, que são diferentes para registrar os tons, timbres e estilos diferentes de discipulado que cada um de nós experimenta, para que cada um possa encontrar ali seu lugar. O que eu quero dizer é que o Evangelho de Marcos, como um todo, retrata os discípulos como estúpidos que não pegam pista nenhuma. O guarda-rios passa por eles e Pedro (geralmente) vira e diz: “Eita, deixei passar!” Enquanto que, no Evangelho de João, há uma acumulação bem mais estável de momentos de reconhecimento e percepção desde o momento, depois do primeiro sinal em Caná, que os discípulos veem a glória e então seguem, momento a momento, e o veem.

E esse tema de ver chega a seu clímax quando Pedro e o discípulo amado entram no túmulo vazio e veem o lençol dobrado. É um texto imensamente rico porque distingue claramente entre o primeiro momento que Pedro olha e “nota” do momento em que o outro discípulo entra e “vê”. Se você fizer uma tabela dessas palavras evoluindo ao longo do Evangelho de João, perceberá que é esse “ver” é parte da tarefa do discípulo. Embora os discípulos ainda vacilem no relato de João, eles não são tão ruins quanto em Marcos. E isso corresponde a dimensões de nosso discipulado: há períodos em que olhamos para trás e sentimos “Como pude ser tão tapado?” e há momentos em que pensamos: “Sim, não tinha percebido, mas agora tudo se encaixa”. Para mim, a alegria de ler o Evangelho e João, no contexto de tentar ser discípulo de Jesus Cristo, tem a ver com sentir essa alegria de conectar os pontos no desenrolar da trama. E eu tenho certeza de que Pedro, João e o resto dos discípulos não eram tão diferentes de nós: eles tinham seus dias ruins e seus dias brilhantes.

O discípulos vigiam, eles permanecem alertas e atentos para atos simbólicos bem como a palavras, observando as ações que dão as pistas para a realidade se reorganizando em torno de Jesus. Lembrando novamente o casamento em Caná no começo de João (Jo 2.11), onde Jesus fez seu primeiro, ali ele revelou a sua glória — a sua glória foi vista. E os seus discípulos creram — confiaram — nele. Eles viram o que estava acontecendo e caiu a ficha.

Às vezes esses sinais são difíceis ou ambíguos. “Por que você fez isso?” é uma pergunta recorrente nas narrativas dos evangelhos. Há a ocasião nos evangelhos sinóticos do amaldiçoar da figueira. Jesus vai para Jerusalém. Há um enigma no porquê disso — tanto para o leitor moderno quanto para os primeiros discípulos. Porém, há uma ação que Jesus põe na frente dos discípulos e é como se dissesse: “E aí? Deu para entender?” Novamente, outra conversa estranha acontece entre Jesus e os discípulos no barco depois de alimentar a multidão: “Vocês já entenderam? Vocês ainda não viram o que está acontecendo? Quantos pães sobraram? Vocês viram?” Então, consciência e expectativa giram em torno da expectativa que Jesus parece ter dos discípulos. Observar os atos bem como as palavras. Observar com um grau de tranquilidade interior que permite o inesperado momento revolucionário acontecer.

Para nós hoje tentarmos ser discípulos de Cristo, consciência e expectativa não são menos importantes. Não estamos exatamente onde esses primeiros discípulos estavam. Somos crentes que vivem depois da ressurreição e, pelo menos em teoria, deveríamos entender um pouco mais do que os discípulos entendiam nos Evangelhos (teoricamente). Temos o Espírito Santo para nos direcionar e informar, energizar nossa consciência, acender nossas expectativas. Porém, como os primeiros discípulos, nós olhamos e ouvimos. Observamos com expectativa o mundo em que vivemos. Ouvimos a Palavra que se torna viva para nós nas Escrituras. Olhamos para as grandes ações identitárias da igreja nos sacramentos, pedindo o Espírito para ligar os pontos. Olhamos, ouvimos — consciência e expectativa. E, como gosto de ressaltar por não se dar a devida atenção na igreja, olhamos uns para os outros, como cristãos, com expectativa. Não se pode dizer o suficiente, mas a primeira coisa que deveríamos pensar quando estamos na presença de outro cristão é: o que Cristo está me dando por meio desta pessoa? Já que encontramos alguns cristãos diversas vezes, isso pode ser difícil. Todavia, isso que é esperar a expectativa.

Jesus nos ajuntou justamente para que olhássemos uns para os outros com um grau de expectativa, que não quer dizer que você concordará com tudo que o outro cristão diz. Simplesmente quer dizer que você começará dizendo: “o que Jesus está me dando aqui e agora?” Sem importar a visão política, as boas maneiras ou qualquer outra coisa. Simplesmente faça essa pergunta e talvez isso te dê um pouquinho de discipulado. Podemos viver numa igreja caracterizada pela expectativa uns para com os outros dessa forma? Seria uma forma bem bíblica de ser igreja.

Entretanto, consciência, expectativa e discipulado não são intermitentes — pressupõe-se a capacidade de seguir, que é o básico do discipulado. A consciência ouvinte e expectante pressupõe o seguir justamente porque pressupõe que estamos dispostos a viajar par aonde o mestre está, seguindo o Mestre aonde ele vai. É claro, nos Evangelhos, onde o Mestre vai frequentemente não é onde pensaríamos ir. Logo, precisamos tomar o instrumento de nossa execução — a cruz — e andar por esse caminho.

Vamos para Lucas 14. Nesse capítulo, Jesus repete insistentemente que tipo de vida não pode ser vivida por um discípulo. E são palavras duras. Aqueles que vêm a mim não podem ser meus discípulos a não ser que me amem mais do que amam pai, mãe, esposa, filhos, irmãos e irmãs (Lc 14.26). E isso inclui eles próprios: não podem ser seus discípulos aqueles que não carregam a sua cruz. “Não podem” — isso se repete ao longo do capítulo de forma bem alarmante. Mas o ponto é que se é para você estar onde o mestre está, o que você pensa ser mais natural na sua zona de conforto não será onde você estará. O lugar onde você estará sempre será definido por seu mestre.

Seguir para estar no mesmo lugar do seu mestre. Há duas direções interessantes, mas bem diferentes, a que podemos levar essa ideia. O primeiro sentido, e mais óbvio, significa que você pode estar na companhia das pessoas cuja companhia Jesus procura e preserva. Então, quando Jesus vai estar junto com os excluídos, os abandonados, os que se odeiam, os pobres, os enfermos, é ali que você se encontra. Isso é um lembrete bem importante de que o nosso discipulado não se trata de escolher nossa companhia, mas sim escolher a companhia de Jesus.

É assim que muitos dos grandes discípulos ao longo da história da igreja cristã, até mesmo hoje, se veem na companhia de pessoas com que nunca estariam se não procurassem estar com Jesus. Aqueles que foram para os confins da terra por amor ao evangelho e para pregar o evangelho; aqueles que se viram em meio a estranhos se perguntando “como eu vim parar aqui?” — figuras como o bispo Thomas French (um dos meus heróis pessoais), um missionário do século 19 que passou quase todo seu ministério como bispo do Golfo Pérsico quando havia (numa estimativa generosa) dois cristãos na área de seu ministério por quem ele procurava e que morreram sozinhos de febre numa praia em Muscat. O que lhe levou ali? O desejo de estar onde Jesus estava, para ver Jesus nascer — ser visível — nas almas das vidas por quem ele trabalhava, mesmo que nunca tivesse um único convertido. Ele não estava ali para ter convertidos. Ele estava ali porque ele queria estar junto com Jesus Cristo. Foi o seu fracasso, e o drama de seu fracasso, que me atraiu nessa história, pois demonstra o valor de um discipulado que está com Jesus, independentemente das consequências.

Porém, há outro sentido mais profundo e mais interessante que veem a lume no quarto evangelho. “Onde eu estou, ali estará o meu servo” (Jo 12). E onde Jesus está — segundo o que João diz no começo de seu evangelho — é no seio de seu Pai. Então, é ali onde estaremos também. Não estamos apenas junto a ele em termos de missão no mundo. Estamos também com ele em sua intimidade com o Pai. Seguimos a ele não apenas até os confins da terra, mas também para o coração do Pai.

Ao meditar nisso, me ocorreu algo que nunca pensara antes: há uma conexão no Evangelho de João entre o jeito que os discípulos veem e fazem o que seu mestre está fazendo e o que o próprio Jesus diz sobre sua relação com o Pai. Em Jo 5.19, você encontra a grande afirmação de que o Filho faz o que o Pai faz. O Filho para e observa a ação eterna do Pai e a executa em sua vida, na eternidade e na história. O Filho, o Verbo de Deus, bebe no ato eterno do Pai e o torna real em outro contexto. Será que João quer que conectemos isso com o que ele fala em termos semelhantes sobre observar e fazer? Olhe para João 7.3: “Então seus irmãos lhe disseram: Retira-te daqui e vai para a Judeia, para que também os teus discípulos vejam as obras que fazes.” Além disso, temos as grandes meditações dos discursos de despedida (Jo 14—17) onde parece claro que o ver e o fazer estão conectados. Os discípulos veem o que Jesus está fazendo e eles também veem que Jesus faz o que o Pai está fazendo, eles veem a glória que Jesus e o Pai dão um ao outro e essa glória é dada a eles. Mas eu sugiro que devemos ao menos conectar o ver e fazer de Jesus em relação ao Pai e o ver o fazer que acontece entre os discípulos e Jesus. Isso nos ajuda a pensar sobre o que chamei no começo do caráter não intermitente do discipulado. O relacionamento entre Jesus e o Pai não é episódico. Jesus não recebe do Pai instruções aqui e ali, o relacionamento deles é eterno e ininterrupto. Ele contempla o mistério do amor do Pai e o atua, nos céus e na terra. E nós em nosso discipulado contemplamos o mistério desse amor encarnado e buscamos fazer essa mesma vontade, agimos essa mesma ação, na terra assim como nos céus, como coloca a Oração do Senhor.

Logo, anuncia-se uma ideia bem ambiciosa, mas inteiramente justificada pela Escritura: o cerne do discipulado é trinitário. Isto é, à medida que entendemos mais profundamente a vida trinitária de Deus que se desvela a nós nessas maravilhosas passagens do Evangelho de João é que entendemos mais plenamente que isso é a raiz e a força de sermos discípulos aqui e agora. Vemos e fazemos, não por causa da forma que o discipulado funcionava na Antiguidade, mas por causa do que o Pai e o Filho se envolvem nisso por toda a eternidade.

Vamos tentar resumir isso tudo. Eu estou sugerindo que um entendimento bíblico da identidade do discípulo significa antes de tudo a simples vontade de estar consistentemente na companhia de Cristo. O que isso significa para nós hoje na prática é estar consistentemente na companhia de outros servos de Cristo, na companhia da revelação de Cristo na Escritura, na companhia do Pai, Filho e Espírito em oração, tudo o que exige de nós certa tranquilidade interior e certa compostura (a atenção do observador de pássaros). Atenção e expectativa, uma atitude mental suficientemente livre de preocupações egoístas tornadas para si a qual se abre para o que Deus está dando em Cristo.

Em nível primário, isso significa aprofundar a nossa atenção à Bíblia, aos sacramentos e à vida do Corpo de Cristo. Em segundo lugar, em decorrência disso, significa aprender uma certa atenção a pessoas, lugares e coisas, vendo tudo com o olhar da expectativa, esperando que algo de Deus floresça ali. Estar na companhia de Cristo, aprender a atenção e praticar esse tipo de vigilância tranquila que olha e espera a luz raiar. Em terceiro lugar, isso significa se atentar aonde Cristo está indo, tendo companhia com quem ele está. Dentre eles, encontraremos as pessoas mais inesperadas e improváveis, pessoas com quem Jesus passou tanto tempo nos Evangelhos e ainda passa hoje. Acima de tudo, vemos ele em companhia do Pai, em cuja companhia ele eternamente está.

A nossa atenção não é meramente uma atitude estética, pois também é uma disposição de trazer um amor ativo e transfigurador a essa espera, de modo que a companhia traga ação e relacionamento juntos. Assim, ser discípulo significa estar em companhia, aprendendo tranquilidade e atenção, expectativa, aprendendo a se dispor a ir aonde Jesus vai e estar em companhia de quem ele tem companhia, permitindo a ação acontecer e a relação se concretizar — permitindo a ação dele acontecer por meio de nós do mesmo modo que a ação do Pai vem por meio dele. Finalmente que parece se sugerir nessas reflexões sobre a identidade do discípulo é que nosso discipulado na companhia de Jesus é um modo de vida trinitário que está embutido no relacionamento do Pai, do Filho e do Espírito Santo. Isto é, um modo contemplativo de vida (não no sentido de sermos eremitas ou monges cartuxos, por mais tentador que seja), mas que tenhamos o que chamo de “tranquilidade madura”, uma compostura e uma abertura a outros e ao mundo, de modo que, em terceiro lugar, também seja um estilo de vida transformador em que o ato de Deus possa vir e mudar a nós, nossos arredores e o mundo.

Um viver trinitário, um viver contemplativo, um viver transformador: não há oposição entre contemplação e ação (como não há no quarto evangelho). E preciso dizer que isso foi um dos piores clichês em que os cristãos às vezes caíram: o que é mais importante, contemplação ou ação? Talvez a única resposta seja: simplesmente tente pensar numa ação sem contemplação ou numa contemplação sem ação e você perceberá que está abrindo as portas para uma vida muito estéril, e até destrutiva. Mantenha-os juntos — contemplação como a sua abertura as reais raízes da ação transformadora — e talvez não haja conflito algum.

Os maiores mestres de oração e ação os mantiveram juntos de uma forma impressionante, como a grande Teresa d’Ávila (1515-1582), dizendo que você finalmente “progrediria” por todas as experiências místicas arrepiantes que ela escreve e o final seria simplesmente fazer algumas coisas ordinárias um pouquinho melhor. Com ela diz, depois que você passa pela sétima mansão da união espiritual com Deus, você melhora nas tarefas domésticas. O hábito de atenção e expectativa para com Deus e o próximo resulta, transborda, em modos de ser e agir no mundo que, por estarem livres do ego e da ansiedade, realmente permite uma mudança divina acontecer ao seu redor. Não por seu esforço e luta, sobrancelhas curvadas e músculos tensos, mas ao permitir algo surgir, algo irresistível dentro da sua consciência de que o propósito de Deus está se cumprindo para fazer a diferença que só Deus pode fazer.

Finalmente, o discipulado é viajar e é crescer. Você não consegue começar a descrever a vida dos discípulos do Novo Testamento sem falar sobre viajar. Os discípulos são pessoas chamadas para longe de casa porque precisam estar onde seu mestre está. E isso nunca será confortável, mas talvez se torne inteligível quando se percebe algo que está escrito em cada página da Escritura: o lar onde você finalmente perceberá quem você é está no lar preparado por Jesus para você. E o discípulo se propõe a uma jornada de um lugar que parece ser um lar confortável e fácil até um lar eterno e que, como Agostinho diz, não decai ou deixa de existir porque não estamos vivendo nele por um momento. Paradoxalmente, o discipulado é uma jornada para longe de casa e de volta para casa. Assim como a conversão é a tarefa diária do discípulo, é uma ruptura que parece próxima e cara a nós e é um inclinar ao que é realmente mais profundo e mais natural em nós.


Adaptação do discurso proferido pelo Dr. Rowan Williams em 27 de abril de 2007 numa conferência organizada pela rede evangélica anglicana Fulcrum. A conferência aconteceu em St Mary’s, Islington.

Por: Rowan Williams. © Rowan Williams, 2007. Website: http://aoc2013.brix.fatbeehive.com/articles.php/2113/being-disciples-2007-fulcrum-conference-address. Traduzido com permissão. Fonte: Being Disciples – 2007 Fulcrum Conference Address.

Original: Ser discípulo. © The Pilgrim. Website: thepilgrim.com.br. Todos os direitos reservados. Tradução: Guilherme Cordeiro Pires. Revisão: Arthur Guanaes.

Imagem: Unsplash

O ponto de vista deste texto é de responsabilidade de seu(s) autor(es) e colaboradores direito, não refletindo necessariamente a posição da Pilgrim ou de sua equipe de profissionais.

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