Invocando o Senhor: Herman Bavinck sobre oração enquanto criaturidade (David Larson)

Para muitos, orar sem cessar é muito difícil. Ainda assim, a oração não deveria ser algo estranho aos santos, porque tem um lugar central na vida cristã. Em seu livro Reformed Ethics [Ética reformada], Herman Bavinck trata a oração como “um dever e a mais importante boa obra.”[1] Antes de tudo, não é surpresa saber que a oração seja um dever. Afinal, “a oração é repetidamente considerada uma ordem no Antigo e no Novo Testamentos.”[2] O teólogo holandês enfatiza, no entanto, que a oração abarca mais que apenas obediência: “A oração é muito mais um privilégio do que um dever […] É um direito dado por Deus ao homem […] A oração não é um mandamento, mas uma promessa, um bênção, um benefício.”[3] Ao indicar que a oração é mais que um mandamento e que ela envolve noções de direito, promessa, bênção e benefício, Bavinck leva o neófito a ver a oração como parte de um fluxo que expressa a ordem do ser. Bavinck faz uma robusta distinção Criador-criatura, fundamental para entender a oração, mostrando que ela é uma atividade característica das criaturas.

Uma distinção fundamental entre Criador e criatura

A oração, de acordo com Bavinck, é apropriada a seres humanos porque somos criaturas e Deus é Deus. Nas palavras dele,

a oração é apropriada para nós porque Deus é Deus, em razão de todos os seus atributos: fidelidade, graça, onipotência, bondade, e assim por diante. Ademais, também dependemos dele para tudo; não tendo nada de nós mesmos, precisamos receber tudo dele. A oração é, portanto, profundamente enraizada na natureza humana; é uma necessidade por definição e existe entre todos os povos e seres humanos, mesmo entre os que amaldiçoam.[4]

Junto a esse entendimento da oração, Bavinck utiliza a distinção Criador-criatura para formular o fundamento e a forma da oração. Observe acima como ele baseia a oração na crucial confissão de que Deus é Deus. Portanto, as criaturas “dependem dele para tudo.” Em outras palavras, as criaturas dependem de um Deus que não depende de nada.[5] Uma vez que as criaturas recebem tudo de Deus, incluindo sua própria existência, as criaturas existem somente numa relação de recepção. Diferentemente de Deus, que “não é definido por nada além de sua própria essência”,[6] somos definidos por nossa relação a ele: “Nunca e em lugar algum somos independentes de Deus, mas sempre dependemos de seu supremo poder.”[7] Orar — pedir que Deus nos dê o pão nosso de cada dia, nos livre do mal e assim por diante — é simplesmente um aspecto do que é ser criatura. Orar presume distinções clássicas entre Criador e criatura — ela não é apenas uma ordem, mas uma ação de nossa própria natureza enquanto criatura humana. Após dar um panorama da terminologia bíblica sobre a oração,[8] Bavinck descreve a oração assim: “a oração consiste de pessoas que sabem e sentem sua dependência do Deus verdadeiro […] e que [invocam] seu nome por socorro […] ou [dão] graças pelos benefícios recebidos.”[9] Numa primeira observação, não é preciso ir muito fundo para ver como a oração se relaciona com ser criatura. A oração reconhece os limites da criatura. A oração é natural à existência da criatura porque tal existência é simplesmente uma relação de dependência e a oração é a consciente confissão e invocação do nome do Criador em reconhecimento de sua dependência.

O sujeito da oração: criaturas

De acordo com Bavinck, o sujeito da oração são as criaturas, especificamente os humanos.[10] “A oração é um ato de nossa consciência”, Bavinck diz, “elevando nosso espírito e mente a Deus.”[11] Neste ato, tanto crente quanto descrente mostram a distinção Criador-criatura quando oram, pois ambos expressam e sentem sua inadequação. Eles precisam de Outro. No entanto, Bavinck distingue a oração do ímpio e a do santo: “o sujeito de uma oração verdadeira são pessoas regeneradas”, pois elas têm o Espírito.[12] O santo habitado pelo Espírito realmente manifesta sua genuína criaturidade quando ora, porque “mesmo quando o cristão não sabe como orar como convém (Rm. 8.26), nem o que orar nem como, por fraqueza ou falta, ainda assim, ‘o próprio Espírito intercede por nós com gemidos que não se expressam com palavras.’”[13] Isto é, quando os cristãos oram, eles o fazem pelo Espírito; o ato que manifesta nosso caráter de criatura só é alcançado em relação à presença capacitadora do Espírito.

Observe que (1) a oração expressa a essência humana e (2) os cristãos são quem mais verdadeira e completamente atuam essa expressão. Os cristãos, então, são mais criaturas que seus pares descrentes, porque os atos descrentes minimizam e invertem a distinção Criador-criatura.[14]

O objeto da oração: Deus, a fonte da criação

Após citar um calhamaço de textos, Bavinck nota, diretamente, o objeto da oração: “o Deus verdadeiro […] o Deus trino, Pai, Filho e Espírito Santo, é o objeto apropriado da nossa oração.”[15] Enquanto talvez não achemos uma doutrina explicita da perfeição de Deus em Reformed Ethics [Ética reformada] tanto quanto na Dogmática reformada, Bavinck inicia seu livro sobre ética confessando Deus como a fonte da criação, o que implica ele ser Ato Puro, inteligível a nós por seu poder causal: “pela fé, entendemos que os seres humanos foram criados à imagem de Deus e são geração de Deus (At. 17.28).”[16] Que Deus é em quem todas as coisas existem, para Bavinck, pressupõe que ele existe completamente por si mesmo em bênção autossuficiente como o fundamento de suas ações na economia divina.[17]

Porque Deus é assim, isto é, quem dá vida a todas as coisas (Tg. 1.17), o salmista confessa “o Senhor sustenta todos os que estão para cair e levanta todos os abatidos. Os olhos de todos esperam em ti, e tu lhes dás provisão a seu tempo; abres a mão e satisfazes o desejo de todos os viventes” (Sl. 145.14-16). Portanto é tolice as criaturas procurarem satisfação duradoura em outra fonte.

Conclusão: a oração enquanto confissão de Deus e ato humanizador

A distinção Criador-criatura é essencial para a explicação de Bavinck sobre oração. Segundo Bavinck, a oração é uma atividade fundamentalmente humana, própria de criaturas. A oração torna os humanos mais humanos. Isso é uma peculiaridade significativa na teologia de Bavinck, como John Bolt explica: “somos cristãos para sermos humanos.”[18] Uma vez que ainda estamos a caminho da perfeição, ainda estamos nos tornando humanos. Parte do que significa ser humano é honrar a Deus como Deus e não nos colocarmos no mesmo nível que ele. “Aqueles que são nascidos de Deus cada vez mais se tornam os filhos de Deus e carregam sua imagem e semelhança, porque em princípio eles já são seus filhos. A regra da vida orgânica se aplica a eles: tornar-se o que se é!”[19] Se desejamos adorar e servir somente a Deus (Dt. 6.13; Mt 4.10) para que não tenhamos outros deuses, Bavinck acredita que seria bom que buscássemos e atuássemos nossa humanidade orando a nosso Criador em absoluta dependência, esperando encontrar verdadeira beatitude nele. Seja o que você é invocando o Senhor.


Por: David A. Larson. © The Davenant Institute. Website: https://davenantinstitute.org/calling-upon-the-lord. Traduzido com permissão. Fonte: Calling upon the Lord: Herman Bavinck on the Creatureliness of Prayer.

Original: Invocando o Senhor: Herman Bavinck sobre o caráter de criatura da oração. © The Pilgrim. Website: thepilgrim.com.br. Todos os direitos reservados. Tradução: Arthur Guanaes. Revisão: Guilherme Cordeiro Pires.

Imagem: Davenant Institute.

O ponto de vista deste texto é de responsabilidade de seu(s) autor(es) e colaboradores direito, não refletindo necessariamente a posição da Pilgrim ou de sua equipe de profissionais.



[1] BAVINCK, Herman, Reformed Ethics, vol. 1, Created, Fallen, and Converted Humanity, BOLT, John (ed.), Grand Rapids: Baker  Academic, 2019, p. 467. Ênfase no original.

[2] BAVINCK, Reformed Ethics, p. 467. Bavinck nos dá estes exemplos: Sl 50.15; Mt 7.7; Rm 12.12; Ef 6.18; Fl 4.6; Cl 4.2; 1Ts 5.17 (BAVINCK, Reformed Ethics, p.467 n.33)

[3] BAVINCK, Reformed Ethics, p. 468.

[4] BAVINCK, Reformed Ethics, 467.

[5] Daí a distinção entre ipsum esse subsistens e ens per participationem (cf. BAVINCK, Herman, Reformed Dogmatics, BOLT, John (ed.), trad. VRIEND, John, 4 vols., Grand Rapids: Baker  Academic, 2003—2008, 2:419).

[6] BAVINCK, Reformed Dogmatics, 2:418.

[7] BAVINCK, Reformed Ethics, p. 50. 

[8] BAVINCK, Reformed Ethics, p. 468–472.

[9] BAVINCK, Reformed Ethics, p. 472. Ênfase no original.

[10] BAVINCK, Reformed Ethics, p. 472–473; cf. 36, 50.

[11] BAVINCK, Reformed Ethics, p. 473.

[12] BAVINCK, Reformed Ethics, p. 473.

[13] BAVINCK, Reformed Ethics, p. 473. Ênfase no original.

[14] BAVINCK, Reformed Ethics, p. 98.

[15] BAVINCK, Reformed Ethics, p. 476.

[16] BAVINCK, Reformed Ethics, p. 35; cf. BAVINCK, Reformed Dogmatics, 2:418–419.

[17] Por ex., BAVINCK, Reformed Dogmatics, 2:251, 420.

[18] BOLT, John. Bavinck on the Christian Life: Following Jesus in Faithful Service. Wheaton, IL: Crossway, 2015, p. 41.

[19] BAVINCK, Herman. Reformed Dogmatics, 4:255. Ênfase no original.

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