A arte cristã de morrer bem (Alastair Roberts)

O futuro nunca vem da forma que esperamos.

Quando os modernos imaginavam como seria a vida em cinquenta ou cem anos, eles geralmente pensavam em sociedades distópicas ou utópicas, cheias de novas e estranhas tecnologias. Entretanto, quando o futuro chega, nunca nos sentimos como esperávamos. Não é que faltem novas tecnologias memoráveis — temos nos nossos bolsos 100 mil vezes mais poder de processamento do que aquilo que enviou a Apolo 11 à lua cinquenta anos atrás. Entretanto, sentimos tudo tão… normal. Há alguma desconexão entre as realidades tecnológicas e sociais objetivas e o estado existencial que assumiriam que elas trariam.

O mesmo acontece com as mudanças sociais. Por exemplo, a porcentagem de riqueza nos Estados Unidos controlada por cada geração sucessivamente decaiu  — os baby boomers detinham 21% da riqueza da nação aos 35 anos, a geração x, apenas 9%, e os millennials terão que triplicar sua riqueza em quatro anos para se manter à altura das gerações anteriores. Talvez mais coincidentemente, a taxa de casados abaixo dos 30 é quase um terço do que era em 1960. Apesar de a taxa de natalidade ter caído abruptamente, nascimentos fora do casamento são três vezes mais frequentes do que eram em 1960. Mudanças sociais ainda mais perturbadoras podem ocorrer sem que as pessoas realmente as percebam a nível existencial.

Os conservadores geralmente retratam de forma muito pessimista os desenvolvimentos sociais, reclamando sobre futuros que — ao menos estatisticamente — podem lembrar muito o presente. Contudo, na maior parte das vezes, as pessoas não sentem que suas predições se concretizarão. Ouvindo as predições, eles esperam se sentir totalmente diferentes, como fossem se sentir como quando se vive uma catástrofe.

Venkatesh Rao descreveu esse fenômeno em sua peça de 2012, Welcome to the Future Nauseous:

Existe uma dissonância cognitiva inexplicada entre a realidade da mudança e a mudança imaginada, e eu não me refiro às especificidades de predições fracassadas ou bem sucedidas.

Minha nova explicação é esta: nós vivemos em um contínuo estado de normalidade manufaturada. Há mecanismos que fazem — uma mistura de natural, emergente e projetado — o trabalho de nos prevenir de perceber que o futuro na verdade está acontecendo enquanto estamos falando. Para realmente entender o mundo e como ele está evoluindo, você precisa ver além da normalidade manufaturada. Infelizmente, isso leva, como vemos, a certo tipo de náusea existencial.

Por vezes o campo da normalidade manufaturada escorrega e não mais pode ser sustentado e algo do caráter oculto, mas verdadeiro, da sociedade aparece. Por exemplo, vendo a recente agitação social, muitos comparam as imagens que viam em suas telas com várias sociedades distópicas, sem considerar alguns dos modos pelos quais podemos ter vivido em uma distopia em evolução, ainda que distribuída desproporcionalmente, todo esse tempo sem nem ter percebido.

Talvez uma das experiências mais chocantes para mim nos últimos meses tem sido testemunhar o desenvolvimento da crise do coronavírus. No Reino Unido, já passamos das 40 mil mortes, fazendo jus a muitas das previsões para medidas que tomamos e está aumentando.

Entretanto, o surreal é que, para muitos, não parece nenhum pouco como pensavam que seria viver uma pandemia. Não é que as mortes pelo vírus estão radicalmente mais baixas que o esperado (o pior dos casos e as projeções nunca foram expectativas). Antes, é que as pessoas esperavam sentir a morte muito mais próxima.

A resposta britânica ao vírus tem amplamente sido manifestações de apoio à amada National Health Service (NHS). A igreja da vizinhança hasteia a bandeira da NHS. Crianças põem retratos de arco-íris em suas janelas com mensagens motivadoras para os trabalhadores de saúde e de linha de frente. Em bairros por todo o país, pessoas saíram da sua cara às 8 da noite nas quintas para aplaudir os “heróis” da NHS.

A NHS nunca foi tão proeminente na consciência nacional, mas é realmente notável quão pouco as mortes de mais de 40 mil pessoas têm sido sentidas. E, como um ponto mais geral, é realmente notável ver quão pouco as mortes de mais de 40 mil pessoas podem ser sentidas.

Os soldados que retornam das guerras geralmente comentam sobre a desconexão entre eles e as pessoas em casa, e sua luta de comunicar a natureza de suas experiências ao povo que carece de estruturas conceituais para entendê-las. Como soldados, eles têm tanta exposição a realidades aterrorizantes e desorientantes que se tornam despidos de seus campos de normalidade — realidades horríveis que podem às vezes desumanizar o homem. Todavia, eles podem desenvolver novos campos de normalidade que tornam essas realidades muito menos estranhas do que se poderia imaginar.

Nos últimos meses, os empregados da NHS têm sido descritos como “os trabalhadores da linha de frente”. Nesse caso, uma analogia com guerra, algo que geralmente é insuficiente e inútil, é reveladora em alguns aspectos. Em ambos os casos, há um encontro com a realidade da morte na linha de frente, um encontro que essa linha enfrenta para que o resto de nós possamos ser amplamente poupados dela.

Houve poucas ocasiões durante essa crise que sentimos a realidade da morte mais perto da consciência pública. Quando o primeiro ministro do Reino Unido, Boris Johnson, foi posto em cuidado intensivo por ocasião do agravamento dos sintomas do coronavírus, a sentimos mais próxima. No entanto, na maior parte, a consciência da morte tem sido confinada de forma bem sucedida à linha da frente e à obscuridade da miríade de perdas particulares que o vírus ocasionou, embora até o reconhecimento destas foi diminuída pelas restrições sobre os funerais.

Estamos bem cientes da importância da “linha de frente”, talvez especialmente porque ela nos protege do encontro com a morte que está para além dela. Podemos ouvir ocasionalmente relatos da linha de frente e ainda assim senti-la muito distante. Meu irmão está trabalhando num asilo, onde o coronavírus entrou numa unidade de trinta pessoas. Agora um terço delas está morto. Nada pode ser mais distante da minha própria vida, porque, mesmo em lockdown, as coisas continuam muito como estavam para mim. De fato, alguns têm sido enganados pelo sucesso do campo de normalidade manufaturada, a ponto de não acreditar que uma crise real jamais existiu. Nossa “normalidade” em si tornou-se fetichizada, sem considerar como ela foi construída sobre a negação da morte.

Pergunto-me se, ao invés de focar mais diretamente em serviços médicos como Kimbell Kornu faz em seu artigo, o propósito da medicina moderna pode ser melhor percebido ao focarmos em como ela serve para sustentar um mundo sem o reconhecimento da morte. Hospitais e serviços de saúde são uma camada de proteção contra a realidade que pode ser inadmissível para a modernidade e um grupo de campos de normalidade manufaturados que podem nos acostumar ao mundo que na verdade habitamos. Os profissionais médicos são como sacerdotes, no sentido que intermediam para nós os poderes que não queremos diretamente encarar.

A modernidade, entretanto, carece da capacidade de lidar bem tanto a vida quanto a morte. Quando a vida não pode vencer a morte, apenas empurrando-a de lado, a sombra da morte acaba por se estender sobre toda a vida. Tal “vida” é curta e trágica, uma vida condenada à suprema futilidade. Tal vida será incapaz de verdadeiramente encarar a morte e, mesmo que faça tudo que pode para dar as costas à morte, só será capaz de se imaginar em termos que manifestam sua escravidão sob a morte. E, como é o caso de muitas coisas, a vida começa assumir as características de seu mestre mortal.

Quando lemos os juízos pós-queda em Gênesis 3, nós também prontamente pensamos neles em meros termos de punição. Ainda assim, de outra perspectiva, eles podem ser compreendidos como mitigações e restrições graciosas do mal no mundo. Um dos efeitos da introdução da morte no mundo, por exemplo, é nos forçar a reconhecer nosso “fim”, não somente na forma do nosso término biológico, mas — estimulado por tal término — além disso nos dá o horizente do nosso propósito fundamental. Um mundo sem a morte para a humanidade caída ainda seria um mundo em que o pecado se desenvolveria sem restrições nem controle ao considerar o fim da humanidade. Em Eclesiastes 7.1-4, Salomão declara:

Melhor é o bom nome do que o perfume caro, e o dia da morte é melhor que o dia do nascimento. Melhor é ir à casa onde há luto do que ir à casa onde há banquete; pois a morte é o fim de todos os homens; que os vivos reflitam nisso em seu coração. Melhor é a tristeza do que o riso, porque o rosto triste torna melhor o coração. O coração dos sábios está na casa onde há luto, mas o coração dos tolos, na casa da alegria.

Num mundo caído, é a sepultura que lembra a vida de sua gravidade. Sem a alteridade dos “assuntos da morte”, é difícil para nós reconhecer o peso dos “assuntos da vida”.

Num vídeo poderoso e comovente, Kevin Toolis, o autor de My Father’s Wake, descreve a experiência do funeral de seu pai, em uma ilha na costa do Condado de Mayo. Onde a morte pode ser encarada diretamente, a vida é vivida diferentemente. A morte permanece um inimigo, mas não um inimigo do qual devemos nos esconder. 

Talvez a prática da medicina seja uma única parte da equação e muito mais dependa das práticas e do caráter mais amplos de nossa sociedade, que servem para emoldurar o que a prática de medicina representa. Uma preocupação muito maior pode ser a forma em que, mesmo na vida marginalizada das igrejas, a morte ainda é uma presença nada familiar. As mortes são privatizadas por uma sociedade radicalmente móvel e pelas estratificações geracionais da cultura popular, em que as relações intergeracionais fora da família imediata foram arrefecidas. O memento mori que costumava encher e rodear nossas igrejas desapareceu rapidamente. Quantos projetos novos de igreja incluem cemitérios, ao invés de estacionamentos? Os funerais tendem mais a ser ocasiões privadas do que comunitárias. A plateia que outrora rodeava o leito de morte ficou mirrada e desapareceu atrás de portas de hospitais e corredores de casas de abrigo. Ao invés de lembranças da morte, nossas igrejas cada vez mais exigem o trágico culto à juventude e à trivialidade.

Se falaremos sabiamente da prática da medicina, talvez devamos primeiro pôr nossa casa em ordem. A fé cristã foi historicamente imaginada como a prática de morrer bem. Os cristãos meditam na morte dos mártires e nos leitos de morte dos santos. Entregamos nossas mortes uns aos outros como marcas do nosso testemunho do Senhor ressurreto. Se devemos resistir à amortalidade da nossa sociedade moderna, e sobre o sacerdócio da medicina moderna, aqui pode ser um bom começo.


Por: Alastair Roberts. © Theopolis Institute. Website: https://theopolisinstitute.com/conversations/78388/. Traduzido com permissão. Fonte: The Christian Art of Dying Well.

Original: A arte cristã de morrer. © The Pilgrim. Website: thepilgrim.com.br. Todos os direitos reservados. Tradução: Arthur Guanaes. Revisão: Guilherme Cordeiro Pires.

Imagem: Unsplash.

O ponto de vista deste texto é de responsabilidade de seu(s) autor(es) e colaboradores direito, não refletindo necessariamente a posição da Pilgrim ou de sua equipe de profissionais.

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