Masculinidade, coragem e desempenho (Paul Miller)

“E a propósito, os veteranos da Segunda Guerra não usaram máscaras. Eles eram homens, não covardes. Máscaras = covardia obrigatória.” Foi o que tuitou Rusty Reno, editor do First Things, no meio de maio, dando voz a como alguns americanos responderam à pandemia da COVID-19 e ao subsequente lockdown. Como um rapaz que estava entrando de férias famosamente disse: “Se eu pegar corona, é a vida.” Para alguns, botar máscaras, fazer quarentena e se esconder de um vírus invisível parece errado. Para o rapaz de férias, uma vida em que a fuga dos riscos vence a joie de vivre não vale a pena ser vivida. Para Reno, é simples covardia. A vida sempre é arriscada, é o que parece que Reno está dizendo, você quer viver a vida num hospital? Seja homem e viva a vida.

Existe uma sabedoria parcial em algum lugar por trás do tweet de Reno, que tem a ver com a masculinidade e as condições da sociedade moderna. Mas somente uma sabedoria parcial, distorcida e bem perigosa quando se considera tudo que está implícito nesse tweet. Reno iguala coragem com masculinidade e ambos com descaso quanto ao perigo. Essa parece ser a única forma de os homens imaginarem sua masculinidade hoje em dia. Eu simpatizo com frustração generalizada sobre a falta de oportunidades de masculinidade saudável, mas a visão de Reno não é a resposta. Porque ela reduz a masculinidade não à coragem, mas à rispidez, bravata e tolice.

I.

“Não existe nada mais eletrizante na vida do que atirarem contra você sem acertarem”, escreveu Winston Churchill. Ele deveria saber como é. Como oficial do exército britânico, serviu na Índia britânica na fronteira noroeste no que é hoje o Paquistão e escreveu para o The Daily Telegraph, descrevendo a carnificina. Mais tarde, como correspondente de guerra na Segunda Guerra dos Bôeres, ele levou um tiro de um dos bôeres, foi capturado e passou alguns meses como prisioneiro de guerra, antes de escapar e fugir para a liberdade. Depois, ele se voluntariou para servir no front da Primeira Guerra Mundial e aprendeu a pilotar durante o nascimento da aviação.

Churchill estava certo. Para algumas pessoas, especialmente para jovens rapazes cheios de testosterona, o perigo é divertido. Viver no perigo faz a pessoa se sentir viva. Pode parecer loucura para os outros, mas considere: você nunca se sente tão quente quanto depois de sair diretamente do frio para a lareira e as melhores refeições vem depois de um jejum prolongado. O contraste aumenta a sensação. Para alguns, a sensação de vida, acentuada pela possibilidade do oposto, é intoxicante. A vida nunca parece mais vital, mais vibrante, mais viva do que quando você tem risco de perdê-la.

Eu servi no exército dos Estados Unidos, embora na maior parte do tempo eu estivesse preso atrás da linha de frente, eu muitas vezes senti o impulso, o desejo de ir aonde estava a emoção. A melhor descrição que conheço desse sentimento está em Guerra e paz, do Tolstói. Ele retrata um soldado vendo as linhas de frente que separam os exércitos:

— Um passo além da linha, um reminiscente da linha que separa os vivos dos mortos, e estamos no desconhecido, no sofrimento e na morte. E o que há lá? Quem está lá? Lá, além deste campo, e da árvore e da raiz iluminada pelo sol? Ninguém sabe, e você gostaria de saber; você tem medo de cruzar a linha, e gostaria de cruzá-la; e você sabe que cedo ou tarde você terá de cruzá-la e descobrir o que há lá do outro lado, assim como você inevitavelmente descobrirá o que há no outro da morte.  Você é forte, saudável, alegre e animado, e cercado de pessoas igualmente alegres e animadas. Então, se ele não pensa, é o que todo homem que se encontra à vista do inimigo sente, e esse sentimento dá um brilho particular e uma impressão de intensidade jubilosa a tudo que acontece nesses momentos.

“Você tem medo de cruzar a linha, e gostaria de cruzá-la” para sentir o “brilho particular” e a “intensidade jubilosa”. Se devemos acreditar em Tolstói e Churchill, essa experiência é, em algum nível, natural e quase universal.

II.

Isso não quer dizer que ela é boa. Como quase todas as coisas que são naturais, a tomada de riscos masculina pode ser boa ou ruim dependendo das circunstâncias e do propósito. Agostinho ensinou que nossos amores naturais devem ser corretamente ordenados e qualquer amor pode se tornar desordenado e destrutivo. O amor pelo risco e pelo perigo não é diferente. Alguns homens fundamentam uma ética e um estilo de vida na busca por esse sentimento. Para eles, flertar deliberadamente com o perigo se torna uma forma de demonstrar sua masculinidade. Se eu tomar esse risco e sobreviver, eu sou homem. Torna-se um ritual e até viciante, como atestam os viciados em adrenalina que inventaram os esportes radicais, como o base jumping e a escalada livre solo.

O filme de 1999, Clube da Luta — um dos meus favoritos, admito —, explorou o desejo do homem por uma masculinidade significativa até em seguir um culto niilista. Suspeito que boa parte do apelo pelos filmes de super-heróis, fantasia e guerra seja porque eles funcionam como uma satisfação masculina, permitindo-nos experimentar vicariamente a emoção do combate. Aqueles eram os dias: quando os homens podiam ser homens e todo homem conhecia a emoção de um avanço da infantaria sobre os campos de Bannockburn.  

De modo mais preocupante, acadêmicos têm mostrado que uma das razões pelas quais os homens caem em gangues e grupos extremistas é porque sentem uma necessidade de uma comunidade de homens e um contexto que valida e canaliza sua agressividade biologicamente natural, uma comunidade e um contexto que a civilização pós-industrial tem amplamente falhado em prover fora das forças armadas. Algo como essa dinâmica está por detrás tanto do terrorismo jihadista quanto da direita autoritária.

O apelo desse tipo de visão de masculinidade parece estar se espalhando para além dos recônditos cantos do 8chan e do The Daily Stormer. Em 2018 e 2019 alguém pelo pseudônimo de “Bronze Age Pervert” [Pervertido da era do bronze] escreveu e circulou o The Bronze Age Mindset, uma espécie de manifesto da masculinidade pré-moderna, supostamente famoso entre os funcionários da Casa Branca de Trump. (Para ser claro, o “Pervertido” não advoga pelo terrorismo, embora pareça nutrir racismo e homofobia.)

Em algum nível, muitos homens experimentam o desejo pelo perigo e pelo entusiasmo físico como uma necessidade primitiva. Precisamos de uma oportunidade de enfrentar o perigo e de provar para nós mesmos e nossos irmãos que mostraremos graça debaixo do fogo, faremos o sacrifício heroico e lutaremos o bom combate. Grande parte da conversa sobre a crise da masculinidade ou masculinidade tóxica faz o problema ainda pior, ao banalizar esses sentimentos, tratando-os como uma fase juvenil ou uma função de videogames violentos demais, ou ao dizer aos homens que eles simplesmente têm de crescer. Esse discurso não tem nada a dizer aos muitos homens que sentem que nós não fomos feitos para isso e devemos fazer algo e obedecer a nossa compulsão interior de buscar o perigo e viver.

Se a sociedade não der uma resposta aos homens, eles inventarão uma sozinhos e suas respostas geralmente serão imprudentes, niilistas, tolas ou destrutivas, como ousar enfrentar uma pandemia global sem usar máscara.

III.

Como reconciliamos a natureza aparentemente inata da agressividade masculina com as necessidades de paz, ordem e civilização? Observe que as investidas de risco de Winston Churchill tinham um propósito. Embora ele tenha, sem dúvida, aproveitado suas empreitadas da juventude, ele tomou riscos como um soldado e jornalista, servindo o propósito maior do rei e do país. Ele não tomava riscos (somente) para se divertir, se provar e impressionar os outros. Ele não estava tomando os riscos pelo risco; ele estava fazendo isso para conquistar algo maior que si mesmo.

Churchill participou das instituições da sociedade — exército e nação — que existiam em parte para dar aos jovens uma forma de usar sua agressividade natural para um fim construtivo. Se um jovem se sente consumido pela necessidade de ousadia física provavelmente a coisa mais útil que ele pode fazer é servir seu país como um soldado, policial, bombeiro ou correspondente de guerra.

Mas há algo mais há ser dito do que apenas um louvor ao serviço público. Churchill era fisicamente corajoso e enfrentou pessoalmente o rico, o perigo e ameaças a sua vida. Vemos em sua vida a virtude da coragem. Coragem é uma virtude bíblica. Moisés manda Josué ser corajoso e Josué passa essa ordem para a nação de Israel, o que é talvez a mais famosa exortação bíblica à coragem.

Esforça-te e sê corajoso, porque farás este povo herdar a terra que jurei dar a seus pais.

Apenas esforça-te e sê corajoso, cuidando de obedecer a toda a lei que meu servo Moisés te ordenou; não te desvies dela, nem para a direita nem para a esquerda; assim serás bem-sucedido por onde quer que andares. Não afastes de tua boca o livro desta lei, antes medita nele dia e noite, para que tenhas cuidado de obedecer a tudo o que nele está escrito; assim farás prosperar o teu caminho e serás bem-sucedido. Não te ordenei isso? Esforça-te e sê corajoso; não tenhas medo, nem te assustes; porque o SENHOR, teu Deus, está contigo, por onde quer que andares. (Js 1.6-9)

Note que Israel seria corajoso ao obedecer ao Senhor. Mais tarde, o profeta Azarias pede que Asa mostre coragem ao obedecer a Deus, o que ele faz lançando fora os ídolos (1Cr 15.7). O rei Josafá foi aquele que “seguiu corajosamente os caminhos do SENHOR” (2Cr 17.6, NVI), porque ele andou nos caminhos do Senhor e não buscou os baalins. O rei Davi ousadamente pediu que Deus confirmasse sua promessa de estabelecer sua casa, clamando que, por causa da grandeza de Deus, “o teu servo achou coragem para orar a ti” (2Sm 7,27, NVI). O salmista nos aconselha duas vezes a “sermos corajosos” e “esperarmos no Senhor”, aparentemente igualando os dois (Sl 27.14; 31.24). A forma como a Bíblia retrata a coragem tem menos a ver com ousadia física e mais a ver com coragem de convicção.

De maneira interessante, nas poucas ocasiões em que é feito na Bíblia uma exortação à coragem ligada à violência física, os vilões da história são os responsáveis. Antes da batalha, Israel trouxe a arca da aliança para animar a si mesmo. Os filisteus ouviram seu brado e tiveram medo. Eles dizem para si mesmos: “Ó filisteus, sede fortes e corajosos para que não venhais a ser escravos dos hebreus, como eles foram de vós; sede homens e lutai” (1Sm 4.9), ecoando perfeitamente a equação de Reno de masculinidade, ousadia física e veteranos de guerra. Mais tarde, Absalão exorta seus homens a serem corajosos o suficiente para matar um bêbado (2Sm 13.28). Dificilmente esses homens servem de exemplos morais para nós.

Eu não compreendo inteiramente o que significa “seguir corajosamente os caminhos do Senhor”, embora eu ore para que eu chegue à maturidade de entender. Eu sei o suficiente para dizer que, na Bíblia, a coragem geralmente é boa, mas quando é coragem para obedecer ao Senhor, confiar no seu caminho quando é impopular ou difícil, esperar no seu livramento quando a salvação parece humanamente impossível. O foco não está em mim e no fato de que quero provar minha masculinidade, mas colocar minhcovia masculinidade a serviço de algo maior do que eu.

A coisa menos máscula que um cara pode fazer é ser consumido com tanta insegurança sobre sua masculinidade que bote a si mesmo e os outros em perigo na sua busca de provar quão másculo é. A masculinidade certamente inclui sabedoria, integridade intelectual e coragem de convicção. Ela requer maturidade e firmeza de julgamento. Pode exigir ousadia física e até a capacidade para a violência in extremis — para defender a si mesmo e proteger aos outros. Ela não inclui bravata performativa, negligência imprudente pela segurança pública ou um flerte deliberado cim um risco evitável apenas para provar algo para alguém.


Por: Paul D. Miller. © Mere Orthodoxy. Website: https://mereorthodoxy.com/manliness-courage-performance/. Traduzido com permissão. Fonte: Manliness, Courage, Performance. Mere Orthodoxy, 15 de maio de 2020

Original: Masculinidade, coragem e desempenho. © The Pilgrim. Website: thepilgrim.com.br. Todos os direitos reservados. Tradução: Arthur Guanaes. Revisão: Guilherme Cordeiro Pires.

O ponto de vista deste texto é de responsabilidade de seu(s) autor(es) e colaboradores direito, não refletindo necessariamente a posição da Pilgrim ou de sua equipe de profissionais.

Imagem: WikiMedia Commons

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