Jesus: menos que divino? (Hans Boersma)

“Você realmente acredita que Jesus tinha duas vontades?” O tom desafinado do meu amigo deixou claro o que ele pensava sobre a questão: a noção de que Jesus poderia ter duas vontades é um absurdo estranho e antiquado.

Eu não queria que meu amigo teologicamente sofisticado me visse como um caipira da roça. Ao mesmo tempo, eu sabia que São Máximo perdera sua língua e sua mão direita por defender o suposto absurdo. Então, reuni toda minha coragem e bati o pé: “Sim, é claro que ele tinha duas vontades” — apostando que, mesmo que nossa discussão me fizesse parecer um tolo, a tradição me vindicaria.

Nunca me arrependi da minha aposta. Acho que agora compreendo mais profundamente por que a noção das duas vontades de Jesus faz com que ele pareça um esquizofrênico para a erudição teológica contemporânea (e também porque a igreja está certa em permanecer ao lado de Máximo). Desde o século 18, três ondas seguidas de movimentos de busca pelo Jesus histórico passaram sobre nós e seu impacto conjunto tornou implausível a noção das duas vontades de Jesus, para dizer o mínimo.

Quaisquer que sejam suas diferenças, os estudiosos envolvidos em tal empreendimento compartilham vários pontos em comum. Em primeiro lugar, o engajamento em “pesquisas”. A Pesquisa Histórica sobre Jesus pode parecer intimidadora — especialmente quando capitalizada. Cristãos comuns (assim como muitos teólogos) emudecem quando confrontados por pesquisadores que alegam que sua pesquisa acadêmica é a autoridade final sobre quem Jesus realmente era (e quem ele mesmo pensava ser). 

Segundo, esses estudiosos operam invariavelmente com um tipo de dualismo. Para descobrir quem Jesus realmente era, precisamos despi-lo de toda qualidade sobrenatural. Ou seja, a busca pelo Jesus histórico leva em consideração apenas a pura causalidade histórica. Isso não significa que todos os estudiosos são anti-sobrenaturalistas. Há uma diferença enorme entre John Dominic Crossan e N. T. Wright, por exemplo. Mas, quaisquer que sejam seus compromissos de fé, bons pesquisadores não permitem que eles influenciem sua investigação histórica. Eles são naturalistas, ao menos metodologicamente. 

Terceiro, eles alegam ser historiadores, não teólogos. Isso está mais ou menos implícito no dualismo que acabei de descrever, mas vale a pena considerarmos esse ponto com especial atenção. Quando um pesquisador alega ser um historiador e não um teólogo (uma afirmação bastante comum), eu suspeito que ele tem várias coisas em mente. Provavelmente, ele molda seu trabalho histórico pelo método científico. Presumivelmente, o Jesus de sua busca fala e age estritamente de acordo com os horizontes judaicos do primeiro século (discursos teológicos que tem seu ponto de partida no sobrenatural — o Verbo se tornou carne — são rapidamente marginalizados como sendo ahistóricos e abstratos). Finalmente, a autodesignação sugere que os historiadores é quem estão no comando da teologia. Eles exigem de nós (cristãos comuns) a fé implícita em suas pesquisas históricas e desejam ter a igreja em seus bolsos. Na verdade, eles são teólogos (de um certo tipo) disfarçados de historiadores. 

Quarto — e isso nos leva de volta ao meu parágrafo inicial —, esses estudiosos são monotelistas. Todos eles sustentam que Jesus tinha apenas uma vontade (monos = “um”; thelēma = “vontade”). Isso é praticamente um truísmo: o Jesus histórico — como produto dos labores científicos dos pesquisadores — é o Jesus que conhecemos por meio da investigação histórica. E, uma vez que historiadores tipicamente buscam compreender as palavras e ações de figuras históricos, eles tendem a ser reservados quanto ao Verbo divino assumindo a carne humana.

Não deveria nos surpreender, portanto, que esses estudiosos não saibam o que fazer com a linguagem do Credo de Calcedônia (451). Até mesmo um historiador conservador como Wright admite não encontrar muita utilidade nos termos antigos do debate (“divindade” e “humanidade”). A respeito do conhecimento de Jesus sobre si mesmo, Wright sugere que não foi como se Jesus parasse e dissesse a si mesmo “Bom, eu sou a segunda pessoa da Trindade!”. Em vez disso, através de muita agonia, oração e dúvida, Jesus passou a acreditar que “ele tinha que ser e fazer, por Israel e pelo mundo, aquilo que, segundo as Escrituras, somente o próprio YHWH poderia ser e fazer.” 

Por definição, os estudiosos envolvidos com a busca pelo Jesus histórico não podem chegar a Calcedônia: eles são monotelistas, sua investigação histórica se limita ao Jesus humano — agonizando, orando e questionando sua própria identidade. Em contraste, a tradição de Calcedônia, assim como a própria Escritura, confessa que a natureza divina de Cristo (e, consequentemente, a sua vontade divina) é idêntica à do Pai. A razão pela qual o Terceiro Concílio de Constantinopla (681) rejeitou o monotelismo como estando em desacordo com Calcedônia é que um Jesus com apenas uma vontade não pode ter duas naturezas em qualquer sentido significativo: naturezas têm vontades. A de Deus é divina, a nossa, humana. 

Entretanto, os estudiosos contemporâneos não são como os monotelistas de antigamente. O monotelismo que Máximo enfrentou no século 7 afirmava que a única vontade de Jesus é a divina, enquanto os monotelistas contemporâneos sugerem que sua única vontade é a humana. Não é difícil entender a diferença. Monotelistas antigos (sendo mais teólogos que historiadores) reconheciam Jesus como a segunda pessoa da Trindade e, portanto, não tinham a menor dúvida sobre a vontade divina de Jesus. Teria ele uma vontade humana também? Bem, monotelistas antigos eram um pouco mais reservados em reconhecer a verdadeira humanidade de Cristo. Monotelistas contemporâneos investigam Jesus como um judeu do primeiro século (que, segundo alguns estudiosos, fez o que apenas Deus poderia fazer) e, portanto, não tem a menor dúvida sobre a vontade humana de Jesus. Teria ele uma vontade divina também? Bem, monotelistas contemporâneos geralmente são temerosos quando se trata de confessar a verdadeira divindade de Cristo.

A fé calcedônia está baseada em duas convicções. A primeira é: Jesus é plenamente Deus e plenamente homem — duas naturezas completamente inteiras e completas. A Palavra eterna assume a natureza humana. Tanto a divindade quanto a humanidade são reais e nenhuma delas pode ser negada. Para os ouvidos antigos e modernos, isso dá a impressão de uma personalidade dividida e, portanto, tanto o racionalismo antigo quanto o contemporâneo descartam a noção de Jesus como verdadeiro Deus e verdadeiro homem. O antigo, encantado com a ideia de um Salvador divino, questiona a realidade de sua humanidade. O contemporâneo, fascinado com um salvador humano, diminui sua divindade.

A segunda convicção é: a divindade e humanidade de Jesus estão relacionadas de maneira assimétrica. Ou seja, o Verbo divino assume a carne humana. A carne humana não assume o Verbo divino. Portanto, a pessoa que fala e age nos Evangelhos é o Verbo divino que assumiu a natureza humana. Ao menos nisso os monotelistas antigos estavam certos: os evangelhos testemunham, acima de tudo, a Palavra de Deus encarnada. Para monotelistas contemporâneos, porém, a humanidade de Jesus indubitavelmente está no comando. Ainda que afirmemos a divindade de Jesus, esta é, na melhor das hipóteses, uma afirmação secundária, derivada do Jesus histórico, o produto das investigações científicas. 

Os oponentes monotelistas de Máximo atacaram somente a primeira convicção calcedônica. Hoje, os monotelistas vão ainda mais longe: eles descartam as duas convicções. A razão pela qual monotelistas antigos e modernos rejeitam Calcedônia é que é difícil compreender racionalmente a existência de uma pessoa na qual duas naturezas (e, portanto, duas vontades) coexistem.   

Talvez Máximo devesse ter se retratado. Se ele ao menos reconhecesse que a única vontade de Jesus era a divina, ele não teria sua língua cortada e sua mão direita decepada. O problema, é claro, é que teríamos acabado com um Jesus menos que humano.  

Eu não sei se chego perto da coragem obstinada de Máximo (embora, talvez, o Espírito a dê apenas no momento em que precisamos). Mas estou convencido de que, onde o Concílio de Calcedônia é descaradamente desafiado e a própria noção de Jesus ter uma vontade divina é tratada como uma esquisitice antiquada, precisamos da coragem de Máximo. 

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Por: Hans Boersma © First Things. Website: https://www.firstthings.com/web-exclusives/2020/03/jesus-less-than-divine. Traduzido com permissão do autor. Fonte: “Jesus: Less than Divine” First Things.  Publicação online em 03.03.2020.

Original: Jesus: menos que divino? © The Pilgrim. Website: thepilgrim.com.br. Todos os direitos reservados. Tradução: Breno Seabra. Revisão: Guilherme Cordeiro Pires

Imagem: William Blake, The Agony in the Garden, 1799–1800. Tempera em ferro estanhado, 27 cm × 38 cm. Wikimedia Commons

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