Bíblico®: quando ser “bíblico” vira uma marca (Alastair Roberts)

A era do marketing 

Vivemos na era do marketing — a era de frases provocantes, manchetes corajosas e ideias simplificadas, que grudam na cabeça. Para sobreviver neste mundo, dizem os gurus, precisamos nos tornar uma marca, e, idealmente, refazer esse processo de branding periodicamente. Nas últimas décadas, a tentação de tornar o cristianismo uma marca se mostrou irresistível, não só para os teólogos da prosperidade da vida, mas também para os maiores e mais intelectuais defensores do cristianismo reformado e evangélico. Para as ideias sobreviverem num mundo de grifes, elas devem se apresentar como ideologias, como –ismos, como um pacote conciso, um sistema de ideias fale-para-tomar-posse (ou fale-para-destruir).

Nas últimas décadas houve uma mudança em direção à ideologia entre muitos cristãos conservadores evangélicos e reformados. Tais cristãos geralmente reduzem seus adversários intelectuais a –ismos bem delineados (darwinismo, marxismo, modernismo, relativismo, etc.) a fim de criticá-los mais facilmente. Tal análise de cosmovisão, que adota sem saber o legado de figuras como Immanuel Kant, tende a enfatizar um mundo construído mentalmente ao invés de um mundo concreto. Os mundos construídos mentalmente de ideologias diferentes concorrendo entre si são quase invariavelmente mutuamente excludentes e antagônicos — cada um é construído sobre proposições e compromissos fundamentais opostos. A tarefa do analista de cosmovisão é diagnosticar o erro ideológico na raiz das cosmovisões opostas, enquanto demonstra consistentemente a cosmovisão cristã, um edifício ideológico construído nos firmes fundamentos da verdade cristã.

Por mais perigoso que isto seja — e abordamos este perigo frequentemente aqui no Davenant [veja este livreto publicado na The Pilgrim] — um perigo ainda maior está à espreita: tornar a própria fé cristã um –ismo e a Palavra de Deus, uma marca. Como um –ismo, ela geralmente se caracteriza como “a visão cristã do mundo e da vida”. Ela oferece um edifício de ideias cristãs internamente coerente e autocontido, construído amplamente nos domínios etéreos do pensamento abstrato. Para diferenciar essa abordagem do cristianismo autêntico e fiel, considero útil denominá-la usando o termo “bíblico®”.

A marca do bíblico®

As marcas registradas (®) podem nos oferecer uma certeza quanto à qualidade e consistência dos produtos, nos libertando de qualquer ansiedade que possamos ter. Se você confia na marca, pode confiar no produto, libertando o consumidor de investigar por si mesmo cada produto mais de perto. Marcas registradas também têm uma importância social, permitindo que as pessoas identifiquem a si mesmas, seus valores e as tribos a que pertencem. E, claro, as marcas registradas permitem que as empresas vendam com mais eficiência.

O termo “bíblico” tem funcionado como uma espécie de marca registrada, adotando muitos propósitos das marcas registradas. Bíblico® oferece às pessoas a certeza da qualidade de uma marca cristã de confiança, libertando-as da incerteza e da ansiedade de ter que determinar por si mesmas a qualidade das coisas. Nós temos cosmovisões bíblicas®, criação de filhos bíblica®, empreendimentos bíblicos®, política bíblica®, liderança bíblica®, aconselhamento bíblico® e diversas outras instituições, técnicas, ideias e produtos bíblicos®. Como muitas marcas registradas, há uma deterioração da grife, à medida que todo o peso da marca registrada se põe sobre produtos que são indignos dela. Adesão à marca registrada e à sua grife demonstra que a pessoa se importa com um radicalmente autêntico cristianismo bíblico®, 100% natural e orgânico. Também serve como um identificador social, um sinal de pertencimento à tribo dos cristãos que-são-realmente-bíblicos® e são centrados-no-evangelho®.

Dada a forma consumista da sociedade ocidental moderna, não é inteiramente surpreendente que o termo “bíblico” seja usado desta maneira. De todo modo, a mudança foi acelerada pela ideologização da fé cristã, como descrevi. Em ambos os casos, vemos um arranjo muito complexo de juízos sendo simplificados em direção a uma escolha tudo-ou-nada. As ideologias tendem confundir a tarefa da deliberação com a da reflexão, a determinação do certo com o nosso conhecimento do bem. Conquanto estejamos comprometidos com o valor fundamental correto — a Bíblia! — não precisamos nos preocupar tanto com a tarefa de descobrir como esse compromisso se demonstra no bagunçado domínio da prática. A cosmovisão bíblica® nos assegura de que a prática correta flui bem diretamente dos valores e, de fato, uma grande parte do ensinamento bíblico® declara como deve ser essa prática para aqueles que buscam esses valores.

A perda da sabedoria

Tudo isso tem o efeito de cegar as pessoas para a tarefa da sabedoria, a qual está particularmente preocupada com o labor de perceber e buscar o bem e como ele se relaciona a este mundo concreto e complexo. Ser bíblico® tem menos a ver com uma luta vitalícia para obter sabedoria cristã e mais a ver com um sistema de pensamento enlatado que, supostamente, transforma os simples em “sábios”. Isso rouba a abertura das pessoas para um mundo além da ideologia bíblica® e os lança em direção a uma confiança injustificada de que eles obtiveram um entendimento verdadeiro do que os outros falham em compreender. Outrora requerendo uma vida de estudo disciplinado, a importância filosófica e prática das Escrituras é apreendida de forma imediatamente evidente e indubitavelmente clara para todos que possuem esse sistema enlatado.

Se tudo deriva fundamentalmente dos nossos compromissos, então pressupostos não bíblicos podem desqualificar ou comprometer fatalmente sistemas de pensamento inteiros. Tal convicção, obviamente, pode produzir desconfiança e rejeição de pensadores e autoridades que supostamente utilizem sistemas de pensamento “não bíblicos”. A redução da sabedoria a juízos de valor rasos encoraja uma postura antitética com relação às pessoas com diferentes valores religiosos, sem praticamente ser afetado pelo reconhecimento de que todos estamos lidando com a mesma realidade concreta: se você tem valores religiosos diferentes, todo o seu sistema de pensamento é radicalmente suspeito.

Uma consequência disso é a tendência proativa do pensamento bíblico® de se distanciar de todo pensamento “incrédulo”, buscando criar contextos que são puramente bíblicos® em seus compromissos e valores. Isso tem resultados não só epistemológicos, mas também sociológicos. Pessoas que adotam tal abordagem se separam de formas não cristãs (muitas formas cristãs supostamente comprometidas) de sabedoria e se separam da correção. Eles também tendem a formar um ambiente de retroalimentação: como a abordagem bíblica® depende tanto da pureza ideológica, ela não tem facilidade em acomodar as diferenças e diversidade de perspectivas.

Isso geralmente cria comunidades desconfiadas, que são treinadas, intencionalmente ou não, a desconfiar daqueles fora do meio esterilizado da sua câmara bíblica® de quarentena de pensamento e prática fieis, enquanto sendo notavelmente crédulos a tudo que está dentro dela. Em muitos contextos, eu acredito que estamos vendo os resultados disso. Por exemplo, considere o que acontece com uma pessoa que desenvolve uma certeza extrema em seu próprio conhecimento, uma confiança excessiva nos de dentro, uma desconfiança profunda nos de fora, e uma falta de abertura para aprender novas coisas de fontes fora de seu sistema de crença e comunidade ideológica. Tal combinação produz uma pessoa, ou comunidade, que quase certamente será incapaz de lidar com assuntos como abuso. Por que procurar as autoridades para lidarem com o abuso sexual na sua congregação? Você não confia na sua cosmovisão bíblica®?! Por outro lado, toda sorte de dietas e regimes miraculosos, ou teorias da conspiração, se espalham por essas comunidades bíblicas® como fogo.

O pastor como guru

Um efeito da ideologia bíblica® tem sido a de elevar os pastores e teólogos ao nível de especialistas universais. Se toda verdade é bíblica®, então os especialistas na Bíblia são especialistas universais. Deveríamos olhar para eles em busca da nossa psicologia, filosofia, política, economia e assim por diante. O resultado pode ser pastores que clamam autoridade sobre diversos assuntos, sobre os quais eles são inocentemente ignorantes, apresentando-os como matérias de autoridade bíblica® direta, de formas que acabam por minar e desacreditar a autoridade da Escritura. A maioria dessas áreas requer um extensivo estudo fora da Bíblia para ganho de sabedoria e, enquanto a Escritura equipa a pessoa sábia para o discernimento, ela realmente não é a “tudo-em-um” para tudo que precisamos saber nessas áreas. As Escrituras nos fornecem princípios que devem guiar nossa economia, por exemplo, mas ela não nos ensina se leis sobre salário mínimo são boas ou não. Isso é amplamente uma matéria de sabedoria contextual e as respostas não são simples nem diretas. Meramente ter a humildade que surge deste reconhecimento é um importante começo.

As falsas promessas da lealdade à marca

Crer em um grande sistema coerente torna difícil a ideia de graus de sabedoria ou sabedoria mais localizada; quando tudo flui das proposições fundamentais, é fácil tomar tudo como preto ou branco. Ou o sistema é puro, ou está profundamente poluído e comprometido. Ainda assim, por causa da sua extensão desmedida, o bíblico® resulta em uma grife de cristianismo que é incrivelmente quebradiça. Põe um peso na certeza, qualidade e confiabilidade da Bíblia sobre uma vasta gama de produtos, ideias, práticas e instituições que acabam deixando as pessoas na mão. Relaciona o compromisso com a Escritura ao compromisso com essas coisas. E, quando elas falham, muitas pessoas dão as costas não só ao bíblico®, mas ao próprio Cristo. Se uma rachadura aparece, todo o edifício está em jogo.

As pessoas também podem ficar iludidas com o cristianismo bíblico® quando reconhecem que há uma boa medida de sabedoria a ser achada fora dos círculos bíblicos® e uma boa medida de tolice dentro deles. Elas também podem começar a reconhecer que, na tarefa de buscar sabedoria, apesar de ter importância essencial em nos direcionar corretamente para o fim principal da nossa labuta, a Escritura está longe de ser o quadro completo. Sem se aproximar com atenção da própria realidade e sem uma abertura para aprender com outros comprometidos a esta tarefa, sofreremos as consequências da tolice. Nosso compromisso com a Bíblia enquanto valor não garante nosso sucesso como educadores de nossos filhos, por exemplo, um labor em que os não cristãos podem ter muito a nos ensinar.

Algumas das fraquezas do pensamento bíblico® podem emergir quando consideramos os problemas que os efeitos da tecnologia têm sobre nossos valores. O pensamento da cosmovisão bíblica® tende a dotar uma epistemologia intelectualista, privilegiando ideias sobre a realidade concreta, construindo um sistema autocontido, evitando o labor da sabedoria, buscando respostas rápidas enlatadas para nos livrar da dificuldade do pensamento e a enfatizar radicalmente a pureza ideológica. Mas essas afirmações podem ser abaladas quando começamos a considerar de que modo coisas como produção em massa, formatos de livros, o carro, o smartphone, a internet, ou o urbanismo dramaticamente formam nosso pensamento, modo de vida e valores. Caia nessa toca do coelho e você talvez descubra que nunca fomos pensadores bíblicos® puros, mas sempre tivemos que lutar com a complexa tarefa da sabedoria e da fidelidade à Palavra de Deus nesse confuso e bagunçado mundo concreto.

Leia os ingredientes

Uma abundância de influências não cristãs — ideológicas, culturais e materiais — tem se misturado à “pura” salsicha conhecida como cosmovisão bíblica®. A alternativa não é eliminar tais influências — muitas das quais podem nos fazer ganhar bastante —, mas sim ser mais direto sobre o que estamos pegando delas e por que pegamos, enquanto tudo testamos pela Escritura.

Muitos foram terrivelmente machucados pela cultura bíblica®. Incontáveis jovens, machucados pelas promessas fracassadas da ideologia bíblica®, com suas práticas e comunidades doentes, em que cresceram, têm abandonado a fé cristã e tomado cosmovisões não cristãs. E estas apenas os danificaram de outras formas, oferecendo ideologias alternativas, e não um envolvimento genuíno com a realidade. Nós precisamos abandonar a marca registrada bíblico® e recuperar o desafio de discernir e aplicar a Escritura nas nossas vidas e no nosso mundo. Precisamos crescer em uma sabedoria orientada pela Escritura na busca de um projeto humano maior, que temos em comum com todos os que estão lutando com a realidade concreta na qual Deus se dirige a nós.


Por: Alastair Roberts. © The Davenant Institute. Website: https://davenantinstitute.org/being-biblical-when-the-bible-becomes-a-brand/. Traduzido com permissão. Fonte: Being Biblical™: When the Bible Becomes a Brand.

Original: Bíblico®: quando ser “bíblico” vira uma marca (Alastair Roberts) © The Pilgrim. Website: thepilgrim.com.br. Todos os direitos reservados. Tradução: Arthur Guanaes. Revisão: Guilherme Cordeiro Pires.

Imagem: Robert Anasch no Unsplash

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