Indo além de Tomás de Aquino (Hans Boersma)

Em 1946, em um mundo devastado pela guerra, a Igreja Católica Romana permaneceu como um monumento inabalável. Para católicos, a igreja oferecia refúgio do caos do século XX e um ponto de vista moral e intelectual privilegiado para criticar o mundo secular e oferecer uma alternativa construtiva. O fundamento desse catolicismo confiante e assertivo era a filosofia e a teologia de Tomás de Aquino (1225-1275), consagrado por Leão XIII como “o baluarte e a glória da fé católica”, em sua encíclica Aeterni Patris, em 1879. 

O sistema intelectual do neotomismo, construído com base nos ensinamentos de Tomás, alegava representar verdades objetivas, fixas e atemporais derivadas de duas fontes: a investigação racional do mundo criado e a verdade sobrenatural revelada por Deus na Escritura e na tradição. Mas, mesmo quando os ensinamentos de Tomás ganharam terreno no século 19, outros estudiosos estavam afirmando que a revelação divina deveria ser entendida como parte dos processos temporais investigados pelos estudos históricos.  

Os papas do início do século 20 lutaram contra essas visões, as quais eles chamaram de “modernistas”. Pio X condenou-as explicitamente em 1907. Ainda assim, nenhuma condenação do Vaticano pôde impedir os intelectuais católicos de estudar os escritos acadêmicos do passado. Cautelosamente, tendo em vista as condenações papais, alguns jovens estudiosos começaram a andar na ponta dos pés de volta ao terreno proibido.

Uma bomba francesa

Esses estudiosos buscaram uma abertura muito maior ao ecumenismo e uma recuperação de práticas litúrgicas e de estudo das Escrituras muito mais antigas, além de possuírem uma visão geralmente mais positiva do pensamento moderno e das tendências culturais. Foi assim que, em 1946, Réginald Garrigou-Lagrange, principal estudioso dominicano da Pontifícia Universidade de São Tomás de Aquino, em Roma, se viu investigando uma coleção de escritos da França. A cada página que virava, a preocupação de Garrigou-Lagrange crescia mais e mais. De fato, ele tinha todos os motivos para se preocupar. Dificilmente o primeiro, esses escritos eram os mais recentes de uma série de ataques ao neotomismo vindos da faculdade jesuíta de Fourvière, na França.        

O estudioso patrístico Henri de Lubac (1896-1991) havia se estabelecido em Fourvière-Lyon em 1929 e sua influência estava se espalhando. Ele lecionava na Universidade Católica de Lyon, mas vivia no escolasticado de Fourvière (uma espécie de seminário) nos arredores da cidade. Os escritos de De Lubac causaram um alvoroço. Seu livro de 1944 sobre a eucaristia, Corpus Mysticum (O Corpo Místico), aparentava ser um ataque velado à doutrina católica tradicional da transubstanciação, promulgada no século 12, segundo a qual os elementos eucarísticos se tornam o corpo e sangue reais de Cristo. 

Apenas dois anos depois, Henri de Lubac desafiou diretamente o neotomismo com The Supernatural [O sobrenatural] (1946). Esse livro atacou a separação ensinada pelos tomistas entre natural e sobrenatural, entre filosofia e teologia e entre a igreja e o mundo. Além disso, ele ia para além de Tomás, voltando-se para as antigas fontes patrísticas e medievais.

A influência de De Lubac se multiplicou quando seus alunos passaram a entrar em cena. Hans Urs von Balthasar (1905-1988) mudou-se da Suíça para Fourvière em 1929 para estudar teologia. Ali, Henri de Lubac chamou sua atenção para os pais primitivos como Orígenes e Gregório de Nissa. Mais tarde, Balthasar escreveu que seu professor “nos mostrou o caminho além da escolástica para os pais da igreja e generosamente nos emprestou todas as suas próprias anotações e excertos.” Em 1939, Balthasar escreveu “Os pais, os escolásticos e nós”, que deliberadamente retornaram a extrapolar Tomás de Aquino e os escolásticos para os teólogos cristãos fundadores que moldaram a fé antes de 700 d.C. (ver revista Chirstian History n. 80) como uma fonte duradoura para a doutrina cristã.

Olhando para o Oriente 

Jean Daniélou (1905–1974), outro estudante de Henri de Lubac, também sentiu a profunda atração dos escritos espirituais e dos métodos interpretativos das Escrituras dos pais da igreja. Daniélou, como seus colegas em Fourvière, viu De Lubac como seu mentor acadêmico e espiritual. Junto com De Lubac, ele começou a republicar os escritos dos pais da igreja na série Sources Chrétiennes [Fontes Cristãs] — inicialmente focando nos pais orientais, cuja abordagem divergia mais acentuadamente do neotomismo que dos pais ocidentais. Em 1943 ele também publicou um livro inovador sobre Gregório de Nissa, Platonism and Mystical Theology [Platonismo e teologia mística]. 

Outro crítico, um jovem teólogo jesuíta chamado Henri Bouillard (1908-1981), ingressou na faculdade Fourvière em 1941. Em 1944, ele publicou um livro chamado Conversion and Grace in Thomas Aquinas [Conversão e graça em Tomás de Aquino], o qual foi visto por alguns como um ataque ao tomismo e à necessidade da graça divina no processo de conversão.  

Enquanto isso, no norte da Bélgica, dominicanos como Marie-Dominique Chenu (1895–1990) também estavam questionando o neotomismo. Chenu, professor de história do dogma no seminário Le Saulchoir, havia concluído seu doutorado sob a orientação de Garrigou-Lagrange no Angelicum, como costumava ser chamada a Universidade Pontifícia. Entretanto, a abordagem dos dois teólogos dificilmente poderia ser mais diferente.

Chenu conclamou um “retorno” às fontes e favoreceu o “método histórico”. Desconfiado a respeito de sistemas teológicos perenes, como o de Tomás, ele afirmava que a experiência cristã e a liturgia da igreja eram fontes centrais da doutrina cristã. Na década de 1930, Chenu, juntamente com os jocistes (a organização Jovens Cristãos Trabalhadores), lutou por melhores condições de trabalho para trabalhadores comuns. Para alguns, isso era perigosamente próximo do Marxismo. O próprio Chenu comentou em tom de brincadeira que alguns pensavam que havia dois Chenus, “um velho medievalista […] e uma espécie de malandro que corre nas linhas de fogo da santa igreja.”

Mas havia realmente apenas um Chenu e, para Garrigou-Lagrange, tanto o trabalho acadêmico quanto o engajamento social de seu aluno vinham do mesmo preocupante ponto de partida. Em 1931, Yves Congar (1904-1995), ex-aluno de Chenu, juntou-se a ele no Le Saulchoir. Como seu professor, o jovem padre dominicano ultrapassou limites eclesiásticos comumente estabelecidos. Seu Divided Christendom[Cristandade dividida] (1937) foi uma das primeiras obras católicas a se engajar seriamente em relações ecumênicas, não apenas com ortodoxos, mas também com protestantes. Olhar para trás também significa olhar para fora.   

Para o neotomista Garrigou-Lagrange, que mais tarde foi apelidado de “o monstro sagrado do tomismo”, todos esses escritos pareciam ser uma traição à verdade, trocando a abordagem intelectual de Tomás por algo muito mais incerto. Ele rebateu esses escritos com um artigo veemente no jornal Angelicum, em 1946, intitulado “La Nouvelle Théologie, où va-t-elle?” (publicado em inglês como ““Where Is the New Theology Leading Us?” [Aonde a nova teologia nos levará?]).

Nesse artigo, ele atacou o relativismo que considerava inerente à abordagem de Bouillard e De Lubac. Ele também rejeitou as ideias evolucionárias de Pierre Teilhard de Chardin (1881–1955) e defendeu a transubstanciação. O nome “nova teologia” pegou, dando a De Lubac e seus colegas um nome irônico para seu retorno às antigas fontes. 

Da condenação à exoneração

Inicialmente, o sucesso dessa antiga-nova teologia parecia longe de estar garantido. Em 1950, De Lubac e Bouillard foram exilados de Fourvière e mudaram-se para Paris. Alguns dos livros mais controversos de Henri de Lubac foram colocados no Índice de Livros Proibidos. No mesmo ano, a encíclica Humanis generis de Pio XII condenou suas visões teológicas. Em 1954, o movimento francês jociste de padres e operários foi forçado a abandonar as fábricas e Chenu mudou-se para Rouen. Congar foi exilado de Le Saulchoir e eventualmente acabou em Estrasburgo.

No entanto, em 1960, De Lubac e Congar foram selecionados para compor a Comissão Teológica preparatória para o concílio Vaticano II. Por fim, o Vaticano II absolveu e talvez até mesmo consagrou a nouvelle thélogie. A palavra que eles usaram para a recuperação dos pais da igreja, ressourcement, tornou-se um sinônimo do concílio e seus efeitos estavam alinhados com o programa original do movimento. 

Depois do concílio, porém, todos eles seguiram caminhos diferentes. Chenu continuou interessado na cultura contemporânea. Segundo ele, os teólogos têm a tarefa profética de ler os “sinais dos tempos”. Ele avaliou de maneira altamente positiva a autonomia da natureza trazida pela modernidade e estava otimista acerca do futuro da humanidade. Eventualmente, ele orientaria Gustavo Gutiérrez, fundador da teologia da libertação, e Matthew Fox, fundador do movimento inter-religioso de “espiritualidade da criação”. A perspectiva de Congar refletiu a de seu ex-professor, Chenu.

Em contraste, De Lubac e Balthasar tornaram-se céticos em relação a futuras reformas. De Lubac sentiu que os secularistas haviam sequestrado a agenda do concílio, chamando-os de “para-concílio”. Ele se voltou para os pais da igreja a fim de combater a modernidade, mas parecia que seus colegas estavam agora mergulhando no próprio secularismo que ele sempre resistiu.

Essas diferenças ficaram ainda mais evidentes quando esses dois grupos estabeleceram periódicos teológicos separados. Chenu e seus amigos fundaram a revista acadêmica Concilium em 1965, com o objetivo de estimular novas reformas na igreja. Enquanto isso, Joseph Ratzinger (mais tarde papa Bento XVI), Balthasar e outros estabeleceram a revista acadêmica Communio em 1972 para reforçar o ensino tradicional. O primeiro acusou o último de sufocar o progresso do Vaticano II. O último preocupava-se com teólogos católicos progressistas abraçando inadvertidamente o secularismo. 

Trazendo Deus de volta ao “andar de baixo”

Apesar dessas diferenças, ambos os grupos estavam concentrados em uma questão subjacente: resgatar o antigo mistério. O termo latino mysterium possui uma conotação sacramental; em boa parte do pensamento cristão, mysterium e sacramentum foram utilizados de maneira idêntica. Os teólogos da nouvelle théologieacreditavam que uma perspectiva sacramental sobre a vida é necessária para combater a modernidade. Afinal de contas, a modernidade separou céu e terra, filosofia e teologia, natural e sobrenatural. Ela baniu Deus para o andar de cima a fim de deixar o andar de baixo vazio. Os teólogos da nouvelle théologieacreditavam que, por tratarem a fé como algo completamente separado das preocupações do dia a dia, o neotomismo havia inconscientemente contribuído com essa ruptura. 

A única maneira de trazer Deus de volta para o andar de baixo seria entender que os sacramentos fazem parte de um grande mistério sagrado presente nas realidades ordinárias do dia a dia. Em seus ensinamentos sobre a eucaristia, De Lubac tratou a doutrina da transubstanciação de maneira moderada sem, no entanto, negá-la; ele estava convencido de que “a eucaristia forma a igreja.” O propósito final da Eucaristia não é a presença de Cristo no pão, mas sim a unidade da igreja. 

Quando os teólogos da nouvelle thélogie rejeitaram as definições neotomistas de verdade, eles não acreditavam estar mergulhando no relativismo. Na verdade, eles estavam afirmando que a Verdade de Deus (com V maiúsculo) é o mistério eterno no qual a verdade humana (com v minúsculo) alega participar. O movimento reconheceu que o mundo ao nosso redor contém um mistério que ultrapassa nossos sentidos externos. Ao invés de derrubar o pensamento católico, ele buscou recuperar a tradição teológica pré-moderna e resgatar o mistério divino de Cristo como o coração de todo ser criado.

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Por: Hans Boersma © Christian History Institute. Website:https://christianhistoryinstitute.org/magazine/article/going-behind-aquinas . Traduzido com permissão. Fonte: “Going behind Aquinas” Christian History Institute, V. 129, Ano 2019.

Original: Indo além de Tomás de Aquino © The Pilgrim. Website: thepilgrim.com.br. Todos os direitos reservados. Tradução: Breno Seabra. Revisão: Guilherme Cordeiro Pires

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Imagem: WikiMedia Commons

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