Ativa e contemplativa (Hans Boersma)

Marta está de volta. Hoje, seu ativismo frenético ganha cada vez mais admiração de seus seguidores, enquanto Maria e aqueles mais inclinados à contemplação das realidades sobrenaturais são tratados como pessoas ultrapassadas. Até onde sei, essa reversão das prioridades bíblicas é um resultado da modernidade. Ou, mais provavelmente, a modernidade é um subproduto de nossa negligência da contemplação.

Indubitavelmente, a modernidade prioriza a vida ativa. Aparelhos tecnológicos, como laptops e smartphones, que supostamente deveriam aliviar nossas agendas, acabaram tornando nossas vidas mais agitadas do que nunca. Os currículos de estudantes de medicina recém-graduados, que mal saíram das fraldas, fazem pensar como esses estudantes conseguiram espremer mais ou menos 30 anos de carreira acadêmica, voluntariado e trabalho em um período de quatro anos de faculdade. Além disso, nosso moralismo político nos transformou em militantes que abraçam suas causas favoritas com zelo messiânico. Marta está no comando e veio para ficar. 

O tópico da contemplação aparece frequentemente em minhas palestras. Normalmente, o salão está cheio de Martas (para ser honesto, sendo impaciente e facilmente distraído, eu também me enquadro nessa categoria). Portanto, sou forçado a me perguntar: quais sãos os pontos principais a se transmitir a uma plateia ativista sobre a relação Marta-Maria?

Não faz o menor sentido dizer a ativistas para que deixem de ser ativos. Deus é um Deus de ação. De acordo com Tomás de Aquino, Deus é em si mesmo actus purus e, quando ele cria e cuida do mundo, ele está agindo. Através de nossas atividades, participamos dessa vida ativa de Deus, embora de uma maneira distintamente criatural. Independentemente da avaliação desfavorável de Marta em Lucas 10 (distraída, ansiosa, preocupada com muitas coisas), a ação importa. Teólogos por toda a tradição têm insistido que a contemplação deve sempre desembocar em ação. 

Gregório de Nissa, o teólogo místico, demonstra seu lado ativista quando confrontado pela realidade da pobreza e da mendicância. Ele contrasta a riqueza e a prosperidade dos ricos (deitados em “camas cobertas com penduricalhos floridos, ricamente bordados”, comendo e bebendo de “tigelas, jarros, pratos e todo tipo de taças”, agindo como “garotos em penteados efeminados, garotas sem qualquer decoro, irmãs de Herodias em sua indecência”) com a condição miserável dos mendigos (“uma miríade de Lázaros sentados ao portão, alguns se arrastando dolorosamente, alguns com seus olhos vazados, outros com seus pés amputados”). A pregação de Gregório não encoraja uma retirada contemplativa do mundo. Ele quer ativamente mudá-lo.

Refletindo sobre a vida de Ló em Sodoma, São João Crisóstomo questiona de maneira semelhante um foco unilateral na contemplação: “Onde estão agora aqueles que dizem que não é possível para quem cresce no ambiente urbano manter a virtude, mas que para isso é necessário um retiro e uma vida nas montanhas, e que não é possível para o homem do lar, com uma esposa e filhos e servos para cuidar, ser virtuoso?”

João Cassiano, o monge do século quinto, exorta sua audiência a levar uma vida ativa: “Um monge que trabalha é atacado por apenas um demônio; mas o ocioso é atormentado por incontáveis espíritos.” Para Tomás de Aquino, o fracasso em ter uma vida ativa revela egoísmo: é dever do ser humano comunicar aos outros os frutos da comunhão com Deus. E o título do livro de Walter Hilton do final do século 14, Vida mista (Medeled Liyf), fala por si só. Há mais na vida que a contemplação. “Há três maneiras de viver: uma é a ativa, a outra, a contemplativa, e a terceira consiste na junção das duas e é a vida mista.” Certamente, nenhum desses autores simplesmente opta pela ação em oposição à contemplação, mas todos eles reconhecem a importância do serviço a Deus na vida cotidiana.

Entretanto, esses teólogos pré-modernos são bem diferentes dos ativistas contemporâneos. Cada um dos autores mencionados ecoariam a voz do salmista quando diz: “Uma coisa peço ao Senhor, e a buscarei” (Salmo 27.4). Todos eles concordariam que “uma só coisa é necessária” e que não foi Marta, mas Maria, que escolheu “a boa parte” (Lucas 10:42). A única coisa necessária (unum necessarium) não é a vida ativa, mas a contemplação de Deus em seu templo. 

Por quê? A criação de Deus não é boa? Não deveríamos celebrar a vida ativa multifacetada que Deus nos dá para desfrutar? Claro, mas com duas ressalvas. Primeiramente, nossa vida ativa é digna de celebração apenas porque almeja a vida contemplativa. Sem um horizonte contemplativo, nossas atividades humanas transformam-se em meras distrações. Se a vida ativa é tudo o que há, ela permanece sem qualquer propósito para lhe dar sentido. A contemplação preenche a ação com verdade, bondade e beleza. É a contemplação que dá à ação uma participação em seu brilho. 

Em segundo lugar, se a relevância da ação é derivada, isso significa que deveríamos insistir, sem concessões, que a contemplação (e não a ação) é primordial e constitui o nosso futuro eterno. O motivo é simples: o Criador, e não a criatura, é o nosso fim principal. Assim como os desejos naturais visam a um fim maior, sobrenatural, também as nossas vidas ativas visam a algo superior, além de si mesmas — a saber, a eterna contemplação de Deus em Jesus Cristo.

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Por: Hans Boersma © First Things. Website: https://www.firstthings.com/web-exclusives/2019/11/both-active-and-contemplative . Traduzido com permissão. Fonte: “Both Active and Contemplative” First Things. Publicação online em 07.11.19

Original: Ativa e contemplativa © The Pilgrim. Website: thepilgrim.com.br. Todos os direitos reservados. Tradução: Breno Seabra. Revisão: Guilherme Cordeiro Pires

O ponto de vista deste texto é de responsabilidade de seu(s) autor(es) e colaboradores direito, não refletindo necessariamente a posição da Pilgrim ou de sua equipe de profissionais.

Imagem: WikiMedia Commons

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