Pastores-teólogos, o evangelho e o ministério de conciliação racial (Benjamin D. Espinoza)

Resumo: o evangelicalismo tem um relacionamento historicamente tênue com a conciliação racial. À medida que os Estados Unidos se tornam cada vez mais diversos, precisamos repensar as nossas abordagens à conciliação racial. O propósito deste artigo é dar aos pastores-teólogos uma visão e um plano para desenvolver um rico ministério de conciliação racial. Este artigo situará a conciliação racial como uma questão que toca o evangelho e que demanda uma resposta. Em seguida, o artigo irá explorar como a academia tem refletido sobre a fonte, a natureza e as soluções para o racismo. Finalmente, desenvolverei práticas e implicações cruciais que assistirão pastores-teólogos a serem agentes de conciliação racial em espaços eclesiais e acadêmicos.

Palavras chave: raça, evangelicalismo, pastor-teólogo, conciliação racial, justiça social, evangelho.

Introdução

A igreja evangélica tem um histórico complicado com a conciliação racial. Embora muitos evangélicos tenham lutado no século 19 ao lado de William Wilberforce e John Wesley na abolição da escravatura, outros como George Whitefield adotaram a prática.[1] Whitefield adicionou certas nuances a sua perspectiva ao tratar seus escravos com dignidade e respeito, mas ele ainda aceitava a escravidão como uma prática comum. Todavia, no final das contas, aqueles que lutaram para proteger a instituição da escravidão foram derrotados e o evangelicalismo desde então olha com vergonha para sua história. Passando para o movimento de direitos civis da década de 1960, muitos evangélicos se juntaram a Martin Luther King, Jr. e outros para protestar contra o tratamento injusto de afro-americanos nos Estados Unidos. Por exemplo, o Rev. Ashton Jones, um pastor branco, foi preso por seis meses por liderar um grupo inter-racial de manifestantes até a Primeira Igreja Batista de Atlanta. Nas palavras de Jones, “vocês estão indo a uma igreja segregada; vocês devem estar adorando a um Deus segregado.”[2] Mas, outros evangélicos, como W.A. Criswell e Jerry Falwell consideram a integração racial algo que faria mais mal que bem.[3] À medida que a luta por direitos civis continuava, muitos evangélicos lentamente aceitaram a nova ordem.

Ao examinar a situação hoje, percebemos que os evangélicos tendem a manter visões raciais e étnicas que falham em entender a complexidade da opressão racial. No seu estudo divisor de águas, registrado no livro Divided by Faith [Dividido pela fé], Emerson e Smith entrevistaram mais de 2.000 evangélicos brancos sobre como eles percebem questões raciais nos Estados Unidos.[4] O estudo revelou que evangélicos brancos frequentemente não reconhecem o racismo sistêmico ou o privilégio branco. “A maior parte dos evangélicos brancos, direcionados por suas ferramentas culturais, deixam de reconhecer a institucionalização do racismo — em sistemas econômicos, políticos, educacionais, sociais e religiosos. Portanto, eles frequentemente pensam e agem como se esses problemas não existissem.”[5] Em outras palavras, os evangélicos brancos tendem a assumir que suas comunidades étnicas deixam de “prosperar” devido à certa deficiência em sua motivação ou dentro de sua cultura. Os evangélicos brancos prefeririam que a sociedade fosse cega a cores. Como observam Emerson e Smith, “da perspectiva isolada e individualista da maioria dos evangélicos brancos e muitos outros americanos, realmente não há um problema racial além de relacionamentos interpessoais ruins.”[6] O fracasso de evangélicos brancos de reconhecer a luta de grupos raciais minoritários continua a perpetuar a afirmação de Martin Luther King Jr.:  o horário de 11h das manhãs de domingo é o horário de maior segregação dos Estados Unidos.

Como um chicano (mexicano-americano) evangélico e pastor-teólogo, eu me preocupo com a maneira como o evangelicalismo lida com relações raciais. Em 2017, eu conduzi um estudo sobre as experiências de minoriais raciais de doutorandos em seminários evangélicos nos Estados Unidos. A minha motivação por trás deste projeto era explorar como estudantes de minoriais raciais se saem em instituições teológicas predominantemente brancas. A minha experiência no seminário foi frutífera e eu aprendi muito com meus professores. Mas eu vi que muitos dos meus irmãos e irmãs negros tiveram suas lutas durante seu tempo ali. Eu queria entender as suas experiências de forma que eu pudesse falar a verdade às instituições cujo objetivo é treinar homens e mulheres para o ministério no mundo de hoje. Embora eu tenha perguntado primariamente aos participantes da minha pesquisa questões sobre suas experiências no seimnário, eu terminei com uma pergunta sobre como pastores e líderes ministeriais poderiam tratar melhor o ministério de conciliação racial. Eu vou incluir algumas respostas neste artigo.

O propósito deste artigo é auxiliar pastores-teólogos a desenvolver um melhor entendimento do ministério de conciliação racial. Quero destacar o trabalho de teólogos evangélicos que lidaram com conciliação racial e como podemos buscar melhor essa conciliação por meio do poder do evangelho. Então, passarei a tratar a obra de George Yancey, cujos pensamentos sobre racismo e conciliação servem como um guia para um ministério mais forte de conciliação racial. Finalmente, eu desenvolvo algumas implicações para auxiliar pastores-teólogos a construir um ministério mais forte de conciliação racial em seu contexto local.

Definições

Antes de começar, eu gostaria de oferecer várias definições funcionais de termos que usarei ao longo deste artigo. Eu entendo que o ministério do pastor-teólogo é diferente que o do pastor. O pastor-teólogo tem:

… um coração de pastor e a identidade pastoral como primária, mas funciona como par intelectual de um teólogo acadêmico e, como tal, produz pesquisa teológica para a comunidade eclesial mais ampla que ajuda a moldar e informas discussões acadêmicas, culturais e eclesiásticas mais ampla tendo em vista aprofundar a fé do povo de Deus.[7]

O pastor-teólogo assim funciona no terceiro setor entre ser um mordomo da igreja de Cristo, mas se propondo a discussões teológicas na igreja local, na igreja universal e na academia. 

Os termos “raça” e “etnia”[8] são bem definidos na literatura, mas, para resumir, concordo com as definições de Syed e Mitchell desses termos. “A raça é considerada um sistema socialmente construído de poder que confere predominância à maioria e marginaliza à minoria. Em contrapartida, étnica corresponde a história cultural, crenças e práticas de um grupo relativamente bem-definido.”[9] Raça e etnia frequentemente estão conectadas mesmo que não sejam exatamente a mesma coisa, como Syed e Mitchell apontam.

Conciliação racial e o evangelho

A conciliação racial é “uma questão que toca o evangelho”? Essa pergunta é crucial para pastores-teólogos buscando aplicar a teologia ao ministério pastoral. Alguns distinguem entre “questões de evangelho” e “questões de justiça social”,[10] enquanto muitos teólogos evangélicos ressaltaram que o evangelho e a conciliação racial andam lado a lado.

Gombis escreve que o evangelicalismo tradicional removeu o evangelho de suas dimensões coletivas e cósmicas.[11] Como lemos em Gênesis, o pecado quebrou todos os relacionamentos: o nosso relacionamento com Deus, o nosso relacionamento com o próximo e o nosso relacionamento com a criação. “Embora todos os aspectos da criação e do relacionamento de Deus com a criação fossem plenamente integrados e caracterizados por confiança, abertura e pleno compartilhamento e comunhão, as coisas hoje estão totalmente caídas e o pecado corre em meio a relacionamentos caídos […] Então, ainda no livro de Gênesis, nós temos assassinato, incesto, estupro, conflito racial, escravização de nações e assim por diante.”[12] Assim, o evangelho é um projeto de conciliação, restaurando e redimindo relacionamentos caídos para que sejam totalmente renovados.

O entendimento de Gombis do evangelho se aplica à conciliação racial. Ele argumenta que o impacto do evangelho é tanto individual quanto social, uma vez que Jesus “veio proclamar a chegada do reino de Deus — a chegada dessa nova realidade em que a criação caída está sendo restaurada,” sendo um dos efeitos colaterais a conciliação racial.[13] O ministério de conciliação racial é central para o ministério de Jesus:

Ele está constantemente alcançando o forasteiro e aqueles que estão caídos, sempre desafiando as suposições sociais, étnicas e raciais de Israel — a mulher siro-fenícia, o samaritano, o centurião, o publicano, a prostituta, o seu convite de mulheres para seu círculo íntimo. Os discípulos de Jesus, por serem humanos pecadores, estão sempre tentando traçar limites ao redor de seu privilégio de ter Jesus, assim como os judeus queriam se enxergar com um favoritismo da parte de Deus, excluindo os outros, especialmente aqueles detestáveis gentios. Mas Jesus anuncia a chegada do Reino para todas as pessoas e convoca a todos para que recebam a salvação, e conclama seus discípulos a servirem a todos — especialmente os forasteiros. E isso não deveria ser uma ameaça a nós, pois, antes da graça de Deus invadir as nossas vidas, também éramos forasteiros.[14]

O ministério de Jesus se torna mais complexo quando consideramos a localização social do Nazareno. Otis Moss III escreve que, a fim de entendermos o ministério de Jesus, precisamos entender o seu lugar no mundo do primeiro século — como uma minoria racial, étnica e religiosa.[15] Assim, embora seja nossa tendência nos Estados Unidos sugerir que Jesus “alcançou” aqueles que estavam nas margens sociais e religiosas, nós deixamos de perceber que o próprio Cristo estava marginalizado. Essa recentralização do ministério de Jesus nas margens nos capacita a desafiar nossas suposições, entender melhor as perspectivas dos outros e expandir nossas imaginações teológicas.

Como Gombis, D.A. Carson sugere que o evangelho está intimamente conectado ao projeto de conciliação racial. Buscar a conciliação racial não é simplesmente “algo legal de fazer”, mas se baseia na obra rendetiva de Cristo na cruz e no esforço de Paulo de construir igrejas multiétnicas e multiculturais:

Certamente, a maioria dos cristãos nos Estados Unidos hoje felizmente afirmaria que boas relações raciais são uma questão que toca o evangelho. Eles podem apontar que o propósito salvífico de Deus é atrair para si, por meio da cruz, homens e mulheres de toda língua, tribo e nação; que a igreja é uma nova humanidade, composta de judeus e gentios; que Paulo diz para Filemom tratar seu escravo Onésimo como seu irmão, como se fosse o próprio apóstolo; que essa trajetória começa na criação, com todos os homens e mulheres sendo feitos à imagem de Deus e encontra sua antecipação na promessa feita a Abraão que, na sua descendência, todas as nações da terra seriam abençoadas. Ademais, a salvação assegurada por Cristo no evangelho é mais ampla que apenas a justificação: traz arrependimento, integridade, amor por irmãos e irmãos na comunidade cristã. Mas o triste fato permanece que nem todos os cristãos sempre viram as relações raciais dentro da igreja como uma questão que toca o evangelho.[16]

Carson prossegue para dizer que evangélicos brancos e negros continuam a ver o outro lado da questão diferentemente. Enquanto cristãos negros defenderiam que a conciliação racial é uma questão crucial para o evangelho, os cristãos brancos “mais provavelmente imaginariam que questões raciais foram amplamente resolvidas e que é uma distração continuar as discutindo.”[17]

Timothy Cho vincula eloquentemente o evangelho à conciliação racial, articulando uma visão do evangelho que ativamente confronta o pecado do racismo:

Racismo, etnocentrismo e superioridade racial claramente não são apenas “questões sociais” que os evangélicos podem ignorar. Essas ideologias buscam atacar o cerne do evangelho. O melhor para os cristãos é responder a essas ideias contra o evangelho com um retrato robusto do evangelho — um evangelho que reivindica que todas as pessoas são igualmente culpadas perante um Deus santo, mas que todas podem ser recipientes da graça, se confiarem em Cristo.[18]

Assim, o racismo é uma afronta à graça de Deus e uma confirmação de nossa natureza inerentemente pecaminosa. Embora esteja no nosso DNA assumirmos uma postura de superioridade em relação a outros, a sociedade ativamente tem perpetuado um racismo sistêmico.[19] Como cristãos, precisamos nomear e confrontar o racismo individual e sistêmico ao examinar criticamente os nossos corações e defender uma sociedade mais equitativa.

Além disso, podemos fundamentar o projeto de conciliação racial no fato de Deus ser trino. Catherine LaCugna descreve como inclusão, comunidade e liberdade formam juntos uma razão poderosa para a conciliação racial:

A inclusão implica aceitar uma pessoa à luz de nossa humanidade comum. A comunidade aponta para uma inter-relação em cada nível da realidade e contradiz aquelas forças que destroem a comunidade genuína, especialmente o sexismo e o racismo. A liberdade e seu corolário, a responsabilidade, pertencem ao exercício da pessoalidade sob as condições de genuína comunidade. Desse modo, a pericorese […] é a “forma de vida” para Deus e o ideal para seres humanos cuja comunhão entre si reflete a vida da Trindade.[20]

A nossa vida comum no Deus trino e a imagem de Deus em nós instila dentro de nós um desejo de buscar conciliação com os outros. Assim, o projeto de conciliação racial flui de nossa união com Deus em Cristo, transformando as nossas almas e as comunidades em que habitamos. No final das contas, o evangelho é o meio que Deus escolheu para nos reconciliar com ele e com os outros; o evangelho é o que traz verdadeira inclusão, comunidade e liberdade.

O evangelho é um chamado à conciliação tanto com Deus quanto com os seres humanos e com a criação. Um aspecto do projeto do evangelho é a conciliação racial. Assim, a igreja carrega a responsabilidade de ativamente buscar a conciliação racial e os pastores-teólogos possuem a “responsabilidade primária de supervisionar performances locais” do evangelho.[21]

Conciliação racial na teoria e na prática

Se a conciliação racial é uma questão que toca o evangelho, como confrontamos o pecado do racismo? Muitos cristãos inteligentes continuam a lutar com a questão e pessoas com opiniões e pontos de vista diferentes continuam com conversas entrecortadas sobre o assunto. Isso acontece porque existem diversas perspectivas sobre questões raciais e conciliação dentro da cristandade. Guiado pela obra de George Yancey, esboçarei várias respostas e abordagens à conciliação racial na igreja. As abordagens de Yancey nos ajudam a entender a amplidão do racismo, bem como a tremenda responsabilidade que a igreja tem ao promover um ministério de conciliação racial.

Definição individualista de racismo

Segundo Yancey, uma definição individualista de racismo assevera que o racismo é “algo explícito que somente pode ser cometido por um indivíduo contra o outro.”[22] Essa definição assume que os indivíduos têm completa autonomia sobre suas ações e possuem a capacidade de escolher entre o certo e o errado. Os problemas que afligem a sociedade fluem dos pecados do indivíduo. Essa perspectiva se estende ao nosso entendimento de casos específicos de racismo na nossa sociedade. Se um policial branco mata um homem negro desarmado ou um locador branco não permite uma mulher latina alugar seu imóvel, então essas pessoas são racistas. Todavia, dizer que esses episódios individuais representam um sistema inteiro seria extrapolação, segundo a definição individualista. Yancey, citando o trabalho de Emerson e Smith, escreve que evangélicos brancos mais provavelmente aceitariam a definição individualista porque o seu conceito de pecado pessoal seria forte demais.[23] Essa perspectiva também leva alguns a sugerir que, uma vez que famílias na comunidade negra são menos prováveis de continuar unidas que famílias brancas, então o ônus da culpa reside nos pecados das famílias negras.[24] A solução para o racismo nesta definição é ajudar os indivíduos a examinar as tendências racistas de seu próprio coração e buscar o perdão de Jesus Cristo.

Definição sistêmica de racismo

Em contraste à definição individualista, a definição estruturalista afirma que a sociedade como um todo pode perpetuar o racismo, mesmo quando indivíduos escolhem não serem racistas.[25] “As pessoas não fazem simples escolhas pessoais; elas são influenciadas pelas estruturas de sua sociedade.”[26] Como Yancey aponta, a juventude negra e latina tende a ter uma performance acadêmica inferior a brancos. Para estruturalistas, o problema não é que a juventude negra e latina seja incapaz de florescer academicamente; o problema é que suas escolas não são tão bem financiadas quanto as escolas brancas. Por outro lado, aqueles que abraçam uma definição individualista de racismo podem atribuir o problema à capacidade individual, à ética de trabalho ou às diferenças culturais.

Quatro respostas seculares à conciliação racial

Yancey descreve quatro respostas seculares à conciliação racial enquanto promove um modelo que ele chama de responsabilidade mútua cristã.[27] A primeira resposta à conciliação racial é cegueira à cor. Esse modelo afirma que, a fim de a sociedade progredir em relações raciais, todos nós precisamos ir além de ver a cor de pele das outras pessoas e enxergarmos uns aos outros como iguais. Embora essa resposta seja louvável, a sua ignorância de “questões raciais podem disseminar a ignorância da dor de membros de grupos minoritários e a necessidade de soluções específicas para certas raças.”[28] A segunda resposta é angloconformidade. Essa resposta argumenta que, a fim de ver paz e sucesso na vida de alguém, as minorias deveriam adotar os valores culturais e os ritmos das pessoas brancas. O problema com essa perspectiva é que ela “projeta uma imagem de arrogância eurocêntrica, ao oferecer apenas métodos europeus e americanos de empoderamento econômico.”[29] Ademais, o modelo assume que, sendo os cristãos brancos a maioria, o seu sucesso e a adesão a valores bíblicos precisam estar conectados. A terceira resposta é o multiculturalismo. Essa perspectiva reconhece o valor trazido por outras culturas e a nossa necessidade de garantir que todas as perspectivas sejam ouvidas. O problema com esse modelo é duplo: (1) como o modelo de cegueira à cor, essa perspectiva tende a ignorar as histórias de populações minoritárias e (2) ela pode se reduzir a relativismo cultural, afirmando que todas as culturas possuem verdades e que criticar outras culturas nada mais é que superioridade cultural. A resposta final é culpar a maioria. Essa perspectiva, proeminente em denominações liberais, afirma que a população branca é culpada pelos problemas de grupos minoritários. É claro, os cristãos brancos, em sua maioria, foram responsáveis pela escravidão e pela segregação; nada muda esse fato.

Todavia, essa perspectiva exime os grupos minoritários de examinar criticamente os problemas de suas próprias comunidades e não propõe soluções necessariamente eficazes.

Responsabilidade mútua cristã

Em contraste às respostas seculares à conciliação racial, Yancey propõe um modelo de responsabilidade mútua, onde reconhecemos formas individuais e sistêmicas de racismo e trabalhamos juntos para buscar soluções a problemas com base em raça. Essa posição reconhece que o racismo é uma questão do coração e do sistema. A amplidão do racismo exige que a igreja ataque esse pecado em todos os frontes. Ademais, ao invés de adotar abordagens hostis ao ministério de conciliação racial, esse modelo prescreve a conversa entre os brancos e grupos raciais e étnicos minoritários. Em essência, todos os lados precisam se juntar para visualizar um futuro para a igreja que não mais tolere o racismo em qualquer forma.

O pastor-teólogo e a conciliação racial

Até aqui, pensamos juntos sobre como o evangelho demanda o ministério de conciliação racial, como nós conceitualizamos o racismo e como combatemos o racismo. Se nós cremos que a conciliação racial e o ministério multiétnico são preocupações lastreadas no evangelho, como operacionalizamos essas verdades com nossas mentes, corações e ministérios? Agora, veremos o papel do pastor-teólogo em desenvolver um ministério de conciliação racial. Como mencionei anteriormente, o papel do pastor-teólogo é duplo: (1) pastorear o povo de Deus e (2) contribuir para o discurso teológico mais amplo. O papel do pastor-teólogo no ministério da conciliação racial vai além de simplesmente diversificar instituições eclesiásticas e lideranças. O pastor-teólogo, que vive no limiar entre a cultura eclesiástica e a acadêmica, pode contribuir para o discurso teológico mais amplo que trata da conciliação racial. Nesta seção, imagino formas pelas quais os pastores-teólogos podem prosperar em desenvolver uma abordagem consciente da questão racial no ministério e nas conversas teológicas ao servir numa posição de liderança na igreja.

Como mencionei anteriormente, conduzi um estudo com vários estudantes não brancos em vários seminários evangélicos nos Estados Unidos. Embora estivesse focado especialmente em suas experiências como estudantes não brancos em espaços predominantemente brancos, eu perguntei 2 ou 3 questões sobre como a igreja pode lidar melhor com questões raciais de forma centrada no evangelho. Várias das propostas listadas aqui fluem dessas conversas com esses indivíduos.

Lendo teologia escrita por quem não é branco

Em muitas faculdades e seminários nos Estados Unidos, boa parte de nossos livro-textos foram escritos por homens brancos. Por exemplo, um artigo recente no Journal of the Evangelical Homiletics Society, um recurso acadêmico sobre a teoria e a prática da pregação evangélica, descobriu que, dos vinte livros sobre pregação mais utilizados em seminários evangélicos, liberais, católicos e ortodoxos nos Estados Unidos, dois foram escritos por mulheres e apenas um foi escrito por alguém de fora dos Estados Unidos (John Stott). O resto fora escrito por homens brancos americanos.[30] Em outro caso, a lista de “leitura recomendada” de um seminário bem conhecido inclui muitos dos clássicos cristãos com poucas obras contemporâneas escritas por não brancos. Embora isso não seja inerentemente errado, pode gerar a impressão de que a exegese e a teologia da perspectiva de uma pessoa branca sejam “neutras”, “objetivas” ou até mesmo “normais”. Tal suposição falha em explicar o fato de que a perspectiva de homens brancos é simplesmente isto: uma perspectiva. Diversos participantes da minha pesquisa observaram que a maior parte dos livro-textos que eles leram no seminário foram escritos por homens brancos e alguns perguntaram a seus professores se eles poderiam ler um livro escrito por outra etnia (e os professores sempre permitiram sem maiores problemas).

À medida que os Estados Unidos passam a se tornar mais e mais diversos, e o evangelicalismo também,[31]é imperativo que pastores-teólogos tratem e abarquem perspectivas teológicas defendidas por não brancos. A obra de James Cone em The Cross and the Lynching Tree [A cruz e a árvore de linchamento] fornece um ponto de partida útil para começar e entender a perspectiva de cristãos negros.[32] Para Cone, questões de conciliação racial são questões que tocam inerentemente o evangelho e assim impactam o nosso testemunho mais amplo ao mundo. “O que está em jogo é a credibilidade e a promessa do evangelho cristão e a esperança de que podemos curar as feridas da violência racial que continuam a dividir nossas igrejas e nossa sociedade.”[33] Para Cone, a cruz de Cristo e a árvore de linchamento são lembretes vívidos das formas em que as pessoas no poder na sociedade sempre buscaram oprimir quem não tem poder. Para os primeiros cristãos (que geralmente eram pobres e judeus), os romanos e a elite religiosa judaica eram os opressores. Conceitualizar as relações raciais como se enraizando na cruz de Cristo nos capacita a centralizar as experiências dos povos marginalizados e buscar a conciliação racial baseada no evangelho de Cristo.

Ler teologia de perspectivas não brancas sem dúvida desafiará o pensamento de pastores-teólogos, especialmente ao confrontar injustiças sistêmicas, privilégios e uma perspectiva diferente sobre o evangelho. Mas, a fim de plenamente abarcar as riquezas da tradição cristã, não podemos simplesmente explorar as obras históricas da fé, mas também a obra daqueles cuja perspectiva é profundamente enraizada numa história de opressão. Abordar a obra de teólogos não brancos nos ajudará a trazer uma perspectiva mais consciente a nossa obra teológica e ampliará as formas como falamos sobre eventos atuais a partir de uma perspectiva teológica.

Incluindo líderes não brancos

Muitas igrejas dos Estados Unidos buscam incorporar o rico, multiétnico e diverso Reino de Deus. Todavia, líderes eclesiásticos frequentemente dexiam de lado a sua missão porque deixam de colocar indivíduos minoritários em lugares de autoridade na igreja. Um ex-aluno que agora trabalha numa denominação no sudeste dos Estados Unidos me disse que, na perspectiva dele, muitas igrejas frequentemente tornam seus membros que não são de etnia branca um mascote, enquanto falham em incluí-los em posições de liderança:

Mas eu penso que as igrejas precisam intencionalmente ir atrás de minorias. Eu penso que normalmente se pensa que elas que virão até nós. Nós temos minorias o suficiente na igreja para mostrar nossa diversidade, deixando às posições de liderança o dever de alcançar os de fora. O que proponho a pastores é que eles precisam começar a estabelecer relacionamentos com minorias e entender — colocar-se no lugar deles, por assim dizer — como é a vida deles. E você não quer que a minoria seja um mascote. Sabe, temos uma família afroamericana ou hispânica, mas que tal colocá-los lá na frente e em posições de liderança que a comunidade possa ver que você os valoriza, sabe, que eles podem contribuir, o que eles podem fazer algo importante e que eles podem atrair outras minorias.[34]

Para algumas igrejas, “diversidade” significa simplesmente receber pessoas de diferentes formações raciais e étnicas na comunhão. Porém, diversidade não é o mesmo que inclusão. Para incluir minorias raciais e étnicas em posições de liderança — incluindo o ofício de pastor, comitês, líderes de louvor e professores — é a expressão da verdadeira diversidade no corpo de Cristo. Todavia, essa inclusão não significa assimilação dos valores culturais eclesiásticos dominantes.

Uma das participantes do meu estudo, Christi, uma mulher negra, disse que, embora todos pertençamos ao corpo de Cristo, é importante reconhecer as nossas narrativas e experiências:

Eu acho que a principal coisa que a igreja pode fazer é apreciar o pano de fundo de cada pessoa, apreciar a sua etnia e tudo que sua etnia traz junto. Eu sei que tem um grande impulso na cristandade em prol da conciliação racial. E eu apoio bastante isso, mas, em muitos casos, é conciliação racial até que, bem, não vejamos mais cores. Sabe, o amor não vê cores. Todos somos parte da família de Deus. Sim, nós somos. Todos somos parte da família de Deus, mas acho importante ainda ver cores porque, quando alguém olha para mim, eu acho que o fato de me verem, me verem como afroamericana ou mulher negra, implica certas coisas, certas experiências que julgo que as pessoas precisam começar a apreciar e a entender.[35]

Os pastores-teólogos precisam ser sensíveis a como a cultura eclesiástica que eles perpetuaram se tornou normalizada e neutra, privilegiando valores culturais dominantes acima de minorias raciais e étnicas. Por exemplo, estilos de música, vestimentas, estilos de pregação e ensino, atividades ministeriais e até pontos de vista teológicos podem ser as preferências dominantes daquela igreja. Mas precisamos continuar autocríticos e perguntar se essas preferências estão marginalizando pessoas de diferentes formações raciais e étnicas.

Ouvir e responder bem

Durante ocasiões de tensão racial na nossa sociedade, é fácil para cristãos ouvirem aqueles que confirmam o seu ponto de vista sobre o assunto. Num artigo do Washington Post, Michael Frost descreve como cristãos se dividiram em dois campos, representados pelos quarterbacks Colin Kaepernick e Tim Tebow. Enquanto Tim Tebow representava cristãos brancos e seu posicionamento pró-vida, compromisso com ética sexual, oração nas escolas púbicas e evangelismo, Kaepernick representava cristãos não brancos que focam na luta dos oprimidos, justiça social, violência policial e generosidade com os pobres.[36] As tensões entre ambos os campos alcançaram o seu ápice quando diversos times de futebol americano se ajoelharam durante a execução do hino nacional dos Estados Unidos. Alguns cristãos argumentaram que os jogadores da NFL estavam protestando contra a violência e o assassinato de jovens negros pela polícia, enquanto outros argumentavam que se ajoelhar desrespeitava a bandeira e os militares que morreram para preservar as nossas liberdades. Em certo sentido, ambos os lados não estavam se entendendo e estavam indispostos a ouvir as perspectivas do outro lado. “A bifurcação do cristianismo americano contemporâneo em dois pólos distintos está empobrecendo a igreja, com cada um dos lados precisando ser enriquecido pela visão bíblica do outro lado.”[37] Todavia, foram principalmente os cristãos brancos que protestaram contra os protestos dos jogadores da NFL, enquanto os outros cristãos manifestaram seu apoio pelos jogadores que ajoelharam. Uma das participantes que entrevistei, uma mulher negra, descreveu a necessidade de ouvir às comunidades não brancas durante tempos de tensão racial na nossa sociedade: “Ouça. Só ouça. Só cale a boca. Venha e escute.”

Pastores-teólogos carregam a responsabilidade de liderar congregações à prática de ouvir. Ouvir aos outros nos força a abandonar nossa cegueira cultural por um segundo, reconhecer a humanidade dos outros e, por um momento, entrar nas experiências uns dos outros. Provérbios fala muito sobre essa prática de escuta. Provérbios 1.5 implora que “ouçam [aos provérbios] também o sábio para que aumente seu conhecimento, e o que entende, para que adquira habilidade”. Provérbios 19.20 implora: “ouve o conselho e recebe a correção, para que sejas sábio nos últimos dias da vida.” Ademais, quando os amigos de Jó vieram a ele durante um momento de imensa perda e luta espiritual, eles se sentaram por uma semana em silêncio com ele (Jó 2.3). É imperativo que, quando nossos irmãos e irmãs negros e de outras etnias lutam e experimentam a profunda dor de feridas históricas, nós, como pastores-teólogos, precisamos chorar com eles, estar com eles na sua dor e ouvir a suas preocupações.

Quando nós, como pastores-teólogos, escrevemos um texto teológico para beneficiar a igreja, precisamos estar certos de que estamos conscientes das diversas narrativas que nossas audiências compartilham. Embora alguns pastores-teólogos nunca tenham experimentado o racismo ou a opressão sistêmica, é nossa responsabilidade sermos prontos para ouvir e tardios para falar. Todavia, na nossa sociedade, os cristãos esperam que os pastores manifestem um ponto de vista em particular durante os eventos atuais, mas os pastores-teólogos precisam preparar suas ovelhas para ouvir melhor e entender melhor os pontos de vista dos outros.

Conclusão

A conciliação racial é desafiadora, mas vale a pena. Para se tornar o corpo multicultural e multiétnico de Cristo, precisamos ser intencionais com nossas palavras e nossas ações. Para sermos pastores-teólogos efetivos, que lideram igrejas que se tornarão centros de conciliação racial e defenderão teologicamente a perspectiva dos marginalizados, precisamos ser rápidos para ouvir, lentos para responder, prontos para incluir e ter esperança de mudar. No final das contas, o projeto da conciliação racial é uma questão que toca o evangelho e que a igreja e seus pastores-teólogos precisam continuamente se engajar. O mundo está nos observando ao respondermos a atrocidades por causa de questões raciais nos Estados Unidos, esperando a nossa resposta e esperando por uma palavra de encorajamento da nossa parte. Como Gombis escreve: “a conciliação é o evangelho e a conciliação racial ou étnica — nos Estados Unidos divididos e num mundo dividido — fornece uma área perfeita para manifestar e viver a graça reconciliadora de Deus.”[38]


Por: Benedict D. Spinoza © Journal of Biblical and Theological Studies Website: http://jbtsonline.org/wp-content/uploads/2018/04/JBTS-3.1-Article-7.pdf Traduzido com permissão. Fonte: “Pastor Theologians, the Gospel, and the Ministry of Racial Conciliation” Journal of Biblical and Theological Studies. V. 3, n. 1, 2018, p. 8–92

Original: Pastores-teólogos, o evangelho e o ministério de conciliação racial © The Pilgrim. Website: thepilgrim.com.br. Todos os direitos reservados. Tradução: Guilherme Cordeiro Pires. Revisão: Joyce Bandeira.

O ponto de vista deste texto é de responsabilidade de seu(s) autor(es) e colaboradores direito, não refletindo necessariamente a posição da Pilgrim ou de sua equipe de profissionais.

Imagem: feita por Ana Salomão com base na foto de Hannah Busing no Unsplash.


[1] PARR, Jessica M. Inventing George Whitefield: Race, Revivalism, and the Making of a Religious Icon. Jackson, MS: University Press of Mississippi, 2015; CASHIN, Edward J. Beloved Bethesda: A History of George Whitefield’s Home for Boys, 1740–2000. Macon, GA: Mercer University Press, 2001.

[2] JONES, Robert P. The End of White Christian America. New York: Simon & Schuster, 2016, 165.

[3] Ibid., p. 170.

[4] EMERSON, Michael O. e SMITH, Christian. Divided by Faith: Evangelical Religion and the Problem of Race in America. Oxford: Oxford University Press, 2001.

[5] Ibid., p. 170

[6] Ibid., p. 89.

[7] HIESTAND, Gerald e WILSON, Todd. The Pastor Theologian, Resurrecting an Ancient Vision. Grand Rapids: Zondervan, 2014, p. 16.

[8] Para maior discussão de raça e etnia, ver PARIS Janell Williams. “Race: Critical Thinking and Transformative Possibilities,” 9–32; e MENESES, Eloise Hiebert. “Science and the Myth of Biological Race,” 33–46. In: PRIEST, Robert J. e NIEVES Alvaro L. This Side of Heaven: Race, Ethnicity, and Christian Faith. Oxford: Oxford University Press, 2007.

[9] SYED, Moin e MITCHELL, Laura L. “How Race and Ethnicity Shape Emerging Adulthood,” in The Oxford Handbook of Emerging Adulthood. Oxford: Oxford University Press, 2015.

[10] WHITE, Randy. “I Don’t Understand the Evangelical Response to Ferguson”. Acesso em 15 de outubro de 2017, em http://www.randywhiteministries.org/2014/11/26/dont-understand-evangelical- response-ferguson/. White chega a dizer: “se há algo na Bíblia que expressa a reconciliação racial como uma demanda do evangelho, eu nunca li.”

[11] GOMBIS, Timothy. “Racial Conciliation and the Gospel”. ACT Review, 2006, p. 117–128.

[12] Ibid., p. 119.

[13] Ibid., p. 120.

[14] Ibid., p. 120.

[15] MOSS III, Otis. Blue-Note Preaching in a Post-Soul World. Louisville, KY: Westminster John Knox, 2014.

[16] CARSON, D.A. “What are Gospel Issues?” Themelios. V. 39, n.2, p. 217-218.

[17] Ibid., p. 218. 

[18] CHO, Timothy Isaiah. Acesso em 20 de outubro de 2017,  de https://cccdiscover.com/is-racism-a-social-issue-or-a-gospel-issue/?utm_content=bufferd4411&utm_medium=social&utm_source=facebook.com&utm_campaign=buffer

[19] YANCEY, George. Beyond Racial Gridlock: Embracing Mutual Responsibility. Downers Grove: IVP, 2006; Emerson & Smith, Divided by Faith.

[20] LACUGNA, Catherine Mowry. God for Us: The Trinity and Christian Life. San Francisco: Harper San Francisco, 1991, p. 272–273.

[21] VANHOOZER, Kevin. The Drama of Doctrine: A Canonical-Linguistic Approach to Christian Theology. Louisville: Westminster John Knox, 2005, p. 448.

[22] YANCEY, George. Beyond Racial Gridlock, p. 20.

[23] Ibid., p.21

[24] Ibid.

[25] Ibid., p. 22.

[26] Ibid.

[27] Ibid., p. 39.

[28] Ibid., p. 40

[29] Ibid., p. 52.

[30] BORST, Troy. “Homiletical Textbook Study: What Are Seminaries Across Traditions Using to Teach the Next Generation of Preachers?” Evangelical Homiletics Society. V. 15, n. 2, 2015, p. 38–49.

[31] MULDER, Mark T. Mulder, RAMOS, Aida I., e MARTI, Gerardo. Latino Protestantism: Growing and Di- verse. Lanham, MD: Rowman & Littlefield, 2017.

[32] CONE, James. The Cross and the Lynching Tree. Maryknoll, NY: Orbis Books, 2013.

[33] Ibid.

[34] Joaquin, entrevistado pelo autor. Reunião por Zoom, 15 de junho de 2017.

[35] Christi, entrevistada pelo autor. Reunião por Zoom, 20 de junho de 2017.

[36] FROST, Michael. “Colin Kaepernick vs. Tim Tebow: A Tale of Two Christians on Their Knees,” Acesso em 25 de outubro de 2017 de https://www.washingtonpost.com/news/acts-of-faith/wp/2017/09/24/ colin-kaepernick-vs-tim-tebow-a-tale-of-two-christianities-on-its-knees/?utm_term=.4543895677a4

[37] Ibid.

[38] GOMBIS, “Racial Conciliation and the Gospel”, p. 117.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *