Quando faltam palavras: encontrando a oração na liturgia, no silêncio e no corpo (Tish Harrison Warren)

Se você jantasse aqui em casa, faltariam talheres que combinam, paciência e graça às vezes e gelo (quem precisa disso?), mas nunca faltariam palavras. Passamos opiniões e pensamentos à mesa como passamos sal e pimenta.

Desde que descobri a linguagem na minha infância, degusto palavras e tenho uma dieta constante, até exagerada, de ricas conversas. Gosto de poesia, livros e amigos loquazes. Alegro-me naqueles momentos satisfatórios quando encontro, como uma aventureira numa terra desconhecida, a palavra certa ou a metáfora perfeita para explicar o que eu queria. Eureka! Consegui falar o que queria!

Na tradição cristã que me formou, a oração é amplamente entendida como uma atividade majoritariamente cognitiva ou emocional em que falamos com Deus. Como as palavras não me faltam e Deus nunca me interrompeu, orar era fácil para mim. Se era para reclamar, eu reclamava para Deus. Se me impressionava com a beleza da criação, eu poderia falar disso com Deus, e o céu e as estrelas se tornariam ainda mais deslumbrantes. Se estava brava, gritava com Deus. Se estava otimista, cantava para Deus. Sempre havia palavras a dizer e orações a orar.

Então, depois de um ano de provações — uma mudança indesejada, o término de uma amizade íntima, uma névoa constante de incerteza vocacional e um atraso doloroso das minhas esperanças para a maternidade —, quando eu tentava orar e não achava palavras, o sentimento era de horror.

Não era que eu não conseguia pronunciar as orações. Eu conseguia. Eu conseguia verbalizar palavras para Deus: “Senhor, preciso de direção.” “Me ajude a amar minha amiga.” “Por favor, nos ajude a conceber uma criança.” O problema era que as palavras não traziam mais consolo. Ao invés de derramar minha alma perante Deus, minhas orações cheias de palavras simplesmente pendiam sem força e vida, como um triste balão murcho preso em alguns galhos. Eu conseguia iniciar o exercício cerebral de dizer palavras para Deus, mas essas orações pareciam não ter o poder de alcançar as partes escuras e tenebrosas do meu coração, justamente onde eu queria que Deus entrasse, cuidasse e redimisse.

As palavras me faltavam e, como as palavras eram a única forma como eu sabia orar, a oração também me faltava.

Encontrando a oração na igreja

            Eu não cresci usando orações escritas ou litúrgicas, mas passei a frequentar nos dois últimos anos uma igreja que as utiliza. Quando luto para encontrar as palavras adequadas, a oração litúrgica é a minha salvação. São Crisóstomo, São Francisco e os escritores do Livro de Oração Comum são meus gentis irmãos mais velhos que me ensinam a gramática da oração.

Isso tem sido especialmente verdade sobre a Oração do Senhor. Eu não sei o que dizer para Deus, então Jesus, meu mais gentil irmão mais velho, me ensina. Eu repeti essa oração inúmeras vezes nos últimos meses, todas as vezes que queria orar, mas sentia que não conseguiria (que era quase sempre). Eu me lembro de uma cena em A longa solidão,1 de Dorothy Day, em que ela encontra uma amiga querida e, imediatamente, antes mesmo de começar a conversa, elas dão as mãos e oram o Pai Nosso. Penso nessa cena frequentemente enquanto oro a Oração do Senhor, e na minha imaginação estou de mãos dadas com Dorothy Day e Flannery O’Connor, com Santo Agostinho e João Calvino, e com meus irmãos e irmãs pelo mundo que dizem esta oração em diversas línguas, e oramos juntos as palavras que Jesus nos ensinou, ou, antes, ainda está nos ensinando, a orar.

Encontrando a oração além das palavras

Em meio a meses sem palavras, meu supervisor me disse para ler Sacred Rythms [Ritmos sagrados], de Ruth Haley Barton. É o tipo de livro cuja capa possui uma arte que eu só consigo descrever como “Devocionais para mulheres” — o tipo que eu vigilantemente evito —, mas, como era para o trabalho, eu o li; e veio no momento certo. Nele, Barton descreve a oração sem palavras:

Eventualmente, quando paramos o fluxo de nossas próprias palavras, outro dom vem a nós, silenciosa e imperceptivelmente, num primeiro momento: nós nos encontramos descansando na oração. […] Descansamos nossa mente hiperativa, trabalhadora, da necessidade de colocar tudo em palavras. Descansamos de tentar agarrar, compreender e entender tudo. A alma retorna a seu estado mais natural em Deus. “Voltando e descansando, sereis salvos.” (p. 69)

Desde então, tento me sentar junto com Deus a cada dia. Depois de ter dito a Oração do Senhor ou o Gloria Patri,não sei mais o que fazer. Então, fico sentada. Geralmente, não é uma experiência profundamente mística. Minha mente acelera. Começo pensando sobre Deus e noto dez minutos depois que meu cérebro está andando com as próprias pernas, pulando de listas de tarefas para arrependimentos ou planos. A inquietação reina. Mas, às vezes, geralmente de noite, acendo uma vela perante minha fúnebre lareira, e me sento ali, absorta. Cada detalhe me cativa — as sombras dançando nos poros dos tijolos, a cera se derretendo e escorrendo em volta da chama azul e vermelha. A beleza coroa as palavras e praticamente todas as coisas cognoscíveis. Depois, me sinto estranhamente nutrida. Como se minha mente tivesse saído de um alongamento, como o afável sentimento de esticar as pernas depois de uma longa e apertada viagem de carro.

Há uma história famosa sobre Dan Rather perguntado para Madre Teresa o que ela dizia quando orava. Ela respondeu “Eu não digo nada, eu escuto.” Então, ele perguntou o que Deus dizia para ela. Ela respondeu “Ele não diz nada, ele escuta.” Eu não posso dizer ainda que entendi o que ela quis dizer, mas ultimamente tenho me animado a respeito do silêncio. Na quietude, na espera e no descanso para os quais Deus tem me atraído, o mistério e a beleza estão trabalhando silenciosamente. Aquele que é a Palavra me encontra na minha falta de palavras, e nada mais precisa ser dito.

Encontrando a oração no corpo

Algo começou a se formar no meu corpo durante esse indesejado experimento com o silêncio. Parecia um vazio que pairava sobre o meu esterno. Era como uma nostalgia, ou anseio, mas era físico, tão corpóreo quanto uma dor de cabeça ou um corte no dedão. Era uma rigidez tediosa, como o tipo de sentimento que vem na sua garganta logo antes daquele choro bem dado, mas ele se alojava no meio do meu peito, e ficava mais forte em momentos de tristeza ou conflito. Era uma dor — aguda e real.

Recentemente, em um domingo, durante a Ceia do Senhor, meu coração parecia tão frágil, seco e fino quanto o pão que o pastor erguia. Dentro de mim havia um anseio, um gemido que eu vinha carregando a meses. Eu não conseguia achar palavras para expressar meus sentimentos a Deus, para me arrepender, crer e orar, mas eu podia me ajoelhar. E, à medida que meus joelhos se submetiam a seu Criador, meu coração os seguiu. O pastor partiu o pão para nos alimentar e eu senti meu coração se partindo junto. O que eu não conseguia orar, minhas lágrimas oravam. Minhas mãos erguidas pediam que eu abrisse mão das coisas que pedia de Deus e recebesse sua graça. Meu corpo estava orando e meu coração foi transformado, não mais mofado e rígido, mas como lugar da presença de Cristo. Simplesmente me ajoelhei e senti a dor. A dor era a minha oração.

Nosso bom Deus ouve nossas dores silenciosas. E ele sabe bem o que queremos dizer com elas, ainda que nós não.

As palavras voltam

Lenta e gentilmente, as palavras começaram a crescer em mim de novo, como brotos num jardim após uma longa seca. Ainda sou grata pelas palavras, minhas fiéis companheiras. Mas, felizmente, nesses dias a liturgia, o silêncio, o ouvir, a arte, o incenso, as sombras, a respiração e o meu corpo me guiaram na oração, e às vezes as palavras chegam meio atrasadas — convidadas bem-vindas a uma conversa já em andamento.


1 N. do T.: Edição em português pela editora portuguesa Lucerna, 2019.

2 N. do T.: Termo latino para a seguinte doxologia: Gloria ao Pai, ao Filho e ao Espírito Santo. Como era no principio, agora e sempre, pelos séculos dos séculos. Amém.


Por: Tish Harrison Warren. © The Well. Website: https://thewell.intervarsity.org/spiritual-formation/loss-words-finding-prayer-through-liturgy-silence-and-embodiment. Traduzido com permissão. Fonte: At a Loss for Words: Finding Prayer Through Liturgy, Silence, and Embodiment.

Original: Na falta de palavras: encontrando a oração pela liturgia, pelo silêncio e pelo corpo. © The Pilgrim. Website: thepilgrim.com.br. Todos os direitos reservados. Tradução: Arthur Guanaes. Revisão: Guilherme Cordeiro Pires.

O ponto de vista deste texto é de responsabilidade de seu(s) autor(es) e colaboradores direito, não refletindo necessariamente a posição da Pilgrim ou de sua equipe de profissionais.

Imagem por Jon Tyson no Unsplash

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