Totalmente promissor: Uma visão para o empreendedorismo redentivo (Praxis Lab)

O momento empreendedor

Aqui no Praxis, nós acreditamos que o futuro da cultura depende em grande medida da próxima geração de empreendedores. Os fundadores de cada empresa são artistas singulares com a oportunidade de pintar num quadro branco organizacional e criar novas obras de valor social e cultural.

Vivemos em um momento na história em que os empreendedores possuem uma influência desproporcional em tudo, de problemas sociais em que trabalhamos coletivamente até em tudo que consumimos, praticamos, cremos e desejamos. Os fundadores subiram ao status de heróis e celebridades na nossa imaginação cultural. Tecnologia, propaganda, produção massificada, redes de capitais e a normalização do empreendedorismo tornaram bem mais possível começar e crescer uma empresa que possa ter um alcance significativo e escalar. À medida que as barreiras econômicas e sociais para entrar no mundo empreendedor desaparecem, muitos sonham participar do ecossistema da inovação — segundo a Kauffman Foundation, 54% dos millennials começaram uma organização ou desejam se juntar a uma startup. 

Mas em prol de quem toda essa energia empreendedora será empregada? Por si? Pelos outros? A maior parte das empresas foi construída com base na crença de que o interesse próprio é a melhor engrenagem para o sucesso econômico e social em larga escala. Contudo, somos lembrados que o interesse próprio sem limites tem um poder destrutivo profundo tanto no fundador quanto na sociedade; e está se tornando cada vez mais fácil testemunhar esses efeitos à medida que o Vale do Silício escreve o script para o que significa ser um fundador de sucesso hoje. Muitas vezes os empreendedores e investidores de organizações com fins lucrativos começam com a ideia de que a saída é a missão — perseguindo um momento de autovalidação e de sucesso em que anos de trabalho esgotante recompensarão com poder, prestígio e riqueza. Como cultura, exaltamos os fundadores que incorporam essas ambições; justificamos nossas ações e motivações quando lhes imitamos; enquanto ainda os julgamos por seu ego e ambição ilimitada. Talvez corretamente, celebramos e menosprezamos Steve Jobs ao mesmo tempo. Perguntamo-nos se a grandeza criativa e a bondade moral são compatíveis.

Ao mesmo tempo, vemos uma explosão de atividade empreendedora que é cada vez mais ambiciosa por resultados sociais ao invés de resultados financeiros. Uma nova geração de fundadores, investidores e inovadores está abraçando uma agenda cultural explícita — para inaugurar um progresso social e ambiental sem precedentes. Como Jack Dorsey, fundador do Twitter e do Square, recentemente declarou na capa da Forbes: “o meio mais eficiente para difundir uma ideia hoje é uma estrutura corporativa.” O que é mais interessante nessa declaração não é a influência de instituições corporativas, mas a implicação de que difundir ideias deveria estar entre seus objetivos primários. De fato, para muitas das principais organizações hoje, quer sejam estruturadas como empresas, organizações sem fins lucrativos ou híbridos, ideias que geram impacto social são a missão.

Por exemplo, a missão do fundo de investimentos Social Capital é “progredir a humanidade ao resolver os problemas mais difíceis do mundo. Ao acumular tecnologia para tratar das principais necessidades humanos, almejamos gerar uma redistribuição de baixo para cima de poder, capital e oportunidades.” Ev Williams (outro cofundador do Twitter) começou a Obvious Ventures, a qual ele descreve assim: “A Obvious é uma filosofia […] [ela] é simplesmente o veículo por meio do qual investimos conjuntamente em empreendedores que partilham de nossa cosmovisão.”

Uma empresa bem financeiramente hoje é mais provável ser vista como um meio para um fim social, em vez do inverso. Num texto chamado “Dê boas-vindas aos reis filósofos do Vale do Silício”, o Tech Street Journalexplica como estudar filosofia afetou os fundadores/investidores Peter Thiel e Reid Hoffman: 

Embora tais discussões [sobre filosofia] obviamente não tenham levado Thiel e Hoffman diretamente aos seus bilhões, é razoável sugerir que foram uma prática para pensar sobre as possíveis implicações de suas ideias no mundo. Ao assistir seus vídeos [de Thiel e Hoffman discutindo sua formação filosófica], percebe-se que esses rapazes revestem o pensamento empreendedor pragmático de costume em uma camada teórica que não busca meramente responder como alcançar o product/market fit, mas o que uma ideia em particular poderia significar para o mundo se ela fosse concretizada? A renda resultante é meramente um efeito colateral de criar algo que move o mundo numa nova direção.

Essa nova onda de cultura sendo moldada pelo empreendedorismo oferece um tipo diferente de tentação para o fundador carismático — não necessariamente a promessa de riqueza, mas de boa reputação social. Tentar mudar o mundo dá trabalho e cada causa é buscada e propagandeada com tanto fervor que inevitavelmente assume uma narrativa quase-religiosa, com sua própria definição de pecado, justiça, redenção e salvação. Passamos a considerar os fundadores — e eles passam a se considerar também — em termos quase messiânicos.

Aqui no Praxis, nós acreditamos que uma visão cristã do empreendedorismo inclui tanto um sim apreciativo quanto um não profético a essas tendências.

Para a narrativa mais “mundana” que gira em torna do triunfo de alguns poucos “incluídos”, a nossa resposta é que precisamos usar nossa engenhosidade, proatividade, capital e capacidade criativa em prol dos outros. Precisamos afirmar o poder gerador de riqueza do empreendedorismo, a busca de excelência na técnica e as virtudes de uma sociedade que seja economicamente viável — ao mesmo tempo em que insistimos que o propósito dessas coisas é servir ao nosso próximo, e não a nós mesmos.

Para a narrativa mais “esclarecida” que enfatiza o impacto social e cultural, também celebramos o empreendedorismo como um poderoso mecanismo para o bem comum. Nós buscamos objetivos compartilhados sempre que possível; nós aprendemos e aplicamos as melhores práticas; nós inovamos e lideramos. Contudo, somos cautelosos com o perigo de tratar qualquer agenda social ou cultural como um objetivo supremo.

E precisamos levantar a questão: que tipo de mundo estamos tentando criar? Que tipo de mudança estamos tentando gerar? Acreditamos todos o mesmo sobre pessoalidade, dignidade, encarnação, autoridade, moralidade, poder, limites, a definição da boa vida e o final da história?

A resposta será: às vezes, sim; frequentemente, não.

Como Karl Barth colocou:

“A igreja existe para colocar no mundo um novo sinal que tanto é radicalmente diferente da maneira de ser do próprio mundo, quanto o contradiz de um modo totalmente promissor.”

Se ele está certo — e cremos que está—, então os fundadores cristãos precisam se diferenciar de outros líderes empreendedores, ao mesmo tempo em que agem com base nos mesmos sistemas e práticas. Como seus pares, eles estão dispostos a competir em mercados acirrados por meio de excelência e inovação, e serão ambiciosos na busca de impacto cultural e social. Todavia, eles serão marcados por uma motivação diferente (trabalhar pelos outros em vez de por si); uma identidade pessoal reenquadrada (mordomos em vez de salvadores); uma nova identidade comunitária (minoria criativa ao invés de elite cultural); um nível incomum de tolerância a riscos (descansando na graça ao invés de se matar de esforço); um método alternativo (começar com propósitos ao invés de viabilidade); e uma intencionalidade redirecionada (ser pioneiros culturais ao invés de magnatas do mercado).

Isso é difícil, mas a nossa experiência ao trabalhar com centenas de empresas no Praxis nos dá esperança. Nós vimos em primeira mão que muitos empreendedores atualmente estão buscando uma oportunidade singular de demonstrar um evangelho profundo que vem de cima para baixo por meio das empresas que dirigem. Eles estão na vanguarda de fundadores que vivem na contracorrente cultural — atraídos para criar empresas não tanto como meio de poder, renome e riqueza, mas por seu desejo de se valer do quadro branco do empreendedorismo para renovar o espírito da nossa época no seu segmento específico da sociedade. Eles humildemente veem a sua capacidade de fazer cultural como um dom de Deus e desejam entregar suas vidas em prol de outras pessoas.

A essa bela alquimia de semelhanças e diferenças, de ambição e generosidade, de esforço consistente e contentamento profundo, chamamos de empreendedorismo redentivo.

Design para renovação

Como cristãos professos, somos chamados a ser agentes da obra renovadora de Deus em cada área da vida. Isso é uma expressão da vocação humana compartilhada que recebemos no jardim em Gênesis 1 — ostentar a imagem de Deus no mundo por meio de nossos esforços culturais e comunitários à medida que ele dirige todas as coisas para a restauração do fim dos tempos.

À luz dessa vocação comum do povo de Deus, vemos o empreendedorismo como uma forma poderosa de amar e servir ao nosso próximo; de substituir tendências e narrativas desumanizantes e escravizadoras com outras mais bíblicas, humanizadas e libertadoras; criar caminhos para a dignidade e florescimento humanos; promover a virtude e a justiça na comunidade; e, ao fazê-lo, restaurar o espírito da nossa era. O empreendedorismo, visto desta forma, é uma das vocações mais profundamente cristãs.

O resultado líquido do empreendedorismo redentivo é a renovação: curvar certo aspecto da cultura, da sociedade ou da indústria para refletir mais da bondade e glória de Deus; ver a vinda de “teu reino, assim na terra, como nos céus”. Essa visão de renovação se pauta pela esperança (antecipando a obra de Deus de “reconciliar consigo mesmo todas as coisas”) ao invés de pela nostalgia (antecipando um momento de maior poder cultural para o povo de Deus). Somos disciplinados, mas otimistas, em nossas ambições, sabendo que Deus fortalece nossos esforços e está no controle de seus frutos.

A oportunidade redentiva para uma empresa se capta (ou se perde) quando a ideia é formada. Estamos tão acostumados à maneira do mundo de fazer as coisas que precisamos nadar contra a corrente e avaliar duramente para o processo de geração de ideias que nos levou ali, em primeiro lugar.

De forma geral, os empreendedores (e as empresas) tentam entender para onde o mundo está indo, aproveitando-se dessas tendências para consideráveis ganhos financeiros. A empresa de inovação IDEO popularizou o design thinking, que começa com a desejabilidade, derivada de um entendimento cuidadosamente pesquisado do usuário final. Semelhantemente, a aceleradora de startups Y Combinator sugere que o melhor conselho para startups é simplesmente “fazer algo que as pessoas querem”.

Embora essa mentalidade ajude as empresas a concentrar sua importante atenção nos clientes, nós cremos que ela prejudica o trabalho imaginativo no estágio conceitual — seduzindo os fundadores a serem levados irrefletidamente pela corrente cultural, ao invés de tentar redirecioná-la. Se os fundadores cristãos procuram “se juntar a Deus na renovação de todas as coisas”, para citar o acadêmico da Praxis, Jon Tyson, precisamos de uma técnica diferente para geração de ideias nas startups. Precisamos ir além de desejabilidade (“o que as pessoas querem?”) e buscar o florescimento (“o que o mundo precisa?”).

Para fazer essa mudança, precisamos de um entendimento mais rico dos propósitos de Deus para o mundo (teologia) e o que está acontecendo no mundo (cultura). Somente quando entendemos bem o que a nossa teologia tem a dizer sobre o nosso domínio cultural escolhido e quando desenvolvemos uma profunda percepção dos padrões culturais que humanizam (e dos que desumanizam) nesse domínio, poderemos confiantemente entrar na área de invenção e criatividade. É aí que usamos nossas capacidades empreendedoras e processos de inovação para encontrar ideias e oportunidades que podem ser verdadeiramente uma força para o bem que buscamos na cultura. Como Dallas Willard disse maravilhosamente bem:

A compreensão é a base do cuidado. Você precisa primeiro entender se você vai cuidar de uma petúnia ou de um país.

Tendo esse fim em vista, frequentemente encontramos fundadores cristãos comprometidos que desenvolveram uma profunda compreensão dos fundamentos demográficos, técnicos, psicológicos e econômicos de sua empresa — porém, se contentam com um entendimento teológico e cultural raso que dilui seu potencial redentivo.

Para um design redentivo, começamos o processo de geração de ideias com reflexões teológicas e culturais — e depois desenvolvemos ideias empreendedoras como uma resposta criativa.

Para dar partida nessa mentalidade e abordagem, tem sido frutífero moldar o processo de design para renovação por meio de temas que integrem reflexões teológicas e culturais. Considere as oportunidades empreendedoras e os modelos de negócio inexauríveis nesses temas, pouco discutidos:

  • O papel das imagens na reeducação do desejo
  • Branding direcionado por virtudes e formação de identidades
  • Distribuição em massa do melhor da cultura
  • Ambientes físicos para o florescimento
  • Reconstituindo a vergonha cultural como uma expressão de dignidade
  • Empreendimentos sociais experimentais
  • A restauração de discursos civis
  • Liturgias compartilháveis e práticas de bem comum
  • Co-criação para oportunidade e equidade

O mentor da Praxis Hans Hess foi provocado por certas dessas ideias quando fundou a Elevation Burger em resposta a um crescimento alarmante na resistência populacional a antibióticos, devido primariamente ao seu uso disparado em gado. Projetou-se que 200.000 pessoas morreriam em 2025 por conta de sua incapacidade de receber tratamento com antibióticos. A origem do Elevation Burger foi um lamento sobre o sofrimento humano (teologia), conjugado a reflexões sobre causa e efeito (cultura), concretizados por meio de um processo sólido de inovação com produtos e branding (empreendedorismo). Os seus hambúrgueres orgânicos, produzido a partir de bovinos alimentados em pastos com vegetação nativa, não apenas estão movimentando um setor comercial em ascensão, como também influenciam players maiores na indústria alimentícia a mudarem de acordo, como a Panera.

Podemos comparar e contrastar esse tipo de criação empreendedora com a abordagem de Peter Thiel em De zero a um. Thiel argumenta que temos talentos demais focados em inovação incremental — empreendimentos que levam o mundo de “de 1 a n” — e poucos focados em reviravoltas tecnológicas radicais que nos levam “de 0 a 1”. Contudo, numa sociedade ocidental com recursos econômicos e tecnológicos desproporcionais, talvez o nosso maior chamado não seja inovação técnica radical, mas uma renovação sistêmica radical. Como criadores num mundo caído, mas ainda “totalmente promissor”, podemos aplicar uma visão do evangelho ao longo de toda migração “do 0 ao 1 ao n” — injetando compaixão, esperança e beleza em cada fronte, quer estejamos trabalhando em genética, petróleo, moda, construção civil ou mídia. Quando a nossa esperança repousa no caminho de Jesus, a inovação e a disrupção voltam a ser servos, ao invés de mestres, de nossa visão empreendedora.

Dez princípios para o design renovador

  1. Todo empreendimento pode ser redentivo. Empreendimentos redentivos não se limitam a determinado setor, escala, estrutura, posicionamento confessional ou tipo de personalidade dos fundadores. Muitos dos melhores exemplos de empreendimentos redentivos são negócios maduros e lucrativos com nenhum modelo social explícito. Eles identificaram um aspecto caído específico na esfera que ocupam e são intencionais quanto a sua restauração.
  2. Empreendimentos redentivos têm cada um o seu resultado líquido de renovação. Cada empreendimento redentivo, quer uma startup de tecnologia para o consumidor final ou uma organização educacional sem fins lucrativos, foi feito para levar algum canto do mundo em direção ao florescimento: de indignidade à dignidade, da isolação à comunidade, da escravidão à liberdade, do egoísmo à generosidade, da tolice à sabedoria, do engano à verdade, da ansiedade à paz, do consumo ao contentamento.
  3. Empreendimentos redentivos precisam começar com uma questão diferente do que as normalmente realizadas pelos empreendedores. A primeira questão não é “O que funcionará como empresa?” Pelo contrário, deveria ser: “O que é bom para o mundo, segundo o seu Criador?” Então o fundador pode inovar para concretizar isso de uma forma factível. O empreendimento é concebido como uma resposta criativa à lacuna entre o que o mundo é hoje e como ele será em seu estado restaurado.
  4. O empreendimento busca ativamente uma cultural organizacional virtuosa que valoriza as pessoas acima dos lucros em relação a stakeholders internos e externos.
  5. O empreendimento concebe suas ofertas — seus produtos e serviços — como concretizações de renovação, não simplesmente como soluções a problemas ou necessidades imediatas. Os líderes perguntam: “Os nossos produtos e serviços são experimentados pelo consumidor de uma forma que encoraja o seu florescimento relacional, físico e espiritual?”
  6. O empreendimento — com ou sem fins lucrativos — tem um modelo de impacto claramente definido, para assegurar que os efeitos próximos e remotos do empreendimento sobre as pessoas e sobre o ambiente sejam positivos, liquidamente. Os líderes perguntam: “Quais dos nossos produtos e serviços realmente alcançam sucesso a nível pessoal, social, ambiental e industrial?”
  7. O empreendimento foca não só em como ele opera (cultura organizacional), no que ele faz (ofertas) e nos seus efeitos (modelo de impacto) — mas também no que ele diz sobre o mundo (narrativa). Os líderes entendem as mensagens predominantes na cultura e buscam reforçar essas mensagens (se elas concordam com a visão cristã) ou as minam e reescrevem, caso contrário.
  8. Um empreendimento redentivo não necessariamente possui um posicionamento confessional explícito ou um conjunto de critérios de contratação, mas certamente transforma o entendimento cristão do mundo em cultura, decisões e balancetes. Esse tipo de empreendimento invariavelmente será uma apologética demonstrativa da verdade do evangelho.
  9. O próprio empreendimento é um ministério primário. Como os líderes alocam o dinheiro dentro do negócio é menos importante de como eles o distribuem fora do negócio. É de bom tom que fundadores tenham um plano ativo de filantropia e investimento fora da empresa e é recomendável que um empreendimento financie “coisas cristãs” (o que quer que isso signifique); mas não pode ser uma versão de “roubar Pedro para pagar Paulo”, caso o empreendimento apenas financie ministérios redentivos, sem ser ele mesmo redentivo.
  10. Excelência no setor é o mínimo para se considerar um empreendimento redentivo. Sem isso, o empreendimento terá um impacto pequeno ou insustentável. Uma cultura moldada pelo evangelho dá muito espaço para graça, virtude e equilíbrio; contudo, deixa pouco espaço para a mediocridade.

Cuidando do ecossistema

Como nos juntamos enquanto comunidade cristã para encorajar a formação de toda uma geração de empreendedores redentivos?

Se não vemos muitos fundadores vivendo esta visão como gostaríamos, o nosso instinto natural é dar prioridade a escalonamento e força. Temos a tendência de diagnosticar o problema em termos de não ter um suprimento forte o suficiente de líderes e definir a solução como conseguir mais empreendedores cristãos de alta capacidade para começar suas empresas. Nós ofereceremos talentos, mentoria e redes de financiamento para ajudar os líderes a escolher as melhores instituições e fluxos para desenvolverem suas habilidades de liderança.

O discurso padrão é mais ou menos assim: o empreendedorismo é importante; o ecossistema atual é inóspito ou indisponível para crentes; queremos mais cristãos representados nesse campo difícil e competitivo; logo, vamos criar um “ecossistema alternativo” para descobrir, treinar, conectar, apoiar e financiar cristãos para que consigam chegar à elite do poder cultural por meio do empreendedorismo.

Contudo, essa abordagem ainda é insuficiente porque ela rapidamente se reduz à lógica de guerras culturais tribais e mundanas hoje presente em cada área de influência cultural, da política ao cinema: precisamos mais dos “nossos” na área de formação cultural para que possamos assegurar nossa representação, influência e impacto.

Precisamos ir mais fundo e perguntar: por que precisamos de mais fundadores cristãos, em primeiro lugar? Segundo nosso posicionamento, não é para capturar influência cultural ou financeira para a comunidade cristã — é porque o mundo necessita profundamente dos empreendimentos que só os cristãos podem gerar e somos constragidos por amor ao próximo a iniciá-los.

Não é porque os cristãos são pessoas melhores (não somos), mas porque temos as boas novas de um evangelho de cima para baixo de um Deus que se importa com cada centímetro quadrado da criação.

Se o que os cristãos acreditam sobre o mundo é Verdade — que Deus criou o mundo em amor e quer reconciliar todas as coisas consigo —, então, empreendimento por empreendimento, e especialmente depois de centenas e milhares de empreendimentos, a comunidade cristã mobilizará uma diferença singular, positiva e material para o mundo por meio da prática do empreendedorismo.

Tendo uma quantidade maior de fundadores cristãos fortalecidos não beneficiará apenas a cristãos, mas a todos. Para pessoas fora da nossa fé, podemos dizer: mesmo se não acreditarem como nós, se os empreendedores cristãos fizerem o seu trabalho, o mundo será um lugar melhor. Como William Temple colocou:

“A igreja é a única instituição que existe primariamente para o bem daqueles que não são os seus membros.”

Como expressão da igreja, portanto, empreendimentos redentivos existem para seus clientes e para o seu próximo, não para seus sócios; e criá-los é mais um ato de amor que de controle.

Precisamos reconhecer que, mais que escala ou força, a oportunidade primária para empreendedores cristãos é a sua singularidade. Precisamos de fundadores que, como Daniel e seus colegas durante o exílio babilônico, ultrapassem seus pares em excelência — ainda que tenham uma visão, motivação e prática totalmente diferente. Para alcançar isso, até os nossos métodos de recrutamento e desenvolvimento de liderança precisam ser diferentes.

Porque precisamos de uma geração de fundadores com uma imaginação alternativa para o propósito e a prática de empreendedorismo sob o senhorio de Cristo, precisamos de pipelines e ecossistemas que auxiliem empreendedores de fé a prosperarem nos termos do mercado e outros que formem e reforcem nos fundadores uma visão diferente do que seus empreendimentos são, antes de tudo.

Isso significa que precisamos de investidores e programas projetados para alimentar e incentivar fundadores em potencial a passarem pelas melhores universidades, treinamentos, empregadores e redes de contatos — mesmo que corramos o risco de tornar os fundadores parecidos demais com o mundo ao seu redor.

Da mesma forma, precisamos de incubadoras, redes de contatos e aceleradoras crentes; programas de empreendedorismo em faculdades cristãs; e empresas lideradas por cristãos que tutoreiam e desenvolvem fundadores em potencial — ainda que corram o risco de formar fundadores que são subculturais demais e, portanto, menos competitivos e efetivos.

Pelas próximas décadas, podemos usar a nossa compreensão crescente da humanidade — em seus aspectos teológicos, culturais, sociológicos e técnicos — para criar produtos, serviços, ambientes e sistemas que verdadeiramente levem ao florescimento? O esforço empreendedor é a fronteira de fé e trabalho, à medida que nos juntamos a Deus na renovação de todas as coisas — que, como diz James K.A. Smith, envolve “o redirecionamento e a reorientação de nossas capacidades de fazer cultura”.

Esta é a esperança do evangelho no mundo das startups: uma geração de empreendedores que utilizem seu dom de maior capacidade de fazer cultura para criar empreendimentos que são totalmente promissores para o reino de Deus.


Por: Praxis. © Praxis. Website: https://journal.praxislabs.org/full-of-promise-534310dca752. Traduzido com permissão. Fonte: Full of Promise, 20 de maio de 2020.

Original: Totalmente promissor: Uma visão para o empreendedorismo redentivo. © The Pilgrim. Website: thepilgrim.com.br. Todos os direitos reservados. Tradução: Guilherme Cordeiro Pires.

O ponto de vista deste texto é de responsabilidade de seu(s) autor(es) e colaboradores direito, não refletindo necessariamente a posição da Pilgrim ou de sua equipe de profissionais.

Imagem: Victor Garcia no Unsplash

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