Sabedoria e tolice nas respostas cristãs ao coronavírus (Alastair Roberts)

Ao observar respostas cristãs ao coronavírus, talvez nada tenha se destacado mais para mim do que a forma que elas revelam hábitos fundamentais da mente, característicos tanto da sabedoria quanto da insensatez.

A literatura bíblica de sabedoria muitas vezes é negligenciada em nossas igrejas. Seu caráter sapiencial não se encaixa bem dentro dos limites estreitos do nosso ensino focado em informação e doutrina. Suas formas mais abertas e menos definidas de conhecimento perturbam a segurança do nosso dogmatismo. Seu foco empírico e pragmático desconforta nossas abstrações ideológicas e nosso desinteresse pessoal. A sua visão de um mundo comum e cognoscível compartilhado por todos os seres humanos é resistida pelo nosso desejo de afirmar o monopólio cristão da verdade.

Até em círculos cristãos que fazem apelos confiantes à “sabedoria,” o seu verdadeiro caráter pode ser facilmente distorcido, muitas vezes por causa de um desejo de subjugar a sabedoria à ideologia e suas formas de crença. A “sabedoria” pode ser apresentada às pessoas como se fosse um sistema pré-pronto completo do que devemos pensar, ao invés de ser uma formação vitalícia no pensamento responsável e disciplinado e na arte de viver bem. Certa posição ideológica pode ser identificada com a “sabedoria”, mesmo que faça o trabalho de pensar no lugar da pessoa. Podemos ser treinados em um sistema completo a ser concretizado, sem nos obrigar a assumir a responsabilidade da tarefa sapiencial de relacionar a reflexão profunda e baseada em princípios com a atenção empírica ao mundo. Para muitos, a sabedoria, pelo que parece, é principalmente pertencer a um lado — o lado que, por acaso, eles defendem. Isso lhes absolve da tarefa de ouvir, se engajar receptiva e humildemente com pessoas de vários contextos, crenças e perspectivas diferentes.

Todas essas graves deficiências na instrução, compreensão e prática da sabedoria se tornaram forte e dolorosamente evidentes em muitas respostas cristãs ao coronavírus.

Grande parte da literatura de sabedoria é dirigida ao simples, dando à pessoa que não tem sabedoria e experiência um faro pela sabedoria e o caráter para recebê-la. Trata-se de obter um instinto para a forma da sabedoria, mesmo antes de ter desenvolvido conhecimento ou ter a sabedoria formada em você. Trata-se de como o inexperiente se conforma à sabedoria apesar da sua falta de experiência. Geralmente, não se trata tanto das especificidades do conteúdo daquilo que se acredita, mas sobre como você começa e continua a acreditar naquilo.

Mas a literatura de sabedoria também é uma literatura para reis. Isso pode parecer um paradoxo, mas, ao examinar mais de perto, faz sentido. De muitas formas, o rei é chamado para ser o simples por excelência, sem expertise alguma. Da mesma forma, a sabedoria é amplamente construída sobre as virtudes do justo ainda simples e nunca deixa essas virtudes pra trás. Na verdade, ela repousa mais e mais sobre elas à medida que a sabedoria cresce.

O rei sábio não é o expert universal. Pelo contrário, ele deve ter maestria na tarefa de julgar. E ele exerce bem esse julgamento através dos seus dons no discernimento, escolhendo e ponderando o conselho dos experts. Governar com conselheiros experientes é bem diferente de ser governado por eles. Conhecimento e expertise em áreas de conhecimento específicas são levados em consideração no julgamento do rei sábio, mas ao exercer esse julgamento ele considera e pondera um grande número de vozes de especialistas antes de determinar um curso de ação específico.

Como o rei sábio não é o especialista universal, ele deve chegar em seu sábio julgamento por outros meios, e isso é complicado.  Os meios pelos quais ele faz isso são praticamente os mesmos pelos quais o simples chega em qualquer tipo de sabedoria, só que com um grau maior de desenvolvimento. Por causa do vasto escopo de suas responsabilidades, a compreensão do rei da sua falta de conhecimento cresce rapidamente junto com a extensão das obrigações sujeitas a seu julgamento sábio.

Como Scott Alexander observa, as pessoas que se anteciparam e se prepararam melhor para o coronavírus geralmente não eram especialistas da área, mas as pessoas que deram atenção aos especialistas, sendo capazes de sintetizar o conhecimento de diversos especialistas e exercer julgamento prudente em situações incertas com grandes riscos envolvidos. Isso é um tipo importante de sabedoria.

Agora eu gostaria de esboçar brevemente alguns princípios fundamentais de um relato cristão da sabedoria que deveria nos guiar em como respondemos ao coronavírus e outras crises parecidas.

1.   O sábio encontra segurança na multidão de conselheiros

Os sábios se cercam de uma multidão de conselheiros. Por outro lado, os tolos simplesmente apelam aos “especialistas” que confirmarão os seus desejos; dispensam os demais como agentes de alguma conspiração ou cegos por uma agenda ideológica; ou se absolvem da tarefa de discernir ao apelar para o fato de que “os especialistas discordam.” Os tolos geralmente apelam aos especialistas para validar suas posições, ao invés de genuinamente se familiarizarem com o escopo da conversa entre especialistas de diversas perspectivas.

O conselheiro solitário é perigoso, assim como a panelinha de conselheiros unânimes — sejam “ortodoxos” ou minoritários (aqueles que são minoritários por temperamento frequentemente podem confundir suas críticas ao mainstream com questionamentos genuínos, não se atentando como suas próprias posições estão sujeitas a críticas sérias). A verdadeira sabedoria deve ser encontrada na atenção à multidão de conselheiros, onde as perspectivas de muitas pessoas bem-informadas e sábias são constantemente cruzadas, testadas, revisadas, afiadas e provadas através do diálogo, que geralmente é dirigido pelo governante criterioso.

Uma das marcas típicas dos lunáticos é que eles simplesmente rejeitam seus semelhantes que defendem a posição predominante como se fossem conspiracionistas, malignos ou até estúpidos, ao invés de se engajar em um diálogo genuíno de boa-fé com eles e permitindo que suas posições sejam examinadas dessa forma. Eles falarão da estupidez dos especialistas mainstream sem sequer conversar com eles face a face ou mesmo se dispor a entender de verdade suas perspectivas e argumentos. A maioria dos verdadeiros especialistas tende a tratar os especialistas que discordam deles com muito mais respeito.

2.   O sábio examina rigorosamente as questões

Tolos prontamente acreditam em uma causa sem sequer investigá-la de perto e ouvir as críticas feitas a ela (Pv 18.17). Eles rotineiramente julgam antes de ouvir. Eles também prestam atenção e espalham rumores, relatos imprecisos e histórias suspeitas, enquanto falham em buscar diligentemente pela verdade da questão. O sábio, por sua vez, examina cuidadosamente antes de proceder ao julgamento ou entendimento da questão.

Em diversas respostas ao coronavírus, eu fiquei impressionado com a frequência com que as pessoas espalham informações que claramente não leram ou entenderam, simplesmente porque — depois de uma olhada superficial — elas pareciam validar suas crenças. Elas não seguem de perto as perspectivas que assumiram, buscando críticas e exames minuciosos que verifiquem sua veracidade. E quando se prova sua falsidade, eles não voltam atrás para se corrigirem.

3.   O sábio conhece as limitações do conhecimento

Os tolos são ingênuos e logo saltam para a crença ou descrença. Eles também são presunçosos — amam a confiança orgulhosa de uma falsa certeza. Eles carecem da capacidade de ponderar os muitos testemunhos e pontos de vistas divergentes e contrários para chegar a uma percepção mais clara do assunto, sem confiar completa e inquestionavelmente num dos lados, nem os rejeitando automaticamente quando as tensões aparecem. O sábio, por sua vez, conhece as limitações e incertezas do conhecimento e desenvolve a humildade correspondente. O sábio resiste ao anseio de pular prematuramente para a segurança de convicções firmes — porém falsas. Ele suporta fielmente a luta do conhecimento limitado ou até da falta de conhecimento a fim de investigar os assuntos de forma diligente e completa.

O coronavírus é um desafio que possui uma infinidade de “incógnitas conhecidas” e “incógnitas desconhecidas”. Responder a essas incertezas extremas exige tanto esforços preventivos decisivos e rápidos para minimizar alguns dos riscos extremos aos quais podemos estar sujeitos, quanto uma investigação transparente e intensa sobre a forma exata da ameaça que estamos enfrentando. A incerteza não aparece muito no pensamento do tolo (salvo quando ele apela para a suposta indeterminação de opiniões entre especialistas como uma desculpa para insistir confiantemente nos seus próprios interesses). O tolo tende a apostar com excesso de confiança em suas expectativas e pensa pouco nas muitas contingências que estão em jogo.

O tolo zomba do suposto pânico e medo das pessoas que, embora não estivessem necessariamente esperando que o coronavírus se espalhasse em janeiro, tomaram medidas de precaução para garantir que estivessem preparadas para essa eventualidade. Da mesma forma, ele zomba agora das pessoas que estão tomando medidas de precaução contra outros cenários reais, mas de menor risco. Ele não está realmente envolvido na urgente tarefa de reduzir os riscos através da busca do conhecimento, porque ele sempre teve a mesma opinião convicta sobre o assunto.

4.   O sábio está em guarda contra o bajulador

O sábio reconhece que o perigo do bajulador não se encontra apenas na forma de uma obsequiosidade exagerada para conosco. A bajulação também se expressa no estudo ou no especialista que corrobora a nossa complacência ou orgulho dos nossos próprios caminhos, reforçando nosso senso de superioridade intelectual e moral, enquanto mina a competência de nossos oponentes. O tolo é cronicamente suscetível ao bajulador, porque este afaga o orgulho e a resistência à correção e ao crescimento tão característicos do tolo.

O tolo se agarra aos estudos ou especialistas que corroboram suas crenças e práticas preferidas, enquanto resiste ao engajamento atento e receptivo de visões que o desafiam (ou nem mesmo examina atentamente aqueles que presume lhe apoiar, porque esse exame pode perturbar suas convicções). A falta de humildade e o desejo de bajulação do tolo o tornam demasiadamente resistente ou até insensível às repreensões, correções e desafios. Você precisa adular o tolo para ganhar a atenção dele.

A ideologia é amiga do tolo. Ela garante às pessoas que, se elas simplesmente comprarem seu sistema de crenças, possuirão todas as respostas e não precisarão aceitar a correção de nenhum dos seus oponentes, a fim de revisar significativamente suas crenças à luz da experiência e da realidade ou até reconhecer as limitações do seu conhecimento.

O sábio, em contrapartida, sabe que as feridas de um amigo são fiéis e busca a correção. Ele se cerca de outras pessoas sábias que estão preparadas para o corrigir. Ele é cauteloso com a ideologia.

5.   O sábio ama a repreensão e a sabedoria que dela resulta

O tolo não considera cuidadosamente as posições opostas para descobrir qual elemento de sabedoria pode estar neles, mas salta para qualquer desculpa que possa encontrar — o tom, o alinhamento político, a personalidade do orador e assim por diante — para dispensá-las e ignorá-las. Fundamentalmente, mesmo que não perceba, ele odeia a sabedoria, visto que a tarefa da sabedoria é desconfortável demais para ele e, por isso, a evitará a qualquer custo. Por outro lado, o sábio suportará um desconforto considerável para buscar a sabedoria onde quer que ela se encontre. Ele voluntariamente se expõe a repreensões severas, correções embaraçosas, alienação social ou perda de orgulho pessoal a fim de aprender a partir com seus críticos e oponentes, voltando atrás de posturas já formadas. Tudo isso para crescer em sabedoria.

O sábio constantemente tenta aumentar sua sensibilidade para com a verdade através da prática de atenção minuciosa, enquanto que boa parte do esforço intelectual do tolo é gasto para se safar das verdades inconvenientes ou para racionalizar seus erros (por exemplo, o leitor sábio das Escrituras tenta ler o texto de acordo com os termos do texto, enquanto o leitor tolo tenta evitar o significado do texto ao introduzir ambiguidades de modo que ele possa impor seu próprio sentido ao texto). O sábio busca diligente e desejosamente a sabedoria, enquanto a sabedoria precisa ser enfiada à força na boca do tolo.

6.   Os tolos encontram refúgio no escárnio e no desprezo

Quando um tolo é confrontado com uma perspectiva indesejável, sua resposta característica é escárnio, ridicularização ou rejeição, ao invés de engajamento cuidadoso e pensativo. A leviandade e a zombaria são um refúgio contra a correção. A Escritura frequentemente enfatiza que esse é o modus operandido tolo quando desafiado. O tolo também calunia os sábios como desculpa para não os ouvir.

Tolos tipicamente se sentem ameaçados pela proximidade de perspectivas contrárias e precisam de mecanismos de defesa contra elas. Esse é o caso até mesmo entre tolos que defendem verdades genuínas. Para muitos cristãos, a ridicularização dos outros funciona primariamente para atender à necessidade psicológica do tolo de se endurecer contra todos os outros pontos de vista — de garantir que ele não sinta qualquer atração de verdades em outras posições que possam prejudicar a sua autoconfiança imerecida. De fato, até o próprio evangelismo pode ser pervertido de um compartilhamento amoroso da verdade com o próximo para uma declaração autodefensiva da verdade contra ele a fim de resistir um encontro genuíno com perspectivas diferentes.

Aqueles que possuem uma confiança genuína em seu conhecimento e um comprometimento real com a verdade são instintivamente menos propícios a usar o escárnio. O sábio pode usar a zombaria, mas é uma das ferramentas menos usadas em seu arsenal, daquelas que é preciso muito cuidado para manusear.

7.   A verdade se evidencia por testemunhos consistentes

Os sábios estão preocupados com demonstrar consistência em seus pontos de vista, já que a concordância entre testemunhos e perspectivas são evidência da verdade em determinada questão. No entanto, as crenças de um tolo geralmente são notórias por suas grandes inconsistências. Elas carecem das marcas da verdade, porque são adotadas por sua utilidade em confirmar o tolo em seus caminhos, e não por sua verdade. O tolo saltará entre posições inconsistentes só por serem convenientes. A consistência das posições e crenças dos tolos são encontradas, não na concordância da substância delas, mas no fato de que todas elas, de alguma forma, consolidam ainda mais os tolos em seus métodos e crenças anteriores. Além disso, a preguiça intelectual dos tolos significa que eles não buscam diligentemente crescer na verdadeira consistência (embora alguns possam desenvolver certa consistência em suas falsidades com o único intuito de imunizá-las contra questionamentos, ao invés de buscar a própria verdade). 

8.   O tolo fala demais

O tolo ama expressar sua opinião, mas possui bem menos prazer no trabalho duro de conquistar o direito de ser ouvido. O tolo saberia de tudo ainda que nada estudasse. O tolo vocifera a sua tolice e não se cala na presença daqueles mais sábios do que ele. Submeter-se ao sábio ao guardar sua língua é esforço demais para o orgulho do tolo, que odeia a correção e a vergonha de honrar a maior sabedoria de outros. O discurso incessante do tolo é uma defesa contra o ouvir e uma forma de evitar a aceitação dos limites do seu conhecimento, ao mesmo tempo em que expõe constantemente como seu conhecimento é limitado.

9.   Os sábios aprendem pela experiência e se revelam nas crises

O sábio sempre reflete e tira lições de suas experiências e práticas. A sabedoria na Escritura geralmente se vê nos resultados e nossa sabedoria e tolice são mais evidentes em retrospecto, quando um intervalo suficiente de tempo e  uma distância adequada do ego se colocam entre nós e nossa sabedoria ou tolice passadas. Confrontados com uma crise como o coronavírus, é importante refletir honestamente sobre como nossas ações e hábitos passados nos prepararam ou nos deixam despreparados para este momento. Os sábios se comprometem a essa tarefa muitas vezes dolorosa de autoexame e reforma, e buscam em primeiro lugar silenciar o bajulador dentro de si, sendo honestos quanto a seus fracassos. O sábio tenta internalizar a voz da repreensão sábia.

Essa pandemia é um momento de provação e humildade. É um momento em que força ou fraqueza, verdade ou falsidade, fidelidade ou infidelidade estão sendo reveladas. Os sábios estarão profundamente atentos em um momento como este, (re)considerando as pessoas com quem andam, as vozes a que ouvem, as crenças que defendem, as práticas que observam, etc. Em momentos de humildade, os limites das previsões, providências e da nossa força se revelam. No entanto, nesses momentos de humildade, quando o orgulho de muitos se fere, a sabedoria do humilde, do cautelosa e do modesto, que reconheceram seus limites mesmo em tempo de fartura, manifesta-se.

10.    O tolo é caracteristicamente imprudente e descuidado, sem medo racional e cautela

O tolo é marcado por uma rejeição da preocupação racional com os perigos do seu estilo de vida e um excesso de confiança imprudente (Pv 14.16). O tolo é um apostador inveterado, tomando riscos compulsivamente. Ele ignora as advertências sobre perigos futuros, cegamente convencido de que tudo continuará da mesma forma, que suas ações descuidadas não produzirão consequências.

Quando consegue escapar do desastre, age como o jogador que aposta toda sua fortuna no cavalo com as melhores chances e se exalta quando ganha. Ele não considera as muitas vezes em que sofreu por causa da sua imprudência e fracasso ao considerar as incertezas do futuro (aliás, quando esses riscos envolvem a vida das pessoas, o tolo está quebrando o sexto mandamento, ainda que sua aposta vença). O tolo é uma criatura confinada ao presente imediato. Para ele, o futuro é apenas a continuação do presente. Ele não considera seus erros passados, nem reflete nos riscos expostos a si e a outros no futuro.

O sábio, por sua vez, considera e se prepara para as incertezas do futuro. Ele é treinado em antecipar e se proteger de várias eventualidades possíveis e não simplesmente aposta nos seus resultados preferidos.

11.    O tolo é despreparado

Uma das principais características dos tolos no ensino de Jesus — o tolo que construiu a casa na areia, o tolo que buscou construir grandes celeiros, as virgens tolas — é que todos eles são despreparados. Sua fixação no presente e na continuação das suas condições, sua resistência à correção, sua preguiça e falta de vontade de buscar a sabedoria e o prazer teimoso em seus caminhos os levam a serem pegos de surpresa pelo desastre previsível. A loucura deles se manifesta claramente pela falta de preparo com os desastres que os atingem. O tolo, no entanto, frequentemente zomba do sábio em suas ponderadas preparações — “Por que esse pânico todo!?”. Ainda assim, quando os desastres acontecem, geralmente são os tolos os descontrolados, que não sabem o que fazer.

O tolo focado no presente encontra dificuldade em reconhecer o perigo e se arrasta em direção a ele. Em 29 de fevereiro, ele diria que é ridículo considerar a tomada de medidas contra o coronavírus, visto que apenas uma pessoa tinha morrido nos EUA por causa do vírus. Um mês depois, esse número era 4.066 e ele diria que havia apenas umas duas mortes em sua cidade. Agora, dois meses depois, as mortes passaram de 62 mil e ele ainda está procurando maneiras de ignorar as muitas formas nas quais esse número pode crescer muito mais, a menos que medidas significativas sejam adotadas. Ameaças futuras simplesmente não são consideradas naqueles que se concentram estreitamente no presente imediato.

As pessoas e nações que melhor se prepararam para a crise do coronavírus foram aquelas que tomaram ações decisivas antes que as circunstâncias posteriores forçassem alguma ação. Aqueles que atrasaram a ação e arrastaram seus pés, querendo evitar qualquer senso de “pânico” ou reação exagerada geralmente são aqueles que agora se acham nas situações mais restritas, em que retornar a qualquer coisa que se assemelha ao “normal” se prova o mais difícil ou onde as maiores apostas devem ser feitas (ainda que essas apostas sejam bem sucedidas, elas não deveriam precisar ser feitas). Esses são os países que estão lutando freneticamente para adquirir suprimentos, equipamentos médicos e de proteção, ferramentas para testes, rastreamento e outras medidas — tudo isso em um período de tempo extremamente curto. Estar preparado nos dá muito mais liberdade para a ação e um risco muito menor de pânico no futuro.

Quando confrontados com riscos como os apresentados pelo coronavírus, sobre o qual sabemos muito pouco, alguns argumentam que não sabemos o suficiente para justificar uma ação extrema e é bem provável que a ameaça apresentada seja realmente mínima. Eles acusarão os defensores de medidas mais extremas de afirmarem uma falsa certeza. De toda forma, isso é bastante equivocado, porque a boa política deve sempre levar em consideração em suas decisões aquilo que não sabemos — tanto as incógnitas conhecidas quanto as desconhecidas. Ainda que seja possível ou até provável que eles estejam certos — e por mais que todos esperemos que estejam —, em uma situação de incerteza, é loucura apostar nos modelos mais otimistas. O sábio pode ser e muitas vezes é otimista, ao mesmo tempo em que toma precauções necessárias contra aquilo que acredita ser eventualidades menos prováveis, porém, potencialmente devastadoras. As medidas extremas que têm sido instituídas na maioria dos países não são apenas uma resposta às ameaças conhecidas, como também às ameaças realistas, mas desconhecidas, que precisam ser estudadas através da pesquisa científica.

A ameaça de um novo coronavírus nunca foi apenas sobre seu número absoluto de mortes (mitigadas ou não). O problema sempre foram os vastos e dispendiosos encargos e limitações que as sociedades normalmente deveriam assumir quando confrontados com ameaças de proporções extremamente incertas, especialmente quando permitiram que essas ameaças se agravassem e só restassem alguns planos de ação arriscados e drásticos para executar.

Por que as sociedades ocidentais dedicaram recursos tão custosos e extensivos para atacar o terrorismo, quando comparado à ameaça de queda de móveis, que normalmente mata mais pessoas por ano? Enquanto a ameaça de queda de móveis claramente é limitada e nunca crescerá em grande escala, a ameaça do terrorismo possui limites muito mais flexíveis. O mesmo é verdade para o novo coronavírus. Enquanto a severidade das gripes sazonais pode flutuar a cada ano, elas geralmente fazem isso em limites claros (e as pessoas deveriam ler as estatísticas da gripe com muito mais cuidado, especialmente quando as comparam com os dados muito mais sólidos que temos para as mortes por coronavírus). Um novo coronavírus como o COVID-19, que é muito mais mortal do que a gripe, representa uma ameaça que está muito menos delimitada pelo nosso entendimento científico. Nós não sabemos quão eficaz e duradoura qualquer imunidade será. Não sabemos se devemos esperar ondas piores no futuro. Não sabemos se o vírus irá se mutar para algo mais mortal ou menos. Não sabemos quão eficazes as vacinas serão ou quanto tempo demoraremos para encontrarmos uma. Ainda não sabemos quais serão os efeitos a longo prazo na saúde das pessoas que tiveram a doença.

O fatalismo pode ser uma proposição atrativa para o tolo, visto que ela o absolve do imperativo da ação responsável. Muitos fatores que determinam as consequências futuras em toda sorte de áreas atualmente estão em nossas mãos. O tolo, no entanto, não leva em conta o futuro, o considera como inevitável, para o qual sua ação é irrelevante. Tem sido preocupante observar quantas pessoas não conseguem diferenciar projeções condicionais de predições e expectativas. As várias projeções que apresentaram as mortes nos piores cenários vieram com números projetados radicalmente diferentes — e nunca predições certas — para cenários nos quais as pessoas respondiam de maneira eficaz e situações em que não respondiam. O fracasso em considerar como a diferença entre resultados futuros drasticamente diferentes depende de nossa ação presente não é evidente para o tolo, que pode ser muito mais suscetível a simplesmente pensar que a única alternativa é uma previsão certeira que pode ou não se concretizar, desconsiderando os possíveis efeitos que sua ação presente pode causar e o fato de que respostas rápidas e eficazes em reconhecer ameaças podem evitar crises, garantindo que elas não se materializem totalmente.

12.    O sábio demonstra domínio próprio

Em Provérbios, os sábios se identificam particularmente por meio de seus corações, enquanto os tolos se identificam por meio de suas bocas. O coração é um reino de meditação, reflexão e deliberação. É o lugar onde se ponderada e se avalia antes de se expressar em palavras ou ações. O tolo, por sua vez, não possui o domínio do seu coração e é definido por seus impulsos desgovernados, especialmente no discurso e temperamento. A agressividade do tolo surge, em parte, disso. Na falta de um coração controlado, ele se sente ameaçado pela proximidade de opiniões divergentes e carece da humildade para aprender e ser corrigido. Então, ele precisa lutar.

O tolo, por conta de sua falha marcante em considerar e se preparar para as incertezas do futuro, também se coloca em uma posição em que a reação aos eventos é muitas vezes a única opção que lhe resta. O sábio, ao reconhecer a incerteza do futuro e se preparar para diversas eventualidades, consegue muito mais tempo e flexibilidade de resposta quando crises improváveis ocorrem.

O sábio internaliza as vozes de muitos conselheiros sábios em seu coração, sendo capaz de se dar o tipo de conselho que considera diferentes pontos de vista. O tolo, por sua vez, tem apenas um monólogo interno, e não aprendeu a ser sábio consigo mesmo.

O domínio próprio do sábio reconhece as muitas formas em que nosso pensamento tende a funcionar como autorracionalização, se não administrado corretamente. Muitas vezes nosso pensamento é dirigido pelas nossas paixões. Uma das coisas mais preocupantes que testemunhamos foi o sequestro dos discursos sobre o coronavírus pelas paixões do partidarismo político, algo que tem sido especialmente evidente no contexto americano. Ao invés de buscar a verdade de forma imparcial e colaborativa, tudo se dissolveu em guerras culturais. Enquadra-se a questão pelo contraponto das pessoas ruins ou estúpidas do outro lado do espectro político. As pessoas são dominadas pela necessidade de resistir à concessão de qualquer ponto às pessoas que desgostamos ou de manter a veracidade e presciência do nosso lado ou ideologia. Toda reflexão valiosa será rapidamente asfixiada nesse contexto.

Talvez a maior parte do pensamento sábio se deva ao domínio próprio. Upton Sinclair — pelo menos a citação é tipicamente atribuída a ele — comentou: “É difícil fazer um homem entender algo, quando o seu salário depende de ele não entender isso!” O raciocínio enviesado é um problema imenso em uma situação que, por exemplo, se persuadir da legitimidade de medidas radicais para combater o vírus colocaria em risco o seu sustento, perturbaria a sua ideologia política ou iria contra seus instintos ou tendências de personalidade. O pensamento correto exige que investiguemos cuidadosamente nossas motivações e nos protejamos contra desvios da nossa opinião por conta delas.

O domínio próprio é especialmente importante em contextos antagônicos e carregados, onde nossos pensamentos podem ser puxados para antagonismos reativos. Quando isso acontece, logo perdemos a capacidade de ouvir e ponderar corretamente a crítica dos outros. Devemos vigiar a nós mesmos de perto: no momento em que nos envolvemos em debates com o intuito de provar que o outro lado está errado, por exemplo, caímos em um perigo real de começar a priorizar a vitória do nosso lado ou a derrota do outro lado em detrimento da busca pela verdade. É importante que busquemos e/ou criemos contextos — seja na solitude, longe das paixões da mídia e cenários social e emocionalmente carregados, ou no discurso de boa-fé entre pessoas de perspectivas divergentes — em que o verdadeiro teste do nosso pensamento possa acontecer. Nesses contextos podemos genuinamente ponderar e considerar posições de vários lados e chegar calmamente a opiniões estruturadas. As paixões do partidarismo que influenciam a maioria das pessoas hoje tornaram a verdadeira reflexão quase impossível.

Se você perceber que um contexto em que você está se dirige por antagonismos ideológicos e políticos e suas paixões concomitantes, de modo a evitar uma autorreflexão crítica, detalhada e contínua, eu fortemente sugiro que você se afaste. Será difícil pensar claramente nesse contexto, já que as suas próprias tendências antagônicas instintivas entrarão em ação e a autorracionalização rapidamente tomará o lugar da busca pelo autoconhecimento crítico. É bem difícil pensar claramente quando você está obcecado com as pessoas que estão erradas na Internet. Afaste-se da droga da catarse ao atacar posições opostas a sua. Coloque sua máscara primeiro: se acalme, clareie sua mente, domine suas emoções, se dê espaço e preste atenção, buscando descobrir os pontos fortes e fracos nas diversas perspectivas em uma atmosfera muito menos carregada.

Obviamente, realizar isso exige o desenvolvimento de um “coração” forte para meditar, refletir e deliberar longe das paixões intrusivas do seu ambiente e sociedade. Isso exige a internalização de uma multidão de vozes que possam abalar a sua perspectiva. Isso exige desenvolver a tranquilidade necessária para estar cercado de pessoas com opiniões fortemente contrárias, sem se sentir ameaçado por elas. Quando as pessoas carecem desse “coração” e do domínio próprio que ele manifesta, o pensamento não escapará da tirania das paixões.

13.    O tolo segue o rebanho

O tolo busca companhia e tentará encontrar ou criar uma proteção social contra perspectivas desagradáveis que lhe desafiem. O escárnio e desprezo, mencionados acima, geralmente são feitos em companhia. O tolo se cerca de pessoas que confirmam suas crenças e rotineiramente tenta afastar de seus grupos sociais pessoas que discordem de suas visões. As crenças, valores e pontos de vista do tolo raramente divergem muito do seu grupo, que tipicamente é uma tribo ideológica projetada para protegê-lo da exposição genuína e ponderada à diferentes opiniões inteligentes ou ao tipo de solidão no qual ele possa formar em sua própria mente. Ele nunca se esforçou por longos períodos para desenvolver uma interioridade marcada pela reflexão e meditação solitárias ou pela introspecção. Assim, ele geralmente carece dos recursos para responder ao invés de apenas reagir. Quando o rebanho pisa, o tolo pisa com eles, achando difícil se afastar das paixões contagiosas daqueles que o cercam.

14.    O sábio reconhece que a verdade é cosmopolita

Uma das características importantes da sabedoria é o seu cosmopolitismo. A literatura de sabedoria da Bíblia é relacionada a um projeto sapiencial antigo maior e inclui vozes não israelitas como vozes de sabedoria, tanto inspirada quanto não inspirada. A literatura de sabedoria não é uma revelação direta, única e exclusiva para Israel, mas, em sua grande parte, reflexões inspiradas sobre realidades comuns à toda humanidade — o mundo e os eventos, pessoas e realidades dentro dele. Os egípcios, babilônicos, gregos, romanos e muitos outros pagãos sensatos também estavam engajados na tarefa da sabedoria, e os israelitas poderiam aprender com eles, mesmo que as suas literaturas de sabedoria não tivessem a mesma natureza inspirada que a de Israel. A sabedoria de Salomão é corretamente comparada com a sabedoria de outros homens do Oriente e pessoas de outras nações que foram ouvi-lo, ao mesmo tempo em que reconheciam a sagacidade e discernimento de Salomão da realidade. Mas o povo de Deus nunca teve monopólio sobre a sabedoria prática obtida através do engajamento reflexivo com a realidade, a qual é propriedade comum da humanidade, embora seja absorvida em diferentes graus.

Algumas das marcas desanimadoras de muitos contextos cristãos são: a mentalidade fechada e defensiva; o fracasso em interagir receptivamente e aprender com não cristãos inteligentes; e o quanto o seu pensamento é conduzido pelo antagonismo e estreitamento político e ideológico (veja os comentários de Alan Jacobs sobre isso).

Eu conheço pouquíssimos cristãos que estiveram à frente e profundamente informados sobre a crise do coronavírus logo no início. Eu já estava alerta com sua seriedade desde o primeiro mês do ano — comprei máscaras no dia 24 de janeiro — porque seguia um amplo espectro de vozes fora do raio ideológico que pode dominar os discursos dos cristãos e da nossa sociedade (discursos que são extensivamente emaranhados), que muitas vezes brincam com os impulsos da tolice. Por causa da forma na qual eles são estruturados e promovidos, esses discursos funcionam mais para prender as pessoas em ideologias partidárias que aliviam seu desconforto do que para reconhecer as limitações do seu conhecimento e a contestabilidade das suas crenças e comportamentos do que expor o difícil desafio da verdade às pessoas.

Uma grande quantidade de vozes das quais eu tenho me beneficiado e aprendido, muito mais do que tenho da grande maioria dos cristãos que eu sigo, vem de várias perspectivas nitidamente contrárias, com as quais eu possuo diferenças bem profundas — racionalistas, tecno-futuristas, neoliberais, ateus, psicólogos evolucionários, direita alternativa, cristãos liberais, judeus, hereges dos mais diversos tipos, feministas de várias vertentes, marxistas, pós-modernistas, progressistas, teóricos de raça, neorreacionários, etc. No entanto, visto que muitos deles estão rigorosamente engajados com aspectos específicos da realidade comum do mundo de formas que poucos cristãos estão, vale a pena ouvir e aprender com eles. Cristãos que são guiados por uma mentalidade fechada e estreita podem ficar tão preocupados em definir como essas posições estão erradas e por que deveríamos rejeitá-las que raramente param para considerar se elas podem estar vendo coisas que não estamos.

Um número altamente desproporcional desses interlocutores tem sido chamado de “grandes dissociadores,” pessoas que são capazes de colocar um parênteses — sem necessariamente negligenciar ou rejeitar — nas desagradáveis conotações emocionais, ideológicas, morais, sociais e políticas de suas ideias a fim de avaliar rigorosamente o valor real delas. Muitas dessas vozes têm sido suprimidas pelos nossos discursos públicos e institucionais, visto que elas são mais comprometidas ao engajamento rigoroso com a realidade do que são com lealdade ideológica, ou com a evitação do desconforto ou ofensa. Essa é uma das razões do porquê as pessoas envolvidas nos discursos culturais dominantes estiveram alheias ao coronavírus por tanto tempo. O vírus não se encaixa em nenhuma das questões partidárias — ele não é sobre justiça social, o Trump, o Brexit, o feminismo, o transgenerismo, etc. Ele exige uma postura atenta e humilde a uma realidade que excede nossas narrativas, categorias e preocupações. As posturas ideológicas opinativas que são tão atrativas para o tolo simplesmente não estão esquipadas para compreender isso.

E é interessante ver como um senso de realidade comum pode juntar um grupo tão diverso apesar de grandes diferenças. Embora haja perigos reais e importantes em abandonar a preocupação com as conotações de ideias — visto que pensar sobre ideias nunca é apenas uma reflexão desapegada da realidade, mas sempre é investida na tarefa de agir dentro da realidade — essa dissociação tem o feito de recuar muitos dos impulsos instintivos da tolice, para a qual as conotações e associações das ideias são rotineiramente usadas para descartar todo desafio indesejável.

Quando lidamos com essas vozes, devemos reconhecer que a tarefa da sabedoria não é segura de forma alguma. Muitas vezes aprenderemos com serpentes, ao mesmo tempo que resistiremos imitar o seu caráter. Nossos interlocutores podem acreditar em ideias profundamente voláteis e perigosas, e é preciso astúcia para discernir seus erros e lidar com crenças e ideias mais voláteis — porém, potencialmente verdadeiras — com o cuidado apropriado. Precisaremos determinar se realmente somos maduros o suficiente para interagir com elas mais diretamente. Ainda assim, é melhor um cuidado moderado no perigoso caminho da sabedoria do que a abordagem daqueles que, mesmo continuando presos em um grupo ideológico, sem o engajamento real com os desafios, erroneamente pensam que estão envolvidos com a busca da sabedoria.

Um dos problemas que os cristãos enfrentam na crise do coronavírus é o fato dos seus “contrapúblicos subalternos.” — escolas, universidades e outras instituições — os enclausurarem contra um mundo mais amplo de acadêmicos, políticos e outros influenciadores, de forma a limitar bastante a sua confiança e redes de informação. E a dissociação da educação pastoral do mundo maior da universidade — um corpo institucional do cosmopolitismo e unidade da sabedoria — também não ajuda. Para muitos leigos, seus pastores serão seus guias naturais em como se relacionar a várias posições políticas e acadêmicas. Se os pastores são educados em um casulo ideológico, com pouca exposição às pessoas de fora, eles podem incentivar a desconfiança em autoridades e especialistas, além de atrofiar as redes de informação da sua congregação.

15.    O sábio honra e se submete às autoridades

Como Oliver O’Donovan observa, “uma autoridade é de quem eu dependo para me mostrar as razões para agir.” (The Ways of Judgment. Grand Rapids, MI: Eerdmans. 2005, p. 131). Como ele desenvolve:

“Onde a autoridade está, ali a liberdade também está; e onde a autoridade se perde, a liberdade também se perde. Isso vale para todos os tipos de autoridade. Sem adultos que exigem comportamento maduro, a criança não é livre para crescer; sem professores para estabelecer padrões de excelência, os estudantes não são livres para se destacar; sem profetas para encorajar ideais de virtude, a sociedade não é livre para realizar seu bem comum. Estar sob autoridade é ser mais livre do que ser independente” (p. 132).

A sabedoria começa com o temor do Senhor e a honra aos pais, com a postura humildade e submissa apropriada e o reconhecimento da autoridade. A pessoa simples não sabe como agir corretamente, mas a submissão aos pais e a outras autoridades o capacita a agir sabiamente, mesmo sem uma compreensão interna da razão para tal conduta.

Se não temos essas autoridades, nossa capacidade para sabiamente seria drasticamente reduzida. Quando cada homem faz o que é certo segundo seus próprios olhos, ele pode agir com certo grau de sabedoria apenas dentro dos horizontes da sua própria vista. Contudo, em uma sociedade com boas autoridades, é muito mais fácil ordenar as ações das pessoas para fins sábios e bons. E todo mundo pode ser mais livre como resultado. Leis de segurança alimentar, por exemplo, me libertam para comer minha refeição com certa confiança que não seria possível em uma sociedade sem autoridades eficazes e sábias, que supervisionam essas questões para seus cidadãos.

O sábio reconhece os limites da sua visão e a importância da submissão às autoridades, o que pode estender o escopo da realidade para o qual suas ações são bem ordenadas. Tolos, por sua vez, odeiam se submeter às autoridades que estão acima deles. Eles são orgulhosos e insubordinados e apenas apreciam autoridades quando apoiam suas preferências. Eles saltarão para a desobediência, resistência e oposição às autoridades, enquanto instintivamente rejeitam que elas podem saber muito mais do que eles.

A submissão às autoridades não precisa ser cega. Autoridades podem ser provadas através do seu caráter visível. O músico virtuoso que desenvolveu as habilidades que reivindica ensinar aos outros tem uma autoridade visível que alguém que não exibisse essas habilidades não teria. A submissão às autoridades pode ser encorajada pelo reconhecimento de que eles são investidos e preocupados com o nosso bem. O filho sábio vê no amor dos seus pais uma garantia para a submissão confiante.

Autoridades saudáveis frequentemente darão razões para as obrigações que impõem sobre as pessoas. Uma autoridade não depende, para sua legitimidade, do fornecimento de uma justificativa para o subordinado (e o “mas por quê!?” desafiador pode ser uma resposta comum do desobediente), nem do entendimento do subordinado. Ainda assim, a boa autoridade está preocupada em ser examinável, racional e, quando possível, aberta ao cumprimento voluntário e maduro através da prática de persuasão daqueles prontos a recebê-la. Por fim, as boas autoridades podem provar a si mesmas através do seu histórico, demonstrando os resultados da sabedoria ao longo do tempo.

De todo modo, até quando confrontados com autoridades profundamente imperfeitas, os sábios reconhecem a importância da submissão. Ela não exige uma concordância ou aceitação incondicional. Há maneiras submissas de levantar questionamentos e preocupações, de pedir reconsideração às autoridades ou negociar com elas. Essa interação submissa com as autoridades também tende a iluminar o verdadeiro caráter delas. O sábio deseja entender as razões para as obrigações postas sobre ele pela autoridade, mas é humilde o suficiente para não exigir essas razões por reconhecer a legitimidade da autoridade e sua necessidade de se submeter a ela. A perda da autoridade sobre nós e o surgimento de uma situação em que todos fazem o que é certo segundo seus próprios olhos é uma situação perfeita para os tolos.

Naturalmente, a tolice, sendo inclinada à rebelião e à insubordinação, julga mal a autoridade. O tolo presume que as autoridades não se preocupam com o seu povo ou o bem comum; resiste em reconhecer a sabedoria dos outros; ama rejeitar a competência de qualquer um acima dele; e viram os olhos da forma mais preconceituosa ao avaliar o histórico de qualquer autoridade. Em contrapartida, os sábios operam com a presunção em favor da autoridade que é exibida ao longo da Escritura. Os sábios se deleitam na boa autoridade; buscam a autoridade, esforçam-se para se submeter à autoridade da melhor maneira possível; e desejam ver e encorajar o bem nelas sempre que possível.

Onde há grande desconfiança ou mesmo paranoia em relação às autoridades, ou quando uma valorização radical da autonomia individual ou da família leva a uma resistência às autoridades superiores, o grau em que a sabedoria é alcançável — ou o grau em que as pessoas podem viver nos termos dela — pode ser bastante reduzido. Um problema aqui é que muitas pessoas não possuem conexões pessoais significativas com pessoas no governo, na academia e nas várias formas de campos específicos. E muitos sentem um senso parcialmente justificável de que as pessoas nesses contextos não são confiáveis, que elas não têm os melhores interesses em seus corações. A perda de instituições mediadoras realmente tem um impacto aqui, visto que elas servem para nutrir a confiança nos governados e exigir maior confiabilidade daqueles que governam.

Redes de autoridade estão relacionadas a redes de confiança e informação. A crise do coronavírus tem servido para revelar quão estreitas, rasas, homogêneas e binárias as redes de autoridade, confiança e informação de muitos cristãos são. Nessas redes, o peso da confiança parece repousar bastante sobre algumas poucas autoridades dominantes importantes, que podem oferecer segurança através da sua projeção da confiança e certeza extremas. No entanto, uma rede de confiança saudável é mais parecida como o sistema de raízes de uma árvore, que suporta o seu vasto tronco com uma ampla e diversificada distribuição de peso na rede de raízes. Nenhuma das raízes seria suficiente para suportar o peso do todo. Essa distribuição ampla significa que não estamos colocando muito peso em uma parte específica. Significa que algumas partes podem falhar sem que tudo caia.

Um problema característico do evangelicalismo em alguns círculos é sua oscilação entre a desconfiança paranoica e níveis extremos de credulidade (o que é solo fértil para toda sorte de teorias da conspiração, modismos de saúde, e assim por diante), uma dinâmica que muitas vezes resulta em alienação e isolamento social. Seja o governo e políticos, escolas, estabelecimentos científicos ou médicos, a “elite secular” ou qualquer outra coisa, os níveis de suspeita podem ser extremos, levando os evangélicos a colocarem um peso excessivo sobre as opiniões e especialidades de pessoas em seus próprios círculos estreitos, muitos dos quais simplesmente não sabem o que estão falando e têm poucas vozes de apoio suficientes para dar um peso real a suas opiniões.

* * *

Retornando ao ponto que eu comecei, é essencial estender nossos círculos de conselheiros, para que não coloquemos muito peso em certo especialista ou lado. Devemos nos dedicar a desenvolver o cosmopolitismo da sabedoria. Devemos realmente ouvir as vozes que estão fora dos nossos campos e fazer de forma caridosa, não apenas encontrar alguma razão para rejeitá-las. Na multidão de conselheiros, seremos afastadas do nosso desejo por gurus infalíveis. Seremos capazes de extrair muito mais discernimento a partir de muitos sábios que possuem diversos defeitos em uma conversa honesta do que de apenas um sábio, ainda que tenha menos defeitos.

Acredito que cristãos também precisam pensar cuidadosamente sobre algumas das formas nas quais nossa capacidade de sabedoria tem sido reduzida pela nossa dependência excessiva das instituições do nosso próprio “lado” cristão e pelo distanciamento delas de uma sociedade muito maior, onde somos cotidianamente expostos a desafios. Talvez uma das maiores verdades da sabedoria é que nossa capacidade para a sabedoria reside, não tanto no nosso poder ou capacidade cerebral, mas em um espírito controlado e em um sistema fundacional extenso e cuidadosamente gerenciado da confiança, autoridade e informação, a que podemos recorrer e por meio do qual podemos nos basear em ideias provenientes de diversas fontes. Precisamos estender nossas redes de confiança, autoridade e informação, distribuindo o peso delas de forma mais equilibrada. Devemos dominar nossos espíritos — mantendo a calma, buscando a paz com os outros quando possível e nos dedicando à busca da verdade, e não do conflito.

Ao se esquecerem dessas coisas, muitos cristãos acabaram tomando o caminho dos tolos.


Por: Alastair Roberts. © Alastair Roberts. Website: https://alastairadversaria.com/2020/05/02/wisdom-and-folly-in-christian-responses-to-coronavirus/. Traduzido com permissão. Fonte: Wisdom and Folly in Christian Responses to Coronavirus, 2 de maio de 2020.

Original: Sabedoria e tolice nas respostas cristãs ao Coronavírus. © The Pilgrim. Website: thepilgrim.com.br. Todos os direitos reservados. Tradução: David Brum. Revisão: Guilherme Cordeiro Pires.

O ponto de vista deste texto é de responsabilidade de seu(s) autor(es) e colaboradores direito, não refletindo necessariamente a posição da Pilgrim ou de sua equipe de profissionais.

Imagem: “Sabedoria e tolice”. Desenho de Ruby Lindsay

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