Desafio de leitura Pilgrim para 2022 #PilgrimChallenge

Karen S. Prior afirma: “por meio da leitura ampla, voraz e indiscriminada, aprendi lições espirituais que jamais aprendi na igreja ou na escola dominical, bem como lições emocionais e intelectuais que jamais teria encontrado na minha vivência até aqui”.

Porém, provavelmente você gostaria de ter uma leitura assim, mas não tem tempo de ler mais ou melhor. E é por isso que fazemos o Pilgrim Challenge.

O Pilgrim Challenge é um desafio para ajudar você ler mais e melhor em 2022. A sua leitura será incrementada não só por você determinar uma meta de quantidade de livros, mas também por se diversificar. Você se verá forçado a ler livros que você nunca escolheria naturalmente. Lendo o que você nunca leria sozinho, você pode acabar aprendendo o que você nunca descobriria sozinho.

O desafio está dividido em cinco listas, que correspondem ao grau de dificuldade, intensidade e diversidade das leituras. As listas maiores incorporam os itens das menores.

  • INFLAGEM: total de 13 livros, com uma média de 1 livro a cada 4 semanas.
  • DECOLAGEM: total de 17 livros, com uma média de 1 livro a cada 3 semanas.
  • SUBIDA: total de 26 livros, com uma média de 1 livro a cada 2 semanas.
  • AVENTURA: total de 52 livros, com uma média de 1 livro a cada 1 semana.
  • EXPEDIÇÃO: total de 104 livros, com uma média de 2 livros a cada 1 semana.  

Caso um livro se inclua em mais de uma categoria, escolha apenas uma. Não há uma ordem dentro de cada lista. Você pode escolher um plano para seguir até o final do ano ou ir avançando aos poucos a partir do primeiro deles. Não se sinta pressionado a ler um livro no exato período de tempo proposto, o que importa é alcançar a meta final do desafio escolhido.

Colocamos ideias diferentes para cada livro. Sinta-se livre para adaptar a lista de acordo com os seus interesses e recursos. Você pode adotar alguma das seguintes alternativas:

  • Divida a lista com a sua família, de forma que cada um fique responsável com uma categoria durante determinado período de tempo. Compartilhem o que vocês aprenderam com cada livro e recomendem a sua melhor leitura no final do ano.
  • Comece a ler conforme for mais adequado para o seu tempo. De acordo com o número de semanas que você levar para terminar esse livro, escolha o plano correspondente.
  • Termine o primeiro livro que você escolher o mais rápido possível. De acordo com o número de semanas que você levar para terminar esse livro, escolha o plano correspondente.
  • Ignore a quantidade de livros proposta a cada plano e simplesmente monte um plano próprio escolhendo as categorias mais desafiadoras para você.
  • Divida a lista com a sua igreja ou pequeno grupo, de forma que cada um fique responsável com uma categoria durante determinado período de tempo. Escrevam resenhas e elejam o melhor livro da sua igreja ou pequeno grupo no final do ano.

Porém, não se esqueça de que o propósito dela é ser desconfortável para você, em algum nível. Afinal, é isso que desafio significa.

Baixe aqui!

Confie, corra e descanse (Jordan Raynor)

“Não digam, pois, em seu coração: ‘A minha capacidade e a força das minhas mãos ajuntaram para mim toda esta riqueza’. Mas, lembrem-se do Senhor, o seu Deus, pois é ele que dá a vocês a capacidade de produzir riqueza, confirmando a aliança que jurou aos seus antepassados, conforme hoje se vê” (Deuteronômio 8:17-18, NVI).

“Correria” deve ser um dos jargões mais populares na cultura de startup atualmente. Investidores (aqueles tipo do Shark Tank) pressionam os empreendedores a “correr” mais para gerar vendas. Todo mundo parece estar correndo com o seu “freela” ao lado de seu trabalho regular. Mas o que a Bíblia diz sobre a nossa correria? Por um lado, a Escritura claramente celebra o trabalho duro. Colossenses 3.23 ordena: “Tudo o que fizerem, façam de todo o coração, como para o Senhor, e não para os homens”. Mas, embora os cristãos possam concordar com a celebração cultural do trabalho duro, também precisamos lidar com a verdade bíblica de que é Deus, e não nossa correria, que produz resultados (Dt 8.17-18). Como cristãos, precisamos abraçar a tensão entre trabalho duro e confiar em Deus a fim de encontrar verdadeiro descanso. 

Josué 6 oferece um exemplo excelente do que seria abraçar bem esta tensão. Embora os israelitas estejam sendo levados por Josué à Terra Prometida, eles chegam a um grande impasse: a aparentemente impenetrável cidade de Jericó. Como Josué 6.2 relata, “Saiba que entreguei nas suas mãos Jericó, seu rei e seus homens de guerra”, mas, em vez de dar a Josué e aos israelitas uma força e uma destreza sobre-humanas para conquistarem Jericó sozinhos, Deus exigiu que colocassem uma quantia insondável de confiança nele. Deus instruiu Josué a conduzir os israelitas numa marcha de sete dias ao redor de Jericó, concluindo com um grito ensurdecedor contra as muralhas da cidade.

Como tantas outras vezes na história, Deus escolheu usar “as coisas tolas do mundo para envergonhar as sábias”. Ao invés de permitir que Josué e os israelitas vencessem a batalha com sua própria força, Deus fez um plano para garantir que somente ele teria a glória. Antes de dar a vitória aos israelitas, Deus pediu que eles confiassem nele para prover. Sem piscar, Josué fez exatamente isso. Os israelitas confiaram no plano de Deus. Então, eles correram: marchando, soprando suas trombetas e gritando até que a muralha de Jericó ruiu.

É claro, não foi a marcha, o grito e o correr dos israelitas que derrubaram a muralha de Jericó. Foi Deus. E é exatamente isso que eu acho que Deus quer que os israelitas e nós vejamos. O nosso trabalho duro é bom! Mas crer que nossa correria é a responsável por resultados em nosso trabalho deve ser como os israelitas acreditarem que foi o grito deles que destruiu uma fortaleza impenetrável. 

Como Josué e os israelitas nos mostram, não deveríamos buscar resolver a tensão entre confiar e correr; na verdade, devemos abraçá-la. Essas ideias não se contradizem, elas se casam. Mas, como Salomão disse em Provérbios 16, há uma sequência entre confiar e correr que honra ao Senhor e nos dá verdadeiro descanso. É esta passagem que veremos a seguir.

O que Salomão tem a dizer sobre confiar em Deus em nosso trabalho

“Consagre ao Senhor tudo o que você faz, e os seus planos serão bem-sucedidos” (Provérbios 16.3, NVI)

Por toda a Escritura, lemos que é Deus, e não nós, que produz os resultados por meio de nosso trabalho. Por exemplo, 1Crônicas 29.12 diz: “A riqueza e a honra vêm de ti; tu dominas sobre todas as coisas”. Numa era em que qualquer um pode começar uma empresa, escrever um livro ou gravar um podcast, pode ser tentador pensar que é a nossa correria que produzirá resultados por meio de nossos esforços. Como veremos a seguir, Deus ordena que trabalhemos e usa nosso trabalho duro para produzir resultados por meio de nós. Mas, ao começarmos uma nova empreitada, precisamos começar por reconhecer o fato indisputável de que os resultados se devem, em última instância, ao Senhor.

Em Provérbios 16, Salomão traça uma sequência de confiar, correr e descansar que deveria marcar toda empreitada que cristãos lançam. No terceiro versículo da passagem, o homem mais sábio que já viveu ordena: “Consagre ao Senhor tudo o que você faz, e os seus planos serão bem-sucedidos”. Então, antes de corrermos, devemos consagrar nosso trabalho ao Senhor. Como seria isso, na prática?

Para começar, decoraríamos versículos assim para nos lembrar continuamente de que é Deus, e não nós, que produz os resultados. Em segundo lugar, nós consagramos o nosso trabalho ao Senhor quando oramos e verbalizamos nossa confiança nele. Finalmente, além de verbalizar nossa confiança em Deus para nós e para Deus, é importante verbalizarmos essa confiança aos que estão ao nosso redor. Numa cultura que celebra a capacidade de “andar com as próprias pernas”, nós cristãos seremos separados do mundo quando explicitamente reconhecermos que é Deus, e não nós, que é responsável por produzir resultados por meio de nosso trabalho.

Porém, como veremos a seguir, confiar é apenas uma peça do quebra-cabeças. A fim de sermos instrumentos efeitos nas mãos de quem nos chamou, devemos correr atrás em nossa vocação.

Levante e corra

“Em seu coração o homem planeja o seu caminho, mas o Senhor determina os seus passos” (Provérbios 16.9, NVI)

Estamos explorando a tensão que precisamos abraçar como cristãos em nosso trabalho: entre confiar em Deus e correr para fazer as coisas acontecerem em nossa vocação. Como vimos anteriormente, Salomão estabelece uma sequência para orientar nosso pensamento aqui, começando com a consagração de nosso trabalho ao Senhor (Provérbios 16.3). No versículo nono do mesmo capítulo, Salomão nos exorta a correr, dizendo: “Em seu coração o homem planeja o seu caminho, mas o Senhor determina os seus passos”.

Sim, Deus nos chamou para confiarmos nele, mas ele também graciosamente nos deu nossas mentes para planejarmos e executarmos. Depois de consagrarmos nosso trabalho ao Senhor, somos chamados a correr, a trabalhar “de todo o coração, como para o Senhor” (Colossenses 3.23).

Muitas vezes, temo dizer que nós cristãos focamos demais em ou confiar ou correr. Alguns cristãos usam a ideia de “esperar no Senhor” como uma desculpa para uma preguiça antibíblica, enquanto outros correm tanto que acabam perdendo saúde física, espiritual e emocional. A beleza de Provérbios 16.9 é que o texto claramente abençoa a tensão entre essas duas verdades. Sim, precisamos reconhecer que “o Senhor determina” os nossos passos, mas também é bom e legítimo “planejar o nosso caminho”, montar, construir, desenvolver, estruturar, pintar, inovar, escrever, promover e vender.

O nosso trabalho é uma das formas primárias pelas quais amamos nosso próximo e servimos ao mundo. Lembre-se, o trablaho existia antes da queda no Jardim do Éden. O trabalho é um bem intrínseco planejado por Deus para revelar seu caráter, amor e para servir ao próximo. Por causa disso, a ambição em nosso trabalho como motivação de nossa correria pode ser boa. Mas, como veremos a seguir, é somente quando nossa correria é acompanhada por confiar em Deus que encontramos verdadeiro descanso.

A cura da inquietude

“A sorte é lançada no colo, mas a decisão vem do Senhor” (Provérbios 16.33, NVI)

Vimos que confiar é o ato difícil, mas simples, de reconhecer que não somos responsáveis por produzir resultados por meio de nosso trabalho — Deus é o responsável. Depois de darmos esse primeiro passo tão importante, é certo correr, suando com nossos talentos dados por Deus para cumprir nossa vocação. Mas como sabemos que estamos tanto confiando quanto correndo? Correr é fácil de saber. Basta olhar a caixa de entrada de nosso email, nossas listas de afazeres e nossas mentes agitadas. Mas como sabemos que estamos verdadeiramente confiando em Deus, ao invés de nós mesmos, para produzir os resultados? Talvez o melhor indício é se estamos descansando ou não. 

Descanso é o que todos restamos buscando. Não demora muito para perceber que descanso significa mais do que passar mais tempo fora do escritório. Com a linha entre trabalho e lar cada vez mais tênue, pode parecer impossível se desconectar física e mentalmente das demandas da produtividade incessante. Mesmo quando estamos em casa, checamos nossas mensagens, email, Instagram, agenda, etc. É o que sempre fazemos. Estamos inquietos. 

Como podemos encontrar o descanso que tão desesperadamente ansiamos? Santo Agostinho dá a resposta: “os nossos corações estão inquietos, até encontrarem descanso em ti”. Nós não teremos descanso até que repousemos em Cristo somente. Isso significa que, embora certamente devamos correr, precisamos primeiro confiar no Deus que, ao longo da história, foi fiel para prover para o seu povo. Se podemos confiar no caráter de Deus e guardar bem os talentos que ele nos deu, podemos descansar sabendo que os resultados estão nas mãos dele, que ele está no controle e está fazendo tudo cooperar para nosso bem. Nas palavras de Salomão em Provérbios 16.33: “A sorte é lançada no colo, mas a decisão vem do Senhor”.

Esse é o único caminho para o verdadeiro e profundo descanso comportamental, mental e espiritual, e começa com nossa submissão à arte pintada por Deus do sábado. Nas palavras de Timothy Keller: “Podemos pensar no sábado como um ato de confiança. Deus fez o sábado para nos lembrar de que ele está trabalhando e descansando. Praticar o sábado é uma forma disciplinada e fiel de lembrar que não somos quem mantém o mundo de pé, quem provê para a família, nem mesmo quem faz os projetos de trabalho andarem”.

Por que é tão importante gerir bem a tensão entre confiar e correr? Porque, no final das contas, quando confiamos em nossa correria do que em Deus, estamos ou tentando ser Deus ou roubar a glória dele, e de todo modo estamos inquietos. Cristão, anime-se! Esses mandamentos bíblicos não estão em conflito entre si. Você foi chamado a confiar em Deus e trabalhar duro. E, quando abraçamos essa tensão, podemos descansar bem sabendo que estamos na parceria correta com Aquele que nos chamou.


Por: Jordan Raynor. Website: https://jordanraynor.com/twbw/#carpenter. © Jordan Raynor, 2021. Traduzido com permissão. Fonte: Trust, hustle and rest

Original: Confia, corra e descanse. © The Pilgrim. Website:  thepilgrim.com.br. Todos os direitos reservados. Tradução: Guilherme Cordeiro Pires.

O ponto de vista deste texto é de responsabilidade de seu(s) autor(es) e colaboradores direito, não refletindo necessariamente a posição da Pilgrim ou de sua equipe de profissionais.

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Procurei por amor nos teus olhos

Nota do editor: este poema foi feito por uma autora anônima, que sofria com um marido viciado em pornografia, e publicado no blog de Tim Challies, como indicado ao fim.

Guardei para ti o meu melhor.
As outras garotas podem ter se entregado,
Mas eu acreditei no sonho.
Um marido e uma mulher, unidos num só para sempre.

Nervosa, da primeira vez, precisando da segurança do seu amor,
Procurei-o em teus olhos
Poucos centímetros do meu.
Mas o que vi fez minha alma correr e se esconder.

Para longe fora a gentileza que eu conhecia,
Vi um estranho, frio e duro,
Distante, mau, revoltante.
Procurei o amor nos teus olhos
E minha alma chorou.

Quem sou eu, para não fazer amor comigo?
Por que eu sinto como se eu nem estivesse aqui?
Eu não importo.

Sou um joguete numa brincadeira devassa.

Não um objeto de gentil devoção.

Onde está você?

Vão-se os anos
Mas a dureza em teus olhos não.
Você pensa que sou fria
Mas como posso me aquecer para olhos que estão fazendo ódio com outra
Ao invés de fazer amor comigo?

Eu sei onde você está.
Eu vi as fotos.
Agora eu sei o que precisa para chamar tua atenção.
Mulheres… pessoas como eu
Torturadas, humilhadas, odiadas, usadas,
Descartadas.
Imagens marcadas com fogo no teu cérebro.
Como você pensou que elas não se mostrariam nos teus olhos?

Será que você imaginou
A primeira vez que você pegou uma imagem imunda
Que você estava condenando toda intimidade entre nós,
Naufragando nosso casamento,
Quebrando o coração de uma esposa que você conheceria anos depois?

Se tivesse parado aí, eu o suportaria.
Mas você trouxe o mal para dentro da nossa casa
E os nossos pequenos o acharam.
Seis e oito anos.
Eu os ouvi rindo, eu os encontrei olhando com cobiça.

Mãos atadas, bocas amordaçadas.
Lente de olho-mágico, contorcendo a realidade,
Transformando a mulher distorcida em seios exagerados.
Os olhos assombrados, janelas a uma alma atormentada,
Empenados pela foto para sumirem no pano de fundo,
Porque almas não importam, só corpos
Para que os homens os consumam.

Os meninos,
Meus meninos,
Rindo e cobiçando a tortura sexual
De uma mulher, uma mulher como eu.

Uma imagem marcada com fogo em seus cérebros.

Será que a alma de suas esposas terá que correr e se esconder como fez a minha?
Quando isso vai acabar?

Posso te dizer uma coisa. Na sua alma não acabou.
Isso te devorou. É um câncer.
Você acha que pode viver numa dieta à base de ódio
E sair do seu quarto recluso para amar?

Você diz as palavras, mas o amor não tem peso na sua boca
Quando o ódio governa seu coração.
Sua crueldade devorou cada vestígio do homem
Com quem eu pensei que tinha me casado.
Será que você já sonhou que ele te consumiria de tal maneira
Que sua esposa e filhos teriam que viver com medo de sua ira?

É isso que você se tornou
Alimentando sua alma com veneno.

Nunca usei pornografia.
Mas ela devastou meu casamento, minha família, meu mundo.

Valeu a pena?


Por: anônima. Website: https://www.challies.com/quotes/i-looked-for-love-in-your-eyes/ © Tim Challies, 2010. “I looked for love in your eyes”.

Original: Procurei por amor nos teus olhos. © The Pilgrim. Website:  thepilgrim.com.br. Todos os direitos reservados. Tradução: Arthur Guanaes.

O ponto de vista deste texto é de responsabilidade de seu(s) autor(es) e colaboradores direito, não refletindo necessariamente a posição da Pilgrim ou de sua equipe de profissionais.

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Como a pornografia nos desumaniza (Matthew Lee Anderson)

“Meu pai costumava dizer que, se não fosse pela pornografia, ele teria se tornado um serial killer”, Christ Offutt certa vez escreveu no The New York Times.

Segundo a história de Offutt, seu pai era tanto um consumidor ávido quanto um criador dessa tenebrosa mídia, que o tornou um dos romancistas pornográficos americanos mais prolíficos da década de 70. Mas ele também secretamente desenhou uma série de quadrinhos pornográfico, que Offutt relata, de maneira desapaixonada: “eventualmente se tornaram 120 livros, totalizando 4.000 páginas, retratando a tortura de mulheres”. Offutt rejeita a história que seu pai tentou lhe vender: “A ideia de que foi o pornô que evitou que ele matasse mulheres foi uma ilusão egoísta que justificou seu impulso de escrever e desenhar retratos de tortura”. Pelo contrário, Offutt pensa que seu pai se convenceu de que precisava de pornô para se salvar porque ele não conseguia aceitar o simples fato de que ele gostava disso.

Teóricos e sociólogos discutem pelos últimos 30 anos se a facilidade do acesso à pornografia torna a violência mais ou menos provável. A questão mais imediata, contudo, é por que alguém interessaria por tal conexão, em primeiro lugar. Não é preciso se posicionar quanto a se o pai de Offutt estava certo sobre os poderes da pornografia para salvá-lo de um caminho assassino. O fato de ele sentir uma profunda conexão entre pornografia e assassinato — entre a retratação de mulheres em poses sexuais gráficas e a destruição violenta de seus corpos — deveria ser suficiente para nos perturbar. Sexo ilícito e violência real podem estar mais conectados do que gostaríamos.

A pornografia mente

A pornografia engana. A sua apresentação sexualizada de pessoas humanas promete ao espectador o que ela não pode dar. Mas como a pornografia mente é difícil de perceber, talvez porque nossos olhos se cegaram por nossa frequente exposição a tal mídia. O consumo desenfreado de pornografia anestesia a mente: se nos entregamos com prazer à falsidade, perdemos a nossa capacidade de separar a verdade da ficção. O pecado tem um efeito crescente. As duas quimeras da confusão e da ignorância preservem o encanto de seus falsos prazeres. É mais fácil para quem afunda num redemoinho de enganos abraçar essa situação como “normal” ao invés de escapar.

A acessibilidade inescapável da pornografia e a corrosiva “pornificação” de todas as outras mídias significam que o desafio mais imediato para os cristãos é redescobrir como é se sentir puro. C.S. Lewis celebremente propôs que mediocridade espiritual é o mesmo que brincar com bolos de lama ao invés de aproveitar o final de semana na praia que Deus no oferece. A nossa situação é mais drástica, todavia: corremos o risco de esquecer o que a praia sequer oferece. O calor do sol que levanta nossos olhos e nossos corações para o céu se escondeu por causa da corrupção infértil de nossas paixões. A pornografia é a única atmosfera que conhecemos: ela coagulou nossos pulmões e não conseguimos parar.

Ouvimos da nossa sociedade que devemos aceitar a pornografia como o “novo normal” — o que é uma mentira extremamente perniciosa e eficaz. Offutt sugere que o segredo de seu pai “nasceu de vergonha e culpa”. Ele evita moralizar sua história, mas ele sutilmente sugere que seu pai gostava de imagens violentes em parte por causa do estigma associado a seu trabalho pornográfico mais “comum”. Caso ele simplesmente aceitasse que gostamos de pornografia — que a pornografia é normal —, tudo daria certo. Essa ideia é bem comum em nossa cultura, para dizer o mínimo, mesmo que Offutt não concorde com ela.

Na verdade, ultrapassamos tanto os limites da sexualidade que “negatividade sexual” é o único pecado que sobrou: qualquer tentativa de encontrar um fundamento moral para a sexualidade além de prazer e consentimento é simplesmente pudico demais, retrógrado demais para ser levado a sério em nossa era esclarecida. A pornografia é inescapável, portanto, ela precisa ser permissível. Não há outro caminho disponível para nós, muito menos um que seja “sobremodo excelente”.

Imaginar um mundo que não barateou a sexualidade humana, então, é o primeiro ato de resistência às muitas mentiras que a pornografia conta. Um mundo ou uma vida saturados por pornografia não é inevitável: não há nada no cosmos que diga que ela precisa ser um fator permanente de nossa experiência. Confessar isso e reconhecer nossa responsabilidade ao construir o mundo a nosso redor é tomar os primeiros passos de liberdade. Pela graça de Deus, podemos viver num mundo diferente do que o que agora conhecemos. Que tal pensamento seja tão alheio à maior parte de nossa sociedade revela quão frágil é o regime da pornografia: assim que começamos a contemplar o prospecto de uma vida diferente, todo o fajuto artifício que a torna atrativa cai em ruínas. Encontrar um “caminho sobremodo excelente” começa com lembrar que outra caminho é possível: um pensamento que a indústria pornográfica não quer que ninguém acredite de verdade.

A pornografia pode representar um desvio menos vicioso do que o do assassinato, mas parte dos mesmos impulsos destrutivos e desumanizantes. E comparar os dois desestabiliza nossa aceitação complacente e preguiçosa da pornografia como uma forma benigna e indolor de entretenimento. Isso nos choca porque o uso desenfreado de pornografia nos parece tão natural, tão inevitável. Isso nos assusta porque o mundo da pornografia já é o nosso mundo. O paralelo não é, e não pode ser, verdade. Mas é.

A morte do deslumbramento e a banalização do que importa

“Que o deslumbrar seja comum”, escreveu Shakespeare, “e atendamos à capela agora”. Este verso vem de sua peça Muito barulho por nada, o que é realmente uma história deslumbrante, para dizer o mínimo. Um rapaz acusa erroneamente a sua noiva de adultério e ela desmaia com a calúnia. Ele crê que ela está morta e angustiadamente se arrepende ao ver o seu erro. Tudo se conserta no casamento, onde ele se surpreende ao ver sua noiva viva e é disciplinado por sua oferta de perdão. O frei é aquele que nos instrui a todos sermos amigos do deslumbramento, desde que atendamos à capela para a sua devida formalização. Esse conselho vale a pena.

O caminho para ver como a pornografia nos desumaniza começa aqui, ao pensar sobre a morte do deslumbramento em nossos corações e em nossas vidas. Mas eu não falo sobre o deslumbramento com o sexo — ainda não, pelo menos. A morte do mistério nessa área é apenas mais uma manifestação de uma doença mais comum, uma pornificação de nossos olhos e de nossas mentes que se estende para além do domínio da estimulação sexual. Quer a pornografia seja culpada por esse problema mais geral, ou vice versa, pode ser debatido; meu único interesse é argumentar que o que acontece na pornografia não se limita ao sexo.

Considere por um momento as nossas práticas de ler ou assistir um “conteúdo” que nos entretém ou nos informa. As nossas mentes se acostumaram a estar apressadas e frenéticas, o que mantém nossa atenção estritamente na superfície das coisas. Quaisquer prazeres que podem vir da leitura precisam vir rápido (especialmente quando lemos online) ou desistimos da tarefa. Lemos correndo artigos e capítulos de livros, rapidamente os trocando para consumir o próximo bit de informação. Os nossos olhos pulam de foto em foto enquanto mexemos em nossos celulares na fila do mercado. Vamos de canal em canal, esperando o próximo espetáculo que possa capturar nossa atenção. A nossa vida é a de uma geração superficial, nos belos dizeres de Nicholas Carr. Dificilmente fazemos o esforço necessário para contemplar além do que está em nosso campo imediato de visão, nos empanturrando de superfícies e imagens até que finalmente nos casamos e eventualmente caímos no sono.

Essa cobiça sedenta da visão é conhecida classicamente como curiositas, curiosidade. Curiositas é uma inquietude do espírito e da mente, uma ansiedade instável que busca consumir novos espetáculos. Tais novidades agradáveis nos providenciam estímulos mentais baratos com quase nenhum esforço. Aquela momentânea visita ao Instagram “só para ver o que está acontecendo” nos dá um breve alívio das responsabilidades perante nós. Talvez não nos importemos com o que vamos encontrar; o que importa é que encontramos algo novo e fomos entretidos. A curiosidade fixa a nossa atenção nas “coisas da terra”, as coisas que são vistas, as coisas que podemos dispensar assim que acabarmos. Mas porque tais visões não têm profundidade elas nunca satisfazem. E porque elas são onipresentes elas precisam ficar cada vez mais ousadas. A única forma de prender a atenção do curioso é montar um placo, e sempre se superar a cada apresentação.

Uma sociedade animada por esse tipo de curiosidade terá dois sentimentos compatíveis e paradoxais.

Primeiro, ela tentará ver atrás da cortina e expor segredos sórdidos e sujos. A curiosidade almeja expor o que não deve ser conhecido. A imensa fascinação de nossa sociedade com os mínimos detalhes das vidas de celebridades — vidas que nunca teremos — pode parecer benigna. Mas o voyeurismo que leva alguém a vislumbrar em concupiscência pela janela opera segundo a mesma lógica, só que numa chave sexual. Nós buscaremos nossos espetáculos onde quer que possamos encontrá-los — e quanto mais secreto, melhor.

Segundo, a curiosidade diminui o tamanho de nosso estômago para aventuras mais sérias. “Vídeos fofos de gato não importam de verdade” dizemos — e é por isso que nossos interesse neles é danoso. A curiosidade presta atenção apenas à superfície. Ela não pode aguentar a matéria, a substância ou a profundidade diante de nós. A curiosidade está contente com a imagem; mas a atenção amorosa precisa de corpos. O curioso não tem a paciência necessária para uma consideração consistente, muito menos a abertura para a imersão total do deslumbramento arrebatador.

É fácil ver o espírito da curiositas em ação na pornografia. O pornô oferece o tipo mais encantador de espetáculo. Apresentações de indivíduos engajados em atos secretos de grande importância podem ser vistas, gozadas e descartadas sem investimento ou dor da parte do espectador. A qualidade rápida e dispensável da pornografia se adequa e alimenta a inquietude de quem a vê. Ela o leva a continuar navegando e caçando por aquela visão ou aquela cena que pode instantaneamente despertar suas imaginações. Tudo que importa é a superfície — e quanto mais provocante, melhor.

Não há espaço dentro da curiositas para o temor reverencial, para uma concepção de que há alguns mistérios que não são nossos para desvendar. A objeção cristã à pornografia não é motivada por um medo da sexualidade ou pela “negatividade sexual”, mas por um senso santificado de deslumbramento com a beleza do ser humano, plenamente vivo e plenamente revelado. E tais tesouros maravilhosos desejam ser secretos — o ocultamento é o habitat nativo da glória. Mas nossa curiosa sociedade há muito abandonou sua relutância de profanar os lugares santíssimos: o corpo em sua apresentação sexual agora é meramente mais um divertimento trivial feito para a satisfação de interesses momentâneos e passageiros, não deixando marca permanente na alma ou na sociedade. O sexo não importa mais — é por isso que ele não será mais divertido. Porque a comédia, a normalidade e a esquisitice mundana do sexo extraem sua energia e sua vida da contemplação encantada que nos tenta a nos ajoelhar em humildade casta perante a glória de outro ser humano. Não sendo mais sagrado, o sexo virou nada.

Obscenidades e a modéstia do desejo

Reflita por um momento em uma obscenidade. Conhecemos bem as opções. Tais palavras têm poder porque elas expõem violentamente o que normalmente está oculto. Efésios 5.12 sugere que é “vergonhoso até mesmo mencionar as coisas que eles fazem às escondidas”. A obscenidade pega tais questões e monta uma cena com elas, forçando o olhar de nossa mente entrar nas trevas do santo lugar. Quando a reverência morre, tais palavras perdem a sua força. A aceitação disseminada em nossas cultura de certas palavras pode ser explicada dessa forma.

A restrição de Efésios 5.12, contudo, expõe um problema para escrever sobre pornografia, um problema que também explica como a pornografia mente. Como cristãos, temos o dever de criticar a pornografia sem despertar os desejos ilícitos em si. Se formos explícitos demais, caímos no mesmo tipo de obscenidades que estamos denunciando — um problema em que pastores “fale a quem doer” às vezes caem.

Uma ambiguidade estratégica em questões de sexualidade é essencial para proteger o amor. Quem está apaixonado às vezes fica tão envolto nas suas brincadeiras com a pessoa amada que não percebem as paixões que se formam entre eles. Mas depois que o amor surge ele se deleita em preservar um cerne oculto conhecido apenas pelo casal. A primeira vez que casais contam suas histórias de noivado é um exemplo paradigmático. Normalmente há uma lacuna na história entre depois que ela diz “sim” que se preenche pelo altamente sugestivo “e depois falamos umas coisas uns pro outro”. Eles querem dizer, é claro, que eles beijaram intensa e furiosamente. E não podia ser diferente. Mas os amantes se deleitam em falar elusivamente sobre suas expressões mais íntimas. Nomeá-las diretamente acaba com a graça da brincadeira. Cantares é um livro carregado eroticamente precisamente porque não é um manual de sexo; ele esconde a intimidade sexual onde ela pertence: atrás do véu de metáforas, alusões e analogias.

A pornografia revela a inclinação natural do amor pela privacidade. Mas, ao fazê-lo, ela apenas pode retratar distorções do que é real. A pornografia é um caso exemplar do “paradoxo do observador”, que diz que o sujeito sob observação é inconscientemente influenciado pela presença de um terceiro. O paradoxo do observador mostra que a publicidade muda um evento: performar diante de uma audiência é um ato diferente do que fazê-lo em privado. O verdadeiro caráter do amor só pode ser conhecido por aqueles que o experimentam em primeira mão. Ver um ato de amor de fora não nos permite ver o que pensamos estar vendo: se o amor está realmente presente, ele só pode ser sentido e conhecido dentro dos rostos e dos corpos daqueles que participam. Até os pornógrafos entendem isso, por isso que o pornô de realidade virtual e robôs de sexo estão no futuro (próximo) de nossa sociedade: eles prometem simular o caráter face-a-face do desejo sexual melhor que a tela de um computador.

E podemos desenvolver esse ponto: o que acontece dentro de um quarto inobservado é necessariamente diferente para o próprio casal do que quando uma câmera está presente. O caráter face-a-face do desejo não foi feito para ser exibido, mas usufruído. Amantes que filmam sua própria atividade sexual para seu gozo privado posterior permitem que a estrutura e a lógica da pornografia determinem a sua própria união — mesmo se forem casados. E eles não gravam o seu amor, mas apenas uma imitação sutilmente distorcida dele, na medida em que introduzem uma disposição de sua parte para serem vistos pelo lado de fora — mesmo se forem os únicos que estão assistindo. Essa mímica pode parecer, superficialmente, pura exibição de intimidade matrimonial. Mas quando vamos para além da superfície fica claro que uniões matrimonias podem se render ao pornográfico, mesmo se não produzirem ou virem pornografia comercial.

Portanto, a pornografia mente ao imitar os prazeres e os sacrifícios do amor, e os destrói no processo. Mas a morte pode imitar a vida convincentemente por apenas um tempo. Estamos avançando rápido até a pornografia destruir triunfantemente o romance que outrora guardava e preservava nossos relacionamentos. Ao tornar o mistério central da sexualidade humana numa exibição pública, a  pornografia mina as regras e as convenções que tanto honram o sexo quanto tornam o pecado possível. Quando o prazer sexual assume o trono de nossos corações, romance é a inevitável vítima. Romance e casamento exigem esforço demais, enquanto o sexo e a pornografia estão a um clique. Os finais felizes de Hollywood podem ter nos feito acreditar rápido demais que o casamento é simples e sem esforço — mas eles também eram uma das últimas fortalezas contra a degradação banal do sexo. A mente pornificada não pode resistir com o adorno das preliminares, muito menos com a busca paciente e constante do cônjuge. Embora tais fardos deem mais significado ao ato, eles tomam tempo e energia para serem sustentados. Por que se importar, desde que os prazeres fáceis da pornografia estão a mão?

Objetificação e pornô

O sexo industrializado lucra com orgasmos, o que significa que eles precisam ser baratos. E assim a indústria manufatura prazeres com custos tão pequenos ao produtor ou ao consumidor quanto possível. Tempo é dinheiro: o pai de Offutt “escreveu” seus “romances” em pouco menos que três  dias. E a mão de obra é abundante. Mulheres no pornô são extremamente descartáveis; elas têm “durabilidade” de apenas alguns poucos anos, se é que elas sobrevivem para além da primeira exposição. E as mulheres reais logo se tornarão irrelevantes para o processo, de qualquer forma. O pornô criado por imagens de computação gráfica será barato e fácil de produzir, torando um pornô “sem vítimas” uma possibilidade real.

Mas é com os orgasmos da audiência — e não dos atores — que dão dinheiro aos pornógrafos. O homem que vê pornografia se torna ele próprio o produto: a indústria busca o prazer dele, a satisfação dele importa mais do que tudo. Os homens e as mulheres que atuam diante de uma audiência se tornam os objetos da gratificação de sua audiência; mas a ironia amarga e avassaladora da indústria pornográfica é que, ao buscar tal prazer, a audiência objetifica a si mesma ao se tornar um produto numa transação comercial. O pornô corrompe todos envolvidos nele, mas os principais afetados são os seus clientes — pois eles são os tapados que não percebem que o jogo está com cartas marcadas contra eles.

Onde está o espectador de pornografia quando ele vê uma cena e por que o excita? Normalmente, o desejo sexual busca reciprocidade: a excitação acontece quando somos atraídos não apenas a uma pessoa bonita, mas quando notamos que tal pessoa está recebendo e retornando nosso interesse. Nós desejamos ser desejados e o desejo sexual é o nosso reconhecimento corporal de que somos desejados numa forma semelhantemente corporal. A pornografia comercializa a esperança de que seremos desejados: acreditamos que a mulher olhando de volta para nós nos quer, que ela é “nossa” da forma que uma esposa um dia poderia ser (muitas dessas afirmações são melhor desenvolvidas em Desejo sexual de Roger Scruton). 

Logo, quem vê pornografia se coloca imaginativamente dentro da cena. Há uma espécie de “empatia” acontecendo nessa observação, uma autoidentificação que acontece entre nós e os personagens retratados. A audiência de Rei Lear sente toda a angústia dele ao se enxergar nos erros de Lear e no seu próprio declínio à medida que esclarece seus próprios desafios.  Mas essa identificação empática significa que ver nunca é neutro: observar enrosca nossas vontades ao nos apresentar um ponto de vista e exigir que o aceitemos ou o rejeitemos. Se temos prazer quando os personagens na ficção erram, então realmente estamos errando. A autoidentificação entre o espectador e o personagem é o que torna a pornografia chamativa e o que a torna ruim: imaginar-nos nesses cenários é um ato com carga moral, na medida em que nossas vontades afirmam os atos enquanto eles acontecem. A pornografia é nada menos que banal moralmente.

Mas essa identificação do eu com o que estamos vendo revela a cobiça cara, irrestrita e narcisista no coração do mundo pornográfico. As mulheres que nos olham das telas não simplesmente nos querem, mas desejam também as versões mais fantásticas e delirantes de nossos egos. Para montar a ficção que elas desejam, precisamos (ao menos instantaneamente) pensar que somos desejáveis. Tal desejo irracional e infundado somente sobrevive ao se alimentar de quem mente — assim a apresentação de uma mulher aumenta para duas e daí nasce o harém.

Por trás da pornografia está a suposição de que o mero fato de desejarmos uma mulher nos torna dignos dela. Assim, não sendo presos por nenhum tipo de norma, o desejo deve prosseguir sem fim. Não é surpresa que o sexo industrializado, fácil-e-barato da pornografia tem respondido e evocado uma cobiça sexual quase irrestrita, que nos permite sermos deuses e deusas dentro da segurança de nossas fantasias. É por razões profundas e importantes que o Decálogo usa a linguagem econômica de “cobiçar” para descrever a maldade de desejos sexuais errôneos.

A imaginação empática de si numa cena pornográfica, contudo, converte os outros participantes em meros objetos e instrumentos de nossa própria satisfação. Para que servem todos os outros personagens na cena? Para nada senão nosso bel-prazer. A pornografia reduz a conversa e o relacionamento de um desvelamento íntimo de nossa pessoalidade para uma etapa irritante no caminho expresso para o prazer sexual. Histórias elaboradas e sofisticadas funcionam como pouco mais do que preliminares estendidas para o pornográficos. E todos os participantes desaparecem quando a nossa recompensa chega. Clicamos numa nova página, desligamos o robô sexual para almoçar, fugimos furtivamente da prostituta e voltamos a nossas vidas “reais”. Os cenários são diferentes; a lógica é a mesma. Em cada caso, a mulher é nada mais que um instrumento para nossos prazeres fantásticos — ela é uma ferramenta que descartamos assim que encontramos um dispositivo mais satisfatório. As pessoas na pornografia não são mais insubstituíveis que garfos de plástico — se quebrar ou não servir mais, troque por outro e nenhuma ofensa será (abertamente) feita.

A pornografia não é ruim porque ela causa adultério. Pelo contrário, ela é ruim porque o usuário age como se cometesse adultério. A pornografia é estimulante porque nos imaginamos em atos sexuais que não envolvem nossos cônjuges. O uso da pornografia significa que o cônjuge é fungível ou substituível com relação à atividade sexual, uma atividade central para o formato e o significado do casamento. E isso é verdade mesmo se não percebermos o que estamos fazendo. É possível cometer grandes erros sem saber, ou sequer tencioná-los. O casamento é a união de apenas duas pessoas e mais ninguém — a pornografia substitui um membro, reduzindo-o de um parceiro igual a um instrumento de gratificação pessoal.

Pessoalizando o mundo

A pornografia é matar com o coração. Isso é forte demais? Ou precisamos usar tal linguagem para nos acordar do sono de injustiça em que vivemos? Talvez, se nossos olhos forem capazes de romper a neblina de poluição da nossa sociedade pornificada, veremos como a mão lenta e firme da Morte está operando ao nosso redor. Talvez acordaremos para o terror daqueles que sabiam o que era santidade. Talvez reconheçamos a profanação do templo do Deus vivo de que somos cúmplices todos os dias e oraremos pedindo misericórdia ao Senhor.

Reduzir a pessoa humana a um instrumento para nosso prazer é desejar em nossos corações que elas não existam simplesmente como pessoas. Se acreditamos que seres humanos podem ser substituídos por robôs sexuais ou pornografia de realidade virtual, de que eles servem, exatamente? Pessoas são centros independentes de agência, com suas próprias vontades, mentes e faculdades racionais. Elas não podem ser trocadas, como se fossem figurinhas, com base em uma nos dar mais prazer sexual que outra. Fazê-lo viola a natureza de sua humanidade. A pornografia, repito, é uma forma de matar dentro do coração.

É por isso que, eventualmente, a pornografia obscurece ou viola os rostos das mulheres que são atraídas para ela. É dos olhos e da boca que fluem as palavras, as músicas, os poemas e todas as marcas que tornam humanos mistérios. Mas, à medida que a pornografia progride, a pessoa é apagada. O lugar de sua presença pessoal é reduzido a um receptáculo de nossas fantasias projetadas. Scruton escreveu: “Na pornografia, o rosto não tem papel a desempenhar a não ser se sujeitar ao império do corpo”. 

Contra tal violência, só podemos responder como Shakespeare: “O mundo precisa ter pessoas!” A pornografia despessoaliza o mundo. Eu mencionei que ela depende da pretensão de que os outros seres humanos são instrumentos de nosso prazer. Mas tornar as pessoas em ferramentas nos permite fingir que não temos obrigações com elas, que elas não têm reivindicações sobre nós. Não há contraste mais agudo a tal vida do que bebês, que mostram alegremente quão flagrante é sua indiferença aos prazeres de seus pais. Os pais amam esses seres humaninhos em parte porque eles são pacotes pequeninos e adoráveis de obrigações. Uma sexualidade apropriadamente ordenada dará frutos — em filhos, sim, mas também em ser empoderada pelo Espírito para alegremente receber outros pacotes humanos de necessidades em nossas vidas, mesmo se não formos casados. O mundo precisa ter pessoas — precisamos ser pessoas no mundo, servindo uns aos outros. A pornografia é um obstáculo a isso.

“Que o deslumbrar seja comum e atendamos à capela agora”. Pela confissão e pelo arrependimento, pela renovação e pelo perdão, pela maneira que tratamos uns aos outros — uma maneira da qual todosparticipamos — e, acima de tudo, pela esperança do evangelho. Fomos restaurados como pessoas na palavra da graça, libertodas da escravidão à “inevitabilidade” de nossos pecados. Na cruz de Cristo, toda vida humana encontra um valor inestimável. Cristo morreu por todos (2Co 5.14-15)! Como então não encontraremos uns aos outros com uma reverência casta e santa, com um temor e tremor santificados que são marca de nossa salvação? As vidas daqueles que fazem e consomem pornografia carregam a marca, a imagem de Jesus Cristo. Quando finalmente os vermos como são, com os olhos claros da pureza, provaremos ou adoração por sua majestade ou angústia por sua corrupção. Que tal deslumbrar seja comum: nele está a fonte de nossa esperança.


Por: Matthew Lee Anderson. Website: https://www.thegospelcoalition.org/article/pornography-human-humane/ © Matthew Lee Anderson, 2019. Traduzido com permissão. Excerto do livro WALKER, Andrew & MOORE, Russell (eds.) The gospel and pornography. B&H Books, 2017.

Original: Como a pornografia nos desumaniza. © The Pilgrim. Website:  thepilgrim.com.br. Todos os direitos reservados. Tradução: Guilherme Cordeiro Pires.

O ponto de vista deste texto é de responsabilidade de seu(s) autor(es) e colaboradores direito, não refletindo necessariamente a posição da Pilgrim ou de sua equipe de profissionais.

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Jesus, o Criador, Carpinteiro, Jardineiro e Rei (Jordan Raynor)

“Ele é a imagem do Deus invisível, o primogênito sobre toda a criação; porque nele foram criadas todas as coisas nos céus e na terra, as visíveis e as invisíveis, sejam tronos, sejam dominações, sejam principados, sejam poderes; tudo foi criado por ele e para ele” (Cl 1.15-16)

Vamos começar meditando sobre a primeira manifestação de Jesus à humanidade bem nos primórdios do tempo.

A passagem citada acima deixa claro que Jesus — junto com o Pai e o Espírito Santo — estava presente na criação do mundo. Além disso, “tudo” foi criado por ele. Em outras palavras, Jesus é o Deus Criador de Gênesis 1.1: “No princípio, Deus criou”.

Antes de Deus nos falar que ele é amor, antes de ele nos falar que é santo, antes de ele nos falar que ele é Salvador, Deus quer que você e eu saibamos que ele é um Deus criativo, produtivo e trabalhador.

Como já escrevi em outro lugar, essa ideia de um Deus que trabalha é singular na longa lista de histórias sobre a origem do mundo. Qualquer outra religião reivindica que os deuses criaram os seres humanos para trabalhar e servir aos deuses. Nenhuma delas ousaria dizer que o próprio Deus trabalha — muito menos introduzir esse fato bem no começo da história.

Essa verdade carrega a maior importância para o trabalho que fazemos hoje. O trabalho não é periférico ou um meio sem sentido para um fim. O trabalho é central para quem Deus é, portanto, configura-se central para quem somos como imagem dele. Essa é uma das grandes implicações dessa primeira revelação de Jesus Cristo.

E não é um trabalho qualquer que Deus faz. É um trabalho criativo — o trabalho de tomar riscos para criar novas coisas para o bem de outras pessoas. É o trabalho de empreendedores e artistas, contadores de histórias e executivos, publicitários e pais. E, como veremos a seguir, é esse tipo de trabalho que Jesus fez em sua segunda manifestação quando ele nasceu na casa de um carpinteiro.

O Natal na casa do carpinteiro

“E logo que os anjos se retiraram, indo para o céu, os pastores disseram uns aos outros: Vamos já até Belém para ver isso que aconteceu e que o Senhor nos revelou. Foram, então, com toda pressa, e acharam Maria e José, e o menino deitado na manjedoura; e, vendo-o, contaram a todos o que lhes havia sido dito sobre o menino; e todos os que ouviam os pastores ficavam muito admirados. Maria, porém, guardava todas essas coisas, meditando sobre elas no coração. E os pastores voltaram glorificando e louvando a Deus por tudo o que tinham visto e ouvido, como lhes fora falado” (Lc 2.15-20)

Daqui a alguns dias, celebraremos a segunda manifestação de Jesus para toda a humanidade naquela manhã do primeiro Natal.

Ao fixar nossos olhos no bebê na manjedoura, eu encorajo você, caro leitor, a expandir o campo de visão para o resto da cena. Separe um tempo para focar não apenas no rei que acabou de nascer, mas também na casa em que ele nasceu e no que isso significa para o trabalho futuro de Jesus.

Desde a aurora do tempo, Deus sabia que ele teria de enviar Jesus à terra para nos resgatar. Sabendo disso — e sabendo do propósito supremo da vida de Jesus na terra —, o fato de que Deus escolheu que Jesus crescesse na casa de Maria e de um carpinteiro chamado José deveria nos surpreender.

Deus poderia ter colocado Jesus numa família sacerdotal como o profeta Samuel ou João Batista. Ele poderia ter crescido na casa de um fariseu como o apóstolo Paulo. Porém, Deus colocou Jesus na casa de um artesão, fazendo um trabalho que provavelmente se parece bastante com o trabalho que eu e você fazemos hoje.

O biblista Dr. Ken Campbell nos informa que a palavra grega tektōn que a maioria das versões bíblicas traduz como “carpinteiro” em Marcos 6.3 seria mais corretamente traduzida como “construtor”, alguém que “trabalha com pedra, madeira e às vezes metal” para criar algo novo. Segundo o Dr. Campbell, Jesus e José eram essencialmente donos de uma pequena empresa familiar, “negociando serviços, adquirindo material, completando projetos e contribuindo para pagar as despesas da família”.

Parece familiar? Deveria. Na cultura judaica do primeiro século, o trabalho mais semelhante ao nosso seria provavelmente o de artesãos e construtores como Jesus e José.

Essa verdade dá imensa relevância e dignidade ao trabalho que eu e você fazemos para reorganizar a criação a cada dia. Se você jamais duvidou que o seu trabalho importa ou que seu chamado é tão significante quanto o de um pastor ou de um “missionário em tempo integral”, lembre-se do Natal. Lembre que aquele bebezinho cresceria até arregaçar as mangas e nos lembrar da bondade do trabalho.

Jesus, o Jardineiro

“Maria, porém, ficou em pé, chorando diante do sepulcro. Enquanto chorava, abaixou-se para olhar para dentro e viu dois anjos vestidos de branco, sentados onde estivera o corpo de Jesus, um à cabeceira e outro aos pés. E eles lhe perguntaram: Mulher, por que choras? Ela respondeu: Porque levaram o meu Senhor, e não sei onde o puseram. Ao dizer isso, ela se virou para trás e viu Jesus em pé, mas não o reconheceu. Jesus lhe perguntou: Mulher, por que choras? A quem procuras? Pensando ela que fosse o jardineiro, respondeu-lhe: Senhor, se tu o levaste, dize-me onde o puseste, e eu o levarei. Então Jesus lhe disse: Maria! Virando-se, ela lhe disse na língua dos hebreus: Raboni! (que significa Mestre)” (Jo 20.11-16)

Vimos que a primeira manifestação de Jesus à humanidade foi nos primórdios do tempo e que a segunda foi na manhã do primeiro Natal. Agora, veremos a terceira.

Você provavelmente já leu a passagem acima dezenas, talvez centenas, de vezes. E, se você for como eu, você sempre se perguntou sobre como é estranho Maria confundir Jesus como “o jardineiro”, como se fosse um detalhe esquisito, e irrelevante, das Escrituras.

Mas nenhuma palavra das Escrituras está lá por acaso e, como o renomado teólogo do Novo Testamento N. T. Wright recentemente esclareceu para mim, este detalhe não é exceção. Parece que João está apontando para algo de fato bem significativo.

Para percebermos isso, precisamos primeiro voltar para Gênesis, quando Deus criou Adão e Eva e os colocou no Jardim do Éden para que trabalhassem e “enchessem a terra”. O pecado não existia ainda, mas o trabalho sim, tornando o seu trabalho de jardinagem uma adoração no sentido mais puro.

Todavia, evidentemente, alguns versículos depois, o pecado entra no mundo. O trabalho ainda é adoração, mas agora também é árduo. O pecado também inaugurou a necessidade para que Jesus viesse naquele primeiro dia de Natal e sacrificasse sua vida três décadas depois.

Mas tudo começa a mudar na Páscoa. A ressurreição reconfigura o mundo quando Jesus inaugura a vinda do Reino dos Céus. E, na sua primeira aparição à humanidade, Jesus se revela a Maria se parecendo com um jardineiro. Por quê? Aqui está o que Wright diz em seu livro Surpreendido pela esperança: “Na nova criação, o antigo mandato humano de cuidar do jardim é dramaticamente reafirmado quando João, em sua história da ressurreição, retrata Maria confundindo Jesus com o jardineiro. A ressurreição de Jesus é a reafirmação da bondade da criação” e, como eu argumentaria, do próprio trabalho. 

Ao aparecer como um jardineiro, Jesus está deliberadamente nos apontando de volta para Adão e Eva, os primeiros jardineiros e trabalhadores do mundo. Ele está nos mostrando que o nosso trabalho como cidadãos de seu Reino vindouro não se reduz a “salvar almas” ou ajudar mais pessoas a ganhar uma entrada no Reino (embora seja importante). Jesus está nos mostrando que é hora de trabalhar no jardim outra vez, cuidando da terra — de “encher a terra” com os indicadores do Reino que começaram a vir à vida naquela manhã da primeira Páscoa.

O advento final

“Levanta-te, resplandece, porque é chegada a tua luz, e a glória do Senhor nasceu sobre ti […] Levanta-te e olha ao redor; todos estes se ajuntam e vêm a ti; teus filhos vêm de longe, e tuas filhas se criarão ao teu lado. […] A multidão de camelos cobrirá a tua terra, os camelos novos de Midiã e Efá; todos os de Sabá virão; trarão ouro e incenso e proclamarão os louvores do Senhor. Todos os rebanhos de Quedar se reunirão em torno de ti; os carneiros de Nebaiote te servirão; serão aceitos no meu altar, e eu glorificarei a casa da minha glória. Quem são estes que voam como nuvens e como pombas para as suas janelas? As ilhas me aguardarão, e primeiro vêm os navios de Társis, para trazer teus filhos de longe, e com eles a sua prata e o seu ouro, para o nome do Senhor, teu Deus, e para o Santo de Israel, porque ele te glorificou. Estrangeiros edificarão os teus muros, e os seus reis te servirão; porque te feri na minha ira, mas no meu amor tive misericórdia de ti. As tuas portas estarão sempre abertas; não se fecharão de dia nem de noite, para que as riquezas das nações sejam trazidas a ti, e os seus reis sejam conduzidos com elas”. (Is 60.1,4,6-11)

Vimos que Jesus se manifestou primeiro como Criador, depois como carpinteiro e finalmente como jardineiro. Hoje, esperamos o advento final, em que Jesus assume seu trono eterno como Cristo Rei.

A passagem acima é uma das minhas favoritas da Bíblia inteiro. Neste texto, Isaías está pintando uma visão profética da “nova Jerusalém” de Apocalipse 21 onde “[Deus] habitará com o seu povo” e Jesus reinará como rei eternamente.

Mas preste atenção ao que mais está acontecendo nesta cena. Pessoas de todas as nações estão vindo à nova Jerusalém, e não é de mãos vazias. As pessoas de Társis trazem seus navios. As pessoas de Midiã e Efá trazem seus animais. As pessoas de Sabá trazem ouro e incenso. Jesus está convidando essas pessoas para trazerem seus melhores artefatos culturais — “a riqueza das nações” — ao seu reino eterno.

O teólogo do Novo Testamento N.T. Wright escreve em seu livro Supreendido pela esperança: “O que você faz no presente — ao pintar, pregar, cantar, montar saneamento básico […] construir hospitais, cavar cisternas, lutar pela justiça, escrever poemas […] amar seu próximo como você mesmo — perdurará no futuro de Deus. Essas atividades não são simples maneiras de tornar a vida presente um pouco menos brutal […] Elas fazem parte do que podemos chamar de construir para o reino de Deus”.

Em outras palavras, o trabalho que fazemos entre o primeiro advento e o último importa.

O Reino dos Céus não está sem cultura. Baseado nesta passagem e em outras dicas ao longo das Escrituras, estou disposto a apostar que ele está cheio dela.

A minha oração é que a mesma esperança nos inspire todas a fazer o nosso melhor trabalho para a glória de Deus e o bem dos outros. E quem sabe? Talvez um dia, Christus Rex — Jesus, o Rei — graciosamente acolherá essas obras de nossas mãos em nosso lar eterno.


Por: Jordan Raynor. Website: https://jordanraynor.com/twbw/#carpenter Jordan Raynor, 2021. Traduzido com permissão. Fonte: Jesus the Creator, Carpenter, and King.

Original: Jesus, o Criador, carpinteiro, jardineiro e rei. © The Pilgrim. Website:  thepilgrim.com.br. Todos os direitos reservados. Tradução: Guilherme Cordeiro Pires.

O ponto de vista deste texto é de responsabilidade de seu(s) autor(es) e colaboradores direito, não refletindo necessariamente a posição da Pilgrim ou de sua equipe de profissionais.

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Princípios de gestão de tempo na palavra de Deus (Jordan Raynor)

Ouçam agora, vocês que dizem: “Hoje ou amanhã iremos para esta ou aquela cidade, passaremos um ano ali, faremos negócios e ganharemos dinheiro”. Vocês nem sabem o que acontecerá amanhã! Que é a sua vida? Vocês são como a neblina que aparece por um pouco de tempo e depois se dissipa. (Tiago 4.13-14, NVI)

Muita gente me pede conselhos sobre gestão de tempo. Não é porque sou “perfeito” neste ponto, mas porque já tive que praticar bastante equilibrar diferentes atividades produtivas na minha vida. Além de atuar, ao escrever este texto, como CEO de uma startup de tecnologia com investimento externo (Threshold 360), também sou um escritor, dando o meu melhor para ajudar meus irmãos cristãos conectar o evangelho ao seu trabalho. Em casa, sou marido e também pai de duas garotas maravilhosas com menos de três anos. Dizer que a minha vida está uma loucura agora seria um pequeno eufemismo. Mas, apenas pela graça de Deus, estou “gerindo” tudo e ainda consigo ter 7 horas de sono toda noite, de alguma forma.

Gerir o meu tempo bem é uma obsessão minha há tempo. Por quê? Porque a Bíblia me lembra vez após vez de que as nossas vidas são “como a neblina que aparece por um pouco de tempo e depois se dissipa” (Tiago 4.14). Deus ainda tem você e eu nesta terra por uma razão: amá-lo, amar ao próximo e fazer discípulos de Jesus. Somos um povo com propósito. Não fomos criados para simplesmente sentar e esperar a eternidade. Fomos chamados para agir no mundo, criar cultura, ser produtivos ao servir as necessidades ao nosso redor por meio de nossas vidas e de nosso trabalho. Em resumo, Deus nos chamou para nos juntarmos a ele na missão de redimir o mundo.

Tendo em vista a magnitude dessa missão e o tempo cada vez mais escasso, devemos ser as pessoas mais intencionais do planeta, vivendo com um senso de urgência saudável, sempre procurando fazer o melhor com o precioso tempo que nos foi dado. Nos próximos parágrafos, vamos explorar juntos a Palavra de Deus para descobrir alguns princípios de gestão de tempo que vem diretamente da Escritura. Mas também quero lhe advertir de que este processo não é fácil. Se fosse, não estaríamos lidando perpetuamente com este problema. No final das contas, a gestão de tempo que dá certo resulta de diligência e disciplina (Provérbios 21.5). Como veremos, ser disciplinado com o tempo nos libertará para fazer uma contribuição maior ao mundo em nome de nosso Senhor e Salvador.

Colocando limites no seu tempo

“Mas Jesus retirava-se para lugares solitários e orava” (Lucas 5.16, NVI)

Por todos os evangelhos, Mateus, Marcos, Lucas e João frequentemente observam quanto tempo Jesus passou sozinho — longe dos discípulos, das multidões e da hiperatividade de seu ministério. A menção frequente desse comportamento sugere que Jesus era um mestre em colocar limites no seu tempo. Da mesma forma, se é para gerirmos nosso tempo com eficiência e fazer nossa maior contribuição ao mundo, também precisamos estabelecer limites claros em nossas agendas.

Como Jesus, isso deve começar ao dedicar regularmente tempo para oração (Marcos 1.35) e estudo da Palavra de Deus. A maior parte de nós está acostumada com a ideia de dar dízimo de nossa renda. Mas e o dízimo de nosso tempo? Se nós enchemos nossas agendas com demandas de nosso trabalho e de nosso lar e então tentamos encontrar tempo para gastar em oração e estudo da Palavra de Deus, estamos nos preparando para o fracasso. Se você não faz isso atualmente, separe tempo esta semana para determinar quanto tempo você ofertará exclusivamente a oração e estudo da Escritura diariamente.

Depois de colocar limites claros em sua agenda para disciplinas espirituais, pode ser útil assumir uma abordagem semelhante para planejar o seu tempo em casa e no trabalho. Para mim, uma rotina regular me ajuda a manter meu “equilíbrio entre vida e trabalho”. Quase todos os dias, eu vou para o escritório às 4h45 da manhã e chego em casa às 16h da tarde. Essa agenda previsível me dá limites claros em que me forço a me concentrar em meu trabalho. O meu trabalho sempre termina quando chega esse horário? Claro que não. Mas isso ainda seria verdade mesmo que eu trabalhasse até 17h, 18h ou até 22h. Não existe isso de terminar o trabalho a tempo. Colocar uma fronteira na minha agenda para o fim do meu dia no escritório assegura que tenho bastante tempo passar com minha esposa, meus filhos e minha igreja (que também é minha família).

Se você não separa tempo para colocar limites em sua agenda, outras pessoas colocarão. Se você ainda não fez isso, siga a orientação de Jesus e coloque limites claros sobre como você vai gastar o seu tempo. Esse é o primeiro passo para assumir o controle de seu horário e gerir bem o seu tempo.

Como acompanhar seus compromissos

“Seja o seu ‘sim’, ‘sim’, e o seu ‘não’, ‘não’; o que passar disso vem do Maligno.” (Mateus 5.37, NVI)

Jesus ordenou que nosso “sim” fosse “sim”, mas cada vez mais comum é que o “sim” de um cristão na verdade signifique um “não”. Todas as vezes que deixamos de cumprir um compromisso, nos atrasamos, não completamos um projeto a tempo ou deixamos de fazer o que dissemos que iríamos fazer por mensagem de “vou retornar a sua chamada assim que possível”, estamos desobedecendo a ordem de Jesus de que nosso “sim” seja “sim”. Nas nossas vidas aceleradas, estamos dizendo “sim” mais do que nunca, enquanto cada vez mais frequentemente deixamos de cumprir nossa palavra. O fato de que este pecado parece tão inócuo deveria soar o alarme da igreja. Somos imagem de Deus, representantes de Jesus Cristo a um mundo perdido. Para refletir nosso Salvador bem, precisamos guardar a nossa palavra.

Mas como faremos isso na prática? Começa por ter um sistema para coletar efetivamente todos os nossos compromissos. Isso pode ser tão simples quanto um pedaço de papel ou tão complexo quanto um sistema digital de gestão de tarefas como o app OmniFocus (o meu favorito, pessoalmente). A ferramenta é bem menos importante que o processo. Se é para seguirmos a ordem de Jesus para que nosso “sim” seja “sim”, precisamos ter uma forma de acompanhar tudo a que dissemos “sim”. Parece bem senso comum, certo? Porque é! Porém, infelizmente, poucas pessoas fazem isso bem. A boa notícia é que se trata de um problema super simples de resolver.

Em algum momento nesta semana, separe meia hora para fazer uma “lavagem cerebral” de todo compromisso que você fez consigo mesmo, seus amigos, seu cônjuge, seus filhos, seus colegas, etc. Depois de sua lista estar completa, procure compromissos que você precisa renegociar ou rapidamente fechar a pendência. Por exemplo, talvez você prometeu a sua vó que você ligaria para ela semana passada e você ainda não ligou. Separe 5 minutos para ligar para a vovó e cumpra esse compromisso. Que seu “sim” seja “sim” mesmo se você se atrasar. Eu prometo que, depois de passar por este exercício e você saber que tudo está fora da sua cabeça, você sentirá imenso alívio e paz.

O livro de David Allen A arte de fazer acontecer é o melhor recurso que já encontrei  para acompanhar todos os seus compromissos. 

Discernindo o que é essencial

Caminhando Jesus e os seus discípulos, chegaram a um povoado onde certa mulher chamada Marta o recebeu em sua casa. Maria, sua irmã, ficou sentada aos pés do Senhor, ouvindo a sua palavra. Marta, porém, estava ocupada com muito serviço. E, aproximando-se dele, perguntou: “Senhor, não te importas que minha irmã tenha me deixado sozinha com o serviço? Dize-lhe que me ajude!” Respondeu o Senhor: “Marta! Marta! Você está preocupada e inquieta com muitas coisas; todavia apenas uma é necessária. Maria escolheu a boa parte, e esta não lhe será tirada” (Lucas 10.38-42, NVI)

Marta tem uma fama ruim devido a sermões sobre essa passagem em Lucas 10. Mas a verdade é que todos somos Marta de tempos em tempos, lutando para identificar quais tarefas são as mais essenciais em dado momento. Obviamente, alguém precisava fazer a janta e aposto que Jesus gostava muito da hospitalidade de Marta. Não é que cozinhar não fosse importante. Jesus apenas deixou claro que não era o mais essencial que Marta ou sua irmã Maria deveriam estar fazendo naquele momento. O que era mais essencial naquele momento era ser ensinado aos pés de Jesus.

Como vimos anteriormente, coletar nossos compromissos, nossas tarefas e nossos projetos é uma etapa essencial de uma gestão de tempo eficiente. Mas, assim que todos os seus compromissos forem coletados, é hora de determinar quais são os projetos e as tarefas mais essenciais na sua lista. Esse processos requer esclarecer o que você crê ser o chamado de Deus nesta estação da sua vida e no seu trabalho. Com essa concepção mais ampla e esses objetivos mais gerais em mente, pergunte a si mesmo: “O que é aquela tarefa que, depois de eu a fazer, deixará tudo mais fácil ou frutífero dentro deste projeto?” A resposta a essa questão é o seu foco mais essencial. Suspenda tudo que você puder até que essa tarefa se cumpra. Repita esse processo de novo e de novo.

Quando eu estava escrevendo o meu último livro, Chamados para criar, eu fiquei sobrecarregado com o número de tarefas que precisavam ser feitas para levar tal projeto ao mercado. Eu precisava contratar um agente literário, conquistar uma editora, fazer entrevistas, escrever 50.000 palavras, construir uma plataforma para publicidade do livro, etc. Mas, no começo do projeto, eu sabia que, se eu não conseguisse um agente, nada mais no projeto importaria. Ter um agente era a tarefa mais essencial para mim. Então eu suspendi todas as outras atividades do projeto até que eu achasse um agente para me representar.

A verdade é que, em qualquer momento, poucas tarefas e projetos são verdadeiramente essenciais. Aprenda o hábito de identificar as duas ou três tarefas mais essenciais a sua frente e foque nelas até que o projeto se complete.

Como fazer um orçamento para o seu tempo

“Qual de vocês, se quiser construir uma torre, primeiro não se assenta e calcula o preço, para ver se tem dinheiro suficiente para completá-la? Pois, se lançar o alicerce e não for capaz de terminá-la, todos os que a virem rirão dele, dizendo: ‘Este homem começou a construir e não foi capaz de terminar’.” (Lucas 14.28-30, NVI)

Não é segredo que, para ser bem-sucedido financeiramente, você precisa planejar onde você vai investir o seu dinheiro antes de ele surgir na sua conta bancária. Devemos aplicar a mesma abordagem disciplinada ao nosso tempo. Afinal, diferentemente de dinheiro, não podemos ganhar mais tempo, então devemos ter ainda mais vontade de fazer um orçamento de nossas horas de que nossos reais.

Se você seguiu a orientação de Jesus que exploramos anteriormente, você já deve ter limites claros esboçando quanto tempo você pode se dedicar a ser produtivo a cada dia. Com esses limites estabelecidos, os seus compromissos delineados e suas tarefas essenciais identificadas, é hora de entrar num modo de planejamento mais granular, determinado como você vai gastar cada hora do seu dia. Eu amo as palavras de Jesus em Lucas 14.28: “Qual de vocês, se quiser construir uma torre, primeiro não se assenta e calcula o preço, para ver se tem dinheiro suficiente para completá-la?” A forma que “calculamos o preço” de nossas atividades produtivas é ao fazer um orçamento de nosso tempo, assegurando que temos o “suficiente” para terminar as coisas com que nos comprometemos.

Então como isso acontece na prática? No meu caso, eu passo os últimos 30 minutos de todo dia de trabalho identificando as tarefas e os projetos mais essenciais que eu quero cumprir no dia seguinte e planejando como vou alocar meu tempo para cumprir essas coisas e todo o resto no meu calendário. Dessa forma, quando eu me sento na minha mesa na manhã seguinte, eu não preciso gastar minha preciosa energia mental analisando o que farei em seguida. As decisões foram feitas. Agora tudo que preciso fazer é executar.

Por todo o livro de Provérbios, Deus revela a sabedoria de planejar de forma conservadora como gastar nosso tempo e nosso dinheiro. Ao planejar seus dias, seja intencional sobre subestimar o que você pode fazer num período de 24 horas. A natureza humana tende a superestimar o que podemos realizar em determinado período de tempo. Simplesmente saber disso lhe auxiliará a fazer decisões mais sábias ao planejar o seu tempo. É bem melhor terminar o dia com um tempo livre sem expectativas do que não terminar o que você começou.

Lembre a advertência de Jesus em Lucas 14.29-30: “Este homem começou a construir e não foi capaz de terminar.” Não fazer o que dizemos que iríamos fazer estraga nosso testemunho a um mundo perdido. Planeje o seu tempo bem para garantir que você pode acabar o que você se propôs a começar. 

Quando Jesus disse “não”

“Logo que saíram da sinagoga, foram com Tiago e João à casa de Simão e André. A sogra de Simão estava de cama, com febre, e falaram a respeito dela a Jesus. Então ele se aproximou dela, tomou-a pela mão e ajudou-a a levantar-se. A febre a deixou, e ela começou a servi-los. Ao anoitecer, depois do pôr do sol, o povo levou a Jesus todos os doentes e os endemoninhados. Toda a cidade se reuniu à porta da casa, e Jesus curou muitos que sofriam de várias doenças. Também expulsou muitos demônios; não permitia, porém, que estes falassem, porque sabiam quem ele era. De madrugada, quando ainda estava escuro, Jesus levantou-se, saiu de casa e foi para um lugar deserto, onde ficou orando. Simão e seus companheiros foram procurá-lo e, ao encontrá-lo, disseram: “Todos estão te procurando!” Jesus respondeu: “Vamos para outro lugar, para os povoados vizinhos, para que também lá eu pregue. Foi para isso que eu vim”.” (Marcos 1.29-38, NVI)

Quando Marcos começa seu relato do ministério de Jesus, ele retrata o Salvador numa sequência rápida de curas, expulsão de demônios de um homem na sinagoga e a cura da sogra de Pedro na sua casa em Cafarnaum. Naquela mesma noite, “o povo levou a Jesus todos os doentes e os endemoninhados. Toda a cidade se reuniu à porta da casa, e Jesus curou muitos que sofriam de várias doenças.”

Não é surpreendente que, na próxima manhã, os discípulos corram para Jesus e digam: “Todos estão te procurando!” Claramente a cidade estava cheia de rumores sobre os poderes miraculosos de Jesus para curar e queria repetir a dose no dia seguinte. Mas Jesus disse “não”. No que provavelmente foi um choque para seus discípulos, Jesus disse: “Vamos para outro lugar, para os povoados vizinhos, para que também lá eu pregue. Foi para isso que eu vim.”

Essa é a primeira, mas certamente não a última vez que ouvimos Jesus falar a palavra “não” nos evangelhos. Por que Jesus disse “não”? Obviamente ele tinha o poder de curar mais pessoas. Obviamente ele deseja aliviar a dor nas vidas dessas pessoas. Mas, embora Jesus quisesse curar mais pessoas, ele sabia que seu tempo aqui era limitado para cumprir o seu propósito. Jesus não veio à terra apenas para curar e revelar sua identidade. Ele veio para pregar sobre o evangelho na preparação para a Paixão que ele sofreria na cruz. Jesus foi claríssimo sobre o seu propósito e isso o levou a dizer “não” para coisas boas a fim de focar na coisa mais essencial que ele veio à terra para fazer.

Se Jesus não podia dizer “sim” para tudo, nem podemos nós. Você e eu temos tempo e recursos limitados. Para aproveitar ao máximo o tempo que nos foi encarregado, é crítico que sejamos super claros sobre o que cremos que Deus nos chamou para fazer e tenhamos o hábito de dizer não para as oportunidades — até as melhores — que nos distraem de nossa missão essencial.

Lembre-se, você está vivo por um propósito! Oro para que as Escrituras que analisamos até aqui nos desafiem a sermos sábios sobre como gastamos o tempo que nos resta nesta terra, usando nossas horas finais para amar Deus, amar outras pessoas e fazer discípulos de Jesus Cristo por meio de nossas vidas e nossa obra.


Por: Jordan Raynor. Website: https://jordanraynor.com/twbw/#time Jordan Raynor, 2021. Traduzido com permissão. Fonte: Time management principles from God’s Word.

Original: Princípios de gestão de tempo na palavra de Deus. © The Pilgrim. Website:  thepilgrim.com.br. Todos os direitos reservados. Tradução: Guilherme Cordeiro Pires.

O ponto de vista deste texto é de responsabilidade de seu(s) autor(es) e colaboradores direito, não refletindo necessariamente a posição da Pilgrim ou de sua equipe de profissionais.

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Respondendo ao fracasso (Jordan Raynor)

“Levem os fardos pesados uns dos outros e, assim, cumpram a lei de Cristo” Gálatas 6.2, NVI.

Ao contrário do que alguns “gurus espirituais de autoajuda” pregam, o Deus da Bíblia não nos promete sucesso. Antes de qualquer coisa, a Escritura deixa claro que os cristãos têm plena certeza de que haverá adversidades e fracasso. De Paulo a Pedro, de José a Jó, a Bíblia está cheia de histórias de homens e mulheres que experimentaram grandes fracassos tanto pessoal quanto profissionalmente. Ao longo de todas essas histórias, a Escritura nos revela um Deus que não está preocupado com nosso “sucesso”, mas está bem preocupado com nossa santificação e como nossos fracassos podem ser usados para nos moldar à sua imagem.

Hoje, mais e mais cristãos estão abraçando o chamado para criar, assumindo riscos para trazer à luz novas empresas, ministérios, arte, livros, músicas e outras formas de cultura para servir a outras pessoas. Nunca foi tão fácil seguir o chamado de Deus para criar! Mas precisamos lembrar que arriscar faz parte da natureza de criar coisas novas. Fracasso e adversidade — ao menos em algum nível — são inevitáveis para o cristão que está trabalhando para criar coisas que não existiram antes. Sabendo disso, como nós cristãos podemos responder ao fracasso de uma maneira que pregue o evangelho para nós e para outras pessoas?

Tudo começa com transparência — um princípio que está severamente em falta na igreja hoje. Vamos para a igreja nas manhãs de domingo, colocamos um sorriso no rosto e oramos para que não tenhamos que conversar sobre nada muito profundo. “E aí, tudo bem? Amei aquela foto que você postou no Instagram ontem à noite! Você viu o jogo ontem?” Ao invés de tratar os outros membros da igreja como irmãos e irmãs em Cristo, nossas conversas não são mais profundas do que o garçom do nosso restaurante favorito. Para muitos de nós, a igreja se tornou um clube social para mostrar nossa melhor versão ao invés de uma comunidade que se reúne para compartilhar honestamente nossas lutas e fracassos, seguros na graça de nossos irmãos e irmãs e, afinal, Deus.

Por que não somos mais vulneráveis? Porque, no final das contas, não estamos absorvendo plenamente o evangelho de Jesus Cristo para nossa salvação funcional cotidiana. Claro, entendemos que “pela graça [fomos] salvos mediante a fé”, confiando em Jesus para ter nosso ingresso para o céu. Mas vivemos como se ainda tivéssemos algo para provar, alguém para impressionar, ou algo que ainda precisamos fazer para demonstrar nosso valor. Tratamos o evangelho como um “extintor de incêndio”, muito bom para nos manter longe do inferno, mas nada mais que isso. Na realidade, o evangelho é a única coisa que nos permite encarar lutas e fracassos com a verdadeira paz. Nas palavras de Timothy Keller, “os cristãos deveriam ser conhecidos por sua calma e compostura diante de dificuldades e fracassos. Isso pode ser a maior evidência de uma pessoa estar extraindo dos recursos do evangelho no desenvolvimento da sua identidade pessoal.”

Quando somos transparentes sobre nossos fracassos, estamos pregando um sermão para nós e para o mundo que diz que nossa identidade se baseia em Cristo somente. Não perca essa oportunidade para deixar Deus usar o seu fracasso para a glória dele e o bem do seu próximo!

Esperança em tempos de fracassos

“Sabemos que Deus age em todas as coisas para o bem daqueles que o amam, dos que foram chamados de acordo com o seu propósito” Romanos 8.28, NVI.

Na fervilhante Chicago da década de 1860, vivia uma jovem família cristã de seis pessoas, cujo patriarca era um importante advogado e investidor. Tudo estava bem com esse jovem homem e sua família até o Grande Incêndio de Chicago destruir a maior parte de seu patrimônio. A perda foi significativa, mas foi irrelevante quando comparada à tragédia que esse mesmo homem experimentaria apenas dois anos depois quando sua esposa e suas filhas estiveram num naufrágio de uma viagem entre Nova York e a Inglaterra. Todas as quatro filhas morreram no acidente. Ao chegar na Inglaterra, a mãe mandou uma mensagem por telégrafo para seu marido em Chicago. “Só eu salva”, disse ela.

O marido deixou Chicago imediatamente, navegando para Inglaterra para encontrar sua esposa enlutada. Não sabemos muito sobre essa viagem pelo Atlântico, mas eu imagino que esse homem passou seus dias sozinho, lamentando sua perda e questionando seu Deus. Eu posso vê-lo encarando a janela para o mar, lendo o relato bíblico sobre Jó, um homem como ele que foi abençoado com muito, somente para ver tudo tirado dele num piscar de olhos. Não sabemos muito do que aconteceu naquele navio, mas sabemos disto: quando o navio cruzou o local em que as filhas daquele homem estavam descansando em paz, Horatio Spaffor escreveu estas palavras:

Se paz a mais doce me deres gozar,

Se dor a mais forte sofrer,

Oh! Seja o que for, tu me fazes saber

Que feliz com Jesus sempre sou!

Spafford tinha uma esperança que não se baseava nele, em sua capacidade de perseverar em meio ao sofrimento, ou nem mesmo no fato de que a sua esposa miraculosamente havia sobrevivido o acidente e estava lhe esperando cruzar o mar. Não, como seu hino clássico nos mostra, a esperança de Spafford esava baseada em algo mais profundo: Jesus Cristo e sua obra na cruz. Como ele escreveu na segunda estrofe:

Embora me assalte o cruel Satanás

E ataque com vis tentações;

Oh! Certo eu estou, apesar de aflições,

Que feliz eu serei com Jesus!

Ao navegar pelo oceano lamentando a perda de suas filhas, Spafford estava escrevendo sobre a cruz. Por quê? Porque a sua esperança estava baseada num Deus que entendia a sua dor, um Deus que viu seu próprio Filho inocente morrer na cruz e usou esse evento para a sua glória e nosso bem eterno.

As provações que você e eu enfrentamos pessoal e profissionalmente certamente empalidecem em comparação com a de Spafford. Mas a nossa fonte de esperança é a mesma. Se você perder o seu emprego, se você se atrasar na entrega de seu último produto, se você se vir forçado a demitir um funcionário, ou mesmo se o seu negócio completamente falir, você pode olhar para cruz, como Spafford fez, e dizer: “sou feliz, sou feliz com Jesus.” Romanos 8.28 nos lembra de que: “Sabemos que Deus age em todas as coisas para o bem daqueles que o amam, dos que foram chamados de acordo com o seu propósito.” Ao continuarmos a falar sobre assumir riscos para criar cultura, fracasso e adversidade são inevitáveis. Mas nós, como Spafford, temos a esperança de que Deus está fazendo tudo para a sua glória e nosso bem.

Os empreendedores mais ousados do planeta

“Todos vocês são filhos de Deus mediante a fé em Cristo Jesus, pois os que em Cristo foram batizados, de Cristo se revestiram” Gálatas 3.26-27, NVI.

Imediatamente antes de Jesus passar quarenta dias no deserto resistindo tentações incessantes pelo Inimigo, ele foi batizado no Rio Jordão. Os últimos dois versículos de Mateus 3 contam o evento: “Assim que Jesus foi batizado, saiu da água. Naquele momento, o céu se abriu, e ele viu o Espírito de Deus descendo como pomba e pousando sobre ele. Então uma voz dos céus disse: ‘Este é o meu Filho amado, de quem me agrado.’”

Logo no próximo versículo (Mateus 4.1), lemos: “Então Jesus foi levado pelo Espírito ao deserto, para ser tentado pelo Diabo.” O fato de esses eventos estarem juntos não é mera coincidência. Antes de Jesus iniciar seu ministério público com o que devem ter sido 40 dias agonizantes sozinho no deserto com Satanás, Deus o Pai fala audivelmente com Jesus, lembrando-o que ele é o Filho de Deus, que ele é amado e que o seu Pai “se agrada dele.”

Mesmo Jesus sendo divino, deve ter sido impressionante ouvir essas palavras sobre ele em público. Você e eu sabemos o resto da história. Jesus continua e ousadamente inicia seu ministério, resiste tentações, revela sua divindade e salva o mundo por meio de seu sacrifício na cruz.

Então o que esse relato tem a ver com a maneira que você e eu respondemos a adversidade e fracasso? Tudo! Gálatas 3.27 nos lembra de que “todos vocês são filhos de Deus mediante a fé em Cristo Jesus, pois os que em Cristo foram batizados, de Cristo se revestiram”. Paulo está nos apontando para o batismo de Jesus, dizendo que, por meio da nossa fé em Jesus, fomos simbolicamente unidos com Jesus em seu batismo. Por causa da obra de Cristo na cruz, podemos ouvir o Pai falando as mesmas palavras ditas a Jesus como sendo ditas para nós: “Este é o meu filho amado; de quem me agrado.”

Segure-se firme nessas palavras, não porque talvez você as perca, mas porque elas dão a você e a mim a mesma ousadia que Jesus exibiu quando ele saiu do Rio Jordão. Qualquer fracasso que você esteja experimentando, lembre que você é um filho ou uma filha do Rei. Você é amado. O Rei se agrada de você. As palavras de Deus são verdadeiras e imutáveis. Nenhuma quantidade de sucesso ou fracasso vai poder mudar quem ele declara que você é. Que isso lhe dê a ousadia de responder bem a fracassos, ser transparente sobre suas falhas por amor ao evangelho e ter esperança eterna porque você está “revestido de Cristo”.


Por: Jordan Raynor. Website: https://jordanraynor.com/category/responding-to-failure/© Jordan Raynor, 2021. Traduzido com permissão. Fonte: Responding to failure.

Original: Respondendo ao fracasso. © The Pilgrim. Website: thepilgrim.com.br. Todos os direitos reservados. Tradução: Guilherme Cordeiro Pires.

O ponto de vista deste texto é de responsabilidade de seu(s) autor(es) e colaboradores direito, não refletindo necessariamente a posição da Pilgrim ou de sua equipe de profissionais.

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Todo cristão é missionário em tempo integral

Cresci com medo de sermões sobre o tópico de missões. Não é porque eu não ame missões, na verdade, não posso em pensar em algo tão alucinante quanto compartilhar o nome de Jesus com um mundo perdido. Amo que 1Pedro 2.0 fala para anunciarmos “as grandezas” de nosso Deus, falando para outras pessoas sobre a obra miraculosa que Jesus fez em meu favor. Porém, há anos, toda vez que sabia que meu pastor pregaria sobre missões por estarmos entrando em mais uma “semana missionária”, eu me retorcia porque sabia que o sermão iria me deixar cheio de culpa porque eu não “iria” para “todas as nações” fazer discípulos de Jesus Cristo.

Nunca vivi fora dos Estados Unidos e nunca me vi numa vocação que tradicionalmente seria considerada “ministério em tempo integral”. Passei toda a minha carreira como um empreendedor na área de tecnologia e um escritor. Eu construí empresas e escrevi livros para sobreviver. E por meio desse trabalho — um trabalho que muitos na igreja podem chamar de “secular” — já vi o Senhor fazer coisas incríveis para alcançar os feridos com o evangelho.

É lamentável que, quando a maioria das igrejas fala sobre missão hoje, elas, na maioria das vezes, falam quase exclusivamente em termos de cristãos deixarem seus empregos e os locais em que Deus lhes chamou para irem para outra cultura como “missionários em tempo integral, apoiados por doações”. Odeio como tanta gente na igreja fala sobre missões, porque eu amo o evangelho de Jesus Cristo e estou cansado de ouvir — sutilmente e às vezes nem isso — que, porque você e eu gastamos mais de 40 horas semanais com nossas empresas, vamos para a escola, fazemos contas, criamos artes e levamos crianças para lá e para cá, não somos “missionários em tempo integral” comprometidos com fazer discípulos de Jesus Cristo por onde quer que formos.

Chamar um cristão de missionário em tempo integral é redundante. Nem precisa ser dito. Seja você um estudante, um empreendedor, um garçom, um médico, um zelador, um advogado, uma mãe ou um professor, você é missionário em tempo integral chamado para fazer discípulos por onde quer que você for nesta vida! A Palavra de Deus deixa claro que você e eu podemos ser obedientes à Grande Comissão sem mudar nossa vocação ou localização. Você pode ver o seu trabalho como uma missão em tempo integral a começar por hoje.

Se essa ideia parece nova ou recente, é porque a igreja comprou três mitos não bíblicos sobre missões que veremos ser refutados pela Escritura.

Mito de missões n. 1

A ideia de que todo cristão é um missionário em tempo integral pode parecer uma ideia nova ou recente. Por quê? Como veremos hoje, a Palavra de Deus deixa cristalinamente claro que cada um de nós é chamado a fazer discípulos de Jesus Cristo não importa qual seja o nosso emprego ou onde vivamos. Então por que esse conceito parece ser novo? Creio que é porque a igreja comprou três mitos sobre missões que veremos que a Escritura refuta.

O primeiro mito que a igreja subscreveu por algum tempo agora é que o trabalho é em grande parte inútil a não ser que você trabalhe como “missionário em tempo integral”.

Você já sentiu que o seu trabalho é menos importante ou significativo para a eternidade porque você não é pastor ou “missionário em tempo integral”? Esse sentimento é muito comum hoje, mas a boa notícia é que ele não é nada bíblico.

Gênesis 1.26-31 nos lembra de que o trabalho era parte do plano original e perfeito de Deus para o mundo. Nesta passagem, vemos Deus ordenando a humanidade a co-criar com ele — para “frutificar” e “enchei a terra e sujeitai-a”. Esse chamado não é só para a procriação. É um chamado para a civilização. É um chamado para criação cultural, de seguir a orientação de Deus para trabalhar e trazer coisas que não estavam aqui antes.

Se você for para Gênesis 2.15, você verá que Deus colocou Adão no Jardim do Éden e o chamou para o “trabalhar e cultivar”. Em 2.19, ele convida Adão a dar nomes a toda criatura viva. Deus está chamando Adão para ser um governante, um jardineiro, um agente de brands — trabalhos que hoje seríamos tentados a chamar de “secular” ou ao menos ver como menos significativos do que trabalhos como pastor ou missionário transcultural.

Mas eis a verdade: Deus chamou seres humanos para trabalhar mesmo antes da Queda. Assim, todo trabalho é intrinsecamente significativo e é um meio primário pelo qual revelamos o caráter de nosso Deus Criador e servir ao próximo.

Mito de missões n. 2

A fim de abraçar a ideia de que todo cristão é missionário em tempo integral, há um segundo mito de missões que precisamos usar a Escritura para refutar. Aqui está: o chamado de pastores e “missionários em tempo integral” é de algum modo “superior” ao chamado de outras vocações.

Como vimos na devocional de ontem, Deus chamou os seres humanos para trabalhar, dando um significado intrínseco a todo trabalho. Assim, não deve haver uma sensação de que o chamado vocacional de uma pessoa é superior, mais significativo ou mais relevante para a eternidade do que outros.

Mas o fato é que uma hierarquia implícita de chamados na igreja hoje que diz que, se você realmente está comprometido com Jesus, você abandonará o seu trabalho atual e “passará para o próximo nível” espiritual sendo um pastor ou missionário apoiado por doações.

Essa ideia não é nova. É um mito com que a igreja tem lutado por séculos. Martinho Lutero, João Calvino e outros líderes da Reforma Protestante lutaram veementemente contra essa hierarquia humana de chamados, argumentando que todo trabalho é tanto um chamado de Deus quanto o trabalho de um pastor ou sacerdote.

O que é particularmente risível sobre esse mito é o fato de que adoramos um Deus que passou a maior parte do seu tempo na terra trabalhando como carpinteiro! A Bíblia nos dá pouquíssimos detalhes sobre a vida de Jesus entre as idades de vinte e trinta anos, antes de ele começar seu ministério público. Uma das únicas coisas que a Escritura observa sobre esse grande período de tempo é que ele era conhecido na sua comunidade por seu trabalho como carpinteiro (ver Marcos 6.3)!

Pense nisso por um momento: desde o princípio do tempo, Deus sabia que ele enviaria Jesus à terra para redimir a humanidade. Sabendo disso — e sabendo o propósito final da vida de Jesus nesta terra — o fato de que Deus escolheu que Jesus crescesse na casa de um carpinteiro chamado José deveria nos surpreender.

Deus podia ter colocado Jesus numa família de sacerdotes, como o profeta Samuel ou João Batista. Ele podia ter crescido na família de um fariseu como o apóstolo Paulo. Mas não, Deus colocou Jesus na família de um carpinteiro onde ele passaria mais do que a metade da sua vida ministrando a outras pessoas ao fazer o que imaginamos ser mesas realmente excepcionais.

Agir como se o chamado do clero é superior a qualquer outro chamado é nada menos que desprezar Jesus Cristo. É um mito antibíblico dizer que há algum tipo de hierarquia de chamados. A verdade é que adoramos um Deus que trabalho e dá dignidade e sentido a todas as vocações.

Mito de missões n. 3

O terceiro e último mito sobre missões de que falaremos esta semana é que, a fim de cumprir a Grande Comissão você precisa “sair” da sua vocação e localização atuais.

Alguns anos atrás, ouvi um dos sermões mais revolucionários sobre a Grande Comissão pelo Dr. Kennon Vaughan. Focando na palavra “ide” no mandamento de Jesus em Mateus 28.19. Dr. Vaughan disse: “a palavra ‘ide’ irá ‘desbloquear o sentido para nós sobre como devemos fazer a Grande Comissão. A palavra ‘ide’ significa literalmente ‘tendo ido’. ‘Ide’ não é um mandamento, [Jesus] não está lhes dizendo para ir, mas sim dizendo ‘Tendo ido, fazei discípulos!’ Assume-se o ide. Em outras palavras, Jesus está dizendo: ‘Tendo ido daqui, enquanto vocês forem, convertam os homens em discípulos.’ Jesus não andou mais de 1500 quilômetros da sua cidade natal, mas ainda assim ele diz para fazermos discípulos de todas as nações e eu ousaria dizer que Jesus é o maior discipulador na história do mundo. Não se trata de quão longe ele foi, mas do que ele fazia enquanto ia. O mesmo é verdade para eu e para você.”

Não sei você, mas, até uns anos atrás, eu nunca havia ouvido uma pregação da Grande Comissão assim. “Enquanto vocês forem, façam discípulos”. Isso muda tudo.

Embora Deus realmente possa estar te chamando para mudar a sua vocação ou a sua localização, isso certamente não é um requerimento para cumprir a Grande Comissão. A verdade é que Jesus chamou cada um de nós para ser um missionário em tempo integral, fazendo discípulos enquanto vamos para nosso trabalho e para nossas vidas.

Quando entendemos que o trabalho é intrinsecamente bom e significativo, que o chamado do clero não é maior que o da congregação e que Jesus ordenou-nos a fazer discípulos enquanto estamos indo pela vida… isso muda tudo.

Não importa qual é o seu cargo no emprego — você é ordenado a fazer discípulos.

Não importa se você vive em Nova York ou em Nova Délhi — você é ordenado a fazer discípulos.

Não importa se você é pastor, estudante, empresário, dona de casa, contador, garçom ou artista — você é ordenado a fazer discípulos.

Não em algum ponto no futuro distante. Não quando você se aposentar da sua vocação atual. Não apenas na próxima viagem missionária. Hoje. Você é um missionário em tempo integral. Que incrível privilégio. Que incrível responsabilidade.


Por: Jordan Raynor. © Jordan Raynor. Website: https://my.bible.com/users/gcpdf/reading-plans/11395-every-christian-is-a-full-time-missionary/subscription/696722770/day/4/segment/0. Traduzido com permissão. Fonte: Every Christian is a full time missionary.

Original: Todo cristão é missionário em tempo integral de Jordan Raynor. © The Pilgrim. Website: thepilgrim.com.br. Todos os direitos reservados. Tradução: Guilherme Cordeiro Pires.

O ponto de vista deste texto é de responsabilidade de seu(s) autor(es) e colaboradores direito, não refletindo necessariamente a posição da Pilgrim ou de sua equipe de profissionais.

Imagem de Will Suddreth em Unsplash.

Vendo Deus na escuridão (Brad East)

Uma resenha de Oração da noite por Tish H. Warren

Te louvo porque

tu és artista e cientista

em um. Quando eu 

de algum modo temo teu poder,

tua habilidade de operar milagres

com um esquadro, te ouço

murmurar para ti mesmo

em notas que Beethoven

sonhou, sem alcançar.

Tu percorres tuas escalas

em água de chuva e do mar, tocas

os acordes da manhã

e da luz crepuscular, escultura

de sombras, juntas folha

a folha, quando chega 

a primavera, as estrofes de

um imenso poema. Falas

todas as línguas e nenhuma,

respondendo nossas mais complexas

orações com a simplicidade

de uma flor, confrontando-nos,

quando tentamos te domesticar

para nosso uso, com a revolta

de vírus sob nossos olhos.

— R.S. Thomas, “Praise”


Quando a COVID-19 chegou até nós era a época da quaresma, e para muitos de nós, nem a covid nem a quaresma terminaram. É a estação litúrgica da COVID-19, é o que dizem: uma exceção ou emergência no calendário eclesiástico, um período contínuo e aparentemente eterno de isolamento, confusão e perda. A penumbra de uma praga nos cobriu como uma mortalha, e os cristãos, tanto quanto os todos os demais, não têm completa certeza do que dizer ou fazer, ou para que lado seguir nesse crepúsculo repentino e desorientador. 

Uma quaresma desemboca na outra, sendo unidas por um vírus. Aqui estamos novamente. A quaresma é uma estação penitencial, mas não é uma questão de masoquismo ou refletir no que é triste só porque é triste. Jejuamos porque o corpo precisa lembrar do espírito. Meditamos sobre os nossos pecados não para nos fixarmos neles, mas para confessá-los perante Deus. Fixamos nossos olhos em Jesus, o Cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo, ao Verbo feito carne, a luz do mundo que brilha nas trevas — porque as trevas não prevaleceram contra ela.

O penúltimo ato da quaresma é despir o altar na Quinta Feira Santa. Da mesma forma, a quaresma despe os batizandos. Ela nos despe de cada artificio de nossa suposta autonomia, de toda afirmação possível de que somos donos de nós mesmos, de toda tentativa vergonhosa de protestar que algo em nossas vidas não é um presente vindo de outra pessoa. “E o que tens que não tenhas recebido” (1Co 4.7) é a pergunta da quaresma, e ela não nos deixará quietos até que nos rendamos. Nossas vidas, e tudo que há nelas, são um presente. A nós só nos cabe receber e ser gratos. 

Assim é a quaresma em tempos comuns, pelo menos. O coração quebrantado e contrito que Deus não desprezará deve surgir de dentro; não pode ser imposto de fora. Ainda assim, a longa quaresma do ano passado — a quaresma de lockdowns e demissões, isolamentos e funerais, nascimentos sem avós e festas sem a família — realmente foi uma imposição. Não a escolhemos, e nunca a teríamos escolhido.

A questão não é se ela também pode operar nos nossos corações. Ela pode. A questão é, embora vejamos no horizonte a alvorada de boas notícias (de forma imediata, a vacinação em massa; de forma definitiva, o domingo de Páscoa), qual operação será essa e se nós o receberemos ou o resistiremos.


Tish Harrison Warren escreveu seu novo livro, Oração da noite: para quem trabalha, vigia e chora, antes da COVID-19. Mas a leitura faz parecer que ela já sabia o que estava por vir. É uma obra de melancolia sacra. Nasceu de sofrimento, dor e perda: a perda inesperada de seu pai e de dois filhos não nascidos. O livro não propõe regras para a vida. Não provê um plano para o sucesso. Não ousa ser feroz, nem abusar de sua culpa, te aconselhar a se afundar nela. Em resumo, não contém técnicas nem faz garantias.

            Mas oferece uma oração.

            A oração vem do Livro de Oração Comum (LOC), no ofício das completas. É uma oração que não somente Warren, que é pastora na Anglican Church of North America (ACNA), mas toda sua família começou a recitar junto cada noite em seu período de dificuldade. Como todas as orações da LOC, esta é de uma simplicidade elegante:

Vela, ó Senhor amado, com os que trabalham, vigiam ou choram nesta noite. Manda que teus anjos guardem os que dormem. Cuida dos enfermos, Cristo Senhor. Dá repouso aos cansados. Abençoa os que estão à beira da morte. Consola os que sofrem. Compadece-te dos aflitos. Guarda os alegres. Tudo isto te suplicamos somente por teu grande amor. Amém.

Essas palavras viraram um mantra ao cair da noite. À medida que as palavras penetravam nas feridas do seu luto, elas tomaram vida própria. Abriram novos horizontes na prática de Warren da fé. Em Oração da noite, cujos capítulos são estruturados por cada frase sucessiva da oração, ela compartilha o que aprendeu.

O resultado é um exercício sábio, comovente e primoroso de teologia contemplativa escrita para crentes ordinários. Alcançar tal coisa é raro nos escritos cristãos populares dos dias de hoje, os quais geralmente vêm em três formas: profundo, mas nichado; raso, mas acessível; ou possivelmente sub-cristão. O fato de Warren escapar dessas armadilhas — acima de tudo mediante sobriedade espiritual, clareza de prosa e seriedade intelectual — não será nenhuma surpresa aos leitores de suas obras anteriores. Em Liturgia do ordinário, Warren conseguiu sintetizar meio século de trabalho acadêmico sobre comunidade, hábitos, disciplinas e adoração para leitores que claramente estavam sedentos por isso. Uma passagem breve desse livro nunca me abandonou, e serve como ligação para seu próximo livro:

Quando Jesus morreu pelo seu povo, ele me conhecia pelo nome na particularidade deste dia.[1] Cristo não redimiu a minha vida teoricamente ou abstratamente, a vida que eu sonhei viver ou a vida que eu pensava que deveria viver, idealmente. Ele sabia que eu estaria hoje do jeito que eu estou, na minha casa do jeito que ela está, nos meus relacionamentos com sua beleza e miséria específicas, nos meus pecados e lutas peculiares. (pg. 31)

Em outras palavras, se o objeto da redenção de Cristo sou eu e não uma versão instagramizada de mim, então é a minha vida de verdade, e toda o marasmo quotidiano dela, que interessa a Cristo. É com isso que ele trabalha. Fazer o jantar e trocar fraldas, ir para o trabalho e mexer no celular: isso tudo é mundano, sem dúvida, e até entediante. Ainda assim, essa é a matéria da redenção. É a zona da graça. É o lugar onde, se eu apenas me permitir vê-lo, o Cristo ressurreto me encontra e me diz para tomar minha cruz e segui-lo. E tal como a cruz é sem glamour ao extremo, assim também o é a maioria do que conta como discipulado. Sinais e maravilhas são a exceção, não a regra. Ou melhor, com Jesus, o reino de Deus “não vem com aparência exterior […] Pois o reino de Deus está entre vós” (Lc 17.20-21).

Se o discipulado tão sem espetáculo, então é razoável esperar que nossa vida na igreja seja similarmente ausente de fogos de artifícios. E assim o é. E nós podemos, Warren argumenta, ou recalcitrar inutilmente contra os nosso aguilhões e exigir que a vida da fé nos proveja uma série infinda de experiências extraordinárias, cuja qualidade subjetiva não pode ser alcançada, nem refutada; ou podemos aceitar a natureza rotineira de seguir a Jesus, e buscar dessa forma os antigos caminhos dos hábitos santificadores. A primeira opção é uma passagem expressa para o burnout espiritual — embora sua estada contínua na fecunda religiosidade do evangelicalismo americano de fato sugira que tenha poder para ficar. De todo modo, Warren opta pelo segundo, que também calha de ser a forma que a igreja têm escolhido através dos séculos.

Para essa tradição mais comum, a liturgia e os sacramentos funcionam como um tipo de âncora ou guia para os fiéis, assegurando nosso relacionamento com Cristo mediante nossa presença corporal uns para com os outros e mediante a presença real de seu próprio corpo para nós e entre nós. Pela repetição de rituais de adoração, o Espirito nos une uns aos outros e ao nosso cabeça, o Senhor Jesus; e está é precisamente a repetição que opera nossa comunhão. Pois não precisamos depender de nossos sentimentos instáveis, muito menos de espontaneidade ou talento, para facilitar a presença do Espírito. A comunhão dos santos já nos deu o roteiro, antigo e bem utilizado. Esse roteiro é um registro da vida de Deus com seu povo; mais do que um registro, é um mapa: como chegar daqui para lá. Ao confiar em Deus e no povo de Deus, portanto, mantemos o roteiro litúrgico: entra ano, sai ano. E ao fazer isso, nos encontrando e nos aprofundando nele, seguindo os santos como estes seguiram a Cristo. Até dizemos as orações deles. Afinal, o Espírito promete nos fornecer palavras quando as nossas falharem. Uma forma que ele faz isso é ao nos dar as palavras dos fiéis que se foram.[2]

Faz sentido, então, que, quando Warren se encontrou numa sala de emergência, coberta de sangue e incerta sobre o que estava acontecendo, ela tenha gritado a seu marido, acima do som das máquinas e das enfermeiras: “As completas! Eu quero orar as completas!”

* * *

            Três temas, ou compromissos, são o fundamento que informam Oração da noite. Primeiro que Deus não impede as coisas ruins de acontecerem. Segundo que todos nós somos defensores implícitos da teologia da prosperidade. E terceiro que Deus é amor.

No começo do livro Warren lembra de uma frase que ouviu num sermão anos atrás: “Você não pode confiar que Deus vá impedir que coisas ruins aconteçam com você.” Isso a deixou, nas palavras dela, boquiaberta. Ela sabia que coisas ruins aconteciam no mundo. E Deus certamente previne que toda sorte de coisa ruim nos surpreenda, a cada segundo. Todavia ela compreendeu que confiar em Deus não é confiar que ele sempre fará isso. Mais perigosamente, não devemos confiar em Deus só quando ele nos protege do mal. Coisas ruins — terríveis, trágicas — vão acontecer conosco. Isto é um fato. E nossa confiança em Deus não depende desse fato. Ambos estão relacionados, mas não desta maneira.

Nossa tendência de confundir a função de uma com a outra é, no entanto, reveladora. O modo como vivemos revela nossas crenças mais profundas. Por essa medida, todos nós em algum nível cremos num tipo de teologia da prosperidade.[3] Pois “em algum lugar silencioso de nossos corações, sentimos o favor de Deus quando as coisas dão certo para nós e sua desaprovação — senão a sua ausência — em nossas frustrações.”

A aflição verdadeira nos vira de cabeça para baixo e nos deixa todo perdido, esse tipo de sofrimento que não tem trégua nem descanso nessa vida, “quando a estrada é longa e provavelmente não haverá final feliz […] Queremos que o sofrimento tenha um começo, meio e fim claros, de um jeito que possamos entender, uma história com uma resolução coerente. Nós resistimos uma visão do cristianismo sem resultados imediatos, sem vantagens evidentes.”

Quando Cristo nos encontra nas nossas aflições, ou nas dos outros, ele “expõe as promessas vazias de uma cultura consumista, e até de uma fé consumista — de que prazer, prosperidade, saúde e realização mundana sejam verdadeira abundância.” Não são. Na verdade, são produtos falsificados e máscaras em nossos dramas diários de negação, enquanto fingimos para nós mesmos e para nosso próximo que, nas palavras de Stanley Hauerwas, vamos sair dessa vida vivos.

O evangelho não é um conto de fadas. Longe de aceitar nossa negação da morte, ele nos põe face a face com a nossa própria mortalidade — de fato, com aquilo que Warren, seguindo Thomas Long, chama de “Morte com M maiúsculo”. A quaresma se inicia com a Quarta Feira de Cinzas, quando somos marcados com o sinal da morte de Cristo e lembrados de que somos pó e ao pó voltaremos. O livro de Warren é sobre a escuridão, que é apenas outra forma de dizer que é sobre a morte. Ela não vai permitir que escondamos o rosto aqui. Ela não vai permitir que desviemos os olhos. Viver na verdade significa reconhecer que você e eu e todo mundo que amamos vai, um dia, morrer.

Alguém pode responder: isso talvez seja uma dose amarga de realismo, mas dificilmente é boas novas. Se tudo está acorrentado à morte e não podemos confiar que Deus nos botará longe do alcance da morte (e de suas diversas antecipações), então Deus serve para quê? Por que confiar nele, para começo de conversa? A resposta, se é que isso é uma resposta, percorre o livro como um reluzente fio: porque Deus é amor (1 Jo 4.8). Isso quer dizer, o Deus revelado em Jesus Cristo é ele mesmo o amor que move o sol e as demais estrelas. É então um erro confiar nele para nos tornarmos invulneráveis nesta vida. Porque o movimento é o contrário: ele, embora invulnerável por natureza, se tornou vulnerável por amor de nós. “Jesus deixou um lugar sem noite para entrar nas nossas trevas”, escreve Warren. Então embora seja verdade que Deus não impeça que coisas ruins aconteçam conosco, também é verdade que “Deus não impediu que coisas ruins acontecessem com o próprio Deus.”

Deus, em resumo, não responde ao nosso sofrimento com uma palestra; ele se junta a nós e torna os nossos sofrimentos dele. Com efeito, o sofrimento dele é curativo; o Deus que chora com Santa Maria de Betânia (Jo 11.32-35) não sofre sem propósito — “pelas suas feridas fostes sarados” (1Pe 2.24). Mas o sofrimento do nosso Senhor não põe um fim ao nosso, antes, o envolve e o inunda com as presença. Gememos ansiando pelo dia em que ele “destruirá neste monte a coberta que envolve todos os povos e o véu que está posto sobre todas as nações”, quando “tragará a morte para sempre, e, assim, enxugará o SENHOR Deus as lágrimas de todos os rostos” (Is 25.7-8, ARA). “Mas — espere —”, diz Warren, “antes vamos chorar bastante uma última vez. A redenção não pula as trevas, mas sim exige que até a última lágrima seja derramada.” Per crucem ad lucem: pela cruz, à luz. Ou antes, a luz do Senhor só nos encontra no escuro.

Esta é a boa nova do evangelho, mesmo que provavelmente ele não certifique a vitória em que Warren chama de “briga de faca existencial” ou teodiceia. Ele nos dá Deus; ele não nos dá uma explicação. Ele permite, e até encoraja, o lamento, mas exorta a reclamação do cliente insatisfeito, como se Jesus estivesse um “Deus com a performance baixa”, deixando de manter o seu lado da barganha. Uma visão transacional desse tipo reflete uma falha fundamental em compreender a natureza da encarnação. Na véspera de sua paixão, o próprio Jesus orou ao Pai com lágrimas e sangue no Getsêmani — mesmo quando seus amigos mais próximos dormiam ali por perto. Ele se manteve vigiando naquele momento, e ainda vigia: ele “não dormita.” Em nossa agitação e noites solitárias, portanto, “Deus está conosco e ele conhece a nossa fragilidade e vulnerabilidade tão certamente quanto ele conhece a palma de nossas mãos.” Em tempos como estes, “oração ajusta nossos olhos para ver Deus nas trevas”, onde ele sempre esteve e de onde nunca saiu.

Assim como os lutos e perdas de nossas vidas ordinárias, a escuridão coletiva do ano passado não foi prevista nem escolhida. Muitos têm sido mais sortudos, apesar de tudo, mas o fardo é compartilhado. Será que este fardo poderia ser uma oportunidade de espiar a presença de Deus entre nós? Será que essa escuridão poderia ser um meio de contemplar a luz de Cristo? Warren diz:

Pensamos que disciplinas espirituais são hábitos que iniciamos, como ler a Bíblia, orar e ir à igreja. Essas são as partes explicitamente espirituais de nossos dias. O resto da nossa vida é simplesmente aquilo pelo que passamos, as coisas inertes compostas por tempo, acaso e biografia. Porém, muitas vezes as práticas espirituais mais fundamentais e formativas de nossas vidas são as coisas que nunca escolheríamos. As formas mais profundas de encontrar a Deus são frequentemente aflições.

            A quaresma está chegando ao fim. Tivemos nossa porção do pão da aflição, e mais um pouco. A luz está começando a raiar. A Páscoa está vindo. Mas a verdade é que não temos que esperar. Jesus já está aqui, conosco, nesse vale de sombras. Ele sempre esteve. E sempre estará, venha o que vier. 


[1] Se Stanley Hauerwas um dia escrever uma continua a seu ensaio “How to Write a Theological Sentence” [Como escrever uma frase teológica], ele deveria incluir esta aqui.

[2] Eu reflito mais sobre essas linhas em “The Church and the Common Good.” [Link: https://www.cardus.ca/comment/article/the-church-and-the-common-good/]

[3] Aqui Warren aponta o leitor ao Everything Happens for a Reason: And Other Lies I’ve Loved, de Kate Bowler; assino em baixo dessa referência. Veja também o novo livro de David H. Kelsey, Human Anguish and God’s Power.mereorthodoxy.com/fear-covid19/


Por: Brad East. © Mere Orthodoxy. Website: https://mereorthodoxy.com/prayer-in-the-night-book-review/. Traduzido com permissão. Fonte: To See God in the Darkness: On Tish Harrison Warren’s “Prayer in the Night”.

Original: Vendo Deus na escuridão: sobre Oração da noite de Tish Harrison Warren. © The Pilgrim. Website: thepilgrim.com.br. Todos os direitos reservados. Tradução: Arthur Guanaes. Revisão: Guilherme Cordeiro Pires.

O ponto de vista deste texto é de responsabilidade de seu(s) autor(es) e colaboradores direito, não refletindo necessariamente a posição da Pilgrim ou de sua equipe de profissionais.

Direção espiritual: durma melhor (Tish H. Warren)

Recentemente me deparei com um estudo da Duke University que conclui que as mulheres precisam de mais sono do que os homens e que a privação de sono causa mais estresse emocional e físico nas mulheres do que nos homens. Imediatamente o encaminhei para meu marido com uma nota de que isso afirma o que eu tenho dito a ele já faz anos.

Sempre amei dormir, mas ultimamente isso se tornou uma necessidade premente. Tenho crianças pequenas que acordam no meio da noite numa frequência absurda, então pensar no sono carrega um tom teológico de crise: o que está acontecendo comigo? Como isso pode continuar? Como Deus pode não se importar comigo? Por que ele não faz meus filhos dormirem mais?

Parece excessivamente dramático, até mesmo levemente histérico. E é. Porque quando me falta sono, eu fico facilmente dramática e histérica. E, graças à Duke, agora eu tenha comprovação científica de que isso é totalmente normal.

A CDC publicou um artigo em março com o título Insufficient sleep is a public health epidemic [Sono insuficiente é uma epidemia de saúde pública]. Mesmo entre aqueles sem filhos pequenos, estamos tendo bem menos do que as 7 a 9 horas recomendadas e isso está causando um desastre — um desastre de confusão, amnésia e mal-humor.

Em nossa cultura crescentemente tecnológica, workaholic, cafeinada, viciada em entretenimento e sobrecarregada, lembrar que somos criaturas limitadas e corpóreas é uma parte difícil e necessária do discipulado. Meu marido e eu pastoreamos estudantes da pós-graduação e com frequência o encorajamento mais espiritualmente útil e relevante que podemos dar a eles é terminar o trabalho mais cedo, cuidar de seus corpos e dormir mais.

Mas isso não parece muito com um conselho espiritual. Não é preciso um diploma de seminário para dizer a alguém que vá para a cama mais cedo. Quando buscamos apoio financeiro para nosso trabalho no campus universitário, um boletim informativo entusiasmado relatando que os estudantes cristãos têm um sono melhor e mais profundo não irá impressionar muito os potenciais apoiadores.

De qualquer modo, Deus se importa com o sono. Um dos meus momentos favoritos dos evangelhos é quando encontramos Jesus no fundo de um barquinho dormindo pesado no meio de uma tempestade. Seu sono foi teológico, no sentido em que revela uma confiança firme em seu Pai. Mas também não nos esqueçamos que isto também é um retrato ordinário de um homem cansado tirando uma soneca.

O sono nos lembra de que a teologia, no fim do dia (literalmente), sempre é para criaturas. Davi adorou a Deus dormindo: “Eu me deito, durmo e acordo, pois o SENHOR me sustenta.”

Talvez Deus queira não só nos dar vidas de oração e santidade, mas também sono suficiente. Falando de forma mais direta, talvez um passo crucial para uma vida de oração e santidade é receber o dom de uma boa noite de sono.

Não somos gnósticos. Adoramos um Deus que foi plenamente encarnado. Ele almoçou, ralou os joelhos e se sentiu cansado. Sim, é tão fácil pensar que a realidade espiritual das coisas é cognitiva e não corporal. Precisamos acreditar no evangelho em nossa mentes, ler livros cristãos, orar com palavras, sentir a adoração em nossos corações. Mas para vivermos vidas de discípulos, temos que fazer tudo isso em nossos corpos. Quando dormimos o suficiente, somo mais capazes de obedecer a Deus e de amar nosso próximo.

Mas talvez de modo mais importante o ato de parar e relaxar no sono é em si um ato de adoração e confiança em Deus. Como crentes, podemos apreciar o sono como não só necessário, mas também como uma confissão corpórea de que somos criaturas fracas e vulneráveis cuidadas e nutridas pelo nosso forte Criador. Isso requer fé para parar de lutar contra o cansaço com estimulantes e telas. Porque ele nos sustém, nós dormimos.

Na nossa busca de uma comunhão contra cultural com o novo Rei, começamos em nossos corpos. Em um mundo crescentemente tecnocrata e sem limites, é um ato radical lembrar e aceitar os limites de ser criatura.

Quando os descrentes encontrarem nossa comunidade, tenho a esperança de que seremos um povo alternativo conhecido por amor, busca pela justiça, humildade e bom humor. E também tenho a esperança de que o mundo tomará nota: “Aqueles cristãos realmente estão descansados.” Para o povo de Deus, o sono, assim como a nossa vida ordinária, importa.

Desacelera. Se enrola num cobertor. Fecha os olhos. E deixa seu ronco proclamar a fidelidade de Deus.


Por: Tish Harrison Warren. © The Well. Website: http://thewell.intervarsity.org/blog/spiritual-direction-get-more-sleep. Traduzido com permissão. Fonte: Spiritual Direction: Get More Sleep.

Original: Direção espiritual: durma mais. © The Pilgrim. Website: thepilgrim.com.br. Todos os direitos reservados. Tradução: Arthur Guanaes. Revisão: Guilherme Cordeiro Pires.

Imagem:  Unsplash

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