Vendo Deus na escuridão (Brad East)

Uma resenha de Oração da noite por Tish H. Warren

Te louvo porque

tu és artista e cientista

em um. Quando eu 

de algum modo temo teu poder,

tua habilidade de operar milagres

com um esquadro, te ouço

murmurar para ti mesmo

em notas que Beethoven

sonhou, sem alcançar.

Tu percorres tuas escalas

em água de chuva e do mar, tocas

os acordes da manhã

e da luz crepuscular, escultura

de sombras, juntas folha

a folha, quando chega 

a primavera, as estrofes de

um imenso poema. Falas

todas as línguas e nenhuma,

respondendo nossas mais complexas

orações com a simplicidade

de uma flor, confrontando-nos,

quando tentamos te domesticar

para nosso uso, com a revolta

de vírus sob nossos olhos.

— R.S. Thomas, “Praise”


Quando a COVID-19 chegou até nós era a época da quaresma, e para muitos de nós, nem a covid nem a quaresma terminaram. É a estação litúrgica da COVID-19, é o que dizem: uma exceção ou emergência no calendário eclesiástico, um período contínuo e aparentemente eterno de isolamento, confusão e perda. A penumbra de uma praga nos cobriu como uma mortalha, e os cristãos, tanto quanto os todos os demais, não têm completa certeza do que dizer ou fazer, ou para que lado seguir nesse crepúsculo repentino e desorientador. 

Uma quaresma desemboca na outra, sendo unidas por um vírus. Aqui estamos novamente. A quaresma é uma estação penitencial, mas não é uma questão de masoquismo ou refletir no que é triste só porque é triste. Jejuamos porque o corpo precisa lembrar do espírito. Meditamos sobre os nossos pecados não para nos fixarmos neles, mas para confessá-los perante Deus. Fixamos nossos olhos em Jesus, o Cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo, ao Verbo feito carne, a luz do mundo que brilha nas trevas — porque as trevas não prevaleceram contra ela.

O penúltimo ato da quaresma é despir o altar na Quinta Feira Santa. Da mesma forma, a quaresma despe os batizandos. Ela nos despe de cada artificio de nossa suposta autonomia, de toda afirmação possível de que somos donos de nós mesmos, de toda tentativa vergonhosa de protestar que algo em nossas vidas não é um presente vindo de outra pessoa. “E o que tens que não tenhas recebido” (1Co 4.7) é a pergunta da quaresma, e ela não nos deixará quietos até que nos rendamos. Nossas vidas, e tudo que há nelas, são um presente. A nós só nos cabe receber e ser gratos. 

Assim é a quaresma em tempos comuns, pelo menos. O coração quebrantado e contrito que Deus não desprezará deve surgir de dentro; não pode ser imposto de fora. Ainda assim, a longa quaresma do ano passado — a quaresma de lockdowns e demissões, isolamentos e funerais, nascimentos sem avós e festas sem a família — realmente foi uma imposição. Não a escolhemos, e nunca a teríamos escolhido.

A questão não é se ela também pode operar nos nossos corações. Ela pode. A questão é, embora vejamos no horizonte a alvorada de boas notícias (de forma imediata, a vacinação em massa; de forma definitiva, o domingo de Páscoa), qual operação será essa e se nós o receberemos ou o resistiremos.


Tish Harrison Warren escreveu seu novo livro, Oração da noite: para quem trabalha, vigia e chora, antes da COVID-19. Mas a leitura faz parecer que ela já sabia o que estava por vir. É uma obra de melancolia sacra. Nasceu de sofrimento, dor e perda: a perda inesperada de seu pai e de dois filhos não nascidos. O livro não propõe regras para a vida. Não provê um plano para o sucesso. Não ousa ser feroz, nem abusar de sua culpa, te aconselhar a se afundar nela. Em resumo, não contém técnicas nem faz garantias.

            Mas oferece uma oração.

            A oração vem do Livro de Oração Comum (LOC), no ofício das completas. É uma oração que não somente Warren, que é pastora na Anglican Church of North America (ACNA), mas toda sua família começou a recitar junto cada noite em seu período de dificuldade. Como todas as orações da LOC, esta é de uma simplicidade elegante:

Vela, ó Senhor amado, com os que trabalham, vigiam ou choram nesta noite. Manda que teus anjos guardem os que dormem. Cuida dos enfermos, Cristo Senhor. Dá repouso aos cansados. Abençoa os que estão à beira da morte. Consola os que sofrem. Compadece-te dos aflitos. Guarda os alegres. Tudo isto te suplicamos somente por teu grande amor. Amém.

Essas palavras viraram um mantra ao cair da noite. À medida que as palavras penetravam nas feridas do seu luto, elas tomaram vida própria. Abriram novos horizontes na prática de Warren da fé. Em Oração da noite, cujos capítulos são estruturados por cada frase sucessiva da oração, ela compartilha o que aprendeu.

O resultado é um exercício sábio, comovente e primoroso de teologia contemplativa escrita para crentes ordinários. Alcançar tal coisa é raro nos escritos cristãos populares dos dias de hoje, os quais geralmente vêm em três formas: profundo, mas nichado; raso, mas acessível; ou possivelmente sub-cristão. O fato de Warren escapar dessas armadilhas — acima de tudo mediante sobriedade espiritual, clareza de prosa e seriedade intelectual — não será nenhuma surpresa aos leitores de suas obras anteriores. Em Liturgia do ordinário, Warren conseguiu sintetizar meio século de trabalho acadêmico sobre comunidade, hábitos, disciplinas e adoração para leitores que claramente estavam sedentos por isso. Uma passagem breve desse livro nunca me abandonou, e serve como ligação para seu próximo livro:

Quando Jesus morreu pelo seu povo, ele me conhecia pelo nome na particularidade deste dia.[1] Cristo não redimiu a minha vida teoricamente ou abstratamente, a vida que eu sonhei viver ou a vida que eu pensava que deveria viver, idealmente. Ele sabia que eu estaria hoje do jeito que eu estou, na minha casa do jeito que ela está, nos meus relacionamentos com sua beleza e miséria específicas, nos meus pecados e lutas peculiares. (pg. 31)

Em outras palavras, se o objeto da redenção de Cristo sou eu e não uma versão instagramizada de mim, então é a minha vida de verdade, e toda o marasmo quotidiano dela, que interessa a Cristo. É com isso que ele trabalha. Fazer o jantar e trocar fraldas, ir para o trabalho e mexer no celular: isso tudo é mundano, sem dúvida, e até entediante. Ainda assim, essa é a matéria da redenção. É a zona da graça. É o lugar onde, se eu apenas me permitir vê-lo, o Cristo ressurreto me encontra e me diz para tomar minha cruz e segui-lo. E tal como a cruz é sem glamour ao extremo, assim também o é a maioria do que conta como discipulado. Sinais e maravilhas são a exceção, não a regra. Ou melhor, com Jesus, o reino de Deus “não vem com aparência exterior […] Pois o reino de Deus está entre vós” (Lc 17.20-21).

Se o discipulado tão sem espetáculo, então é razoável esperar que nossa vida na igreja seja similarmente ausente de fogos de artifícios. E assim o é. E nós podemos, Warren argumenta, ou recalcitrar inutilmente contra os nosso aguilhões e exigir que a vida da fé nos proveja uma série infinda de experiências extraordinárias, cuja qualidade subjetiva não pode ser alcançada, nem refutada; ou podemos aceitar a natureza rotineira de seguir a Jesus, e buscar dessa forma os antigos caminhos dos hábitos santificadores. A primeira opção é uma passagem expressa para o burnout espiritual — embora sua estada contínua na fecunda religiosidade do evangelicalismo americano de fato sugira que tenha poder para ficar. De todo modo, Warren opta pelo segundo, que também calha de ser a forma que a igreja têm escolhido através dos séculos.

Para essa tradição mais comum, a liturgia e os sacramentos funcionam como um tipo de âncora ou guia para os fiéis, assegurando nosso relacionamento com Cristo mediante nossa presença corporal uns para com os outros e mediante a presença real de seu próprio corpo para nós e entre nós. Pela repetição de rituais de adoração, o Espirito nos une uns aos outros e ao nosso cabeça, o Senhor Jesus; e está é precisamente a repetição que opera nossa comunhão. Pois não precisamos depender de nossos sentimentos instáveis, muito menos de espontaneidade ou talento, para facilitar a presença do Espírito. A comunhão dos santos já nos deu o roteiro, antigo e bem utilizado. Esse roteiro é um registro da vida de Deus com seu povo; mais do que um registro, é um mapa: como chegar daqui para lá. Ao confiar em Deus e no povo de Deus, portanto, mantemos o roteiro litúrgico: entra ano, sai ano. E ao fazer isso, nos encontrando e nos aprofundando nele, seguindo os santos como estes seguiram a Cristo. Até dizemos as orações deles. Afinal, o Espírito promete nos fornecer palavras quando as nossas falharem. Uma forma que ele faz isso é ao nos dar as palavras dos fiéis que se foram.[2]

Faz sentido, então, que, quando Warren se encontrou numa sala de emergência, coberta de sangue e incerta sobre o que estava acontecendo, ela tenha gritado a seu marido, acima do som das máquinas e das enfermeiras: “As completas! Eu quero orar as completas!”

* * *

            Três temas, ou compromissos, são o fundamento que informam Oração da noite. Primeiro que Deus não impede as coisas ruins de acontecerem. Segundo que todos nós somos defensores implícitos da teologia da prosperidade. E terceiro que Deus é amor.

No começo do livro Warren lembra de uma frase que ouviu num sermão anos atrás: “Você não pode confiar que Deus vá impedir que coisas ruins aconteçam com você.” Isso a deixou, nas palavras dela, boquiaberta. Ela sabia que coisas ruins aconteciam no mundo. E Deus certamente previne que toda sorte de coisa ruim nos surpreenda, a cada segundo. Todavia ela compreendeu que confiar em Deus não é confiar que ele sempre fará isso. Mais perigosamente, não devemos confiar em Deus só quando ele nos protege do mal. Coisas ruins — terríveis, trágicas — vão acontecer conosco. Isto é um fato. E nossa confiança em Deus não depende desse fato. Ambos estão relacionados, mas não desta maneira.

Nossa tendência de confundir a função de uma com a outra é, no entanto, reveladora. O modo como vivemos revela nossas crenças mais profundas. Por essa medida, todos nós em algum nível cremos num tipo de teologia da prosperidade.[3] Pois “em algum lugar silencioso de nossos corações, sentimos o favor de Deus quando as coisas dão certo para nós e sua desaprovação — senão a sua ausência — em nossas frustrações.”

A aflição verdadeira nos vira de cabeça para baixo e nos deixa todo perdido, esse tipo de sofrimento que não tem trégua nem descanso nessa vida, “quando a estrada é longa e provavelmente não haverá final feliz […] Queremos que o sofrimento tenha um começo, meio e fim claros, de um jeito que possamos entender, uma história com uma resolução coerente. Nós resistimos uma visão do cristianismo sem resultados imediatos, sem vantagens evidentes.”

Quando Cristo nos encontra nas nossas aflições, ou nas dos outros, ele “expõe as promessas vazias de uma cultura consumista, e até de uma fé consumista — de que prazer, prosperidade, saúde e realização mundana sejam verdadeira abundância.” Não são. Na verdade, são produtos falsificados e máscaras em nossos dramas diários de negação, enquanto fingimos para nós mesmos e para nosso próximo que, nas palavras de Stanley Hauerwas, vamos sair dessa vida vivos.

O evangelho não é um conto de fadas. Longe de aceitar nossa negação da morte, ele nos põe face a face com a nossa própria mortalidade — de fato, com aquilo que Warren, seguindo Thomas Long, chama de “Morte com M maiúsculo”. A quaresma se inicia com a Quarta Feira de Cinzas, quando somos marcados com o sinal da morte de Cristo e lembrados de que somos pó e ao pó voltaremos. O livro de Warren é sobre a escuridão, que é apenas outra forma de dizer que é sobre a morte. Ela não vai permitir que escondamos o rosto aqui. Ela não vai permitir que desviemos os olhos. Viver na verdade significa reconhecer que você e eu e todo mundo que amamos vai, um dia, morrer.

Alguém pode responder: isso talvez seja uma dose amarga de realismo, mas dificilmente é boas novas. Se tudo está acorrentado à morte e não podemos confiar que Deus nos botará longe do alcance da morte (e de suas diversas antecipações), então Deus serve para quê? Por que confiar nele, para começo de conversa? A resposta, se é que isso é uma resposta, percorre o livro como um reluzente fio: porque Deus é amor (1 Jo 4.8). Isso quer dizer, o Deus revelado em Jesus Cristo é ele mesmo o amor que move o sol e as demais estrelas. É então um erro confiar nele para nos tornarmos invulneráveis nesta vida. Porque o movimento é o contrário: ele, embora invulnerável por natureza, se tornou vulnerável por amor de nós. “Jesus deixou um lugar sem noite para entrar nas nossas trevas”, escreve Warren. Então embora seja verdade que Deus não impeça que coisas ruins aconteçam conosco, também é verdade que “Deus não impediu que coisas ruins acontecessem com o próprio Deus.”

Deus, em resumo, não responde ao nosso sofrimento com uma palestra; ele se junta a nós e torna os nossos sofrimentos dele. Com efeito, o sofrimento dele é curativo; o Deus que chora com Santa Maria de Betânia (Jo 11.32-35) não sofre sem propósito — “pelas suas feridas fostes sarados” (1Pe 2.24). Mas o sofrimento do nosso Senhor não põe um fim ao nosso, antes, o envolve e o inunda com as presença. Gememos ansiando pelo dia em que ele “destruirá neste monte a coberta que envolve todos os povos e o véu que está posto sobre todas as nações”, quando “tragará a morte para sempre, e, assim, enxugará o SENHOR Deus as lágrimas de todos os rostos” (Is 25.7-8, ARA). “Mas — espere —”, diz Warren, “antes vamos chorar bastante uma última vez. A redenção não pula as trevas, mas sim exige que até a última lágrima seja derramada.” Per crucem ad lucem: pela cruz, à luz. Ou antes, a luz do Senhor só nos encontra no escuro.

Esta é a boa nova do evangelho, mesmo que provavelmente ele não certifique a vitória em que Warren chama de “briga de faca existencial” ou teodiceia. Ele nos dá Deus; ele não nos dá uma explicação. Ele permite, e até encoraja, o lamento, mas exorta a reclamação do cliente insatisfeito, como se Jesus estivesse um “Deus com a performance baixa”, deixando de manter o seu lado da barganha. Uma visão transacional desse tipo reflete uma falha fundamental em compreender a natureza da encarnação. Na véspera de sua paixão, o próprio Jesus orou ao Pai com lágrimas e sangue no Getsêmani — mesmo quando seus amigos mais próximos dormiam ali por perto. Ele se manteve vigiando naquele momento, e ainda vigia: ele “não dormita.” Em nossa agitação e noites solitárias, portanto, “Deus está conosco e ele conhece a nossa fragilidade e vulnerabilidade tão certamente quanto ele conhece a palma de nossas mãos.” Em tempos como estes, “oração ajusta nossos olhos para ver Deus nas trevas”, onde ele sempre esteve e de onde nunca saiu.

Assim como os lutos e perdas de nossas vidas ordinárias, a escuridão coletiva do ano passado não foi prevista nem escolhida. Muitos têm sido mais sortudos, apesar de tudo, mas o fardo é compartilhado. Será que este fardo poderia ser uma oportunidade de espiar a presença de Deus entre nós? Será que essa escuridão poderia ser um meio de contemplar a luz de Cristo? Warren diz:

Pensamos que disciplinas espirituais são hábitos que iniciamos, como ler a Bíblia, orar e ir à igreja. Essas são as partes explicitamente espirituais de nossos dias. O resto da nossa vida é simplesmente aquilo pelo que passamos, as coisas inertes compostas por tempo, acaso e biografia. Porém, muitas vezes as práticas espirituais mais fundamentais e formativas de nossas vidas são as coisas que nunca escolheríamos. As formas mais profundas de encontrar a Deus são frequentemente aflições.

            A quaresma está chegando ao fim. Tivemos nossa porção do pão da aflição, e mais um pouco. A luz está começando a raiar. A Páscoa está vindo. Mas a verdade é que não temos que esperar. Jesus já está aqui, conosco, nesse vale de sombras. Ele sempre esteve. E sempre estará, venha o que vier. 


[1] Se Stanley Hauerwas um dia escrever uma continua a seu ensaio “How to Write a Theological Sentence” [Como escrever uma frase teológica], ele deveria incluir esta aqui.

[2] Eu reflito mais sobre essas linhas em “The Church and the Common Good.” [Link: https://www.cardus.ca/comment/article/the-church-and-the-common-good/]

[3] Aqui Warren aponta o leitor ao Everything Happens for a Reason: And Other Lies I’ve Loved, de Kate Bowler; assino em baixo dessa referência. Veja também o novo livro de David H. Kelsey, Human Anguish and God’s Power.mereorthodoxy.com/fear-covid19/


Por: Brad East. © Mere Orthodoxy. Website: https://mereorthodoxy.com/prayer-in-the-night-book-review/. Traduzido com permissão. Fonte: To See God in the Darkness: On Tish Harrison Warren’s “Prayer in the Night”.

Original: Vendo Deus na escuridão: sobre Oração da noite de Tish Harrison Warren. © The Pilgrim. Website: thepilgrim.com.br. Todos os direitos reservados. Tradução: Arthur Guanaes. Revisão: Guilherme Cordeiro Pires.

O ponto de vista deste texto é de responsabilidade de seu(s) autor(es) e colaboradores direito, não refletindo necessariamente a posição da Pilgrim ou de sua equipe de profissionais.

Direção espiritual: durma melhor (Tish H. Warren)

Recentemente me deparei com um estudo da Duke University que conclui que as mulheres precisam de mais sono do que os homens e que a privação de sono causa mais estresse emocional e físico nas mulheres do que nos homens. Imediatamente o encaminhei para meu marido com uma nota de que isso afirma o que eu tenho dito a ele já faz anos.

Sempre amei dormir, mas ultimamente isso se tornou uma necessidade premente. Tenho crianças pequenas que acordam no meio da noite numa frequência absurda, então pensar no sono carrega um tom teológico de crise: o que está acontecendo comigo? Como isso pode continuar? Como Deus pode não se importar comigo? Por que ele não faz meus filhos dormirem mais?

Parece excessivamente dramático, até mesmo levemente histérico. E é. Porque quando me falta sono, eu fico facilmente dramática e histérica. E, graças à Duke, agora eu tenha comprovação científica de que isso é totalmente normal.

A CDC publicou um artigo em março com o título Insufficient sleep is a public health epidemic [Sono insuficiente é uma epidemia de saúde pública]. Mesmo entre aqueles sem filhos pequenos, estamos tendo bem menos do que as 7 a 9 horas recomendadas e isso está causando um desastre — um desastre de confusão, amnésia e mal-humor.

Em nossa cultura crescentemente tecnológica, workaholic, cafeinada, viciada em entretenimento e sobrecarregada, lembrar que somos criaturas limitadas e corpóreas é uma parte difícil e necessária do discipulado. Meu marido e eu pastoreamos estudantes da pós-graduação e com frequência o encorajamento mais espiritualmente útil e relevante que podemos dar a eles é terminar o trabalho mais cedo, cuidar de seus corpos e dormir mais.

Mas isso não parece muito com um conselho espiritual. Não é preciso um diploma de seminário para dizer a alguém que vá para a cama mais cedo. Quando buscamos apoio financeiro para nosso trabalho no campus universitário, um boletim informativo entusiasmado relatando que os estudantes cristãos têm um sono melhor e mais profundo não irá impressionar muito os potenciais apoiadores.

De qualquer modo, Deus se importa com o sono. Um dos meus momentos favoritos dos evangelhos é quando encontramos Jesus no fundo de um barquinho dormindo pesado no meio de uma tempestade. Seu sono foi teológico, no sentido em que revela uma confiança firme em seu Pai. Mas também não nos esqueçamos que isto também é um retrato ordinário de um homem cansado tirando uma soneca.

O sono nos lembra de que a teologia, no fim do dia (literalmente), sempre é para criaturas. Davi adorou a Deus dormindo: “Eu me deito, durmo e acordo, pois o SENHOR me sustenta.”

Talvez Deus queira não só nos dar vidas de oração e santidade, mas também sono suficiente. Falando de forma mais direta, talvez um passo crucial para uma vida de oração e santidade é receber o dom de uma boa noite de sono.

Não somos gnósticos. Adoramos um Deus que foi plenamente encarnado. Ele almoçou, ralou os joelhos e se sentiu cansado. Sim, é tão fácil pensar que a realidade espiritual das coisas é cognitiva e não corporal. Precisamos acreditar no evangelho em nossa mentes, ler livros cristãos, orar com palavras, sentir a adoração em nossos corações. Mas para vivermos vidas de discípulos, temos que fazer tudo isso em nossos corpos. Quando dormimos o suficiente, somo mais capazes de obedecer a Deus e de amar nosso próximo.

Mas talvez de modo mais importante o ato de parar e relaxar no sono é em si um ato de adoração e confiança em Deus. Como crentes, podemos apreciar o sono como não só necessário, mas também como uma confissão corpórea de que somos criaturas fracas e vulneráveis cuidadas e nutridas pelo nosso forte Criador. Isso requer fé para parar de lutar contra o cansaço com estimulantes e telas. Porque ele nos sustém, nós dormimos.

Na nossa busca de uma comunhão contra cultural com o novo Rei, começamos em nossos corpos. Em um mundo crescentemente tecnocrata e sem limites, é um ato radical lembrar e aceitar os limites de ser criatura.

Quando os descrentes encontrarem nossa comunidade, tenho a esperança de que seremos um povo alternativo conhecido por amor, busca pela justiça, humildade e bom humor. E também tenho a esperança de que o mundo tomará nota: “Aqueles cristãos realmente estão descansados.” Para o povo de Deus, o sono, assim como a nossa vida ordinária, importa.

Desacelera. Se enrola num cobertor. Fecha os olhos. E deixa seu ronco proclamar a fidelidade de Deus.


Por: Tish Harrison Warren. © The Well. Website: http://thewell.intervarsity.org/blog/spiritual-direction-get-more-sleep. Traduzido com permissão. Fonte: Spiritual Direction: Get More Sleep.

Original: Direção espiritual: durma mais. © The Pilgrim. Website: thepilgrim.com.br. Todos os direitos reservados. Tradução: Arthur Guanaes. Revisão: Guilherme Cordeiro Pires.

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O ponto de vista deste texto é de responsabilidade de seu(s) autor(es) e colaboradores diretos, não refletindo necessariamente a posição da Pilgrim ou de sua equipe de profissionais.

Como Jesus se sente perto de você (Stephen Witmer)

Uma resenha de “Manso e humilde” de Dane Ortlund

Há um ano, enquanto eu revia as recomendações de um livro sobre o evangelho publicado já faz dez anos, eu percebi chocado que, dos 17 conhecidos líderes cristãos que contribuíram com sua recomendação, 6 tinham abdicado ou sido removidos de suas posições ministeriais. Isso é uma taxa de mais de 30% em apenas 10 anos — e ela parece crescer cada vez mais. Embora fracassos de liderança não sejam novidade, duas coisas foram particularmente surpreendentes nos últimos anos: primeiro, as razões para a saída frequentemente foram diferentes de pecado sexual.

Considere essas descrições (todas provindas da revista Christianity Today) de líderes conhecidos que abdicaram ou foram removidos de suas posições:

  • “manipulação, imposição, falta de comunidade bíblica”
  • “arrogância, respondendo a conflitos com um temperamento instável e palavras duras e liderando os ministérios e os presbíteros de uma forma impositiva”
  • “abuso espiritual por meio de bullying e intimidação, exigências exageradas”
  • “insultos, menosprezo e agressões verbais”
  • “diversas expressões de orgulho”

Esses líderes, por conta de sua dureza, raiva ou orgulho, foram desqualificados para o ministério.

Em segundo lugar, infelizmente, os problemas de liderança aconteceram perto de casa. Todas as descrições acima foram de líderes que se conectam com a The Gospel Coalition de uma forma ou de outra. Não é simplesmente um problema “lá fora”. Em tempos em que muitos líderes seculares são cada vez mais intolerantes, rudes e sem limites, é importante que os cristãos ouçam à instrução de Jesus de “não ser assim” entre nós (Mt 20.26). Muitas vezes, acaba sendo assim.

Há outro problema sério, sendo este mais sutil e menos dramático, enquanto igualmente atroz e amplo, tão comum em púlpitos e igrejas.

Por que nos sentimos secos espiritualmente?

Muitos cristãos que conhecem o evangelho ainda lutam para experimentar e se deliciar no Cristo dos evangelhos. Talvez se deva em parte a eles não terem certeza se ele se delicia neles. Eles vivem com uma ideia de que Cristo frequentemente só os aguenta até certo ponto; que faltam apenas alguns pecados para acabarem com a paciência dele; que ele resmunga mais do que se regozija quando pensa neles; que, mesmo sendo disposto a perdoar, ele o faz de forma relutante e retraída. Eu lembro uma conversa com uma santa idosa em que ela me confidenciou ter lutado por anos com uma culpa oculta. Embora ela confiasse em Jesus, ela nunca sentia que fazia o suficiente. Na cabeça dela, Jesus sempre ficava na mão.

Todos esses problemas causam danos incontáveis. Líderes explosivos deixam de exibir o coração de Cristo; cristãos que não se alegram com o evangelho em que creem deixam de conhecer o coração de Cristo em primeira mão. No fundo, ambos os problemas fluem de uma falha em experimentar Jesus como ele realmente é. Sejamos honestos: quem ama a Jesus, numa perspectiva reformada e centrada no evangelho, precisa aprender a ver e conhecer a Jesus como ele realmente é tanto quanto qualquer outra pessoa. Mesmo com nossa excelente teologia, ainda precisamos urgentemente conhecer o que faz o coração de Cristo pulsar, junto com nossos amigos em outras tradições.

Essas são algumas razões pelas quais sou grato pelo novo livro escrito por Dane Ortlund: Manso e humilde: o coração de Cristo para quem peca e para quem sofre. Em 23 curtos capítulos, Ortlund  nos (re)introduz ao “coração de Cristo para pecadores e sofredores”. Ortlund quer que conheçamos quem Jesus realmente é, o que é mais natural para ele e o que flui dele de forma mais instintiva (p. 12). Em seu cerne, Jesus é manso e humilde. No fundo, o coração de Jesus é um coração tenro, aberto, acolhedor e compreensivo — um coração que se regozija em amar o seu povo até mais do que eles se regozijam em receber o seu amor.

Argumentação incansável

Porque conhecemos a Jesus principalmente por meio do texto bíblico, o livro de Ortlund se concentra incansavelmente na Bíblia. Porque somos auxiliados em nosso entendimento da Bíblia por meio da sabedoria daqueles que vieram antes de nós, este livro frequentemente recorre à sabedoria puritana, que perdura há séculos particularmente em autores como Thomas Goodwin, Richard Sibbes e John Bunyan.

Já que a mensagem da Bíblia sobre o coração de Jesus é uma verdade a ser sabedoreada — e não apenas conhecida — e já que os puritanos eram pastores espirituais — e não apenas gigantes intelectuais —, este livro é mais uma teologia pastoral que um livro-texto. Ele busca confortar e consolar, acolher seus leitores numa experiência mais ampla e mais vívida de Cristo. Há rigor intelectual — resumindo acertadamente o fluxo dos livros bíblicos numa interpretação contextualizada, tratando regularmente autores da história da igreja e lidando muito bem com questões hermenêuticas e teológicas difíceis (p.ex., a intercessão de Cristo hoje sugere que há algo faltando na cruz?).

Ele também é devidamente qualificado. Ortlund reconhece que o Cristo manso e misericordioso também se inflama com santa ira e sempre age com perfeita justiça (p. 26-28; 108-111). Na verdade, uma das contribuições mais importantes do livro é o seu argumento de como amor e juízo se encaixam no coração do Deus trino. Seguindo Goodwin e com base em passagens tais como Isaías 28.21, Jeremias 32.41 e Lamentações 3.33, Ortlund argumenta que o juízo de Deus — embora certamente faça parte de seu caráter e governo soberanos — ainda é uma “obra estranha”. Ele julga com uma relutância que é diferente da maneira como se sente sobre suas obras de misericórdia e redenção. O mais fundo de seu coração — o seu desejo mais íntimo — é demonstrar misericórdia ao seu povo.

Como experimentar o amor de Cristo

Num livro que busca não apenas persuadir a mente, mas também sarar o coração — alimentar uma nova experiência de Cristo —, a linguagem é crucial. Belas verdades devem ter belas formulações. Palavras e imagens precisam passar pela mente e se aninhar no coração. Simplesmente pare e leia essas figuras de linguagem e formas simples e brilhantes de expressar essas verdades:

  • “Assim como o gás hélio carrega um balão, o jugo de Jesus o faz com seus seguidores. Flutuamos pela vida com sua mansidão sem fim e sua humildade supremamente acessível” (p. 20-21);
  • “A intercessão é um “atualizar” constante da nossa justificação na corte celestial” (p. 80); e
  • “O seu coração pelos seus não é como uma flecha, que se atira rápido, mas cai igualmente rápido; ou um corredor, rápido na partida, mas que logo perde o ritmo e fraqueja. O coração dele é como uma avalanche que ganha forças com o tempo, como um incêndio florestal, se intensificando à medida que se espalha.” (p. 203).

Explicando a intercessão de Cristo, Ortlund nos pede para imaginar ouvir Jesus orando no cômodo mais próximo. Com base na exposição de Hebreus 4.15 por Thomas Goodwin, Ortlund nos pede para imaginarmos um amigo tomando nossas mãos e colocando-as “no peito do Senhor Jesus Cristo” de modo que pudéssemos sentir “a força vigorosa das afeições e anseios mais profundos de Cristo” (p. 43).

Ortlund acredita que “é impossível o afetuoso coração de Cristo ser celebrado demais, superestimado ou exagerado” (p. 27-28). De fato. Particularmente para quem precisa ser diariamente convencido da prontidão de Cristo para perdoar e nos abraçar mais uma vez.

Facetas inexploradas de um diamante.

A abordagem do livro de “facetas-de-um-diamante”, que estuda Cristo a partir de vários ângulos ao invés de construir um argumento cumulativo capítulo a capítulo, corre o risco de parecer um pouco repetitivo de vez em quando. Mas este diamante em particular é tão maravilhoso que vale a pena estudá-lo com atenção. Na verdade, eu amaria ver algumas outras facetas exploradas.

Como o amor de Jesus por pecadores se relaciona com a sua paixão pela glória de Deus? Perguntar e responder essa questão garantiria que não teríamos uma visão autocentrada ou claustrofóbica do amor de Jesus por nós. Como o amor de Jesus por pecadores se relaciona com o amor trinitário de Deus dentro dele mesmo? Jesus foi amado pelo Pai antes da fundação do mundo (João 17.24) e ele torna o nome do Pai conhecido a seus discípulos a fim de que “o amor com que me amaste esteja neles, e eu também neles esteja” (João 17.26). O que significa que o amor de Deus por Deus agora está dentro de nós?

Anteriormente no livro, Ortlund pergunta a seus leitores: “Você vive ciente não só da obra expiatória dele pela sua pecaminosidade, mas também do coração dele que anseia por você, mesmo em meio a sua pecaminosidade?” (p. 14). É uma questão crucial, que faríamos bem em meditar. Oro para que muitos leiam este livro com atenção e que Deus o utilize para moldar líderes cristãos mais mansos e humildes, e cristãos mais confiantes e alegres. Cristãos que sabem lá no fundo que eles são alegremente bem-vindos no coração desejoso e afetuoso de Jesus.


Manso e humilde foi publicado em português pela Pilgrim. Adquira-o aqui.

Por: Stephen Witmer. © The Gospel Coalition, 2020. Website: https://www.thegospelcoalition.org/reviews/gentle-lowly-dane-ortlund/. Traduzido com permissão. Fonte: “How Jesus Really Feels About You”

Original: Como Jesus se sente perto de você. © The Pilgrim. Website: thepilgrim.com.br. Todos os direitos reservados. Tradução: Guilherme Cordeiro. Revisão: Arthur Guanaes.

Imagem:  Unsplash

O ponto de vista deste texto é de responsabilidade de seu(s) autor(es) e colaboradores diretos, não refletindo necessariamente a posição da Pilgrim ou de sua equipe de profissionais.

Desafio de leitura Pilgrim para 2021 #PilgrimChallenge

J. C. Ryle uma vez disse que “poucas coisas são tão amadas por alguns, e tão desprezadas e negligenciadas por outros, quanto livros, e especialmente livros de teologia”. Porém, não importa se você está mais perto do amor ou da negligência, provavelmente você diz que quer ler mais e melhor, mas não tem tempo de ler mais ou melhor. E é por isso que vamos lançar o Pilgrim Challenge.

O Pilgrim Challenge é um desafio para ajudar você ler mais e melhor em 2021. A sua leitura será incrementada não só por você determinar uma meta de quantidade de livros, mas também por se diversificar. Você se verá forçado a ler livros que você nunca escolheria naturalmente. Lendo o que você nunca leria sozinho, você pode acabar aprendendo o que você nunca descobriria sozinho.

O desafio está dividido em cinco listas, que correspondem ao grau de dificuldade, intensidade e diversidade das leituras. As listas maiores incorporam os itens das menores.

  • VOLTINHA: total de 13 livros, com uma média de 1 livro a cada 4 semanas.
  • PASSEIO: total de 17 livros, com uma média de 1 livro a cada 3 semanas.
  • VIAGEM: total de 26 livros, com uma média de 1 livro a cada 2 semanas.
  • MIGRAÇÃO: total de 52 livros, com uma média de 1 livro a cada 1 semana.
  • PEREGRINAÇÃO: total de 104 livros, com uma média de 2 livros a cada 1 semana.        

Caso um livro se inclua em mais de uma categoria, escolha apenas uma. Não há uma ordem dentro de cada lista. Você pode escolher um plano para seguir até o final do ano ou ir avançando aos poucos a partir do primeiro deles. Não se sinta pressionado a ler um livro no exato período de tempo proposto, o que importa é alcançar a meta final do desafio escolhido.

Colocamos ideias diferentes para cada livro. Sinta-se livre para adaptar a lista de acordo com os seus interesses e recursos. Você pode adotar alguma das seguintes alternativas:

  • Divida a lista com a sua família, de forma que cada um fique responsável com uma categoria durante determinado período de tempo. Compartilhem o que vocês aprenderam com cada livro e recomendem a sua melhor leitura no final do ano.
  • Comece a ler conforme for mais adequado para o seu tempo. De acordo com o número de semanas que você levar para terminar esse livro, escolha o plano correspondente.
  • Termine o primeiro livro que você escolher o mais rápido possível. De acordo com o número de semanas que você levar para terminar esse livro, escolha o plano correspondente.
  • Ignore a quantidade de livros proposta a cada plano e simplesmente monte um plano próprio escolhendo as categorias mais desafiadoras para você.
  • Divida a lista com a sua igreja ou pequeno grupo, de forma que cada um fique responsável com uma categoria durante determinado período de tempo. Escrevam resenhas e elejam o melhor livro da sua igreja ou pequeno grupo no final do ano.

Porém, não se esqueça de que o propósito dela é ser desconfortável para você, em algum nível. Afinal, é isso que desafio significa.

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Do áudio para o papel

Thomas Nelson e Pilgrim firmam parceria para transformar conteúdo digital em livros impressos

A editora Thomas Nelson Brasil fechou uma parceria inédita no mercado editorial brasileiro com a Pilgrim. A partir de 2021, a editora vai adaptar conteúdos exclusivos da plataforma, como audiolivros, podcasts e séries, em livros físicos. A movimentação faz parte da estratégia da Thomas Nelson de investir em novas formas de produção de conteúdo, atento ao crescente público do digital.

“Nossa parceria com a Thomas Nelson reforça nosso propósito de servir a comunidade com conteúdo cristão de qualidade, disponível em diversos formatos e acessível para consumo em momentos diferentes da rotina de nossos usuários. É mais um sinal de que o digital e o físico não são inimigos e que dentro da estratégia correta, podem colaborar para o benefício de todos os envolvidos”, afirma Leonardo Santiago, sócio da Pilgrim. 

Segundo dados da pesquisa Datafolha, realizada no início de 2020, 31% da população brasileira (65,4 milhões de pessoas) é evangélica. Apesar da queda nos índices de leitura no país — segundo a mais recente pesquisa “Retratos da Leitura”, divulgada em setembro pelo Instituto Pró-Livro, o país perdeu 4,6 milhões de leitores entre 2015 e 2019 — a Bíblia ainda é o livro mais lido no país (35%), seguida por livros religiosos (22%). O segmento foi o único a apresentar resultado positivo de vendas (2%) nos últimos 14 anos, de acordo com levantamento recém-publicado pela Câmara Brasileira do Livro (CBL) e Sindicato Nacional dos Editores de Livros (SNEL), diante de queda de 20% no faturamento do mercado editorial. Na Pilgrim, o número de acessos à plataforma de conteúdo cristão aumentou 300% apenas em 2020, em parte motivado pelo isolamento social causado pela pandemia de coronavirus. Utilizando tecnologia de ponta e ciência de dados, a Pilgrim consegue ainda mapear o perfil do usuário, e gerar dados detalhados do público do setor. 

“Vemos nessa parceria um potencial de quebra de paradigma na forma como analisamos e adquirimos conteúdo. São ideias, relatos, histórias e estudos que virão já testados pelo consumidor e validados pelo processo de construção e consumo de conteúdo digital. Temos certeza de que o resultado serão livros marcantes e que irão totalmente de encontro ao que os leitores estão buscando”, explica Samuel Coto, diretor editorial da Thomas Nelson Brasil.

Embora o modelo de negócio da Pilgrim facilite o acesso de clientes do mundo todo, muitos usuários gostariam de contar com o suporte impresso para gravar melhor suas descobertas com o conteúdo exclusivo da plataforma. A parceria possibilita que os novos autores evangélicos lançados na plataforma Pilgrim encontrem um caminho mais rápido para a versão impressa, e chegue logo às mãos do leitor. 

Com a ajuda da Thomas Nelson Brasil, a experiência do usuário da Pilgrim poderá ser guardada na estante. O conteúdo disponibilizado pela startup — em audiolivros, podcasts ou séries — agora serão adaptados e distribuídos com a excelência característica da Thomas Nelson. 

Contemplação e evangelização (Rowan Williams)

Na primeira vez que algum Arcebispo da Cantuária se dirigiu ao Sínodo de Bispos de Roma, Rowan Willians explorou a conexão necessária entre contemplação orante e a tarefa da evangelização.

Estou profundamente  honrado pelo convite do Santo Padre para falar nesta reunião, como diz o salmista, Ecce quam bonum et quam jucundum habitare fratres in unum.[1] A reunião de bispos para o bem de todo o povo de Cristo é uma das disciplinas que sustenta a saúde da Igreja de Cristo.

E hoje especialmente não podemos esquecer a grande reunião de fratres in unum que foi o Concílio Vaticano II, o qual fez tanto pela saúde da igreja e ajudou-a a recuperar tanto de sua energia para proclamar as boas novas de Cristo jesus efetivamente em nossa era. Para tantos de minha própria geração, mesmo fora das fronteiras da Igreja Católica Romana, o concílio foi sinal de uma grande promessa, sinal de que a igreja era forte o suficiente para perguntar a si mesma perguntas exigentes sobre se sua cultura e estruturas eram adequadas para a tarefa de compartilhar o evangelho com a mente complexa, por vezes rebelde, sempre incansável, do mundo moderno.

O concílio foi, de variadas formas, uma redescoberta da preocupação evangelística, focada não somente na renovação da própria vida da igreja, mas de sua credibilidade no mundo. Textos como o Lumem Gentium  e Gaudium et Spes trouxeram uma visão nova e alegre sobre como a realidade imutável de Cristo vivendo em seu corpo na terra pelo dom do Espírito Santo pode falar novas palavras a uma sociedade da nossa era, e até mesmo àqueles de outras fés. Não é surpreendente que nos ainda estejamos, cinquenta anos depois, lutando com muitas das mesmas questões e com as implicações do concílio; e entendo que a preocupação do sínodo com a nova evangelização como parte de uma exploração contínua de seu legado.

Mas um de seus aspectos mais importantes para a teologia de Vaticano II foi uma renovação da antropologia cristã. Em lugar de um relato neoescolástico artificial e geralmente forçado de como a natureza e graça se relacionam na constituição dos seres humanos, o concílio construiu sobre os melhores entendimentos de uma teologia que tinha voltado a fontes mais ricas e antigas — a teologia de gênios espirituais como Henri de Lubac, que nos lembrou o que significava para o cristianismo antigo e medieval falar de uma humanidade feita à imagem de Deus e da graça como aperfeiçoando e transfigurando a imagem, coberta há tanto tempo por nossa habitual “desumanidade”. Sob tal luz, proclamar o evangelho é proclamar que finalmente é possível ser propriamente humano: a fé cristã e católica é um “verdadeiro humanismo”, para pegar emprestado uma frase de outro gênio do século passado, Jacques Maritain.

Ainda assim, de Lubac é claro sobre o que isso não significa. Não trocamos a tarefa evangelística por uma campanha de “humanização”. “Humanizar antes de cristianizar? Se tal empreitada suceder, o cristianismo virá tarde demais: seu lugar estará ocupado. E quem pensa que o cristianismo não tem valor de humanização?” Assim de Lubac escreve em sua maravilhosa coletânea de aforismos, Paradoxes of Faith [Paradoxos da Fé]. É a fé em si que molda o trabalho de humanizar e esta empreitada será vazia sem a definição de humanidade dada pelo segundo Adão. A evangelização, velha ou nova, deve ser baseada em uma profunda confiança de que temos um destino humano singular para mostrar e compartilhar com o mundo. Há muitas formas de dizer isso, mas nestas breves constatações quero focar em um aspecto em particular.

Ser completamente humano é ser recriado à imagem da humanidade de Cristo. E essa humanidade é a perfeita “tradução” humana da relação entre o Filho eterno e o Pai eterno, uma relação de amor e autoentrega adoradora, um derramar de vida sobre o Outro. Assim, a humanidade para a qual estamos nos desenvolvendo no Espírito, a humanidade que buscamos compartilhar com o mundo como fruto da obra redentora de Cristo, é uma humanidade contemplativa. S. Edith Stein observou que começamos a entender a teologia quando vemos Deus como o “primeiro teólogo”, o primeiro a falar sobre a realidade da vida divina, porque “todo falar sobre Deus pressupõe o próprio falar de Deus.” De maneira análoga, nós poderíamos dizer que começamos a entender a contemplação quando vemos Deus como o primeiro contemplativo, o paradigma eterno para a atenção abnegada ao Outro que traz não morte, mas vida ao self. Toda contemplação de Deus pressupõe o próprio conhecimento absorto e alegre de Deus sobre si mesmo e sua contemplação de si mesmo na vida trinitária.

Ser contemplativo como Cristo o é significa estar aberto para toda a plenitude que o Pai deseja derramar sobre nossos corações. Se aquietarmos nossas mentes para receber, silenciando nossas fantasias sobre Deus e nós mesmos, finalmente estaremos prontos para começar a crescer. E a face que precisamos mostrar para nosso mundo é a face de uma humanidade de infindo crescimento em amor, uma humanidade tão deleitada e dedicada à glória do que contemplamos que está preparada para embarcar numa jornada sem fim para encontrar nosso caminho mais profundamente nela, no coração da vida trinitária. S. Paulo fala (em 2Coríntios 3.18) de como “com o rosto descoberto, refletindo como um espelho a glória do Senhor” somos transfigurados em uma radiância cada vez maior. Tal face é a que buscamos mostrar ao nosso próximo.

E buscamos isso não porque estamos à procura de alguma “experiência religiosa” privada, que nos fará sentir seguros e santos. Buscamos isso porque neste contemplar da luz de Deus em Cristo, contemplar que se esquece de si mesmo, nós aprendemos a como olhar para o outro e para toda a criação de Deus. Na igreja primitiva, havia um entendimento claro de que precisamos avançar do autoconhecimento e da autocontemplação, que nos ensinam a disciplinar nossos instintos e desejos avarentos, para a “contemplação natural”, que percebia e venerava a sabedoria de Deus na ordem do mundo e que nos permitia ver a realidade criada como ela realmente era na visão de Deus — ao invés de o que ela era nos termos de como nós podíamos usá-la ou dominá-la. E daí a graça nos levaria à verdadeira “teologia”, o vislumbrar silencioso de Deus que é o objetivo de todo nosso discipulado.

Nessa perspectiva, a contemplação está muito longe de ser apenas um tipo de coisa que o cristão faz: é a chave para a oração, a liturgia, a arte e a estética, a chave para a essência de uma humanidade renovada que é capaz de ver o mundo e outros sujeitos no mundo com liberdade — liberdade dos hábitos autocentrados e gananciosos e do entendimento destorcido que vem deles. Em termos mais claro, a contemplação é a única resposta, no final das contas, para o irreal e insano mundo que nossos sistemas financeiros, nossa cultura publicitária e nossas emoções não examinadas nos encorajam a habitar. Aprender a prática contemplativa é aprender o que precisamos para que vivamos verdadeira, honesta e amavelmente. É uma questão profundamente revolucionária.

Em sua autobiografia Thomas Merton descreve uma experiência que ocorre não muito depois de ele entrar no mosteiro onde passou o resto de sua vida. Ele pegou uma gripe e ficou confinado na enfermaria por dias e, diz, sentiu uma “alegria secreta” pela oportunidade que isso lhe deu para orar — e “para fazer tudo que ele queria fazer, sem ter que correr para todo canto tendo que responder aos sinos.” Ele acaba reconhecendo que essa atitude revela que:

“Todos os meus maus hábitos […] haviam se esgueirado comigo para dentro do monastério e tinham recebido as vestes religiosas juntamente comigo: gula espiritual, sensualidade espiritual, orgulho espiritual.”

Em outras palavras, ele estava tentando viver a vida cristã com o equipamento emocional de alguém ainda profundamente envolvido com a busca pela satisfação individual. É um aviso poderoso: temos que ser cuidadosos em nossa evangelização para não apenas persuadir as pessoas a aplicarem a Deus e à vida do espírito todos os seus desejos por drama, empolgação e autocongratulação que tantas vezes temos em nossas vidas.

Isto foi expresso ainda mais fortemente algumas décadas atrás pelo estudioso da religião americano Jacob Needleman, num livro desafiador e controverso chamado Lost Christianity [Cristianismo perdido]: as palavras do evangelho, ele diz, são referidas a seres humanos que “ainda não existem”. Isto é, responder de uma maneira que doa a própria vida ao que o evangelho requer de nós significa transformar todo o nosso ser, nossos sentimentos, pensamentos e imaginações. Ser convertido para a fé não significa apenas adquirir um novo grupo de crenças, mas tornar-se uma nova pessoa, uma pessoa em comunhão com Deus e os outros, por meio de Jesus Cristo.

A contemplação é um elemento intrínseco desse processo de transformação. Aprender a olhar para Deus sem me importar com minha própria satisfação instantânea, aprender a escrutinar e a relativizar os desejos e fantasias que surgem em mim — isso permite que Deus seja Deus e, portanto, permite que a oração de Cristo, a relação de Deus com o próprio Deus, tome vida dentro de mim. Invocar o Espírito Santo é apenas uma matéria de chamar a terceira pessoa da Trindade para entrar no meu espírito e trazer a claridade que preciso para ver onde estou escravizado aos meus desejos e fantasias, e me dar paciência e quietude à medida que a luz e o amor de Deus penetram minha vida interior.

Só quando isso começa acontecer que sou liberto de tratar os dons de Deus como outro conjunto qualquer de coisas que adquiro para me fazer feliz, ou para dominar as outras pessoas. À medida que esse processo se desenrola, mais livre me encontro — para pegar emprestado a frase de Santo Agostinho — para “amar os seres humanos de uma forma humana”, para amá-los não pelo que podem prometer a mim, amá-los como se estivessem lá para prover para mim segurança e conforto duradouros, mas como frágeis criaturas também sustentadas no amor de Deus. Eu descubro como ver outras pessoas e coisas pelo que elas são em relação a Deus e não a mim. É aqui que a verdadeira justiça, assim como o verdadeiro amor, tem suas raízes.

A face humana que os cristãos querem mostrar para o mundo é uma face marcada por tal justiça e amor e, assim, uma face formada pela contemplação, pelas disciplinas do silêncio, de desapegar o self dos objetos que o escravizam e dos instintos não examinados que podem o enganar. Se a evangelização é sobre mostrar ao mundo a face humana “descoberta” que reflete a face do Filho voltada para o Pai, ela deve ter um sério comprometimento com promover e nutrir tal oração e prática.

Não deveria ser necessário dizer que isso não quer de forma alguma argumentar que a transformação “interna” é mais importante do que a ação pela justiça. Antes, é insistir que a clareza e energia que precisamos para fazer justiça exige que abramos espaço para a verdade, para que a realidade de Deus venha à tona. De outra forma, nossa busca por justiça ou paz se torna outro exercício da vontade humana, minada pela ilusão do self humano. Os dois chamados são inseparáveis, o chamado à “oração e à ação justa”, como põe o mártir protestante Dietrich Bonhoeffer, ao escrever na cela de sua prisão em 1944. A verdadeira oração purifica a motivação e a verdadeira justiça é a obra necessária de compartilhar e libertar nos outros a humanidade que descobrimos em nosso encontro contemplativo.

Aqueles que sabem ou se importam pouco com as instituições e hierarquias da igreja hoje em dia geralmente se sentem atraídos e desafiados pelas que exibem parte disso. São as comunidades religiosas novas e renovadas que mais vão em direção àqueles que nunca creram ou abandonaram a fé, tendo-a como vazia e velha. Quando a história cristã de nossa era for escrita, especialmente no que diz respeito à Europa e América do Norte, veremos quão central e vital foi o testemunho de lugares como Taizé e Bose, mas também de mais comunidades tradicionais que se tornaram pontos focais da exploração de uma humanidade mais ampla e profunda do que o hábito social encoraja.

E as grandes redes espirituais, Santo Egídio, os Focolares, a Comunhão e Libertação — esses também mostram o mesmo fenômeno; estes abrem espaço para uma visão humana mais profunda, porque em seus vários caminhos todos eles ofertam uma disciplina pessoal e vida comum que é sobre deixar a realidade de Jesus toma vida em nós.

E, como esses exemplos mostram, a atração e o desafio de que estamos falando pode gerar comprometimentos e entusiasmos por diversas linhas confessionais históricas. Nós nos acostumamos a falar sobre a importância imperativa do “ecumenismo espiritual” de nossos dias; mas isso não deve ser sobre de alguma forma contrastar o espiritual com o institucional, nem de trocar comprometimentos específicos por um senso geral de companheirismo cristão. Se nós temos um entendimento robusto e rico do que a palavra espiritual quer dizer, fundamentados sobre percepções escriturísticas como a da passagem de 2Coríntios que citei mais cedo, devemos entender o ecumenismo espiritual como a busca compartilhada de nutrir e sustentar as disciplinas de contemplação na esperança de desvelar a face da nova humanidade. E quanto mais nos mantivermos longes uns dos outros, menos convincente será essa face.

Citei o movimento dos Focolares: você se lembrará que o imperativo básico da espiritualidade de Chiara Lubich era “tornar-se um” — um com o Cristo crucificado e abandonado, um por ele com o Pai, um com todos os chamados a essa unidade e assim um com as mais profundas necessidades do mundo.

“Aqueles que vivem em unidade […] vivem ao permitirem a si mesmos adentrarem sempre mais em Deus. Eles crescem sempre para mais perto de Deus […] e o mais próximo que eles chegam dele, mais próximo chegam ao coração de seus irmãos e irmãs.”

O hábito contemplativo desnuda uma superioridade impensada com relação a outros crentes batizados e a presunção de que eu não tenho nada a aprender com eles. À medida em que o hábito da contemplação nos ajuda a abordar toda experiência como um presente, sempre devemos nos perguntar o que este irmão ou irmã tem para compartilhar conosco — mesmo o irmão ou irmã que está de algum modo separado de nós ou do que nós supomos ser a plenitude da comunhão. Quam bonum et quam jucundum

Na prática isso parece sugerir que, seja lá qual iniciativa estejam sendo tomadas para alcançar de novas formas os cristãos desviados ou o público pós-cristão, deverá haver um sério trabalho com relação a quanto dessa busca será fundamentada sobre alguma prática ecumênica compartilhada de contemplação. Além da forma impressionante em que Taizé desenvolveu ima cultura litúrgica “internacional”, acessível para uma grande variedade de pessoas, uma rede como a World Community for Christian Meditation (WCCM), com suas fortes raízes e afiliações beneditinas, tem oferecido novas possibilidades aqui.

Ademais, essa comunidade tem trabalhado duro para tornar a prática contemplativa acessível para crianças e jovens, e isso precisa receber o maior encorajamento possível. Tendo visto isso em primeira mão — em escolas anglicanas na Grã-Bretanha — quão ternamente as crianças respondem ao convite oferecido pela meditação nessa tradição, acredito que seu potencial para introduzir jovens às profundezas de nossa fé é realmente muito grande. E para aqueles que se distanciaram da prática regular da fé sacramental, os ritmos e práticas de Taizé ou da WCCM geralmente são um caminho de volta a esse lar e centro sacramental. 

O que as pessoas de todas as eras reconhecem nessas práticas é a possibilidade, falando de forma simples, de viver mais humanamente — viver com menos ganância inquieta, viver com espaço para a quietude, viver na expectativa de aprender, e, acima de tudo, viver com a ciência de que há uma alegria sólida e durável a ser descoberta nas disciplinas abnegadas, a qual é bem diferente da gratificação neste ou naquele momento.

A menos que nossa evangelização possa abrir portas para tudo isso, ela correrá o risco de tentar sustentar a fé com base num grupo de hábitos humanos não transformados. O resultado comum disso é que a igreja vem a se parecer infelizmente com instituições puramente humanas — ansiosa, ocupada, competitiva e controladora. Num sentido muito importante, a verdadeira empreitada da evangelização sempre será uma re-evangelização de nós mesmos como cristãos também, uma redescoberta de por que nossa fé é diferente, transfiguradora — uma descoberta de nossa própria nova humanidade.

E é claro isso acontece de forma mais efetiva quando não estamos nos planejando ou lutando para isso. Voltando a de Lubac: “Aquele que melhor responderá as necessidades de seu tempo é alguém que em primeiro lugar nunca buscou respondê-las”.“O homem que busca sinceridade, ao invés de buscar a verdade em abnegação, é como o homem que busca ser desapegado ao invés de entregar-se e abrir-se ao amor.”

O inimigo de toda proclamação do evangelho é a autoconsciência e, por definição, não podemos superá-la nos tornando mais autoconscientes. Precisamos retornar a S. Paulo e nos perguntar “Para onde estamos olhando?” Será que olhamos ansiosamente para os problemas do nosso dia, para as variações da infidelidade ou para a ameaça da fé e moral, para a fraqueza da instituição? Ou estamos buscando olhar para Jesus, para a face desvelada da imagem de Deus, em cuja luz vemos a imagem mais refletida em nós mesmos e em nosso próximo?

Isso simplesmente nos lembra que a evangelização sempre flui de outra coisa — da jornada do discípulo à maturidade em Cristo, uma jornada não guiada pelo ego ambicioso, mas que resulta de promover e invocar o Espírito para perto de nós. Em nossas considerações de como fazer novamente o evangelho de Cristo atraente para os homens e mulheres de nossa era, espero que nunca percamos de vista o que o torna atraente para nós mesmos, a cada um de nós em nossos diversos ministérios.

Então os desejo alegria nessas discussões — não apenas clareza e efetividade no planejamento, mas alegria na promessa da visão da face de Cristo, e no antecipação do cumprimento da alegria em comunhão uns com os outros aqui e agora.


Por: Rowan Williams. © Rowan Williams, 2012. Website: https://www.abc.net.au/religion/contemplation-and-evangelisation/10100254. Traduzido com permissão. Fonte: “Contemplation and evangelisation.”

Original: Contemplação e evangelização. © The Pilgrim. Website: thepilgrim.com.br. Todos os direitos reservados. Tradução: Arthur Guanaes. Revisão: Guilherme Cordeiro Pires.

Imagem:  Unsplash

O ponto de vista deste texto é de responsabilidade de seu(s) autor(es) e colaboradores diretos, não refletindo necessariamente a posição da Pilgrim ou de sua equipe de profissionais.


[1] N. do T.: “Como é bom e agradável os irmãos viverem em união!” Sl 133.1.

A lógica do corpo (Matthew LaPine)

Fazer-se vulnerável é perigoso. É perigoso porque muitos de nós têm lentes teológicas que nos proíbem de ver quem está emocionalmente sobrecarregado como digno de compaixão. Com muita frequência, consideramos ansiedade, depressão ou raiva como motivo de culpa, até que se prove o contrário. Não merecem nossa compaixão, nem mesmo nossa curiosidade. E isso nos previne de os ouvirmos realmente bem.

Quando uma pessoa está sobrecarregada emocionalmente — talvez estirada no chão sem saber qual é a próxima coisa que vai fazer ou dizer —, não há nada tão aterrorizante quanto “a conversa”. A conversa acontece quando a pessoa finalmente toma a coragem de pedir ajuda, de dizer a alguém o que ela está sofrendo.

O resultado repousa sobre a corda de um equilibrista. Quando eu conto minha história, o confidente pode comprá-la ou não. Ganharei um amigo ou ficarei sozinho. Serei são ou louco. Terei boas razões para me sentir desse jeito ou será tudo culpa minha.

O pior é que o resultado parece depender da minha capacidade de contar uma história convincente. Será que eu vou achar as palavras certas? Será que eu vou conseguir fazê-los entender porque eu estou paralisado? E se eu falar do jeito errado?

Com muita frequência, as pessoas em sofrimento se encontram confessando seus sentimentos a uma pessoa que está medindo consigo quão má é a situação — vai ser necessário arrependimento ou terapia? Um caso ruim de ansiedade pode precisar de um terapeuta licenciado ou de ansiolíticos. Um caso mais administrável pode precisar ser exortado a confiar em Deus e em suas promessas.

Ver isso como uma relação de tudo ou nada entre terapia e teologia tende a minimizar ou maximizar a culpa pela emoção. Ou meu corpo está quebrado de alguma forma (visão materialista) ou minha alma precisa lutar contra o pecado da incredulidade (visão cognitivista). As emoções difíceis são neuroquímicas e involuntárias ou cognitivas e escolhidas. Ou estou sofrendo ou estou errado.

Muitas vezes o dilema parte de suposições psicológicas errôneas.

Todos temos suposições psicológicas quer reconheçamos quer não. Por exemplo, os meus sentimentos revelam um estado do meu coração ou a dificuldade das circunstâncias? Ou talvez ambos? O meu coração é apenas minha alma ou meu corpo também é uma fonte de sentimentos? As reais perguntas são: eu conheço minhas suposições e elas são verdadeiras?

Quando os evangélicos falam explicitamente sobre a emoção, tendem a suportar uma visão cognitivista. Mas parece haver uma trégua desconfortável na prática pastoral de muitos evangélicos entre a visão cognitivista e a materialista. As emoções administráveis são mentais e as não administráveis envolvem o corpo. Curar essa trégua traria um avanço ao cuidado pastoral.

Escolhendo as emoções: a visão cognitivista

A teoria cognitiva ensina que nós podemos escolher nossas emoções.¹ Essa escolha é possível porque as emoções são juízos de valor. As emoções expressam o que pensamos e valoramos e, portanto, podem ser verdadeiras ou falsas. Portanto, esses juízos estão abertos à avaliação e à alteração. Se as emoções fossem reações corporais cegas, não seriamos capazes de mudá-las. Isso é voluntarismo emocional; presume-se que eu estou em total controle das minhas emoções.

Digamos que estou esperando para ouvir o parecer do médico sobre a minha radiografia e que estou ansioso. Do ponto de vista cognitivista, minha ansiedade vem da crença de que o diagnóstico do meu doutor me dirá que há uma grande chance da possibilidade que eu quero evitar.

Nas últimas três décadas, muitos pastores e teólogos evangélicos defenderam algo perto de uma teoria cognitiva da emoção. Por exemplo, Brian Borgman, autor de Feelings and Faith [Sentimentos e fé], escreve que as emoções “nos dizem o que acreditamos de verdade, de verdade mesmo.”² De novo, se nossas emoções são ou refletem nossas crenças, essas crenças podem mudar. Borgman sugere: “eu venci a ansiedade ao focar nas consolações, nas promessas, que tu me deste na tua Palavra.”³

Segundo Borgman, eu posso vencer a ansiedade ao me lembrar da promessa de Deus de que ele “nunca me deixará, jamais me desamparará” (Hb 13.5). Eu precisarei lembrar que Mateus 6.28-34 me diz três vezes “não fiqueis ansiosos.” Semelhantemente, Hans Dieter Vetz argumenta que esses mandamentos são “categóricos, sem abrir nenhuma exceção.”4

Observe três características da versão teológica da visão cognitivista, a qual chamarei de voluntarismo emocional. Em primeiro lugar, emoções são juízos ou crenças. Segundo, porque as emoções vêm dos nossos corações, elas podem ser mudadas ao mudarmos a nossa atenção de lugar ou nos confrontarmos. Terceiro, porque a Bíblia ordena e proíbe certas emoções, nós devemos mudar nossas emoções.

Então, se estou tendo “a conversa” com um amigo que tem a posição cognitivista, que postura padrão ele terá com relação a minha ansiedade? Ele provavelmente me pressionará para que eu alinhe minhas emoções à “verdade”, assumindo que a ansiedade em si é um ato pecaminoso. Outras circunstâncias externas não importam, porque o problema está no meu coração, não em minhas circunstâncias. Eu sou o problema.

Essa abordagem pode funcionar para formas relativamente triviais de aflição emocional (a terapia cognitiva é muito eficiente para diversos casos). Para casos significativos de aflição ou trauma emocional, pode causar grande dano. O voluntarismo emocional deixa a pessoa traumatizada sozinha e envergonhada.

A abordagem possui três problemas. Primeiro, as emoções nunca são meros juízos, mas envolvem o corpo todo. O clima geral do corpo importa para uma tempestade emocional acontecer ou não. Segundo, as emoções são menos ações e mais algo que acontece conosco (paixões); nossas ações, mentais ou não, nem sempre mudam diretamente nossas emoções porque nossos juízos são inconscientes e automáticos. Terceiro, para mudarmos nossas emoções, precisamos saber quanto tempo levará. Eu tenho uma obrigação moral de mudar minhas emoções nos próximos quinze minutos ou nos próximos dois anos?

Emoções corpóreas: a visão materialista

Geralmente as pessoas que sofrem de certa aflição emocional deixam a igreja quando os líderes eclesiásticos os rotulam como “emocionalmente imaturos”. Esses líderes confundem instabilidade emocional com imaturidade emocional. Assume-se que a pessoa deveria ter controle sobre suas emoções. Os que estão sofrendo reagem num reflexo a isso: eu não sou o problema, minhas circunstâncias que são.

Muitas vezes eles abraçam o lado oposto do dilema, a visão materialista da emoção. De acordo com essa visão, as emoções negativas que causam o sofrimento são uma doença ou uma disfunção trazidas pelo estresse. Se a primeira visão restringe as emoções ao coração (alma), então a segunda as restringe às circunstancias e ao corpo.

Uma perspectiva secular das emoções tende a vê-las como uma reação corpórea, como “funções biológicas do sistema nervoso.”5 As emoções dizem respeito à saúde, não à moralidade. As emoções sinalizam disfunção, desequilíbrio ou relações sociais insalubres. Por serem completamente involuntárias, são amorais. Elas simplesmente acontecem conosco; não as desejamos.

Observe as características da visão materialista. Primeiro, as emoções são eventos corporais. Segundo, emoções são reações ao nosso ambiente segundo a tintura do nosso corpo particular. Terceiro, as emoções são amorais e relacionadas à saúde, mental e física. O problema não está no meu coração, mas fora de mim e com meu corpo.

Agora suponha: estou tendo “a conversa” com um amigo que suporta a visão materialista, que postura padrão ele terá com relação à minha ansiedade? Ele adotará uma postura muito mais empática. Provavelmente ouvirá ativa e atentamente, sem julgamentos. Empatia é terapia, de acordo com essa abordagem. E ele poderá sugerir passos ativos para que eu administre bem meu estresse.

A pessoa que sofre considerará essa abordagem profundamente consoladora. A aflição emocional produz alienação e vergonha, que são debilitantes. A empatia comunica que você não está maluco ou sozinho. Na superfície, essa abordagem é mais humana.

Entretanto, a longo prazo, a abordagem materialista comete o erro oposto de assumir que nossos problemas emocionais estão inteiramente fora de nós, sendo uma combinação de genética e ambiente. A vereda que leva à cura geralmente caminha pelos passos da responsabilidade pessoal e de uma revisão significativa de nosso modo de ver e agir no mundo. Por exemplo, os Doze Passos dos Alcóolicos Anônimos inclui um “destemido inventário moral”, admitindo a “natureza exata de nossas falhas” e o propósito de se corrigir onde errou.6

Uma psicologia tomista: a lógica corporificada

Então como resolvemos o paradoxo dos sentimentos? É possível reconciliar as melhores propostas de cada uma das duas abordagens. Observar a criação e a tradição cristã ajuda a reavaliar nossas suposições para uma leitura mais rica do texto bíblico.

A Bíblia vê os seres humanos como pessoas que estão “cultivando” os seus corpos, no sentido agrícola da palavra. As pessoas são como árvores (Gn 2—3; Sl 1), cultivados para a frutificação e a confiança em Deus e seus dons. Então, seguindo essa analogia, podemos escolher nossas emoções da mesma forma que um fazendeiro do Goiás pode escolher plantar pequi.

Tomás de Aquino defendia uma visão das emoções que as considera como corporificadas e significativas. Para Aquino, emoções são paixões. As paixões acontecem conosco e são apenas parcialmente voluntárias. Elas são responsivas aos rápidos juízos da percepção. Então, se eu vejo um graveto que parece uma cobra, meu corpo reage com medo antes mesmo de eu ter registrado o que de fato existe ali. As nossas emoções corporificam uma espécie de inteligência ou lógica.

Tentar mudar diretamente nossa forma de pensar pode afetar nossa percepção e nossas paixões, mas isso ocorre apenas de forma indireta e incompleta, porque o pensamento é consciente enquanto os julgamentos perceptivos são inconscientes. Pensar com o objetivo de corrigir nossas emoções pode ajudar ou não. Porque a percepção difere da reflexão racional, não importa o quanto eu pense “isso não é uma cobra”, isso não prevenirá a reação da próxima vez. Mas talvez aprender sobre cobras e sobre como manuseá-las possa ajudar.

Enquanto temos a responsabilidade de governar nossos corpos e emoções, essa responsabilidade tem dois limites significativos. De um lado, somos capacitados apenas na proporção do que recebemos na graça comum de capacidades humanas funcionais, na graça salvadora de Deus em Cristo e nos dons do Espírito. De outro, nossas expectativas de integridade são modificadas pela futilidade a que nossos corpos foram submetidos pela maldição do pecado.

A Bíblia nos diz que “o Espírito daquele que ressuscitou Jesus dentre os mortos habita em vós” e que ele “há de dar vida também aos vossos corpos mortais, pelo seu Espírito, que em vós habita” (Rm 8.11). O Espírito pode vivificar nossos corpos total e completamente agora mesmo.

E ainda assim esperamos com paciência pela redenção de nossos corpos. Nossos corpos estão sob o domínio da maldição do solo e o Espírito nos ajuda em nossas fraquezas (Rm 8.18-27). Nesses corpos, devemos esperar com paciência pela colheita da ressurreição (1Co 15.42-44, Tg 5.7). A ajuda e a esperança necessárias já nos foram dadas, mas o sofrimento ainda não foi removido.

Então, para retornar à “conversa”, que postura padrão assumirão os que têm uma visão tomista em relação à minha ansiedade? Primeiro, os ouvintes serão compassivamente curiosos sobre as dinâmicas internas e externas de qualquer dor humana. Eles tentarão imaginar como é ser alguém que sofre ao fazer perguntas empáticas sobre as circunstâncias e os sentimentos envolvidos.

Em segundo lugar, esses ouvintes praticarão a paciência. “Mas, se esperamos o que não vemos, com paciência o aguardamos” (Rm 8.25). O sofrimento significativo, como o trauma, pode trazer um dano à pessoa que só será curado com o tempo. Se administrarmos nossa emoções como um fazendeiro de Goiás administra seu campo, a tempestade e as enchentes podem causar um dano duradouro. A cura do trauma pode levar anos.

Terceiro, eles se sentirão livres para cuidar dos outros com ferramentas tanto da graça comum quanto da salvadora. Não somos corpos, nem almas, mas almas corporificadas. Os meios de graça para a cura e a santificação incluem Palavra e sacramento, práticas individuais e comunitárias, tudo mediado pela presença do Espírito de Deus. Mas há também meios de graça como descanso e comida, atividade física e contato com a natureza, medicação e toque físico. Esses instrumentos também mediam o amor cuidadoso de Deus. Em alguns momentos, o toque físico pode comunicar o amor cultivador de Deus melhor que as palavras.

Temos uma obrigação de estender bondade aos irmãos e irmãs em Cristo que estão sofrendo. A Bíblia diz: “Recusar a piedade a um amigo é abandonar o temor do Todo-poderoso” (Jó 6.14-15, BAVM) e “Levai os fardos uns dos outros e assim estareis cumprindo a lei de Cristo” (Gl 6.2). Porém, à parte do nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo, não temos nenhum poder para estender tal bondade e suportar tais fardos. Devemos o fazer na vinha e sob os cuidados do divino jardineiro. Nossa vida está somente em Cristo e tudo que ministramos são sua vida e seus dons.

Eu sou a videira verdadeira, e meu Pai é o agricultor. […] Permanecei em mim, e eu permanecerei em vós. O ramo não pode dar fruto por si mesmo, se não permanecer na videira; assim também vós, se não permanecerdes em mim. Eu sou a videira; vós sois os ramos. Quem permanece em mim e eu nele, esse dá muito fruto; porque sem mim nada podeis fazer.
João 15.1, 4-5


  1. O filósofo Robert Solomon foi um pioneiro da visão cognitivists. Ver “Emotions and Choice,” The Review of Metaphysics 27 no. 1. Setembro de 1973, p. 20-41. 
  2. Brain Borgman, Feelings and Faith, p. 128. 
  3. Borgman, Feelings and Faith, p. 130. 
  4. Hans Dieter Betz, The Sermon on the Mount, Hermeneia. Minneapolis: Augsburg Fortress, 1995, p. 469. 
  5. Joseph LeDoux, The Emotional Brain: The Mysterious Underpinnings of Emotional Life. New York: Simon & Schuster, 1996, p. 12.
  6. O vício se relaciona intimamente à saúde mental porque é uma forma doentia de lidar com a aflição mental. Os adictos são normalmente diagnosticados com algum transtorno mental.

Por: Mathew LaPine. © Mere Orthodoxy. Website: https://mereorthodoxy.com/the-logic-of-the-body/. Traduzido com permissão. Fonte: The Logic of the Body.

Original: A lógica do corpo (Mathew LaPine) © The Pilgrim. Website: thepilgrim.com.br. Todos os direitos reservados. Tradução: Arthur Guanaes. Revisão: Guilherme Cordeiro Pires.

Imagem:  Unsplash

O ponto de vista deste texto é de responsabilidade de seu(s) autor(es) e colaboradores diretos, não refletindo necessariamente a posição da Pilgrim ou de sua equipe de profissionais.

Teologia teológica (Michael Allen)

A geração dos baby boomers [nascidos entre 1945-1964] ainda comanda grande parte do mundo, e, infelizmente, seu maior teólogo já morreu. John Webster, falecido em maio de 2016, desempenhou um papel importante no mundo cristão de língua inglesa. Sua realização singular foi ter se tornado um expositor ao invés de um inovador conceitual, um teólogo dogmático em vez daquela figura teológica moderna, o sistemático criativo e revisionista. Tenho a sorte de ter passado meus anos formativos aprendendo com ele. 

Nascido em 1955, Webster era um lacônico yorkshireman e um anglicano da baixa-igreja que tinha pouca consideração pela pompa e pretensão da vida inglesa de classe alta. Educado na Universidade de Cambridge, ele ocupou cargos como professor na Universidade de Durham e no Wycliffe College, na Universidade de Toronto, após os quais foi nomeado Professor Lady Margaret de Divindade em Oxford. Seu tempo em Oxford não foi feliz e, quando surgiu a oportunidade ele foi para o norte, para o austero distrito de Aberdeen, na Escócia, para assumir o cargo de professor na universidade de lá. Nos últimos anos antes de sua morte prematura, ele lecionou na Universidade de St. Andrews. 

Sua peregrinação profissional foi acompanhada por sua peregrinação intelectual. Webster foi treinado no fogo dialético da teologia barthiana. Nos primeiros anos de sua carreira acadêmica, ele se debruçou sobre a teologia de Eberhard Jüngel, uma figura alemã de destaque na geração que sucedeu Barth. Ao longo de sua carreira, no entanto, ele se voltou para a tradição clássica do escolasticismo protestante como uma extensão do cristianismo patrístico e medieval. Na época de sua morte, Webster era o mais eminente proponente de um projeto assumidamente protestante de ressourcement, o “retorno às fontes” que havia tanto renovado a teologia católica romana no século 20.  

A teologia de Webster é melhor entendida em termos de três temas. Primeiro, Webster insistiu que a teologia deve começar com Deus. Neste sentido, ele permaneceu sempre no mesmo lado de Karl Barth. Mas o segundo tema marcou uma ruptura com Barth (pelo menos segundo a maneira em que o grande teólogo suíço é tipicamente compreendido). Webster veio a insistir que a teologia cristã, que começa com Deus, deve disciplinar sua reflexão com a metafísica. Seu terceiro tema é o papel central da exposição. O teólogo não é crítico ou criativo, antes é a Palavra de Deus que é tanto crítica quanto criativa e em um grau muito maior do que qualquer humano jamais poderia ser. Se o teólogo, portanto, deseja participar do poder crítico e criativo de Deus, ele deve “ouvir, ler, marcar e digerir interiormente” a Palavra de Deus. A teologia é, antes de tudo, um comentário. Em cada um destes aspectos, Webster se voltou contra as tendências culturais, não apenas do mundo ocidental mais amplo, mas na teologia cristã dominante.

Karl Barth adquiriu uma reputação proeminente através de seu comentário explosivo de Romanos, que posteriormente foi chamado de “uma bomba no parquinho dos teólogos”. Nessa obra, Barth fala vividamente sobre Deus e a ação de Deus na transformação do nosso mundo contra as platitudes liberais de progresso humano. Décadas depois, John Webster igualmente abordou o tema da prioridade da ação de Deus e desafiou os métodos frequentemente centrados no homem que dominam grande parte da teologia moderna.

Seu ensaio seminal, “Theological Theology” [Teologia Teológica], foi originalmente sua palestra inaugural como Professor Lady Margaret de Divindade na Universidade de Oxford em outubro de 1997. Webster começa abordando a natureza da universidade saudável. O ensaio é caracterizado, em parte, por sua habilidade de autocrítica e por sua transparência acerca de sua “antropologia do conhecimento”. Por esse termo, Webster se refere ao fato de que toda abordagem educacional adota uma visão particular da pessoa humana.

Na perspectiva de Webster, a pesquisa moderna universitária se fundamenta em uma visão da “individualidade responsável”. Essa antropologia é “identificada não com as especificidades da formação, costumes ou treinamento, nem com os hábitos da mente e do espírito que são adquiridos a partir da participação em uma tradição particular, mas sim a partir da interioridade”. Na medida em que a interioridade é enfatizada, a Bildung (formação) é marginalizada. A interioridade nos convoca a “encontrar” a nós mesmos ao invés de nos submeter a uma tradição que irá formar e moldar nosso pensamento. A pedagogia da Wissenschaft (uma ciência antiautoritária e “livre de valores”), então, preenche o vazio. A universidade se concentra mais na técnica do que no cultivo moral.

Webster então observa que o eu interiormente definido também redefine o papel dos textos na educação. Os textos deixam de ser considerados autoridades a serem citadas e obedecidas e se tornam recursos a serem utilizados. Uma pedagogia dedicada ao cultivo da interioridade busca reunir, por assim dizer, um cânone pessoal ao qual o eu confere autoridade. Essa pedagogia é caracterizada pela oposição ao cânone dos grandes livros e pela afirmação de “pensamento crítico”.

A teologia cristã moderna absorveu em grande medida esse ethos, Webster observa. Uma falta de coragem teológica marcou o declínio da teologia cristã. Essa falha enfraqueceu a teologia, reduzindo dramaticamente sua influência na universidade e na cultura intelectual do Ocidente. Teólogos não foram encurralados; eles assumiram sobre si mesmos a pedagogia da interioridade. Webster traça o declínio de um conceito distintamente cristão de Deus em áreas doutrinárias. A revelação perde sua reivindicação de autoridade; a ressurreição de Jesus se torna um problema a ser administrado com raciocínio “hermenêutico”. Essa perda de autoridade leva a uma “desordem dentro da dogmática cristã” e a “hesitação da teologia em apresentar reivindicações teológicas”.  

Essa é uma visão errônea da teologia. Webster argumenta que as ações de Deus registradas na Escritura não são apenas o assunto central da teologia — são o fundamento e a racionalidade de qualquer abordagem verdadeiramente teológica: “Falar sobre Deus descreve não apenas o assunto que a teologia investiga, mas também, fundamentalmente, informa o caminho de seus próprios processos de investigação”. Deus é o fundamento e a base de toda teologia. O estudo teológico não pode ocorrer à parte de uma consciente dependência das criaturas em relação a nosso Criador, Pai e Redentor intelectual. A graça do evangelho não apenas define uma parte da vida espiritual humana; ela estabelece o espaço para a atividade intelectual teológica dos agentes humanos. 

Em resumo, teólogos devem fazer teologia como se Deus importasse, de fato, como se Deus estivesse presente. Minha frase favorita de Webster é a seguinte: “Deus não é convocado à presença da razão; a razão é convocada diante da presença de Deus”. A teologia é singular entre as ciências, pois seu objeto fala e revela, vivifica e julga.

Webster frequentemente repreendia os protestantes modernos por reduzirem Jesus e suas boas novas a um item da intervenção divina no passado — algumas belas obras na Palestina do primeiro século — e por falharem em ver que o Cristo triunfante e assunto aos céus continua a ministrar graça e a cuidar de seu rebanho. A presença celestial de Cristo à direita do Pai informa o pensamento cristão e devemos permitir que assim seja para não pensarmos que fomos deixados por conta própria apenas com nossas técnicas científicas em nossos esforços para encontrar, conhecer e falar de Deus. A graça não é apenas o conteúdo da doutrina, mas também o contexto dentro do qual a proclamação cristã se torna real.

Muitos teólogos modernos sugerem que afirmações metafísicas conduzem à opressão, falham em honrar diferenças e diversidades contextuais e manifestam arrogância. Alguns sugerem que qualquer recurso à metafísica mistura Deus com outros seres, domesticando-o como se ele fosse parte do que Stanley Hauerwas chamou de o “mobiliário metafísico do universo”.

Webster pode ter parecido, a princípio, um campeão das manobras anti-metafísicas da teologia protestante moderna. Eberhard Jüngel, o tema da dissertação de doutorado de Webster, foi um notável crítico das afirmações metafísicas totalizantes e arrogantes. Webster também escreveu bastante sobre a teologia e a ética de Karl Barth. Barth foi contemporâneo de Heidegger e tem sido interpretado como profundamente desconfiado de qualquer esquema metafísico em nome da dialética. 

De acordo com essa leitura, Barth olhou para trás, para a Encarnação a fim de definir (ou redefinir) o que “Deus” deve ser, em vez de começar com alguma noção (supostamente idólatra) de divindade. Uma dinâmica semelhante é assumida para caracterizar a teoria ética de Barth, que rejeita a lei natural. Até que ponto Barth era “antimetafísico” é uma questão altamente debatida nos estudos de Barth.

Webster evitou esses debates, hesitando quanto a se engajar nas discussões da Barth Society que marcaram o final dos anos 2000 e início dos anos 2010. Ele foi atraído por elementos da teologia de Barth que eram menos enfatizados pelos “barthianos”. Webster desempenhou um papel fundamental ao defender a função distintiva e substancial da teologia moral dentro do pensamento de Barth. Mais importante, ele se concentrou na exegese e na teologia histórica de Barth e encorajou seus alunos a fazerem o mesmo. Como resultado, seus estudantes não se fixaram na relação entre Barth e Hegel ou Barth e Heidegger (temas comuns dos estudos de Barth). Eles foram direcionados à intepretação de Barth de Zwínglio, das Confissões Reformadas e do Evangelho segundo João. Seu livro Barth’s Earlier Theology detalha o período em que Barth, conhecido até então como um pensador apocalíptico que protestava contra o liberalismo dominante, percebeu que precisava fundamentar seu trabalho teológico novamente nos distintos recursos teológicos encontrados na Escritura e nos grandes textos da tradição cristã.

Webster seguiu o mesmo curso em seu próprio desenvolvimento teológico. Ele define “teologia teológica” como um engajamento com os textos cristãos clássicos, em especial a Sagrada Escritura. Webster era bem versado nos debates teológicos modernos, mas ele leu Barth como fazendo “teologia teológica” no refeitório do apóstolo Paulo, Tomás de Aquino e Lutero, ao invés de na sala de aula de Kierkegaard e Schleiermacher. Em seu pensamento (assim como no de Barth), a exegese não é necessariamente incompatível com os interesses metafísicos, embora os conceitos metafísicos atinjam sua validade teológica apenas na medida em que iluminam e esclarecem o significado da Escritura. O mesmo é verdade para a teologia histórica. As habilidades literárias e expositivas de grandes intérpretes do passado da igreja permitem uma entrada mais profunda no mundo das Escrituras.

Ao comentar sobre os anos de Barth como um jovem professor, Webster escreve: ele estava “estocando sua mente com essa tradição de textos e ideias e colocando-as para trabalhar na rearticulação dos fundamentos da confissão protestante do evangelho”. O mesmo pode ser dito da própria carreira de Webster como teólogo. Ele procurou aprofundar sua vocação teológica com exegese e teologia histórica. Para ele, trabalhar dentro da tradição significava aprender a colocar a linguagem cristã em uso com confiança e firmeza. Isso de forma alguma impediu sua própria voz teológica. Como T. S. Eliot argumentou em “Tradition and the Individual Talent” [Tradição e Talento Individual], ser moldado por uma tradição é a única base segura para o tipo de criatividade que não é obstinação vazia e autoexibição. 

À medida que Webster se debruçava nos clássicos da tradição teológica, seu trabalho se tornava cada vez mais nítido e vigoroso. Ele publicou monografias e coleções de ensaios em uma intensidade notável durante seus últimos 15 anos: Word and Church [Palavra e Igreja] (2001), Holiness [Santidade] (2003), Holy Scripture [A Escritura Sagrada] (2003), Confessing God [Confessando Deus] (2005), Domain of the Word [O Domínio da Palavra] (2012), e os dois volumes de God Without Measure [Deus Imensurável] (2015). Como clérigo, ele pregava regularmente, particularmente em seus anos em Oxford (The Grace of Truth, republicado como Confronted by Grace [Confrontado pela Graça], uma coleção de seus sermões que logo se juntou a outra antologia homilética, Christ Our Salvation [Cristo, nossa salvação]). Projetos futuros foram planejados, em especial uma dogmática de cinco volumes. 

Ao avaliar este corpo de trabalho, alguns sugeriram que Webster mudou, deixando Barth e o protestantismo moderno para trás e se voltando para uma versão do tomismo reformado. É verdade que ele se deleitava com a exegese das escrituras e o gênio teológico do Doutor Angélico. Ele também se arrependeu de suas rejeições anteriores dos manuais escolásticos (principalmente as versões protestantes posteriores e, até certo ponto, também as versões medievais). E há momentos em seus escritos que ele parece mais tomista que reformado, especialmente no que diz respeito aos sacramentos (veja suas breves observações sobre o batismo em “Communion with Christ” [Comunhão com Cristo]).

Mas essa maneira de compreender Webster — como tendo mudado de um campo para outro — confunde ferramentas conceituais com substância teológica (escolásticos reformados, por exemplo, muitas vezes adotaram ferramentas tomistas para articular posições anticatólicas). A importância de Webster vem de sua reconsideração fundamental da influência de Barth sobre os teólogos protestantes modernos que buscam sustentar o cristianismo ortodoxo. Em seus últimos anos, ele escreveu um ensaio sobre “The Place of Christology in Systematic Theology” [O lugar da cristologia na teologia sistemática]. Nele, ele questiona o “cristocentrismo” e argumenta que a doutrina da Trindade deve ser o ponto de partida da teologia.

Webster observou frequentemente que o cristocentrismo de Barth era bem mais refinado do que seus intérpretes concediam. Ainda assim, ele concluiu que a teologia não deve começar com a encarnação, pois a estranha glória da encarnação se manifesta apenas quando alguém já foi catequizado quanto à beleza singular do Deus vivo e verdadeiro. Deve-se começar com a vida interior do próprio Deus, e só então se voltar para suas obras externas entre suas criaturas (seja a criação ou a encarnação).

Michael Root, escrevendo sobre o legado de Wolfhart Pannenberg no First Things (“The Achievement of Wolfhart Pannenberg, março de 2012), diferencia entre teólogos virtuosos e aqueles teólogos cujos trabalhos assumem uma forma mais escolástica ou eclesial. O que torna um teólogo virtuoso? Root identifica “a mente criativa que reformula o campo, os Schleiermachers e Barths da disciplina, figuras prometeicas que abrem o caminho que os outros devem seguir”. Ele escreve: “Muito trabalho acadêmico na teologia moderna parece menos o estudo de Deus ou da mensagem cristã sobre Deus, e mais o estudo da criatividade de grandes teólogos”. Entretanto, a criatividade não era considerada uma marca de grandeza para os teólogos do passado. Contrariamente ao preconceito que premeia a invenção, Webster observou que a curiosidade é um vício, especialmente na teologia.

Poucos têm a virtude intelectual de “serem criativos”, então a abordagem contextual é mais comum. Quão difícil pode ser “falar por experiência própria”? Webster levava a sério a contextualização, mas a rejeitou como um princípio teológico:

“Independentemente do que mais quisermos dizer sobre a igreja e a teologia, isso, ao menos, deve ser dito: a igreja e a teologia permanecem no espaço entre a vinda de Jesus em humilhação e sua vinda em glória. Esse espaço — e não qualquer espaço cultural, seja pós-moderno ou outro — é determinante para o que a igreja e a teologia podem e devem ser. Em outras palavras: a teologia cristã e, portanto, a escatologia e a antropologia cristã, é responsável em seu contexto, mas sua responsabilidade não é diretamente definida a partir desse contexto.”

O cenário canônico permanece definitivo para pensar sobre nossa localização na vida contemporânea. Gênero e raça são interessantes, mas são menos interessantes do que saber se alguém está em Adão ou em Cristo.

É porque o drama da redenção é o contexto final para o trabalho teológico que a obra do próprio Deus pode ser alegre e não repressiva. Em vez de “atualizar” e “redimir” elementos supostamente irracionais e opressivos da tradição cristã, Webster argumentou que os teólogos devem conceder “uma dignidade adequada ao ouvir em arrependimento”. Ele exaltou o gênero clássico de comentário — não apenas a exposição das escrituras, mas também o trabalho da teologia histórica. Repetidamente ele lembrou seus leitores que a doutrina cristã costumava olhar para as Escrituras, para os textos cristãos como os credos e confissões da Igreja e para a literatura cristã clássica, argumentando que a exposição e a citação eram essenciais, não apenas ornamentais, para a retórica teológica. A teologia não deve buscar aprimorar as Escrituras e a oração. Sua tarefa é ajudar o leitor a retornar àquelas línguas primárias com mais atenção e entendimento.

Webster seguiu seu próprio conselho. Seus ensaios posteriores forneceram frequentemente uma análise expositiva detalhada do que poderia parecer tópicos doutrinários, éticos e metafísicos restritos. Ele tratou da criação a partir do nada e tirou cinco consequências surpreendentes. Ele refletiu sobre o termo “criatura” e desenvolveu as implicações metafísicas do conceito conforme foi utilizado na teologia cristã ao longo dos tempos, argumentando que tal conceito conduz a uma antropologia mais substancial do que a exegese usual da imago Dei. Ele rejeitou a “criatividade”, buscando em vez disso o deleite e a atenção intelectual que vêm de ver coisas novas em fórmulas clássicas e termos bíblicos.

Seus últimos ensaios dogmáticos foram comentários extensos sobre textos clássicos (veja a coleção de 2012, The Domain of the Word: Scripture and Theological Reason, e a coleção de dois volumes de 2015, God Without Measure: Working Papers in Christian Theology). Seu foco recairia sobre O Pedagogo de Clemente de Alexandria, A Redução das Ciências à Teologia de Boaventura ou Meditações sobre a glória de Cristo de John Owen. Frequentemente, Webster recorreu aos manuais escolásticos, seja a Summa Theologiae de Thomas ou as joias variadas da dogmática reformada, como Junius, Turretin ou a Sinopse de Leiden (a variedade de fontes se encaixa na tradição reformada clássica, embora raramente tenha marcado o trabalho de estudiosos de Barth ou protestantes modernos.) Webster era eclético. Nenhum único texto ou época era essencial. Barth permaneceu importante (Bavinck também). Mas a grande tradição ganhou claramente seu entusiasmo agradecido. Seu método, se podemos chamá-lo assim, era entrar com paciência e atenção na grande conversa dos textos cristãos clássicos. Foi para isso que ele treinou seus alunos — e essa lição continua sendo sua contribuição mais duradoura.

Quando Jason Byassee e eu entrevistamos Webster para o The Christian Century em 2006, ele disse que sua educação inicial não o havia preparado bem para este trabalho de ressourment. A teologia inglesa ainda estava sofrendo os efeitos da “crítica doutrinária” e o engajamento caridoso e paciente de textos teológicos clássicos não era a norma. De muitas maneiras, então, Webster se viu necessitando de reeducação nos anos 1990. Ele vislumbrou uma prática teológica não cativada pelo projeto liberal de traduzir a teologia em idiomas contemporâneos supostamente mais relevantes e muitas vezes centrados no homem (ele também se preocupava com a suposta contrarreação pós-liberal, que frequentemente se apoiava fortemente na filosofia analítica e na teoria cultural, excluindo o envolvimento com a literatura cristã clássica). Sua reeducação continuou nos anos 2000 à medida que ele trabalhava texto sobre texto, doutrina sobre a doutrina. Não é por acaso que ele descreveu suas coleções de ensaios como “working papers” [documentos de trabalho], uma descrição de gênero destinada a evocar a ideia de um peregrino viajante ainda em sua jornada rumo a seu destino.

Ensaios como “On Evangelical Ecclesiology” [Sobre a eclesiologia evangélica], “Biblical Reasoning” [raciocínio bíblico] ou “Trinity and Creation” [Trindade e criação] mostram Webster seguindo o modelo de Barth na década de 1920, o jovem brilhante professor que estava sistematicamente se educando para ser um verdadeiro teólogo em vez de uma celebridade teológica. Perto do fim de sua breve vida, Webster disse que a tarefa da teologia era indicar — apontar os leitores para — Deus e isso tem precedência sobre qualquer tarefa crítica. Tal tarefa não se enquadra no status quo. Em vez disso, como Webster sabia, a correção verdadeira e duradoura ocorre quando se olha para o Deus do evangelho: “O temor do Senhor é o princípio da sabedoria”. A reforma que a igreja e o mundo sempre precisam vem do “ouvir em arrependimento”.

John Webster não era otimista. Em sua maneira franca de falar, ele deixou claro que não acreditava que os males da modernidade, a atração do pensamento antimetafísico ou os impulsos antropocêntricos da teologia liberal tivessem sido de alguma forma “derrotados”. Isso teria conferido a sua teologia criatividade demais! Mas ele tinha esperança de que um forte contraponto a essas tendências tivesse se estabelecido na conversa teológica. Ele estava certo. É possível — na verdade, imperativo — retornar aos ritmos comuns e regulares da prática teológica cristã clássica. Como autor, sim, Webster descreve esse retorno. Mas foi como mentor para muitos que ele nos convidou a sermos leitores e destinatários gratos da Sagrada Escritura e das joias literárias dos clássicos cristãos que resplandecem com a verdade do evangelho.


Por: Michael Allen. © First Things, 2020. Website: https://www.firstthings.com/article/2020/11/theological-theology Traduzido com permissão. Fonte: “Theological Theology”

Original: Teologia teológica. © The Pilgrim. Website: thepilgrim.com.br. Todos os direitos reservados. Tradução: Breno Seabra. Revisão: Guilherme Cordeiro Pires.

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O que eu faço com a minha ansiedade? Deixe Deus usá-la! (Pierce Taylor Hibbs)

Eu não consigo contar quantos gurus de ansiedade e livros de autoajuda assumem que você precisa se livrar da ansiedade. É uma resposta natural, então não culpo essas pessoas. Na verdade, eu mesmo pensava assim. Mas agora eu me oponho a isso o máximo que consigo. Por quê? Porque o que você faz com a sua ansiedade é crítico. Mais especificamente, o que você faz com a sua ansiedade enquanto cristão é crítico. Para os cristãos, a vida não se trata de cortar cada grama de sofrimento de sua experiência cotidiana. A vida não gira em torno do conforto, mas sim da conformidade (Rm 8.29). Não se trata de cair na tranquilidade, mas de crescer em ardor para ter comunhão com o Deus que fala.

Em breve publicarei o meu livro Abatidos, mas não destruídos: um guia para cristãos ansiosos. Um dos temas nesse livro é a minha resposta constante a seguinte questão: o que você faz com a sua ansiedade? A resposta é simples: deixe Deus usá-la para lhe moldar.

Agora, eu sei que essa resposta parece um pouco ambígua. Como exatamente Deus nos “molda” por meio da ansiedade? E por que iríamos querer isso, afinal? Deixe-me responder uma questão de cada vez.

Como Deus nos molda por meio da ansiedade?

O moldar é um processo pessoal. Deus — as três pessoas divinas da mesma essência — é quem molda. Ele usa qualquer material: metal, madeira, pedra ou barro. Ele parece preferir o último. Podemos ser duros nas suas mãos — nossos espíritos são rochosos, secos e rígidos —, mas isso não significa que ele não vá nos moldar. Ele tem as suas ferramentas — a sua palavra, nossas orações e louvor, nossa experIência, nossos relacionamentos. Ele usa tudo. O nosso Pai é um oleiro (Jr 18.6). As nossas mãos estão molhadas com graça, sempre ostentando o poder da mudança, o poder da sua boa vontade. O seu Filho é o modelo, o padrão segundo o qual fomos feitos, o padrão ao qual devemos nos conformar (Rm 8.29). E o Espírito? Ele é a pressão e o tornear que emerge das pontas dos dedos de nosso Pai, tornando-nos mais “Filiais”

Isso parece normal para muitos, mas o que significa ser moldado segundo o Filho de Deus? Essa é a real questão, não é? Sem uma resposta concreta, provavelmente vamos ignorar todo o processo de moldar, já que não podemos vê-lo. Porém, tudo que precisamos fazer é analisar a vida de Cristo aos poucos a partir das Escrituras. A forma como Cristo interagia com Deus, a sua palavra e outras pessoas — é assim que nós devemos interagir. Aqui estão algumas questões de aplicação feitas a partir do Evangelho de Lucas (somente os primeiros 6 capítulos!). Sempre que você responder “sim” a uma dessas perguntas qualquer dia, então você está no processo de se conformar à imagem de Cristo pelo poder do Espírito de Deus. Não importa se você pretendia realizar ou planejava realizar isso. É o que está acontecendo.

  • O seu coração pula de alegria quando pensa na proximidade de Cristo, como João Batista pulou no ventre materno ao ver Cristo se aproximando? (Lc 1.44)
  • Você se senta aos pés da palavra de Deus, fazendo perguntas e implorando por respostas? Você faz isso acima de qualquer outra coisa? (Lc 2.46)
  • Você estende a sua mão para a palavra de Deus antes de estender para pegar o café da manhã? (Lc 4.1-4)
  • Você segura a sua língua (mesmo dentro da sua cabeça) quando tentado a barganhar com Deus, tentando a sua graça e amor? (Lc 4.12)
  • Você tenta alcançar quem é marginalizado por um grupo maior de pessoas? (Lc 5.13)
  • Você dá uma segunda chance para as pessoas? (Lc 5.27)
  • A razão de outros excluírem, zombarem e escarnecerem de você é Cristo? (Lc 5.22)
  • Você dá a outra face a um punho cerrado, mesmo se for um punho feito de palavras? (Lc 6.29)
  • Você faz atos desinteressados por quem não gosta de você? (Lc 6.35)
  • Você deixa de julgar tendo em vista o quanto que você mesmo já foi julgado? (Lc 6.37)

O nosso moldar acontece de formas pequeninas, com decisões instantâneas, durante o trânsito matinal. A conformidade à imagem de Cristo nem sempre é um grande evento demonstrado no centro da sua vida. Frequentemente é nos cantos escuros, nos lugares silenciosos. Mas se você realmente quer saber o que está acontecendo, a única coisa que você pode fazer é ler a Escritura e notar cada movimento e palavra que vem das mãos e boca de Cristo. O padrão da nossa conformidade é sempre ele.

Quando eu disse que precisamos deixar a nossa ansiedade ser parte desse esforço de moldar, eu quero dizer que não podemos buscar toda oportunidade para eliminá-la. Você não aprende com o que não existe. Você não é moldado pelo que você corta da sua vida. Se você quer aprender e ser moldado pela sua ansiedade, você tem que deixar ela ficar. Você precisa se entregar. Você precisa abrir os dentes cerrados e dizer: “Tudo bem, Deus. Tudo bem. Por favor, usa isso. Ensina-me.” E é o que ele vai fazer. Toda vez.

Por que iríamos querer ser moldados?

Mas por que você gostaria de ser moldado em primeiro lugar? Por que não colocar a eliminação como nosso objetivo, agendar algumas visitas com um conselheiro, um psicólogo ou um pastor e se livrar disso? Por que não ir ao médico e acabar com os sintomas com alguns remédios? Essas ferramentas podem ser bons recursos para nós que batalhamos contra a ansiedade. E bons conselhos bíblicos do nosso pastor é mais que uma vantagem — é uma necessidade. Eu já experimentei todas essas ferramentas ao longo dos anos e ainda experimento algumas delas. Porém, mesmo com essas ferramentas, a eliminação da ansiedade nunca é o fim da história. Nós precisamos pensar sobre o objetivo de nossas experiências, inclusive a ansiedade. E não podemos trazer esse objetivo a superfície sem questionamentos. No fim do dia, podemos muitas vezes perguntar uma das duas coisas: (1) como que me livro disso? Ou (2) como posso ser moldado por isso?

E aqui está a difícil réplica: se você escolhe a primeira questão, então você só ficará mais ansioso quando a ansiedade não for embora. É um ciclo vicioso, não é? Talvez seja tão vicioso que … não seja o que Deus quer para nós. Deus quer que sejamos moldados, e não simplesmente deixados tranquilos no nosso canto.

Em outras palavras, se Deus quer que sejamos conformados à imagem do seu Filho, então ele não quer uma vida luxuosa para nós. Claro, ele ama nos abençoar, de modo que podemos contar com mais generosidade da parte dele que podemos imaginar. Porém, não podemos confundir as bênçãos de Deus com o chamado de Deus para nossas vidas. São duas coisas bem diferentes. As bênçãos são dadas; os chamados são exigidos. Deus nos dá bênçãos, mas ele nos chama a nos conformarmos à imagem do seu Filho.

Se você não gosta disso, eu entendo. Eu realmente entendo. Mas você não vai se satisfazer com outra abordagem. Eu sei disso não porque sou esperto ou porque tenho o dom da presciência divina. Não posso prever o futuro de ninguém. Mas posso ver o que Deus revelou sobre ele e sobre quem nós somos. E você também. Está tudo na palavra dele: o grande livro preto.

Você e eu nunca estaremos satisfeitos ou realizados se não formos conformados a Cristo. Por que não? Porque fomos feitos para ter comunhão com Deus. Fomos feitos assim. E a conformidade a Cristo é o caminho para essa realidade. É o único caminho.

Então mesmo se você não quiser realmente ser moldado à imagem de Cristo, você ainda irá “querer” isso no final das contas. É o seu desejo mais elevado e mais profundo. Você e eu fomos feitos para comunhão com Pai, Filho e Espírito Santo.

Não desperdice a sua ansiedade

Eu acho que tudo que estou dizendo é: “não desperdice a sua ansiedade”. E desperdiçá-la pode ser fazer todo esforço para se livrar dela. Ela não entrou na sua vida porque Deus perdeu o controle do mundo. Ela está aqui justamente porque ele não pode deixar de controlar. Ele está esperando e pronto para usá-la na sua vida … se você deixar. Você só precisa orar para que o próprio Deus te dê a vontade de se render a ele para que ele possa usá-la. Essa é a razão de tudo que experimentamos na vida, afinal.


O livro Abatidos, mas não destruídos será um lançamento original Pilgrim. Em breve!

Por: Pierce Taylor Hibbs. © Pierce Taylor Hibbs, 2019. Website: http://piercetaylorhibbs.com/what-do-you-do-with-your-anxiety-let-god-use-it/. Traduzido com permissão. Fonte: “What Do You Do with Your Anxiety? Let God Use It.”

Original: “O que eu faço com a minha ansiedade?” Deixe Deus usá-la! © The Pilgrim. Website: thepilgrim.com.br. Todos os direitos reservados. Tradução: Guilherme Cordeiro. Revisão: Arthur Guanaes.

Imagem:  Unsplash

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Santidade (Rowan Williams)

Se você procurar por “santo” em algum índice remissivo da Bíblia, você lerá partes do Antigo Testamento com uma impressão muito, muito forte de que ser santo tem a ver com ser separado, com estar em território perigoso. Quando Moisés se encontra com Deus na sarça ardente, Deus diz “tira as tuas sandálias. Esta é terra santa.” E quando o povo de Israel vem ao monte Sinai, e ele meio que está reluzindo com relâmpagos e tudo o mais, ele é santo e é muito, muito perigoso, como aquelas torres de energia que tem escrito “Perigo de morte”. Isso é santo no Antigo Testamento, e isso realmente sugere que o que se deve fazer com os lugares e pessoas santas é sair correndo.

Por outro lado, se você vai para o Novo Testamento, à primeira vista, parece haver um contraste. Para começar, Paulo, quando escreve a seus interlocutores, geralmente se refere a eles como: aos santos. E isso pode nos dar um bom lugar para começar, porque não parece, pelo jeito que Paulo usa a palavra em suas cartas, que “santo” significa algo perigoso e estranho, como era no Antigo Testamento. Então, você pode começar a ficar confuso. Talvez uma das passagens mais cruciais para ordenar nosso pensamento sobre isso esteja no Evangelho segundo João. Jesus diz a seus amigos na Última Ceia que ele está prestes a se consagrar, está prestes a se tornar santo, e que ele quer que seus discípulos sejam santos da mesma forma. E isso significa que Jesus está se tornando santo ao dar um passo em direção à sua morte, em direção à sua cruz. E o Novo Testamento deixa bem claro nas passagens que a crucificação é a coisa mais supremamente santa que poderia acontecer, ainda que seja encontrada fora de lugares convencionalmente santos. É uma máquina de execução num lixão fora das muralhas da cidade. A santidade não parece estar separada e protegida ali. A santidade no Novo Testamento é Jesus entrando no meio da bagunça e do sofrimento da natureza humana. Ser santo é estar absolutamente envolvido, não absolutamente separado.

Por isso não há contraste, nenhuma tensão real, entre a santidade e o envolvimento com o mundo. Pelo contrário, o mais santo, que é Jesus, é o mais envolvido no centro da experiência humana. E se realmente entendemos errado tudo isso se pensamos que a santidade deve ser protegida da nossa própria humanidade e da humanidade dos outros: é exatamente o contrário. Agora, isso me faz pensar sobre algo que alguém me disse muitos anos atrás sobre a diferença de ser santo e de ser bom, ou mesmo de ser santarrão. Tem uma ótima frase em uma das novelas de Evelyn Waugh, quando um personagem diz sobre o caráter de outro: “Ela era uma santinha, só não era santa”, querendo dizer que ela era muito, muito irritante. Santinha, bem estrita, bem devota, bem fervorosa, mas de alguma forma o efeito que ela tem nas pessoas à sua volta era fazer com que as pessoas se sentissem piores. As pessoas se sentiam culpadas, inadequadas, e penso que é isso que experimentamos quando encontramos pessoas que pensamos ser boas — elas fazem a gente se sentir pior. Eu tinha um amigo da Irlanda do Norte que comentou sobre um colega nosso: “Ele é tão legal que dá vontade de chutar ele.” Penso que isso diz tudo sobre como a bondade, ou a santarrice, nos faz sentir. Porém, como esse amigo me disse anos atrás, as pessoas santas na verdade fazem você se sentir melhor do que você é. As pessoas boas fazer você se sentir pior, porque a bondade sempre atua como se fosse um exame competitivo. Alguns estão marcando muitos pontos, alguns estão perigando cair, outros estão já na zona de rebaixamento. Mas a pessoa santa, de alguma forma, engrandece o mundo, faz você se sentir mais você, ela te abre e te afirma. Não é uma competição, como se dissesse: “eu tenho algo que você não tem.” O santo diz: “Tem espaço o suficiente no mundo para você e eu ocuparmos juntos.”

Quando penso em pessoas em minha própria vida que considero santas, pessoas que realmente fizeram um impacto, penso que é isso que vem mais profundamente de todas elas. Essas pessoas me fizeram sentir melhor, e não pior, sobre mim mesmo. Agora, você pode entender errado — não são pessoas que me fizeram sentir complacente comigo mesmo, mas pessoas que me fizeram sentir que está tudo certo, que podemos começar por aqui. O mundo é grande o suficiente e Deus é grande o suficiente. A real santidade de alguma forma traz à minha vida esse sentido de abrir-se para a oportunidade, de mudar as coisas. Não é sobre eu me sentir inadequado. Pelo contrário, de alguma forma eu me sinto mais eu mesmo. Eu tenho uma teoria que comecei a elaborar das primeiras vezes que me encontrei com o Arcebispo Desmond Tutu; uma teoria que há dois tipos de egoístas no mundo. Há egoístas que estão tão apaixonados por si mesmos que não encontram lugar para ninguém mais, e há egoístas que estão tão apaixonados por si mesmos que ficam bem felizes que todo mundo também sinta o mesmo por ele. E Desmond, um grande extrovertido, ama ser Desmond Tutu. Não há dúvida quanto a isso. E o efeito disso não me faz sentir meio paralisado ou diminuído. Me faz pensar que, bem, talvez na verdade eu poderia amar Rowan Williams como o Desmond ama o Desmond Tutu. 

Este é um aspecto da santidade e é por isso que na igreja católica romana um dos critérios que é usado para tornar alguém santo é que tal pessoa produziu alegria àqueles a seu redor. E um dos argumentos contra a canonização do cardeal Newman, o que está em processo agora na igreja católica romana [na época da escrita original do texto], é que ele na verdade estava bastante triste a maior parte do tempo. Agora, eu não poderia comentar a esse respeito, mas é uma discussão importante. Uma pessoa que queremos chamar de santa, tem o efeito de iluminar e engrandecer as coisas? Essa talvez seja a coisa mais importante sobre a vida santa, e alguém que conheceu o cardeal Newman escreveu em uma de suas cartas — há uns 120 anos — sobre o contraste entre Newman, devoto, espiritual, e erudito, mas você saía de sua presença se sentindo um tanto mal — em contraste com um sacerdote que ele conhecera em Paris, um sacerdote que era, em muitas maneiras, uma figura um tanto complexa, um homem um tanto depressivo que tivera diversas crises, que tinha sofrido bastante fisicamente e gasto boa parte de seu tempo num sofá numa sala escura com um pano sobre seus olhos por causa de sua enxaqueca. E quando você passava dez minutos com ele, você saía se sentindo maravilhado, e, diz o escritor em sua carta, “é isso que eu chamo de santidade.” De alguém que tinha passado por tudo aqui e simplesmente reluza, e você saia de lá se sentindo melhor. 

E isto foi posto muito bem por alguém que citou um grande sacerdote anglicano de mais ou menos cinquenta anos atrás. Ela descreveu seu primeiro encontro com esse sacerdote e disse que à medida que ela falava com ele, a paisagem mudava. Havia uma nova luz. Para mim essa sempre me marcou como uma brilhante definição do como é conhecer uma pessoa santa. A paisagem muda — há uma nova luz sobre ela. Então uma pessoa santa faz você ver coisas em si mesmo e à sua volta como você não tinha visto antes. Ou seja, aumenta-se o mundo ao invés de o diminuir, e é por isso que dizemos que Jesus é o mais santo, porque ele, mais que todos, muda a paisagem e lança uma nova luz sobre tudo. Você não pode olhar para nada da mesma forma depois. Como disse Paulo na segunda carta aos Coríntios, quando estamos em Jesus Cristo há uma nova criação, nada parece igual.

Então, estamos começando a pintar a imagem, espero, da santidade. Ela não é uma forma especial de ser bom. Porque, de alguma maneira, não é sobre competir para ver quão bons somos. É sobre aumentar o mundo, sobre se envolver no mundo. Uma pessoa santa é alguém que não tem medo de estar nos pontos difíceis no centro do que significa ser humano. E uma pessoa santa é alguém que no meio de tudo isso faz você ver uma pessoa nova. E penso que isso tudo, no fim das contas, se resume a algo terrivelmente simples e terrivelmente difícil: as pessoas santas, por mais que gostem de serem elas mesmas, simplesmente não estão obcessivamente interessadas em si mesmas. Elas permitem que você veja o mundo, não elas. Elas permitem que você veja Deus, não elas. Você não sai pensando “Olha só, aí está um sujeito memorável”, mas sim “Aí está um mundo memorável e um Deus memorável”, e até “Que pessoa memorável que eu também sou.” E isso é transformador. 

Penso que esta é a prova de fogo para identificar onde está a santidade. E a coisa horrivelmente difícil, é claro, é que você não pode fazer isso só tentando, porque se você sentar e dizer “Tudo bem, vou parar completamente de ser egoísta e autoconsciente; a cada 20 minutos vou checar se estou sendo autoconsciente e egoísta; a cada 20 minutos vou pensar… ei, espera aí”, e esse é o problema — esse é o pulo do gato da santidade cristã: ela acontece quando você não está pensando sobre você, o que deve ser a explicação de por que não há livros de autoajuda sobre santidade. Há livros de autoajuda sobre emagrecer, há livros de autoajuda sobre ser um líder efetivo, há livros de autoajuda sobre ser um bom cozinheiro, mas não há livros de autoajuda sobre como ser um santo. Eu ficaria muito suspeito se visse um, porque a santidade se dá pela extraordinariedade do Deus em que você está interessado, e isso que te capacita a refletir para outras pessoas. 

Então aqui está o pulo do gato: se você quer ser santo, pare de pensar nisso. Se você quer ser santo, olhe para Deus. Se você quer ser santo, desfrute do mundo de Deus, entre nele o máximo que puder em amor e serviço. E quem sabe um dia alguém dirá de você: “Sabe, quando eu o conheci, a paisagem parecia diferente.” E a parte do “quem sabe” é importante — não podemos planejar isso, não podemos nos organizar para isso. E eu penso que o que vale para indivíduos vale para a própria igreja. Com frequência as pessoas vêm com esses planos maravilhosos para fazer da igreja um lugar mais santo, o que geralmente significa garantir que algumas pessoas não entrem, ou que algumas que estão dentro saiam. Uma igreja santa é uma igreja cheia de pessoas que são mais ou menos como eu no meu melhor, e quando a igreja tenta se tornar santa desse jeito, ela quase sempre acaba numa grande bagunça. Exclusiva, ansiosa e autoconsciente.  Estou realmente sendo consciente o suficiente, pura o suficiente?  Eles estão sendo puros o suficiente? Claro que não! Enquanto a igreja santa é uma igreja tomada pelo fervor da extraordinariedade de Deus, uma igreja que quer falar da beleza e do esplendor de Deus, e quer mostrar o amor abnegado, que se esquece de si, de Deus ao estar envolvida no centro da humanidade, ao estar onde as pessoas são mais humanas.

Por isso, ser santo certamente é não ser egoísta — não no sentido de ter uma política sobre como não se tornar egoísta —, mas ao ser tão interessado por Deus e pelo mundo que você realmente não tem muito tempo para gastar consigo mesmo. E somos chamados a isso, e somos todos, no Espírito de Jesus, capacitados para isso, porque o Espírito de Jesus é o Espírito que constantemente renova em nós a habilidade de orar com integridade e convicção; orar a Deus intimamente, como a um pai. Em 2 Coríntios de novo, “Mas o Senhor, que é o Espírito, desvela nossas faces e mostra a glória que está ao redor”. O Espírito está descascando as camadas de ilusão e autojustificação para que possamos ver as coisas como realmente são. E gosto de pensar ocasionalmente também que uma pessoa realmente santa é como um grande artista ou músico, ou poeta. Eles nos fazem ver o que, de outra forma, íamos passar batido: a dimensão e profundidade do mundo de uma maneira que, de outro modo, não observaríamos. Nem todo artista é santo, de forma alguma. Alguns deles são uns bestas egoístas — artistas, poetas e outros. Mas de alguma maneira em seu trabalho eles esquecem de si mesmos o suficiente para que algo tome vida, algo venha à tona. E o santo é alguém que decidiu fazer de sua vida esse tipo de obra de arte — de deixar algo vir à tona, de deixar algo maior aparecer, uma nova luz e uma nova paisagem.

Começamos, então, no caminho da santidade, por duas coisas muito simples — simples aqui significando difícil: olhar —para Jesus, para como Deus é, para o evangelho, para tudo que isso significa — e explorar — onde estão os seres humanos, quais são suas necessidades, e o que eles foram chamados a fazer, como você pode ajudá-los a se tornar mais humanos. Essas duas coisas, olhar e explorar o mundo humano à sua volta, são as únicas coisas que poderiam servir de base para um conselho de autoajuda sobre ser santo, o que, como eu disse, não funciona. 

Mas comecemos aqui, e quem sabe? Isso, penso eu, nos leva um pouco mais longe em direção ao que penso ser a real ideia bíblica de santidade. A santidade de Jesus, que vai ao centro do sofrimento e tormento da humanidade, e ao mesmo tempo muda a paisagem com a nova criação. E só para eu não deixar vocês com a impressão de que o Antigo e o Novo Testamento dizem coisas completamente diferentes, suponho que no Antigo Testamento há o senso de perigo de imaginar como o mundo pode realmente ser se Deus estiver por perto. Uma das imagens mais poderosas do Antigo Testamento é quando Salomão dedica o novo templo e ora para que a presença do Senhor o encha, e nos é dito que a presença de Deus é como uma densa e sufocante nuvem que desce sobre o templo, de forma que os sacerdotes do templo não podem continuar ali dentro. Que imagem! Quando Salomão finaliza esse grande culto de dedicação do templo,  desce a glória de Deus e os sacerdotes saem correndo do templo porque a glória de Deus é tamanha que eles não conseguem nem respirar. Agora, o perigo tem a ver com o quão diferente isso é, o quanto nós temos de mudar para poder lidar com isso. Penso que nesse sentido podemos ver a conexão, e é por isso que as pessoas têm falado sobre a glória de Deus na face de Jesus Cristo como sendo de alguns pontos de vista uma realidade amedrontadora, por causa do quanto que teríamos de mudar, do quanto que teríamos de nos modificar para podermos viver com ele. Na igreja ortodoxa oriental, na festa da transfiguração, uma das orações é uma ação de graças a Jesus, por ter revelado sua glória aos apóstolos no santo monte somente na quantidade que eles poderiam suportar. E por mais que eles pudessem suportar, ainda é um caminho longo, pois a santidade que em um sentido nos dá vida e aumenta nossa alegria, também é aterrorizante, e por isso precisa de conversão.


Adaptação de discurso proferido pelo Dr. Rowan Williams em 2012 numa palestra para jovens em Christchurch, Nova Zelândia.

Por: Rowan Williams. © Rowan Williams, 2012. Website: http://aoc2013.brix.fatbeehive.com/articles.php/2689/archbishop-reflects-on-holiness-with-young-adults-in-christchurch. Traduzido com permissão. Fonte: “Archbishop reflects on holiness with young adults in Christchurch”

Original: Santidade. © The Pilgrim. Website: thepilgrim.com.br. Todos os direitos reservados. Tradução: Arthur Guanaes. Revisão: Guilherme Cordeiro Pires.

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