Princípios de gestão de tempo na palavra de Deus (Jordan Raynor)

Ouçam agora, vocês que dizem: “Hoje ou amanhã iremos para esta ou aquela cidade, passaremos um ano ali, faremos negócios e ganharemos dinheiro”. Vocês nem sabem o que acontecerá amanhã! Que é a sua vida? Vocês são como a neblina que aparece por um pouco de tempo e depois se dissipa. (Tiago 4.13-14, NVI)

Muita gente me pede conselhos sobre gestão de tempo. Não é porque sou “perfeito” neste ponto, mas porque já tive que praticar bastante equilibrar diferentes atividades produtivas na minha vida. Além de atuar, ao escrever este texto, como CEO de uma startup de tecnologia com investimento externo (Threshold 360), também sou um escritor, dando o meu melhor para ajudar meus irmãos cristãos conectar o evangelho ao seu trabalho. Em casa, sou marido e também pai de duas garotas maravilhosas com menos de três anos. Dizer que a minha vida está uma loucura agora seria um pequeno eufemismo. Mas, apenas pela graça de Deus, estou “gerindo” tudo e ainda consigo ter 7 horas de sono toda noite, de alguma forma.

Gerir o meu tempo bem é uma obsessão minha há tempo. Por quê? Porque a Bíblia me lembra vez após vez de que as nossas vidas são “como a neblina que aparece por um pouco de tempo e depois se dissipa” (Tiago 4.14). Deus ainda tem você e eu nesta terra por uma razão: amá-lo, amar ao próximo e fazer discípulos de Jesus. Somos um povo com propósito. Não fomos criados para simplesmente sentar e esperar a eternidade. Fomos chamados para agir no mundo, criar cultura, ser produtivos ao servir as necessidades ao nosso redor por meio de nossas vidas e de nosso trabalho. Em resumo, Deus nos chamou para nos juntarmos a ele na missão de redimir o mundo.

Tendo em vista a magnitude dessa missão e o tempo cada vez mais escasso, devemos ser as pessoas mais intencionais do planeta, vivendo com um senso de urgência saudável, sempre procurando fazer o melhor com o precioso tempo que nos foi dado. Nos próximos parágrafos, vamos explorar juntos a Palavra de Deus para descobrir alguns princípios de gestão de tempo que vem diretamente da Escritura. Mas também quero lhe advertir de que este processo não é fácil. Se fosse, não estaríamos lidando perpetuamente com este problema. No final das contas, a gestão de tempo que dá certo resulta de diligência e disciplina (Provérbios 21.5). Como veremos, ser disciplinado com o tempo nos libertará para fazer uma contribuição maior ao mundo em nome de nosso Senhor e Salvador.

Colocando limites no seu tempo

“Mas Jesus retirava-se para lugares solitários e orava” (Lucas 5.16, NVI)

Por todos os evangelhos, Mateus, Marcos, Lucas e João frequentemente observam quanto tempo Jesus passou sozinho — longe dos discípulos, das multidões e da hiperatividade de seu ministério. A menção frequente desse comportamento sugere que Jesus era um mestre em colocar limites no seu tempo. Da mesma forma, se é para gerirmos nosso tempo com eficiência e fazer nossa maior contribuição ao mundo, também precisamos estabelecer limites claros em nossas agendas.

Como Jesus, isso deve começar ao dedicar regularmente tempo para oração (Marcos 1.35) e estudo da Palavra de Deus. A maior parte de nós está acostumada com a ideia de dar dízimo de nossa renda. Mas e o dízimo de nosso tempo? Se nós enchemos nossas agendas com demandas de nosso trabalho e de nosso lar e então tentamos encontrar tempo para gastar em oração e estudo da Palavra de Deus, estamos nos preparando para o fracasso. Se você não faz isso atualmente, separe tempo esta semana para determinar quanto tempo você ofertará exclusivamente a oração e estudo da Escritura diariamente.

Depois de colocar limites claros em sua agenda para disciplinas espirituais, pode ser útil assumir uma abordagem semelhante para planejar o seu tempo em casa e no trabalho. Para mim, uma rotina regular me ajuda a manter meu “equilíbrio entre vida e trabalho”. Quase todos os dias, eu vou para o escritório às 4h45 da manhã e chego em casa às 16h da tarde. Essa agenda previsível me dá limites claros em que me forço a me concentrar em meu trabalho. O meu trabalho sempre termina quando chega esse horário? Claro que não. Mas isso ainda seria verdade mesmo que eu trabalhasse até 17h, 18h ou até 22h. Não existe isso de terminar o trabalho a tempo. Colocar uma fronteira na minha agenda para o fim do meu dia no escritório assegura que tenho bastante tempo passar com minha esposa, meus filhos e minha igreja (que também é minha família).

Se você não separa tempo para colocar limites em sua agenda, outras pessoas colocarão. Se você ainda não fez isso, siga a orientação de Jesus e coloque limites claros sobre como você vai gastar o seu tempo. Esse é o primeiro passo para assumir o controle de seu horário e gerir bem o seu tempo.

Como acompanhar seus compromissos

“Seja o seu ‘sim’, ‘sim’, e o seu ‘não’, ‘não’; o que passar disso vem do Maligno.” (Mateus 5.37, NVI)

Jesus ordenou que nosso “sim” fosse “sim”, mas cada vez mais comum é que o “sim” de um cristão na verdade signifique um “não”. Todas as vezes que deixamos de cumprir um compromisso, nos atrasamos, não completamos um projeto a tempo ou deixamos de fazer o que dissemos que iríamos fazer por mensagem de “vou retornar a sua chamada assim que possível”, estamos desobedecendo a ordem de Jesus de que nosso “sim” seja “sim”. Nas nossas vidas aceleradas, estamos dizendo “sim” mais do que nunca, enquanto cada vez mais frequentemente deixamos de cumprir nossa palavra. O fato de que este pecado parece tão inócuo deveria soar o alarme da igreja. Somos imagem de Deus, representantes de Jesus Cristo a um mundo perdido. Para refletir nosso Salvador bem, precisamos guardar a nossa palavra.

Mas como faremos isso na prática? Começa por ter um sistema para coletar efetivamente todos os nossos compromissos. Isso pode ser tão simples quanto um pedaço de papel ou tão complexo quanto um sistema digital de gestão de tarefas como o app OmniFocus (o meu favorito, pessoalmente). A ferramenta é bem menos importante que o processo. Se é para seguirmos a ordem de Jesus para que nosso “sim” seja “sim”, precisamos ter uma forma de acompanhar tudo a que dissemos “sim”. Parece bem senso comum, certo? Porque é! Porém, infelizmente, poucas pessoas fazem isso bem. A boa notícia é que se trata de um problema super simples de resolver.

Em algum momento nesta semana, separe meia hora para fazer uma “lavagem cerebral” de todo compromisso que você fez consigo mesmo, seus amigos, seu cônjuge, seus filhos, seus colegas, etc. Depois de sua lista estar completa, procure compromissos que você precisa renegociar ou rapidamente fechar a pendência. Por exemplo, talvez você prometeu a sua vó que você ligaria para ela semana passada e você ainda não ligou. Separe 5 minutos para ligar para a vovó e cumpra esse compromisso. Que seu “sim” seja “sim” mesmo se você se atrasar. Eu prometo que, depois de passar por este exercício e você saber que tudo está fora da sua cabeça, você sentirá imenso alívio e paz.

O livro de David Allen A arte de fazer acontecer é o melhor recurso que já encontrei  para acompanhar todos os seus compromissos. 

Discernindo o que é essencial

Caminhando Jesus e os seus discípulos, chegaram a um povoado onde certa mulher chamada Marta o recebeu em sua casa. Maria, sua irmã, ficou sentada aos pés do Senhor, ouvindo a sua palavra. Marta, porém, estava ocupada com muito serviço. E, aproximando-se dele, perguntou: “Senhor, não te importas que minha irmã tenha me deixado sozinha com o serviço? Dize-lhe que me ajude!” Respondeu o Senhor: “Marta! Marta! Você está preocupada e inquieta com muitas coisas; todavia apenas uma é necessária. Maria escolheu a boa parte, e esta não lhe será tirada” (Lucas 10.38-42, NVI)

Marta tem uma fama ruim devido a sermões sobre essa passagem em Lucas 10. Mas a verdade é que todos somos Marta de tempos em tempos, lutando para identificar quais tarefas são as mais essenciais em dado momento. Obviamente, alguém precisava fazer a janta e aposto que Jesus gostava muito da hospitalidade de Marta. Não é que cozinhar não fosse importante. Jesus apenas deixou claro que não era o mais essencial que Marta ou sua irmã Maria deveriam estar fazendo naquele momento. O que era mais essencial naquele momento era ser ensinado aos pés de Jesus.

Como vimos anteriormente, coletar nossos compromissos, nossas tarefas e nossos projetos é uma etapa essencial de uma gestão de tempo eficiente. Mas, assim que todos os seus compromissos forem coletados, é hora de determinar quais são os projetos e as tarefas mais essenciais na sua lista. Esse processos requer esclarecer o que você crê ser o chamado de Deus nesta estação da sua vida e no seu trabalho. Com essa concepção mais ampla e esses objetivos mais gerais em mente, pergunte a si mesmo: “O que é aquela tarefa que, depois de eu a fazer, deixará tudo mais fácil ou frutífero dentro deste projeto?” A resposta a essa questão é o seu foco mais essencial. Suspenda tudo que você puder até que essa tarefa se cumpra. Repita esse processo de novo e de novo.

Quando eu estava escrevendo o meu último livro, Chamados para criar, eu fiquei sobrecarregado com o número de tarefas que precisavam ser feitas para levar tal projeto ao mercado. Eu precisava contratar um agente literário, conquistar uma editora, fazer entrevistas, escrever 50.000 palavras, construir uma plataforma para publicidade do livro, etc. Mas, no começo do projeto, eu sabia que, se eu não conseguisse um agente, nada mais no projeto importaria. Ter um agente era a tarefa mais essencial para mim. Então eu suspendi todas as outras atividades do projeto até que eu achasse um agente para me representar.

A verdade é que, em qualquer momento, poucas tarefas e projetos são verdadeiramente essenciais. Aprenda o hábito de identificar as duas ou três tarefas mais essenciais a sua frente e foque nelas até que o projeto se complete.

Como fazer um orçamento para o seu tempo

“Qual de vocês, se quiser construir uma torre, primeiro não se assenta e calcula o preço, para ver se tem dinheiro suficiente para completá-la? Pois, se lançar o alicerce e não for capaz de terminá-la, todos os que a virem rirão dele, dizendo: ‘Este homem começou a construir e não foi capaz de terminar’.” (Lucas 14.28-30, NVI)

Não é segredo que, para ser bem-sucedido financeiramente, você precisa planejar onde você vai investir o seu dinheiro antes de ele surgir na sua conta bancária. Devemos aplicar a mesma abordagem disciplinada ao nosso tempo. Afinal, diferentemente de dinheiro, não podemos ganhar mais tempo, então devemos ter ainda mais vontade de fazer um orçamento de nossas horas de que nossos reais.

Se você seguiu a orientação de Jesus que exploramos anteriormente, você já deve ter limites claros esboçando quanto tempo você pode se dedicar a ser produtivo a cada dia. Com esses limites estabelecidos, os seus compromissos delineados e suas tarefas essenciais identificadas, é hora de entrar num modo de planejamento mais granular, determinado como você vai gastar cada hora do seu dia. Eu amo as palavras de Jesus em Lucas 14.28: “Qual de vocês, se quiser construir uma torre, primeiro não se assenta e calcula o preço, para ver se tem dinheiro suficiente para completá-la?” A forma que “calculamos o preço” de nossas atividades produtivas é ao fazer um orçamento de nosso tempo, assegurando que temos o “suficiente” para terminar as coisas com que nos comprometemos.

Então como isso acontece na prática? No meu caso, eu passo os últimos 30 minutos de todo dia de trabalho identificando as tarefas e os projetos mais essenciais que eu quero cumprir no dia seguinte e planejando como vou alocar meu tempo para cumprir essas coisas e todo o resto no meu calendário. Dessa forma, quando eu me sento na minha mesa na manhã seguinte, eu não preciso gastar minha preciosa energia mental analisando o que farei em seguida. As decisões foram feitas. Agora tudo que preciso fazer é executar.

Por todo o livro de Provérbios, Deus revela a sabedoria de planejar de forma conservadora como gastar nosso tempo e nosso dinheiro. Ao planejar seus dias, seja intencional sobre subestimar o que você pode fazer num período de 24 horas. A natureza humana tende a superestimar o que podemos realizar em determinado período de tempo. Simplesmente saber disso lhe auxiliará a fazer decisões mais sábias ao planejar o seu tempo. É bem melhor terminar o dia com um tempo livre sem expectativas do que não terminar o que você começou.

Lembre a advertência de Jesus em Lucas 14.29-30: “Este homem começou a construir e não foi capaz de terminar.” Não fazer o que dizemos que iríamos fazer estraga nosso testemunho a um mundo perdido. Planeje o seu tempo bem para garantir que você pode acabar o que você se propôs a começar. 

Quando Jesus disse “não”

“Logo que saíram da sinagoga, foram com Tiago e João à casa de Simão e André. A sogra de Simão estava de cama, com febre, e falaram a respeito dela a Jesus. Então ele se aproximou dela, tomou-a pela mão e ajudou-a a levantar-se. A febre a deixou, e ela começou a servi-los. Ao anoitecer, depois do pôr do sol, o povo levou a Jesus todos os doentes e os endemoninhados. Toda a cidade se reuniu à porta da casa, e Jesus curou muitos que sofriam de várias doenças. Também expulsou muitos demônios; não permitia, porém, que estes falassem, porque sabiam quem ele era. De madrugada, quando ainda estava escuro, Jesus levantou-se, saiu de casa e foi para um lugar deserto, onde ficou orando. Simão e seus companheiros foram procurá-lo e, ao encontrá-lo, disseram: “Todos estão te procurando!” Jesus respondeu: “Vamos para outro lugar, para os povoados vizinhos, para que também lá eu pregue. Foi para isso que eu vim”.” (Marcos 1.29-38, NVI)

Quando Marcos começa seu relato do ministério de Jesus, ele retrata o Salvador numa sequência rápida de curas, expulsão de demônios de um homem na sinagoga e a cura da sogra de Pedro na sua casa em Cafarnaum. Naquela mesma noite, “o povo levou a Jesus todos os doentes e os endemoninhados. Toda a cidade se reuniu à porta da casa, e Jesus curou muitos que sofriam de várias doenças.”

Não é surpreendente que, na próxima manhã, os discípulos corram para Jesus e digam: “Todos estão te procurando!” Claramente a cidade estava cheia de rumores sobre os poderes miraculosos de Jesus para curar e queria repetir a dose no dia seguinte. Mas Jesus disse “não”. No que provavelmente foi um choque para seus discípulos, Jesus disse: “Vamos para outro lugar, para os povoados vizinhos, para que também lá eu pregue. Foi para isso que eu vim.”

Essa é a primeira, mas certamente não a última vez que ouvimos Jesus falar a palavra “não” nos evangelhos. Por que Jesus disse “não”? Obviamente ele tinha o poder de curar mais pessoas. Obviamente ele deseja aliviar a dor nas vidas dessas pessoas. Mas, embora Jesus quisesse curar mais pessoas, ele sabia que seu tempo aqui era limitado para cumprir o seu propósito. Jesus não veio à terra apenas para curar e revelar sua identidade. Ele veio para pregar sobre o evangelho na preparação para a Paixão que ele sofreria na cruz. Jesus foi claríssimo sobre o seu propósito e isso o levou a dizer “não” para coisas boas a fim de focar na coisa mais essencial que ele veio à terra para fazer.

Se Jesus não podia dizer “sim” para tudo, nem podemos nós. Você e eu temos tempo e recursos limitados. Para aproveitar ao máximo o tempo que nos foi encarregado, é crítico que sejamos super claros sobre o que cremos que Deus nos chamou para fazer e tenhamos o hábito de dizer não para as oportunidades — até as melhores — que nos distraem de nossa missão essencial.

Lembre-se, você está vivo por um propósito! Oro para que as Escrituras que analisamos até aqui nos desafiem a sermos sábios sobre como gastamos o tempo que nos resta nesta terra, usando nossas horas finais para amar Deus, amar outras pessoas e fazer discípulos de Jesus Cristo por meio de nossas vidas e nossa obra.


Por: Jordan Raynor. Website: https://jordanraynor.com/twbw/#time Jordan Raynor, 2021. Traduzido com permissão. Fonte: Time management principles from God’s Word.

Original: Princípios de gestão de tempo na palavra de Deus. © The Pilgrim. Website:  thepilgrim.com.br. Todos os direitos reservados. Tradução: Guilherme Cordeiro Pires.

O ponto de vista deste texto é de responsabilidade de seu(s) autor(es) e colaboradores direito, não refletindo necessariamente a posição da Pilgrim ou de sua equipe de profissionais.

Imagem de Unsplash

Respondendo ao fracasso (Jordan Raynor)

“Levem os fardos pesados uns dos outros e, assim, cumpram a lei de Cristo” Gálatas 6.2, NVI.

Ao contrário do que alguns “gurus espirituais de autoajuda” pregam, o Deus da Bíblia não nos promete sucesso. Antes de qualquer coisa, a Escritura deixa claro que os cristãos têm plena certeza de que haverá adversidades e fracasso. De Paulo a Pedro, de José a Jó, a Bíblia está cheia de histórias de homens e mulheres que experimentaram grandes fracassos tanto pessoal quanto profissionalmente. Ao longo de todas essas histórias, a Escritura nos revela um Deus que não está preocupado com nosso “sucesso”, mas está bem preocupado com nossa santificação e como nossos fracassos podem ser usados para nos moldar à sua imagem.

Hoje, mais e mais cristãos estão abraçando o chamado para criar, assumindo riscos para trazer à luz novas empresas, ministérios, arte, livros, músicas e outras formas de cultura para servir a outras pessoas. Nunca foi tão fácil seguir o chamado de Deus para criar! Mas precisamos lembrar que arriscar faz parte da natureza de criar coisas novas. Fracasso e adversidade — ao menos em algum nível — são inevitáveis para o cristão que está trabalhando para criar coisas que não existiram antes. Sabendo disso, como nós cristãos podemos responder ao fracasso de uma maneira que pregue o evangelho para nós e para outras pessoas?

Tudo começa com transparência — um princípio que está severamente em falta na igreja hoje. Vamos para a igreja nas manhãs de domingo, colocamos um sorriso no rosto e oramos para que não tenhamos que conversar sobre nada muito profundo. “E aí, tudo bem? Amei aquela foto que você postou no Instagram ontem à noite! Você viu o jogo ontem?” Ao invés de tratar os outros membros da igreja como irmãos e irmãs em Cristo, nossas conversas não são mais profundas do que o garçom do nosso restaurante favorito. Para muitos de nós, a igreja se tornou um clube social para mostrar nossa melhor versão ao invés de uma comunidade que se reúne para compartilhar honestamente nossas lutas e fracassos, seguros na graça de nossos irmãos e irmãs e, afinal, Deus.

Por que não somos mais vulneráveis? Porque, no final das contas, não estamos absorvendo plenamente o evangelho de Jesus Cristo para nossa salvação funcional cotidiana. Claro, entendemos que “pela graça [fomos] salvos mediante a fé”, confiando em Jesus para ter nosso ingresso para o céu. Mas vivemos como se ainda tivéssemos algo para provar, alguém para impressionar, ou algo que ainda precisamos fazer para demonstrar nosso valor. Tratamos o evangelho como um “extintor de incêndio”, muito bom para nos manter longe do inferno, mas nada mais que isso. Na realidade, o evangelho é a única coisa que nos permite encarar lutas e fracassos com a verdadeira paz. Nas palavras de Timothy Keller, “os cristãos deveriam ser conhecidos por sua calma e compostura diante de dificuldades e fracassos. Isso pode ser a maior evidência de uma pessoa estar extraindo dos recursos do evangelho no desenvolvimento da sua identidade pessoal.”

Quando somos transparentes sobre nossos fracassos, estamos pregando um sermão para nós e para o mundo que diz que nossa identidade se baseia em Cristo somente. Não perca essa oportunidade para deixar Deus usar o seu fracasso para a glória dele e o bem do seu próximo!

Esperança em tempos de fracassos

“Sabemos que Deus age em todas as coisas para o bem daqueles que o amam, dos que foram chamados de acordo com o seu propósito” Romanos 8.28, NVI.

Na fervilhante Chicago da década de 1860, vivia uma jovem família cristã de seis pessoas, cujo patriarca era um importante advogado e investidor. Tudo estava bem com esse jovem homem e sua família até o Grande Incêndio de Chicago destruir a maior parte de seu patrimônio. A perda foi significativa, mas foi irrelevante quando comparada à tragédia que esse mesmo homem experimentaria apenas dois anos depois quando sua esposa e suas filhas estiveram num naufrágio de uma viagem entre Nova York e a Inglaterra. Todas as quatro filhas morreram no acidente. Ao chegar na Inglaterra, a mãe mandou uma mensagem por telégrafo para seu marido em Chicago. “Só eu salva”, disse ela.

O marido deixou Chicago imediatamente, navegando para Inglaterra para encontrar sua esposa enlutada. Não sabemos muito sobre essa viagem pelo Atlântico, mas eu imagino que esse homem passou seus dias sozinho, lamentando sua perda e questionando seu Deus. Eu posso vê-lo encarando a janela para o mar, lendo o relato bíblico sobre Jó, um homem como ele que foi abençoado com muito, somente para ver tudo tirado dele num piscar de olhos. Não sabemos muito do que aconteceu naquele navio, mas sabemos disto: quando o navio cruzou o local em que as filhas daquele homem estavam descansando em paz, Horatio Spaffor escreveu estas palavras:

Se paz a mais doce me deres gozar,

Se dor a mais forte sofrer,

Oh! Seja o que for, tu me fazes saber

Que feliz com Jesus sempre sou!

Spafford tinha uma esperança que não se baseava nele, em sua capacidade de perseverar em meio ao sofrimento, ou nem mesmo no fato de que a sua esposa miraculosamente havia sobrevivido o acidente e estava lhe esperando cruzar o mar. Não, como seu hino clássico nos mostra, a esperança de Spafford esava baseada em algo mais profundo: Jesus Cristo e sua obra na cruz. Como ele escreveu na segunda estrofe:

Embora me assalte o cruel Satanás

E ataque com vis tentações;

Oh! Certo eu estou, apesar de aflições,

Que feliz eu serei com Jesus!

Ao navegar pelo oceano lamentando a perda de suas filhas, Spafford estava escrevendo sobre a cruz. Por quê? Porque a sua esperança estava baseada num Deus que entendia a sua dor, um Deus que viu seu próprio Filho inocente morrer na cruz e usou esse evento para a sua glória e nosso bem eterno.

As provações que você e eu enfrentamos pessoal e profissionalmente certamente empalidecem em comparação com a de Spafford. Mas a nossa fonte de esperança é a mesma. Se você perder o seu emprego, se você se atrasar na entrega de seu último produto, se você se vir forçado a demitir um funcionário, ou mesmo se o seu negócio completamente falir, você pode olhar para cruz, como Spafford fez, e dizer: “sou feliz, sou feliz com Jesus.” Romanos 8.28 nos lembra de que: “Sabemos que Deus age em todas as coisas para o bem daqueles que o amam, dos que foram chamados de acordo com o seu propósito.” Ao continuarmos a falar sobre assumir riscos para criar cultura, fracasso e adversidade são inevitáveis. Mas nós, como Spafford, temos a esperança de que Deus está fazendo tudo para a sua glória e nosso bem.

Os empreendedores mais ousados do planeta

“Todos vocês são filhos de Deus mediante a fé em Cristo Jesus, pois os que em Cristo foram batizados, de Cristo se revestiram” Gálatas 3.26-27, NVI.

Imediatamente antes de Jesus passar quarenta dias no deserto resistindo tentações incessantes pelo Inimigo, ele foi batizado no Rio Jordão. Os últimos dois versículos de Mateus 3 contam o evento: “Assim que Jesus foi batizado, saiu da água. Naquele momento, o céu se abriu, e ele viu o Espírito de Deus descendo como pomba e pousando sobre ele. Então uma voz dos céus disse: ‘Este é o meu Filho amado, de quem me agrado.’”

Logo no próximo versículo (Mateus 4.1), lemos: “Então Jesus foi levado pelo Espírito ao deserto, para ser tentado pelo Diabo.” O fato de esses eventos estarem juntos não é mera coincidência. Antes de Jesus iniciar seu ministério público com o que devem ter sido 40 dias agonizantes sozinho no deserto com Satanás, Deus o Pai fala audivelmente com Jesus, lembrando-o que ele é o Filho de Deus, que ele é amado e que o seu Pai “se agrada dele.”

Mesmo Jesus sendo divino, deve ter sido impressionante ouvir essas palavras sobre ele em público. Você e eu sabemos o resto da história. Jesus continua e ousadamente inicia seu ministério, resiste tentações, revela sua divindade e salva o mundo por meio de seu sacrifício na cruz.

Então o que esse relato tem a ver com a maneira que você e eu respondemos a adversidade e fracasso? Tudo! Gálatas 3.27 nos lembra de que “todos vocês são filhos de Deus mediante a fé em Cristo Jesus, pois os que em Cristo foram batizados, de Cristo se revestiram”. Paulo está nos apontando para o batismo de Jesus, dizendo que, por meio da nossa fé em Jesus, fomos simbolicamente unidos com Jesus em seu batismo. Por causa da obra de Cristo na cruz, podemos ouvir o Pai falando as mesmas palavras ditas a Jesus como sendo ditas para nós: “Este é o meu filho amado; de quem me agrado.”

Segure-se firme nessas palavras, não porque talvez você as perca, mas porque elas dão a você e a mim a mesma ousadia que Jesus exibiu quando ele saiu do Rio Jordão. Qualquer fracasso que você esteja experimentando, lembre que você é um filho ou uma filha do Rei. Você é amado. O Rei se agrada de você. As palavras de Deus são verdadeiras e imutáveis. Nenhuma quantidade de sucesso ou fracasso vai poder mudar quem ele declara que você é. Que isso lhe dê a ousadia de responder bem a fracassos, ser transparente sobre suas falhas por amor ao evangelho e ter esperança eterna porque você está “revestido de Cristo”.


Por: Jordan Raynor. Website: https://jordanraynor.com/category/responding-to-failure/© Jordan Raynor, 2021. Traduzido com permissão. Fonte: Responding to failure.

Original: Respondendo ao fracasso. © The Pilgrim. Website: thepilgrim.com.br. Todos os direitos reservados. Tradução: Guilherme Cordeiro Pires.

O ponto de vista deste texto é de responsabilidade de seu(s) autor(es) e colaboradores direito, não refletindo necessariamente a posição da Pilgrim ou de sua equipe de profissionais.

Imagem de Michael Dziedzic em Unsplash

Todo cristão é missionário em tempo integral

Cresci com medo de sermões sobre o tópico de missões. Não é porque eu não ame missões, na verdade, não posso em pensar em algo tão alucinante quanto compartilhar o nome de Jesus com um mundo perdido. Amo que 1Pedro 2.0 fala para anunciarmos “as grandezas” de nosso Deus, falando para outras pessoas sobre a obra miraculosa que Jesus fez em meu favor. Porém, há anos, toda vez que sabia que meu pastor pregaria sobre missões por estarmos entrando em mais uma “semana missionária”, eu me retorcia porque sabia que o sermão iria me deixar cheio de culpa porque eu não “iria” para “todas as nações” fazer discípulos de Jesus Cristo.

Nunca vivi fora dos Estados Unidos e nunca me vi numa vocação que tradicionalmente seria considerada “ministério em tempo integral”. Passei toda a minha carreira como um empreendedor na área de tecnologia e um escritor. Eu construí empresas e escrevi livros para sobreviver. E por meio desse trabalho — um trabalho que muitos na igreja podem chamar de “secular” — já vi o Senhor fazer coisas incríveis para alcançar os feridos com o evangelho.

É lamentável que, quando a maioria das igrejas fala sobre missão hoje, elas, na maioria das vezes, falam quase exclusivamente em termos de cristãos deixarem seus empregos e os locais em que Deus lhes chamou para irem para outra cultura como “missionários em tempo integral, apoiados por doações”. Odeio como tanta gente na igreja fala sobre missões, porque eu amo o evangelho de Jesus Cristo e estou cansado de ouvir — sutilmente e às vezes nem isso — que, porque você e eu gastamos mais de 40 horas semanais com nossas empresas, vamos para a escola, fazemos contas, criamos artes e levamos crianças para lá e para cá, não somos “missionários em tempo integral” comprometidos com fazer discípulos de Jesus Cristo por onde quer que formos.

Chamar um cristão de missionário em tempo integral é redundante. Nem precisa ser dito. Seja você um estudante, um empreendedor, um garçom, um médico, um zelador, um advogado, uma mãe ou um professor, você é missionário em tempo integral chamado para fazer discípulos por onde quer que você for nesta vida! A Palavra de Deus deixa claro que você e eu podemos ser obedientes à Grande Comissão sem mudar nossa vocação ou localização. Você pode ver o seu trabalho como uma missão em tempo integral a começar por hoje.

Se essa ideia parece nova ou recente, é porque a igreja comprou três mitos não bíblicos sobre missões que veremos ser refutados pela Escritura.

Mito de missões n. 1

A ideia de que todo cristão é um missionário em tempo integral pode parecer uma ideia nova ou recente. Por quê? Como veremos hoje, a Palavra de Deus deixa cristalinamente claro que cada um de nós é chamado a fazer discípulos de Jesus Cristo não importa qual seja o nosso emprego ou onde vivamos. Então por que esse conceito parece ser novo? Creio que é porque a igreja comprou três mitos sobre missões que veremos que a Escritura refuta.

O primeiro mito que a igreja subscreveu por algum tempo agora é que o trabalho é em grande parte inútil a não ser que você trabalhe como “missionário em tempo integral”.

Você já sentiu que o seu trabalho é menos importante ou significativo para a eternidade porque você não é pastor ou “missionário em tempo integral”? Esse sentimento é muito comum hoje, mas a boa notícia é que ele não é nada bíblico.

Gênesis 1.26-31 nos lembra de que o trabalho era parte do plano original e perfeito de Deus para o mundo. Nesta passagem, vemos Deus ordenando a humanidade a co-criar com ele — para “frutificar” e “enchei a terra e sujeitai-a”. Esse chamado não é só para a procriação. É um chamado para a civilização. É um chamado para criação cultural, de seguir a orientação de Deus para trabalhar e trazer coisas que não estavam aqui antes.

Se você for para Gênesis 2.15, você verá que Deus colocou Adão no Jardim do Éden e o chamou para o “trabalhar e cultivar”. Em 2.19, ele convida Adão a dar nomes a toda criatura viva. Deus está chamando Adão para ser um governante, um jardineiro, um agente de brands — trabalhos que hoje seríamos tentados a chamar de “secular” ou ao menos ver como menos significativos do que trabalhos como pastor ou missionário transcultural.

Mas eis a verdade: Deus chamou seres humanos para trabalhar mesmo antes da Queda. Assim, todo trabalho é intrinsecamente significativo e é um meio primário pelo qual revelamos o caráter de nosso Deus Criador e servir ao próximo.

Mito de missões n. 2

A fim de abraçar a ideia de que todo cristão é missionário em tempo integral, há um segundo mito de missões que precisamos usar a Escritura para refutar. Aqui está: o chamado de pastores e “missionários em tempo integral” é de algum modo “superior” ao chamado de outras vocações.

Como vimos na devocional de ontem, Deus chamou os seres humanos para trabalhar, dando um significado intrínseco a todo trabalho. Assim, não deve haver uma sensação de que o chamado vocacional de uma pessoa é superior, mais significativo ou mais relevante para a eternidade do que outros.

Mas o fato é que uma hierarquia implícita de chamados na igreja hoje que diz que, se você realmente está comprometido com Jesus, você abandonará o seu trabalho atual e “passará para o próximo nível” espiritual sendo um pastor ou missionário apoiado por doações.

Essa ideia não é nova. É um mito com que a igreja tem lutado por séculos. Martinho Lutero, João Calvino e outros líderes da Reforma Protestante lutaram veementemente contra essa hierarquia humana de chamados, argumentando que todo trabalho é tanto um chamado de Deus quanto o trabalho de um pastor ou sacerdote.

O que é particularmente risível sobre esse mito é o fato de que adoramos um Deus que passou a maior parte do seu tempo na terra trabalhando como carpinteiro! A Bíblia nos dá pouquíssimos detalhes sobre a vida de Jesus entre as idades de vinte e trinta anos, antes de ele começar seu ministério público. Uma das únicas coisas que a Escritura observa sobre esse grande período de tempo é que ele era conhecido na sua comunidade por seu trabalho como carpinteiro (ver Marcos 6.3)!

Pense nisso por um momento: desde o princípio do tempo, Deus sabia que ele enviaria Jesus à terra para redimir a humanidade. Sabendo disso — e sabendo o propósito final da vida de Jesus nesta terra — o fato de que Deus escolheu que Jesus crescesse na casa de um carpinteiro chamado José deveria nos surpreender.

Deus podia ter colocado Jesus numa família de sacerdotes, como o profeta Samuel ou João Batista. Ele podia ter crescido na família de um fariseu como o apóstolo Paulo. Mas não, Deus colocou Jesus na família de um carpinteiro onde ele passaria mais do que a metade da sua vida ministrando a outras pessoas ao fazer o que imaginamos ser mesas realmente excepcionais.

Agir como se o chamado do clero é superior a qualquer outro chamado é nada menos que desprezar Jesus Cristo. É um mito antibíblico dizer que há algum tipo de hierarquia de chamados. A verdade é que adoramos um Deus que trabalho e dá dignidade e sentido a todas as vocações.

Mito de missões n. 3

O terceiro e último mito sobre missões de que falaremos esta semana é que, a fim de cumprir a Grande Comissão você precisa “sair” da sua vocação e localização atuais.

Alguns anos atrás, ouvi um dos sermões mais revolucionários sobre a Grande Comissão pelo Dr. Kennon Vaughan. Focando na palavra “ide” no mandamento de Jesus em Mateus 28.19. Dr. Vaughan disse: “a palavra ‘ide’ irá ‘desbloquear o sentido para nós sobre como devemos fazer a Grande Comissão. A palavra ‘ide’ significa literalmente ‘tendo ido’. ‘Ide’ não é um mandamento, [Jesus] não está lhes dizendo para ir, mas sim dizendo ‘Tendo ido, fazei discípulos!’ Assume-se o ide. Em outras palavras, Jesus está dizendo: ‘Tendo ido daqui, enquanto vocês forem, convertam os homens em discípulos.’ Jesus não andou mais de 1500 quilômetros da sua cidade natal, mas ainda assim ele diz para fazermos discípulos de todas as nações e eu ousaria dizer que Jesus é o maior discipulador na história do mundo. Não se trata de quão longe ele foi, mas do que ele fazia enquanto ia. O mesmo é verdade para eu e para você.”

Não sei você, mas, até uns anos atrás, eu nunca havia ouvido uma pregação da Grande Comissão assim. “Enquanto vocês forem, façam discípulos”. Isso muda tudo.

Embora Deus realmente possa estar te chamando para mudar a sua vocação ou a sua localização, isso certamente não é um requerimento para cumprir a Grande Comissão. A verdade é que Jesus chamou cada um de nós para ser um missionário em tempo integral, fazendo discípulos enquanto vamos para nosso trabalho e para nossas vidas.

Quando entendemos que o trabalho é intrinsecamente bom e significativo, que o chamado do clero não é maior que o da congregação e que Jesus ordenou-nos a fazer discípulos enquanto estamos indo pela vida… isso muda tudo.

Não importa qual é o seu cargo no emprego — você é ordenado a fazer discípulos.

Não importa se você vive em Nova York ou em Nova Délhi — você é ordenado a fazer discípulos.

Não importa se você é pastor, estudante, empresário, dona de casa, contador, garçom ou artista — você é ordenado a fazer discípulos.

Não em algum ponto no futuro distante. Não quando você se aposentar da sua vocação atual. Não apenas na próxima viagem missionária. Hoje. Você é um missionário em tempo integral. Que incrível privilégio. Que incrível responsabilidade.


Por: Jordan Raynor. © Jordan Raynor. Website: https://my.bible.com/users/gcpdf/reading-plans/11395-every-christian-is-a-full-time-missionary/subscription/696722770/day/4/segment/0. Traduzido com permissão. Fonte: Every Christian is a full time missionary.

Original: Todo cristão é missionário em tempo integral de Jordan Raynor. © The Pilgrim. Website: thepilgrim.com.br. Todos os direitos reservados. Tradução: Guilherme Cordeiro Pires.

O ponto de vista deste texto é de responsabilidade de seu(s) autor(es) e colaboradores direito, não refletindo necessariamente a posição da Pilgrim ou de sua equipe de profissionais.

Imagem de Will Suddreth em Unsplash.

Vendo Deus na escuridão (Brad East)

Uma resenha de Oração da noite por Tish H. Warren

Te louvo porque

tu és artista e cientista

em um. Quando eu 

de algum modo temo teu poder,

tua habilidade de operar milagres

com um esquadro, te ouço

murmurar para ti mesmo

em notas que Beethoven

sonhou, sem alcançar.

Tu percorres tuas escalas

em água de chuva e do mar, tocas

os acordes da manhã

e da luz crepuscular, escultura

de sombras, juntas folha

a folha, quando chega 

a primavera, as estrofes de

um imenso poema. Falas

todas as línguas e nenhuma,

respondendo nossas mais complexas

orações com a simplicidade

de uma flor, confrontando-nos,

quando tentamos te domesticar

para nosso uso, com a revolta

de vírus sob nossos olhos.

— R.S. Thomas, “Praise”


Quando a COVID-19 chegou até nós era a época da quaresma, e para muitos de nós, nem a covid nem a quaresma terminaram. É a estação litúrgica da COVID-19, é o que dizem: uma exceção ou emergência no calendário eclesiástico, um período contínuo e aparentemente eterno de isolamento, confusão e perda. A penumbra de uma praga nos cobriu como uma mortalha, e os cristãos, tanto quanto os todos os demais, não têm completa certeza do que dizer ou fazer, ou para que lado seguir nesse crepúsculo repentino e desorientador. 

Uma quaresma desemboca na outra, sendo unidas por um vírus. Aqui estamos novamente. A quaresma é uma estação penitencial, mas não é uma questão de masoquismo ou refletir no que é triste só porque é triste. Jejuamos porque o corpo precisa lembrar do espírito. Meditamos sobre os nossos pecados não para nos fixarmos neles, mas para confessá-los perante Deus. Fixamos nossos olhos em Jesus, o Cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo, ao Verbo feito carne, a luz do mundo que brilha nas trevas — porque as trevas não prevaleceram contra ela.

O penúltimo ato da quaresma é despir o altar na Quinta Feira Santa. Da mesma forma, a quaresma despe os batizandos. Ela nos despe de cada artificio de nossa suposta autonomia, de toda afirmação possível de que somos donos de nós mesmos, de toda tentativa vergonhosa de protestar que algo em nossas vidas não é um presente vindo de outra pessoa. “E o que tens que não tenhas recebido” (1Co 4.7) é a pergunta da quaresma, e ela não nos deixará quietos até que nos rendamos. Nossas vidas, e tudo que há nelas, são um presente. A nós só nos cabe receber e ser gratos. 

Assim é a quaresma em tempos comuns, pelo menos. O coração quebrantado e contrito que Deus não desprezará deve surgir de dentro; não pode ser imposto de fora. Ainda assim, a longa quaresma do ano passado — a quaresma de lockdowns e demissões, isolamentos e funerais, nascimentos sem avós e festas sem a família — realmente foi uma imposição. Não a escolhemos, e nunca a teríamos escolhido.

A questão não é se ela também pode operar nos nossos corações. Ela pode. A questão é, embora vejamos no horizonte a alvorada de boas notícias (de forma imediata, a vacinação em massa; de forma definitiva, o domingo de Páscoa), qual operação será essa e se nós o receberemos ou o resistiremos.


Tish Harrison Warren escreveu seu novo livro, Oração da noite: para quem trabalha, vigia e chora, antes da COVID-19. Mas a leitura faz parecer que ela já sabia o que estava por vir. É uma obra de melancolia sacra. Nasceu de sofrimento, dor e perda: a perda inesperada de seu pai e de dois filhos não nascidos. O livro não propõe regras para a vida. Não provê um plano para o sucesso. Não ousa ser feroz, nem abusar de sua culpa, te aconselhar a se afundar nela. Em resumo, não contém técnicas nem faz garantias.

            Mas oferece uma oração.

            A oração vem do Livro de Oração Comum (LOC), no ofício das completas. É uma oração que não somente Warren, que é pastora na Anglican Church of North America (ACNA), mas toda sua família começou a recitar junto cada noite em seu período de dificuldade. Como todas as orações da LOC, esta é de uma simplicidade elegante:

Vela, ó Senhor amado, com os que trabalham, vigiam ou choram nesta noite. Manda que teus anjos guardem os que dormem. Cuida dos enfermos, Cristo Senhor. Dá repouso aos cansados. Abençoa os que estão à beira da morte. Consola os que sofrem. Compadece-te dos aflitos. Guarda os alegres. Tudo isto te suplicamos somente por teu grande amor. Amém.

Essas palavras viraram um mantra ao cair da noite. À medida que as palavras penetravam nas feridas do seu luto, elas tomaram vida própria. Abriram novos horizontes na prática de Warren da fé. Em Oração da noite, cujos capítulos são estruturados por cada frase sucessiva da oração, ela compartilha o que aprendeu.

O resultado é um exercício sábio, comovente e primoroso de teologia contemplativa escrita para crentes ordinários. Alcançar tal coisa é raro nos escritos cristãos populares dos dias de hoje, os quais geralmente vêm em três formas: profundo, mas nichado; raso, mas acessível; ou possivelmente sub-cristão. O fato de Warren escapar dessas armadilhas — acima de tudo mediante sobriedade espiritual, clareza de prosa e seriedade intelectual — não será nenhuma surpresa aos leitores de suas obras anteriores. Em Liturgia do ordinário, Warren conseguiu sintetizar meio século de trabalho acadêmico sobre comunidade, hábitos, disciplinas e adoração para leitores que claramente estavam sedentos por isso. Uma passagem breve desse livro nunca me abandonou, e serve como ligação para seu próximo livro:

Quando Jesus morreu pelo seu povo, ele me conhecia pelo nome na particularidade deste dia.[1] Cristo não redimiu a minha vida teoricamente ou abstratamente, a vida que eu sonhei viver ou a vida que eu pensava que deveria viver, idealmente. Ele sabia que eu estaria hoje do jeito que eu estou, na minha casa do jeito que ela está, nos meus relacionamentos com sua beleza e miséria específicas, nos meus pecados e lutas peculiares. (pg. 31)

Em outras palavras, se o objeto da redenção de Cristo sou eu e não uma versão instagramizada de mim, então é a minha vida de verdade, e toda o marasmo quotidiano dela, que interessa a Cristo. É com isso que ele trabalha. Fazer o jantar e trocar fraldas, ir para o trabalho e mexer no celular: isso tudo é mundano, sem dúvida, e até entediante. Ainda assim, essa é a matéria da redenção. É a zona da graça. É o lugar onde, se eu apenas me permitir vê-lo, o Cristo ressurreto me encontra e me diz para tomar minha cruz e segui-lo. E tal como a cruz é sem glamour ao extremo, assim também o é a maioria do que conta como discipulado. Sinais e maravilhas são a exceção, não a regra. Ou melhor, com Jesus, o reino de Deus “não vem com aparência exterior […] Pois o reino de Deus está entre vós” (Lc 17.20-21).

Se o discipulado tão sem espetáculo, então é razoável esperar que nossa vida na igreja seja similarmente ausente de fogos de artifícios. E assim o é. E nós podemos, Warren argumenta, ou recalcitrar inutilmente contra os nosso aguilhões e exigir que a vida da fé nos proveja uma série infinda de experiências extraordinárias, cuja qualidade subjetiva não pode ser alcançada, nem refutada; ou podemos aceitar a natureza rotineira de seguir a Jesus, e buscar dessa forma os antigos caminhos dos hábitos santificadores. A primeira opção é uma passagem expressa para o burnout espiritual — embora sua estada contínua na fecunda religiosidade do evangelicalismo americano de fato sugira que tenha poder para ficar. De todo modo, Warren opta pelo segundo, que também calha de ser a forma que a igreja têm escolhido através dos séculos.

Para essa tradição mais comum, a liturgia e os sacramentos funcionam como um tipo de âncora ou guia para os fiéis, assegurando nosso relacionamento com Cristo mediante nossa presença corporal uns para com os outros e mediante a presença real de seu próprio corpo para nós e entre nós. Pela repetição de rituais de adoração, o Espirito nos une uns aos outros e ao nosso cabeça, o Senhor Jesus; e está é precisamente a repetição que opera nossa comunhão. Pois não precisamos depender de nossos sentimentos instáveis, muito menos de espontaneidade ou talento, para facilitar a presença do Espírito. A comunhão dos santos já nos deu o roteiro, antigo e bem utilizado. Esse roteiro é um registro da vida de Deus com seu povo; mais do que um registro, é um mapa: como chegar daqui para lá. Ao confiar em Deus e no povo de Deus, portanto, mantemos o roteiro litúrgico: entra ano, sai ano. E ao fazer isso, nos encontrando e nos aprofundando nele, seguindo os santos como estes seguiram a Cristo. Até dizemos as orações deles. Afinal, o Espírito promete nos fornecer palavras quando as nossas falharem. Uma forma que ele faz isso é ao nos dar as palavras dos fiéis que se foram.[2]

Faz sentido, então, que, quando Warren se encontrou numa sala de emergência, coberta de sangue e incerta sobre o que estava acontecendo, ela tenha gritado a seu marido, acima do som das máquinas e das enfermeiras: “As completas! Eu quero orar as completas!”

* * *

            Três temas, ou compromissos, são o fundamento que informam Oração da noite. Primeiro que Deus não impede as coisas ruins de acontecerem. Segundo que todos nós somos defensores implícitos da teologia da prosperidade. E terceiro que Deus é amor.

No começo do livro Warren lembra de uma frase que ouviu num sermão anos atrás: “Você não pode confiar que Deus vá impedir que coisas ruins aconteçam com você.” Isso a deixou, nas palavras dela, boquiaberta. Ela sabia que coisas ruins aconteciam no mundo. E Deus certamente previne que toda sorte de coisa ruim nos surpreenda, a cada segundo. Todavia ela compreendeu que confiar em Deus não é confiar que ele sempre fará isso. Mais perigosamente, não devemos confiar em Deus só quando ele nos protege do mal. Coisas ruins — terríveis, trágicas — vão acontecer conosco. Isto é um fato. E nossa confiança em Deus não depende desse fato. Ambos estão relacionados, mas não desta maneira.

Nossa tendência de confundir a função de uma com a outra é, no entanto, reveladora. O modo como vivemos revela nossas crenças mais profundas. Por essa medida, todos nós em algum nível cremos num tipo de teologia da prosperidade.[3] Pois “em algum lugar silencioso de nossos corações, sentimos o favor de Deus quando as coisas dão certo para nós e sua desaprovação — senão a sua ausência — em nossas frustrações.”

A aflição verdadeira nos vira de cabeça para baixo e nos deixa todo perdido, esse tipo de sofrimento que não tem trégua nem descanso nessa vida, “quando a estrada é longa e provavelmente não haverá final feliz […] Queremos que o sofrimento tenha um começo, meio e fim claros, de um jeito que possamos entender, uma história com uma resolução coerente. Nós resistimos uma visão do cristianismo sem resultados imediatos, sem vantagens evidentes.”

Quando Cristo nos encontra nas nossas aflições, ou nas dos outros, ele “expõe as promessas vazias de uma cultura consumista, e até de uma fé consumista — de que prazer, prosperidade, saúde e realização mundana sejam verdadeira abundância.” Não são. Na verdade, são produtos falsificados e máscaras em nossos dramas diários de negação, enquanto fingimos para nós mesmos e para nosso próximo que, nas palavras de Stanley Hauerwas, vamos sair dessa vida vivos.

O evangelho não é um conto de fadas. Longe de aceitar nossa negação da morte, ele nos põe face a face com a nossa própria mortalidade — de fato, com aquilo que Warren, seguindo Thomas Long, chama de “Morte com M maiúsculo”. A quaresma se inicia com a Quarta Feira de Cinzas, quando somos marcados com o sinal da morte de Cristo e lembrados de que somos pó e ao pó voltaremos. O livro de Warren é sobre a escuridão, que é apenas outra forma de dizer que é sobre a morte. Ela não vai permitir que escondamos o rosto aqui. Ela não vai permitir que desviemos os olhos. Viver na verdade significa reconhecer que você e eu e todo mundo que amamos vai, um dia, morrer.

Alguém pode responder: isso talvez seja uma dose amarga de realismo, mas dificilmente é boas novas. Se tudo está acorrentado à morte e não podemos confiar que Deus nos botará longe do alcance da morte (e de suas diversas antecipações), então Deus serve para quê? Por que confiar nele, para começo de conversa? A resposta, se é que isso é uma resposta, percorre o livro como um reluzente fio: porque Deus é amor (1 Jo 4.8). Isso quer dizer, o Deus revelado em Jesus Cristo é ele mesmo o amor que move o sol e as demais estrelas. É então um erro confiar nele para nos tornarmos invulneráveis nesta vida. Porque o movimento é o contrário: ele, embora invulnerável por natureza, se tornou vulnerável por amor de nós. “Jesus deixou um lugar sem noite para entrar nas nossas trevas”, escreve Warren. Então embora seja verdade que Deus não impeça que coisas ruins aconteçam conosco, também é verdade que “Deus não impediu que coisas ruins acontecessem com o próprio Deus.”

Deus, em resumo, não responde ao nosso sofrimento com uma palestra; ele se junta a nós e torna os nossos sofrimentos dele. Com efeito, o sofrimento dele é curativo; o Deus que chora com Santa Maria de Betânia (Jo 11.32-35) não sofre sem propósito — “pelas suas feridas fostes sarados” (1Pe 2.24). Mas o sofrimento do nosso Senhor não põe um fim ao nosso, antes, o envolve e o inunda com as presença. Gememos ansiando pelo dia em que ele “destruirá neste monte a coberta que envolve todos os povos e o véu que está posto sobre todas as nações”, quando “tragará a morte para sempre, e, assim, enxugará o SENHOR Deus as lágrimas de todos os rostos” (Is 25.7-8, ARA). “Mas — espere —”, diz Warren, “antes vamos chorar bastante uma última vez. A redenção não pula as trevas, mas sim exige que até a última lágrima seja derramada.” Per crucem ad lucem: pela cruz, à luz. Ou antes, a luz do Senhor só nos encontra no escuro.

Esta é a boa nova do evangelho, mesmo que provavelmente ele não certifique a vitória em que Warren chama de “briga de faca existencial” ou teodiceia. Ele nos dá Deus; ele não nos dá uma explicação. Ele permite, e até encoraja, o lamento, mas exorta a reclamação do cliente insatisfeito, como se Jesus estivesse um “Deus com a performance baixa”, deixando de manter o seu lado da barganha. Uma visão transacional desse tipo reflete uma falha fundamental em compreender a natureza da encarnação. Na véspera de sua paixão, o próprio Jesus orou ao Pai com lágrimas e sangue no Getsêmani — mesmo quando seus amigos mais próximos dormiam ali por perto. Ele se manteve vigiando naquele momento, e ainda vigia: ele “não dormita.” Em nossa agitação e noites solitárias, portanto, “Deus está conosco e ele conhece a nossa fragilidade e vulnerabilidade tão certamente quanto ele conhece a palma de nossas mãos.” Em tempos como estes, “oração ajusta nossos olhos para ver Deus nas trevas”, onde ele sempre esteve e de onde nunca saiu.

Assim como os lutos e perdas de nossas vidas ordinárias, a escuridão coletiva do ano passado não foi prevista nem escolhida. Muitos têm sido mais sortudos, apesar de tudo, mas o fardo é compartilhado. Será que este fardo poderia ser uma oportunidade de espiar a presença de Deus entre nós? Será que essa escuridão poderia ser um meio de contemplar a luz de Cristo? Warren diz:

Pensamos que disciplinas espirituais são hábitos que iniciamos, como ler a Bíblia, orar e ir à igreja. Essas são as partes explicitamente espirituais de nossos dias. O resto da nossa vida é simplesmente aquilo pelo que passamos, as coisas inertes compostas por tempo, acaso e biografia. Porém, muitas vezes as práticas espirituais mais fundamentais e formativas de nossas vidas são as coisas que nunca escolheríamos. As formas mais profundas de encontrar a Deus são frequentemente aflições.

            A quaresma está chegando ao fim. Tivemos nossa porção do pão da aflição, e mais um pouco. A luz está começando a raiar. A Páscoa está vindo. Mas a verdade é que não temos que esperar. Jesus já está aqui, conosco, nesse vale de sombras. Ele sempre esteve. E sempre estará, venha o que vier. 


[1] Se Stanley Hauerwas um dia escrever uma continua a seu ensaio “How to Write a Theological Sentence” [Como escrever uma frase teológica], ele deveria incluir esta aqui.

[2] Eu reflito mais sobre essas linhas em “The Church and the Common Good.” [Link: https://www.cardus.ca/comment/article/the-church-and-the-common-good/]

[3] Aqui Warren aponta o leitor ao Everything Happens for a Reason: And Other Lies I’ve Loved, de Kate Bowler; assino em baixo dessa referência. Veja também o novo livro de David H. Kelsey, Human Anguish and God’s Power.mereorthodoxy.com/fear-covid19/


Por: Brad East. © Mere Orthodoxy. Website: https://mereorthodoxy.com/prayer-in-the-night-book-review/. Traduzido com permissão. Fonte: To See God in the Darkness: On Tish Harrison Warren’s “Prayer in the Night”.

Original: Vendo Deus na escuridão: sobre Oração da noite de Tish Harrison Warren. © The Pilgrim. Website: thepilgrim.com.br. Todos os direitos reservados. Tradução: Arthur Guanaes. Revisão: Guilherme Cordeiro Pires.

O ponto de vista deste texto é de responsabilidade de seu(s) autor(es) e colaboradores direito, não refletindo necessariamente a posição da Pilgrim ou de sua equipe de profissionais.

Direção espiritual: durma melhor (Tish H. Warren)

Recentemente me deparei com um estudo da Duke University que conclui que as mulheres precisam de mais sono do que os homens e que a privação de sono causa mais estresse emocional e físico nas mulheres do que nos homens. Imediatamente o encaminhei para meu marido com uma nota de que isso afirma o que eu tenho dito a ele já faz anos.

Sempre amei dormir, mas ultimamente isso se tornou uma necessidade premente. Tenho crianças pequenas que acordam no meio da noite numa frequência absurda, então pensar no sono carrega um tom teológico de crise: o que está acontecendo comigo? Como isso pode continuar? Como Deus pode não se importar comigo? Por que ele não faz meus filhos dormirem mais?

Parece excessivamente dramático, até mesmo levemente histérico. E é. Porque quando me falta sono, eu fico facilmente dramática e histérica. E, graças à Duke, agora eu tenha comprovação científica de que isso é totalmente normal.

A CDC publicou um artigo em março com o título Insufficient sleep is a public health epidemic [Sono insuficiente é uma epidemia de saúde pública]. Mesmo entre aqueles sem filhos pequenos, estamos tendo bem menos do que as 7 a 9 horas recomendadas e isso está causando um desastre — um desastre de confusão, amnésia e mal-humor.

Em nossa cultura crescentemente tecnológica, workaholic, cafeinada, viciada em entretenimento e sobrecarregada, lembrar que somos criaturas limitadas e corpóreas é uma parte difícil e necessária do discipulado. Meu marido e eu pastoreamos estudantes da pós-graduação e com frequência o encorajamento mais espiritualmente útil e relevante que podemos dar a eles é terminar o trabalho mais cedo, cuidar de seus corpos e dormir mais.

Mas isso não parece muito com um conselho espiritual. Não é preciso um diploma de seminário para dizer a alguém que vá para a cama mais cedo. Quando buscamos apoio financeiro para nosso trabalho no campus universitário, um boletim informativo entusiasmado relatando que os estudantes cristãos têm um sono melhor e mais profundo não irá impressionar muito os potenciais apoiadores.

De qualquer modo, Deus se importa com o sono. Um dos meus momentos favoritos dos evangelhos é quando encontramos Jesus no fundo de um barquinho dormindo pesado no meio de uma tempestade. Seu sono foi teológico, no sentido em que revela uma confiança firme em seu Pai. Mas também não nos esqueçamos que isto também é um retrato ordinário de um homem cansado tirando uma soneca.

O sono nos lembra de que a teologia, no fim do dia (literalmente), sempre é para criaturas. Davi adorou a Deus dormindo: “Eu me deito, durmo e acordo, pois o SENHOR me sustenta.”

Talvez Deus queira não só nos dar vidas de oração e santidade, mas também sono suficiente. Falando de forma mais direta, talvez um passo crucial para uma vida de oração e santidade é receber o dom de uma boa noite de sono.

Não somos gnósticos. Adoramos um Deus que foi plenamente encarnado. Ele almoçou, ralou os joelhos e se sentiu cansado. Sim, é tão fácil pensar que a realidade espiritual das coisas é cognitiva e não corporal. Precisamos acreditar no evangelho em nossa mentes, ler livros cristãos, orar com palavras, sentir a adoração em nossos corações. Mas para vivermos vidas de discípulos, temos que fazer tudo isso em nossos corpos. Quando dormimos o suficiente, somo mais capazes de obedecer a Deus e de amar nosso próximo.

Mas talvez de modo mais importante o ato de parar e relaxar no sono é em si um ato de adoração e confiança em Deus. Como crentes, podemos apreciar o sono como não só necessário, mas também como uma confissão corpórea de que somos criaturas fracas e vulneráveis cuidadas e nutridas pelo nosso forte Criador. Isso requer fé para parar de lutar contra o cansaço com estimulantes e telas. Porque ele nos sustém, nós dormimos.

Na nossa busca de uma comunhão contra cultural com o novo Rei, começamos em nossos corpos. Em um mundo crescentemente tecnocrata e sem limites, é um ato radical lembrar e aceitar os limites de ser criatura.

Quando os descrentes encontrarem nossa comunidade, tenho a esperança de que seremos um povo alternativo conhecido por amor, busca pela justiça, humildade e bom humor. E também tenho a esperança de que o mundo tomará nota: “Aqueles cristãos realmente estão descansados.” Para o povo de Deus, o sono, assim como a nossa vida ordinária, importa.

Desacelera. Se enrola num cobertor. Fecha os olhos. E deixa seu ronco proclamar a fidelidade de Deus.


Por: Tish Harrison Warren. © The Well. Website: http://thewell.intervarsity.org/blog/spiritual-direction-get-more-sleep. Traduzido com permissão. Fonte: Spiritual Direction: Get More Sleep.

Original: Direção espiritual: durma mais. © The Pilgrim. Website: thepilgrim.com.br. Todos os direitos reservados. Tradução: Arthur Guanaes. Revisão: Guilherme Cordeiro Pires.

Imagem:  Unsplash

O ponto de vista deste texto é de responsabilidade de seu(s) autor(es) e colaboradores diretos, não refletindo necessariamente a posição da Pilgrim ou de sua equipe de profissionais.

Como Jesus se sente perto de você (Stephen Witmer)

Uma resenha de “Manso e humilde” de Dane Ortlund

Há um ano, enquanto eu revia as recomendações de um livro sobre o evangelho publicado já faz dez anos, eu percebi chocado que, dos 17 conhecidos líderes cristãos que contribuíram com sua recomendação, 6 tinham abdicado ou sido removidos de suas posições ministeriais. Isso é uma taxa de mais de 30% em apenas 10 anos — e ela parece crescer cada vez mais. Embora fracassos de liderança não sejam novidade, duas coisas foram particularmente surpreendentes nos últimos anos: primeiro, as razões para a saída frequentemente foram diferentes de pecado sexual.

Considere essas descrições (todas provindas da revista Christianity Today) de líderes conhecidos que abdicaram ou foram removidos de suas posições:

  • “manipulação, imposição, falta de comunidade bíblica”
  • “arrogância, respondendo a conflitos com um temperamento instável e palavras duras e liderando os ministérios e os presbíteros de uma forma impositiva”
  • “abuso espiritual por meio de bullying e intimidação, exigências exageradas”
  • “insultos, menosprezo e agressões verbais”
  • “diversas expressões de orgulho”

Esses líderes, por conta de sua dureza, raiva ou orgulho, foram desqualificados para o ministério.

Em segundo lugar, infelizmente, os problemas de liderança aconteceram perto de casa. Todas as descrições acima foram de líderes que se conectam com a The Gospel Coalition de uma forma ou de outra. Não é simplesmente um problema “lá fora”. Em tempos em que muitos líderes seculares são cada vez mais intolerantes, rudes e sem limites, é importante que os cristãos ouçam à instrução de Jesus de “não ser assim” entre nós (Mt 20.26). Muitas vezes, acaba sendo assim.

Há outro problema sério, sendo este mais sutil e menos dramático, enquanto igualmente atroz e amplo, tão comum em púlpitos e igrejas.

Por que nos sentimos secos espiritualmente?

Muitos cristãos que conhecem o evangelho ainda lutam para experimentar e se deliciar no Cristo dos evangelhos. Talvez se deva em parte a eles não terem certeza se ele se delicia neles. Eles vivem com uma ideia de que Cristo frequentemente só os aguenta até certo ponto; que faltam apenas alguns pecados para acabarem com a paciência dele; que ele resmunga mais do que se regozija quando pensa neles; que, mesmo sendo disposto a perdoar, ele o faz de forma relutante e retraída. Eu lembro uma conversa com uma santa idosa em que ela me confidenciou ter lutado por anos com uma culpa oculta. Embora ela confiasse em Jesus, ela nunca sentia que fazia o suficiente. Na cabeça dela, Jesus sempre ficava na mão.

Todos esses problemas causam danos incontáveis. Líderes explosivos deixam de exibir o coração de Cristo; cristãos que não se alegram com o evangelho em que creem deixam de conhecer o coração de Cristo em primeira mão. No fundo, ambos os problemas fluem de uma falha em experimentar Jesus como ele realmente é. Sejamos honestos: quem ama a Jesus, numa perspectiva reformada e centrada no evangelho, precisa aprender a ver e conhecer a Jesus como ele realmente é tanto quanto qualquer outra pessoa. Mesmo com nossa excelente teologia, ainda precisamos urgentemente conhecer o que faz o coração de Cristo pulsar, junto com nossos amigos em outras tradições.

Essas são algumas razões pelas quais sou grato pelo novo livro escrito por Dane Ortlund: Manso e humilde: o coração de Cristo para quem peca e para quem sofre. Em 23 curtos capítulos, Ortlund  nos (re)introduz ao “coração de Cristo para pecadores e sofredores”. Ortlund quer que conheçamos quem Jesus realmente é, o que é mais natural para ele e o que flui dele de forma mais instintiva (p. 12). Em seu cerne, Jesus é manso e humilde. No fundo, o coração de Jesus é um coração tenro, aberto, acolhedor e compreensivo — um coração que se regozija em amar o seu povo até mais do que eles se regozijam em receber o seu amor.

Argumentação incansável

Porque conhecemos a Jesus principalmente por meio do texto bíblico, o livro de Ortlund se concentra incansavelmente na Bíblia. Porque somos auxiliados em nosso entendimento da Bíblia por meio da sabedoria daqueles que vieram antes de nós, este livro frequentemente recorre à sabedoria puritana, que perdura há séculos particularmente em autores como Thomas Goodwin, Richard Sibbes e John Bunyan.

Já que a mensagem da Bíblia sobre o coração de Jesus é uma verdade a ser sabedoreada — e não apenas conhecida — e já que os puritanos eram pastores espirituais — e não apenas gigantes intelectuais —, este livro é mais uma teologia pastoral que um livro-texto. Ele busca confortar e consolar, acolher seus leitores numa experiência mais ampla e mais vívida de Cristo. Há rigor intelectual — resumindo acertadamente o fluxo dos livros bíblicos numa interpretação contextualizada, tratando regularmente autores da história da igreja e lidando muito bem com questões hermenêuticas e teológicas difíceis (p.ex., a intercessão de Cristo hoje sugere que há algo faltando na cruz?).

Ele também é devidamente qualificado. Ortlund reconhece que o Cristo manso e misericordioso também se inflama com santa ira e sempre age com perfeita justiça (p. 26-28; 108-111). Na verdade, uma das contribuições mais importantes do livro é o seu argumento de como amor e juízo se encaixam no coração do Deus trino. Seguindo Goodwin e com base em passagens tais como Isaías 28.21, Jeremias 32.41 e Lamentações 3.33, Ortlund argumenta que o juízo de Deus — embora certamente faça parte de seu caráter e governo soberanos — ainda é uma “obra estranha”. Ele julga com uma relutância que é diferente da maneira como se sente sobre suas obras de misericórdia e redenção. O mais fundo de seu coração — o seu desejo mais íntimo — é demonstrar misericórdia ao seu povo.

Como experimentar o amor de Cristo

Num livro que busca não apenas persuadir a mente, mas também sarar o coração — alimentar uma nova experiência de Cristo —, a linguagem é crucial. Belas verdades devem ter belas formulações. Palavras e imagens precisam passar pela mente e se aninhar no coração. Simplesmente pare e leia essas figuras de linguagem e formas simples e brilhantes de expressar essas verdades:

  • “Assim como o gás hélio carrega um balão, o jugo de Jesus o faz com seus seguidores. Flutuamos pela vida com sua mansidão sem fim e sua humildade supremamente acessível” (p. 20-21);
  • “A intercessão é um “atualizar” constante da nossa justificação na corte celestial” (p. 80); e
  • “O seu coração pelos seus não é como uma flecha, que se atira rápido, mas cai igualmente rápido; ou um corredor, rápido na partida, mas que logo perde o ritmo e fraqueja. O coração dele é como uma avalanche que ganha forças com o tempo, como um incêndio florestal, se intensificando à medida que se espalha.” (p. 203).

Explicando a intercessão de Cristo, Ortlund nos pede para imaginar ouvir Jesus orando no cômodo mais próximo. Com base na exposição de Hebreus 4.15 por Thomas Goodwin, Ortlund nos pede para imaginarmos um amigo tomando nossas mãos e colocando-as “no peito do Senhor Jesus Cristo” de modo que pudéssemos sentir “a força vigorosa das afeições e anseios mais profundos de Cristo” (p. 43).

Ortlund acredita que “é impossível o afetuoso coração de Cristo ser celebrado demais, superestimado ou exagerado” (p. 27-28). De fato. Particularmente para quem precisa ser diariamente convencido da prontidão de Cristo para perdoar e nos abraçar mais uma vez.

Facetas inexploradas de um diamante.

A abordagem do livro de “facetas-de-um-diamante”, que estuda Cristo a partir de vários ângulos ao invés de construir um argumento cumulativo capítulo a capítulo, corre o risco de parecer um pouco repetitivo de vez em quando. Mas este diamante em particular é tão maravilhoso que vale a pena estudá-lo com atenção. Na verdade, eu amaria ver algumas outras facetas exploradas.

Como o amor de Jesus por pecadores se relaciona com a sua paixão pela glória de Deus? Perguntar e responder essa questão garantiria que não teríamos uma visão autocentrada ou claustrofóbica do amor de Jesus por nós. Como o amor de Jesus por pecadores se relaciona com o amor trinitário de Deus dentro dele mesmo? Jesus foi amado pelo Pai antes da fundação do mundo (João 17.24) e ele torna o nome do Pai conhecido a seus discípulos a fim de que “o amor com que me amaste esteja neles, e eu também neles esteja” (João 17.26). O que significa que o amor de Deus por Deus agora está dentro de nós?

Anteriormente no livro, Ortlund pergunta a seus leitores: “Você vive ciente não só da obra expiatória dele pela sua pecaminosidade, mas também do coração dele que anseia por você, mesmo em meio a sua pecaminosidade?” (p. 14). É uma questão crucial, que faríamos bem em meditar. Oro para que muitos leiam este livro com atenção e que Deus o utilize para moldar líderes cristãos mais mansos e humildes, e cristãos mais confiantes e alegres. Cristãos que sabem lá no fundo que eles são alegremente bem-vindos no coração desejoso e afetuoso de Jesus.


Manso e humilde foi publicado em português pela Pilgrim. Adquira-o aqui.

Por: Stephen Witmer. © The Gospel Coalition, 2020. Website: https://www.thegospelcoalition.org/reviews/gentle-lowly-dane-ortlund/. Traduzido com permissão. Fonte: “How Jesus Really Feels About You”

Original: Como Jesus se sente perto de você. © The Pilgrim. Website: thepilgrim.com.br. Todos os direitos reservados. Tradução: Guilherme Cordeiro. Revisão: Arthur Guanaes.

Imagem:  Unsplash

O ponto de vista deste texto é de responsabilidade de seu(s) autor(es) e colaboradores diretos, não refletindo necessariamente a posição da Pilgrim ou de sua equipe de profissionais.

Desafio de leitura Pilgrim para 2021 #PilgrimChallenge

J. C. Ryle uma vez disse que “poucas coisas são tão amadas por alguns, e tão desprezadas e negligenciadas por outros, quanto livros, e especialmente livros de teologia”. Porém, não importa se você está mais perto do amor ou da negligência, provavelmente você diz que quer ler mais e melhor, mas não tem tempo de ler mais ou melhor. E é por isso que vamos lançar o Pilgrim Challenge.

O Pilgrim Challenge é um desafio para ajudar você ler mais e melhor em 2021. A sua leitura será incrementada não só por você determinar uma meta de quantidade de livros, mas também por se diversificar. Você se verá forçado a ler livros que você nunca escolheria naturalmente. Lendo o que você nunca leria sozinho, você pode acabar aprendendo o que você nunca descobriria sozinho.

O desafio está dividido em cinco listas, que correspondem ao grau de dificuldade, intensidade e diversidade das leituras. As listas maiores incorporam os itens das menores.

  • VOLTINHA: total de 13 livros, com uma média de 1 livro a cada 4 semanas.
  • PASSEIO: total de 17 livros, com uma média de 1 livro a cada 3 semanas.
  • VIAGEM: total de 26 livros, com uma média de 1 livro a cada 2 semanas.
  • MIGRAÇÃO: total de 52 livros, com uma média de 1 livro a cada 1 semana.
  • PEREGRINAÇÃO: total de 104 livros, com uma média de 2 livros a cada 1 semana.        

Caso um livro se inclua em mais de uma categoria, escolha apenas uma. Não há uma ordem dentro de cada lista. Você pode escolher um plano para seguir até o final do ano ou ir avançando aos poucos a partir do primeiro deles. Não se sinta pressionado a ler um livro no exato período de tempo proposto, o que importa é alcançar a meta final do desafio escolhido.

Colocamos ideias diferentes para cada livro. Sinta-se livre para adaptar a lista de acordo com os seus interesses e recursos. Você pode adotar alguma das seguintes alternativas:

  • Divida a lista com a sua família, de forma que cada um fique responsável com uma categoria durante determinado período de tempo. Compartilhem o que vocês aprenderam com cada livro e recomendem a sua melhor leitura no final do ano.
  • Comece a ler conforme for mais adequado para o seu tempo. De acordo com o número de semanas que você levar para terminar esse livro, escolha o plano correspondente.
  • Termine o primeiro livro que você escolher o mais rápido possível. De acordo com o número de semanas que você levar para terminar esse livro, escolha o plano correspondente.
  • Ignore a quantidade de livros proposta a cada plano e simplesmente monte um plano próprio escolhendo as categorias mais desafiadoras para você.
  • Divida a lista com a sua igreja ou pequeno grupo, de forma que cada um fique responsável com uma categoria durante determinado período de tempo. Escrevam resenhas e elejam o melhor livro da sua igreja ou pequeno grupo no final do ano.

Porém, não se esqueça de que o propósito dela é ser desconfortável para você, em algum nível. Afinal, é isso que desafio significa.

Para baixar, você pode escolher a imagem e guardar em algum dispositivo para consulta ou optar pelo PDF, com um formato mais simples e fácil de imprimir.

Baixar PDF para impressão (preto e branco)

Baixar PDF para impressão (colorido)

Do áudio para o papel

Thomas Nelson e Pilgrim firmam parceria para transformar conteúdo digital em livros impressos

A editora Thomas Nelson Brasil fechou uma parceria inédita no mercado editorial brasileiro com a Pilgrim. A partir de 2021, a editora vai adaptar conteúdos exclusivos da plataforma, como audiolivros, podcasts e séries, em livros físicos. A movimentação faz parte da estratégia da Thomas Nelson de investir em novas formas de produção de conteúdo, atento ao crescente público do digital.

“Nossa parceria com a Thomas Nelson reforça nosso propósito de servir a comunidade com conteúdo cristão de qualidade, disponível em diversos formatos e acessível para consumo em momentos diferentes da rotina de nossos usuários. É mais um sinal de que o digital e o físico não são inimigos e que dentro da estratégia correta, podem colaborar para o benefício de todos os envolvidos”, afirma Leonardo Santiago, sócio da Pilgrim. 

Segundo dados da pesquisa Datafolha, realizada no início de 2020, 31% da população brasileira (65,4 milhões de pessoas) é evangélica. Apesar da queda nos índices de leitura no país — segundo a mais recente pesquisa “Retratos da Leitura”, divulgada em setembro pelo Instituto Pró-Livro, o país perdeu 4,6 milhões de leitores entre 2015 e 2019 — a Bíblia ainda é o livro mais lido no país (35%), seguida por livros religiosos (22%). O segmento foi o único a apresentar resultado positivo de vendas (2%) nos últimos 14 anos, de acordo com levantamento recém-publicado pela Câmara Brasileira do Livro (CBL) e Sindicato Nacional dos Editores de Livros (SNEL), diante de queda de 20% no faturamento do mercado editorial. Na Pilgrim, o número de acessos à plataforma de conteúdo cristão aumentou 300% apenas em 2020, em parte motivado pelo isolamento social causado pela pandemia de coronavirus. Utilizando tecnologia de ponta e ciência de dados, a Pilgrim consegue ainda mapear o perfil do usuário, e gerar dados detalhados do público do setor. 

“Vemos nessa parceria um potencial de quebra de paradigma na forma como analisamos e adquirimos conteúdo. São ideias, relatos, histórias e estudos que virão já testados pelo consumidor e validados pelo processo de construção e consumo de conteúdo digital. Temos certeza de que o resultado serão livros marcantes e que irão totalmente de encontro ao que os leitores estão buscando”, explica Samuel Coto, diretor editorial da Thomas Nelson Brasil.

Embora o modelo de negócio da Pilgrim facilite o acesso de clientes do mundo todo, muitos usuários gostariam de contar com o suporte impresso para gravar melhor suas descobertas com o conteúdo exclusivo da plataforma. A parceria possibilita que os novos autores evangélicos lançados na plataforma Pilgrim encontrem um caminho mais rápido para a versão impressa, e chegue logo às mãos do leitor. 

Com a ajuda da Thomas Nelson Brasil, a experiência do usuário da Pilgrim poderá ser guardada na estante. O conteúdo disponibilizado pela startup — em audiolivros, podcasts ou séries — agora serão adaptados e distribuídos com a excelência característica da Thomas Nelson. 

Contemplação e evangelização (Rowan Williams)

Na primeira vez que algum Arcebispo da Cantuária se dirigiu ao Sínodo de Bispos de Roma, Rowan Willians explorou a conexão necessária entre contemplação orante e a tarefa da evangelização.

Estou profundamente  honrado pelo convite do Santo Padre para falar nesta reunião, como diz o salmista, Ecce quam bonum et quam jucundum habitare fratres in unum.[1] A reunião de bispos para o bem de todo o povo de Cristo é uma das disciplinas que sustenta a saúde da Igreja de Cristo.

E hoje especialmente não podemos esquecer a grande reunião de fratres in unum que foi o Concílio Vaticano II, o qual fez tanto pela saúde da igreja e ajudou-a a recuperar tanto de sua energia para proclamar as boas novas de Cristo jesus efetivamente em nossa era. Para tantos de minha própria geração, mesmo fora das fronteiras da Igreja Católica Romana, o concílio foi sinal de uma grande promessa, sinal de que a igreja era forte o suficiente para perguntar a si mesma perguntas exigentes sobre se sua cultura e estruturas eram adequadas para a tarefa de compartilhar o evangelho com a mente complexa, por vezes rebelde, sempre incansável, do mundo moderno.

O concílio foi, de variadas formas, uma redescoberta da preocupação evangelística, focada não somente na renovação da própria vida da igreja, mas de sua credibilidade no mundo. Textos como o Lumem Gentium  e Gaudium et Spes trouxeram uma visão nova e alegre sobre como a realidade imutável de Cristo vivendo em seu corpo na terra pelo dom do Espírito Santo pode falar novas palavras a uma sociedade da nossa era, e até mesmo àqueles de outras fés. Não é surpreendente que nos ainda estejamos, cinquenta anos depois, lutando com muitas das mesmas questões e com as implicações do concílio; e entendo que a preocupação do sínodo com a nova evangelização como parte de uma exploração contínua de seu legado.

Mas um de seus aspectos mais importantes para a teologia de Vaticano II foi uma renovação da antropologia cristã. Em lugar de um relato neoescolástico artificial e geralmente forçado de como a natureza e graça se relacionam na constituição dos seres humanos, o concílio construiu sobre os melhores entendimentos de uma teologia que tinha voltado a fontes mais ricas e antigas — a teologia de gênios espirituais como Henri de Lubac, que nos lembrou o que significava para o cristianismo antigo e medieval falar de uma humanidade feita à imagem de Deus e da graça como aperfeiçoando e transfigurando a imagem, coberta há tanto tempo por nossa habitual “desumanidade”. Sob tal luz, proclamar o evangelho é proclamar que finalmente é possível ser propriamente humano: a fé cristã e católica é um “verdadeiro humanismo”, para pegar emprestado uma frase de outro gênio do século passado, Jacques Maritain.

Ainda assim, de Lubac é claro sobre o que isso não significa. Não trocamos a tarefa evangelística por uma campanha de “humanização”. “Humanizar antes de cristianizar? Se tal empreitada suceder, o cristianismo virá tarde demais: seu lugar estará ocupado. E quem pensa que o cristianismo não tem valor de humanização?” Assim de Lubac escreve em sua maravilhosa coletânea de aforismos, Paradoxes of Faith [Paradoxos da Fé]. É a fé em si que molda o trabalho de humanizar e esta empreitada será vazia sem a definição de humanidade dada pelo segundo Adão. A evangelização, velha ou nova, deve ser baseada em uma profunda confiança de que temos um destino humano singular para mostrar e compartilhar com o mundo. Há muitas formas de dizer isso, mas nestas breves constatações quero focar em um aspecto em particular.

Ser completamente humano é ser recriado à imagem da humanidade de Cristo. E essa humanidade é a perfeita “tradução” humana da relação entre o Filho eterno e o Pai eterno, uma relação de amor e autoentrega adoradora, um derramar de vida sobre o Outro. Assim, a humanidade para a qual estamos nos desenvolvendo no Espírito, a humanidade que buscamos compartilhar com o mundo como fruto da obra redentora de Cristo, é uma humanidade contemplativa. S. Edith Stein observou que começamos a entender a teologia quando vemos Deus como o “primeiro teólogo”, o primeiro a falar sobre a realidade da vida divina, porque “todo falar sobre Deus pressupõe o próprio falar de Deus.” De maneira análoga, nós poderíamos dizer que começamos a entender a contemplação quando vemos Deus como o primeiro contemplativo, o paradigma eterno para a atenção abnegada ao Outro que traz não morte, mas vida ao self. Toda contemplação de Deus pressupõe o próprio conhecimento absorto e alegre de Deus sobre si mesmo e sua contemplação de si mesmo na vida trinitária.

Ser contemplativo como Cristo o é significa estar aberto para toda a plenitude que o Pai deseja derramar sobre nossos corações. Se aquietarmos nossas mentes para receber, silenciando nossas fantasias sobre Deus e nós mesmos, finalmente estaremos prontos para começar a crescer. E a face que precisamos mostrar para nosso mundo é a face de uma humanidade de infindo crescimento em amor, uma humanidade tão deleitada e dedicada à glória do que contemplamos que está preparada para embarcar numa jornada sem fim para encontrar nosso caminho mais profundamente nela, no coração da vida trinitária. S. Paulo fala (em 2Coríntios 3.18) de como “com o rosto descoberto, refletindo como um espelho a glória do Senhor” somos transfigurados em uma radiância cada vez maior. Tal face é a que buscamos mostrar ao nosso próximo.

E buscamos isso não porque estamos à procura de alguma “experiência religiosa” privada, que nos fará sentir seguros e santos. Buscamos isso porque neste contemplar da luz de Deus em Cristo, contemplar que se esquece de si mesmo, nós aprendemos a como olhar para o outro e para toda a criação de Deus. Na igreja primitiva, havia um entendimento claro de que precisamos avançar do autoconhecimento e da autocontemplação, que nos ensinam a disciplinar nossos instintos e desejos avarentos, para a “contemplação natural”, que percebia e venerava a sabedoria de Deus na ordem do mundo e que nos permitia ver a realidade criada como ela realmente era na visão de Deus — ao invés de o que ela era nos termos de como nós podíamos usá-la ou dominá-la. E daí a graça nos levaria à verdadeira “teologia”, o vislumbrar silencioso de Deus que é o objetivo de todo nosso discipulado.

Nessa perspectiva, a contemplação está muito longe de ser apenas um tipo de coisa que o cristão faz: é a chave para a oração, a liturgia, a arte e a estética, a chave para a essência de uma humanidade renovada que é capaz de ver o mundo e outros sujeitos no mundo com liberdade — liberdade dos hábitos autocentrados e gananciosos e do entendimento destorcido que vem deles. Em termos mais claro, a contemplação é a única resposta, no final das contas, para o irreal e insano mundo que nossos sistemas financeiros, nossa cultura publicitária e nossas emoções não examinadas nos encorajam a habitar. Aprender a prática contemplativa é aprender o que precisamos para que vivamos verdadeira, honesta e amavelmente. É uma questão profundamente revolucionária.

Em sua autobiografia Thomas Merton descreve uma experiência que ocorre não muito depois de ele entrar no mosteiro onde passou o resto de sua vida. Ele pegou uma gripe e ficou confinado na enfermaria por dias e, diz, sentiu uma “alegria secreta” pela oportunidade que isso lhe deu para orar — e “para fazer tudo que ele queria fazer, sem ter que correr para todo canto tendo que responder aos sinos.” Ele acaba reconhecendo que essa atitude revela que:

“Todos os meus maus hábitos […] haviam se esgueirado comigo para dentro do monastério e tinham recebido as vestes religiosas juntamente comigo: gula espiritual, sensualidade espiritual, orgulho espiritual.”

Em outras palavras, ele estava tentando viver a vida cristã com o equipamento emocional de alguém ainda profundamente envolvido com a busca pela satisfação individual. É um aviso poderoso: temos que ser cuidadosos em nossa evangelização para não apenas persuadir as pessoas a aplicarem a Deus e à vida do espírito todos os seus desejos por drama, empolgação e autocongratulação que tantas vezes temos em nossas vidas.

Isto foi expresso ainda mais fortemente algumas décadas atrás pelo estudioso da religião americano Jacob Needleman, num livro desafiador e controverso chamado Lost Christianity [Cristianismo perdido]: as palavras do evangelho, ele diz, são referidas a seres humanos que “ainda não existem”. Isto é, responder de uma maneira que doa a própria vida ao que o evangelho requer de nós significa transformar todo o nosso ser, nossos sentimentos, pensamentos e imaginações. Ser convertido para a fé não significa apenas adquirir um novo grupo de crenças, mas tornar-se uma nova pessoa, uma pessoa em comunhão com Deus e os outros, por meio de Jesus Cristo.

A contemplação é um elemento intrínseco desse processo de transformação. Aprender a olhar para Deus sem me importar com minha própria satisfação instantânea, aprender a escrutinar e a relativizar os desejos e fantasias que surgem em mim — isso permite que Deus seja Deus e, portanto, permite que a oração de Cristo, a relação de Deus com o próprio Deus, tome vida dentro de mim. Invocar o Espírito Santo é apenas uma matéria de chamar a terceira pessoa da Trindade para entrar no meu espírito e trazer a claridade que preciso para ver onde estou escravizado aos meus desejos e fantasias, e me dar paciência e quietude à medida que a luz e o amor de Deus penetram minha vida interior.

Só quando isso começa acontecer que sou liberto de tratar os dons de Deus como outro conjunto qualquer de coisas que adquiro para me fazer feliz, ou para dominar as outras pessoas. À medida que esse processo se desenrola, mais livre me encontro — para pegar emprestado a frase de Santo Agostinho — para “amar os seres humanos de uma forma humana”, para amá-los não pelo que podem prometer a mim, amá-los como se estivessem lá para prover para mim segurança e conforto duradouros, mas como frágeis criaturas também sustentadas no amor de Deus. Eu descubro como ver outras pessoas e coisas pelo que elas são em relação a Deus e não a mim. É aqui que a verdadeira justiça, assim como o verdadeiro amor, tem suas raízes.

A face humana que os cristãos querem mostrar para o mundo é uma face marcada por tal justiça e amor e, assim, uma face formada pela contemplação, pelas disciplinas do silêncio, de desapegar o self dos objetos que o escravizam e dos instintos não examinados que podem o enganar. Se a evangelização é sobre mostrar ao mundo a face humana “descoberta” que reflete a face do Filho voltada para o Pai, ela deve ter um sério comprometimento com promover e nutrir tal oração e prática.

Não deveria ser necessário dizer que isso não quer de forma alguma argumentar que a transformação “interna” é mais importante do que a ação pela justiça. Antes, é insistir que a clareza e energia que precisamos para fazer justiça exige que abramos espaço para a verdade, para que a realidade de Deus venha à tona. De outra forma, nossa busca por justiça ou paz se torna outro exercício da vontade humana, minada pela ilusão do self humano. Os dois chamados são inseparáveis, o chamado à “oração e à ação justa”, como põe o mártir protestante Dietrich Bonhoeffer, ao escrever na cela de sua prisão em 1944. A verdadeira oração purifica a motivação e a verdadeira justiça é a obra necessária de compartilhar e libertar nos outros a humanidade que descobrimos em nosso encontro contemplativo.

Aqueles que sabem ou se importam pouco com as instituições e hierarquias da igreja hoje em dia geralmente se sentem atraídos e desafiados pelas que exibem parte disso. São as comunidades religiosas novas e renovadas que mais vão em direção àqueles que nunca creram ou abandonaram a fé, tendo-a como vazia e velha. Quando a história cristã de nossa era for escrita, especialmente no que diz respeito à Europa e América do Norte, veremos quão central e vital foi o testemunho de lugares como Taizé e Bose, mas também de mais comunidades tradicionais que se tornaram pontos focais da exploração de uma humanidade mais ampla e profunda do que o hábito social encoraja.

E as grandes redes espirituais, Santo Egídio, os Focolares, a Comunhão e Libertação — esses também mostram o mesmo fenômeno; estes abrem espaço para uma visão humana mais profunda, porque em seus vários caminhos todos eles ofertam uma disciplina pessoal e vida comum que é sobre deixar a realidade de Jesus toma vida em nós.

E, como esses exemplos mostram, a atração e o desafio de que estamos falando pode gerar comprometimentos e entusiasmos por diversas linhas confessionais históricas. Nós nos acostumamos a falar sobre a importância imperativa do “ecumenismo espiritual” de nossos dias; mas isso não deve ser sobre de alguma forma contrastar o espiritual com o institucional, nem de trocar comprometimentos específicos por um senso geral de companheirismo cristão. Se nós temos um entendimento robusto e rico do que a palavra espiritual quer dizer, fundamentados sobre percepções escriturísticas como a da passagem de 2Coríntios que citei mais cedo, devemos entender o ecumenismo espiritual como a busca compartilhada de nutrir e sustentar as disciplinas de contemplação na esperança de desvelar a face da nova humanidade. E quanto mais nos mantivermos longes uns dos outros, menos convincente será essa face.

Citei o movimento dos Focolares: você se lembrará que o imperativo básico da espiritualidade de Chiara Lubich era “tornar-se um” — um com o Cristo crucificado e abandonado, um por ele com o Pai, um com todos os chamados a essa unidade e assim um com as mais profundas necessidades do mundo.

“Aqueles que vivem em unidade […] vivem ao permitirem a si mesmos adentrarem sempre mais em Deus. Eles crescem sempre para mais perto de Deus […] e o mais próximo que eles chegam dele, mais próximo chegam ao coração de seus irmãos e irmãs.”

O hábito contemplativo desnuda uma superioridade impensada com relação a outros crentes batizados e a presunção de que eu não tenho nada a aprender com eles. À medida em que o hábito da contemplação nos ajuda a abordar toda experiência como um presente, sempre devemos nos perguntar o que este irmão ou irmã tem para compartilhar conosco — mesmo o irmão ou irmã que está de algum modo separado de nós ou do que nós supomos ser a plenitude da comunhão. Quam bonum et quam jucundum

Na prática isso parece sugerir que, seja lá qual iniciativa estejam sendo tomadas para alcançar de novas formas os cristãos desviados ou o público pós-cristão, deverá haver um sério trabalho com relação a quanto dessa busca será fundamentada sobre alguma prática ecumênica compartilhada de contemplação. Além da forma impressionante em que Taizé desenvolveu ima cultura litúrgica “internacional”, acessível para uma grande variedade de pessoas, uma rede como a World Community for Christian Meditation (WCCM), com suas fortes raízes e afiliações beneditinas, tem oferecido novas possibilidades aqui.

Ademais, essa comunidade tem trabalhado duro para tornar a prática contemplativa acessível para crianças e jovens, e isso precisa receber o maior encorajamento possível. Tendo visto isso em primeira mão — em escolas anglicanas na Grã-Bretanha — quão ternamente as crianças respondem ao convite oferecido pela meditação nessa tradição, acredito que seu potencial para introduzir jovens às profundezas de nossa fé é realmente muito grande. E para aqueles que se distanciaram da prática regular da fé sacramental, os ritmos e práticas de Taizé ou da WCCM geralmente são um caminho de volta a esse lar e centro sacramental. 

O que as pessoas de todas as eras reconhecem nessas práticas é a possibilidade, falando de forma simples, de viver mais humanamente — viver com menos ganância inquieta, viver com espaço para a quietude, viver na expectativa de aprender, e, acima de tudo, viver com a ciência de que há uma alegria sólida e durável a ser descoberta nas disciplinas abnegadas, a qual é bem diferente da gratificação neste ou naquele momento.

A menos que nossa evangelização possa abrir portas para tudo isso, ela correrá o risco de tentar sustentar a fé com base num grupo de hábitos humanos não transformados. O resultado comum disso é que a igreja vem a se parecer infelizmente com instituições puramente humanas — ansiosa, ocupada, competitiva e controladora. Num sentido muito importante, a verdadeira empreitada da evangelização sempre será uma re-evangelização de nós mesmos como cristãos também, uma redescoberta de por que nossa fé é diferente, transfiguradora — uma descoberta de nossa própria nova humanidade.

E é claro isso acontece de forma mais efetiva quando não estamos nos planejando ou lutando para isso. Voltando a de Lubac: “Aquele que melhor responderá as necessidades de seu tempo é alguém que em primeiro lugar nunca buscou respondê-las”.“O homem que busca sinceridade, ao invés de buscar a verdade em abnegação, é como o homem que busca ser desapegado ao invés de entregar-se e abrir-se ao amor.”

O inimigo de toda proclamação do evangelho é a autoconsciência e, por definição, não podemos superá-la nos tornando mais autoconscientes. Precisamos retornar a S. Paulo e nos perguntar “Para onde estamos olhando?” Será que olhamos ansiosamente para os problemas do nosso dia, para as variações da infidelidade ou para a ameaça da fé e moral, para a fraqueza da instituição? Ou estamos buscando olhar para Jesus, para a face desvelada da imagem de Deus, em cuja luz vemos a imagem mais refletida em nós mesmos e em nosso próximo?

Isso simplesmente nos lembra que a evangelização sempre flui de outra coisa — da jornada do discípulo à maturidade em Cristo, uma jornada não guiada pelo ego ambicioso, mas que resulta de promover e invocar o Espírito para perto de nós. Em nossas considerações de como fazer novamente o evangelho de Cristo atraente para os homens e mulheres de nossa era, espero que nunca percamos de vista o que o torna atraente para nós mesmos, a cada um de nós em nossos diversos ministérios.

Então os desejo alegria nessas discussões — não apenas clareza e efetividade no planejamento, mas alegria na promessa da visão da face de Cristo, e no antecipação do cumprimento da alegria em comunhão uns com os outros aqui e agora.


Por: Rowan Williams. © Rowan Williams, 2012. Website: https://www.abc.net.au/religion/contemplation-and-evangelisation/10100254. Traduzido com permissão. Fonte: “Contemplation and evangelisation.”

Original: Contemplação e evangelização. © The Pilgrim. Website: thepilgrim.com.br. Todos os direitos reservados. Tradução: Arthur Guanaes. Revisão: Guilherme Cordeiro Pires.

Imagem:  Unsplash

O ponto de vista deste texto é de responsabilidade de seu(s) autor(es) e colaboradores diretos, não refletindo necessariamente a posição da Pilgrim ou de sua equipe de profissionais.


[1] N. do T.: “Como é bom e agradável os irmãos viverem em união!” Sl 133.1.

A lógica do corpo (Matthew LaPine)

Fazer-se vulnerável é perigoso. É perigoso porque muitos de nós têm lentes teológicas que nos proíbem de ver quem está emocionalmente sobrecarregado como digno de compaixão. Com muita frequência, consideramos ansiedade, depressão ou raiva como motivo de culpa, até que se prove o contrário. Não merecem nossa compaixão, nem mesmo nossa curiosidade. E isso nos previne de os ouvirmos realmente bem.

Quando uma pessoa está sobrecarregada emocionalmente — talvez estirada no chão sem saber qual é a próxima coisa que vai fazer ou dizer —, não há nada tão aterrorizante quanto “a conversa”. A conversa acontece quando a pessoa finalmente toma a coragem de pedir ajuda, de dizer a alguém o que ela está sofrendo.

O resultado repousa sobre a corda de um equilibrista. Quando eu conto minha história, o confidente pode comprá-la ou não. Ganharei um amigo ou ficarei sozinho. Serei são ou louco. Terei boas razões para me sentir desse jeito ou será tudo culpa minha.

O pior é que o resultado parece depender da minha capacidade de contar uma história convincente. Será que eu vou achar as palavras certas? Será que eu vou conseguir fazê-los entender porque eu estou paralisado? E se eu falar do jeito errado?

Com muita frequência, as pessoas em sofrimento se encontram confessando seus sentimentos a uma pessoa que está medindo consigo quão má é a situação — vai ser necessário arrependimento ou terapia? Um caso ruim de ansiedade pode precisar de um terapeuta licenciado ou de ansiolíticos. Um caso mais administrável pode precisar ser exortado a confiar em Deus e em suas promessas.

Ver isso como uma relação de tudo ou nada entre terapia e teologia tende a minimizar ou maximizar a culpa pela emoção. Ou meu corpo está quebrado de alguma forma (visão materialista) ou minha alma precisa lutar contra o pecado da incredulidade (visão cognitivista). As emoções difíceis são neuroquímicas e involuntárias ou cognitivas e escolhidas. Ou estou sofrendo ou estou errado.

Muitas vezes o dilema parte de suposições psicológicas errôneas.

Todos temos suposições psicológicas quer reconheçamos quer não. Por exemplo, os meus sentimentos revelam um estado do meu coração ou a dificuldade das circunstâncias? Ou talvez ambos? O meu coração é apenas minha alma ou meu corpo também é uma fonte de sentimentos? As reais perguntas são: eu conheço minhas suposições e elas são verdadeiras?

Quando os evangélicos falam explicitamente sobre a emoção, tendem a suportar uma visão cognitivista. Mas parece haver uma trégua desconfortável na prática pastoral de muitos evangélicos entre a visão cognitivista e a materialista. As emoções administráveis são mentais e as não administráveis envolvem o corpo. Curar essa trégua traria um avanço ao cuidado pastoral.

Escolhendo as emoções: a visão cognitivista

A teoria cognitiva ensina que nós podemos escolher nossas emoções.¹ Essa escolha é possível porque as emoções são juízos de valor. As emoções expressam o que pensamos e valoramos e, portanto, podem ser verdadeiras ou falsas. Portanto, esses juízos estão abertos à avaliação e à alteração. Se as emoções fossem reações corporais cegas, não seriamos capazes de mudá-las. Isso é voluntarismo emocional; presume-se que eu estou em total controle das minhas emoções.

Digamos que estou esperando para ouvir o parecer do médico sobre a minha radiografia e que estou ansioso. Do ponto de vista cognitivista, minha ansiedade vem da crença de que o diagnóstico do meu doutor me dirá que há uma grande chance da possibilidade que eu quero evitar.

Nas últimas três décadas, muitos pastores e teólogos evangélicos defenderam algo perto de uma teoria cognitiva da emoção. Por exemplo, Brian Borgman, autor de Feelings and Faith [Sentimentos e fé], escreve que as emoções “nos dizem o que acreditamos de verdade, de verdade mesmo.”² De novo, se nossas emoções são ou refletem nossas crenças, essas crenças podem mudar. Borgman sugere: “eu venci a ansiedade ao focar nas consolações, nas promessas, que tu me deste na tua Palavra.”³

Segundo Borgman, eu posso vencer a ansiedade ao me lembrar da promessa de Deus de que ele “nunca me deixará, jamais me desamparará” (Hb 13.5). Eu precisarei lembrar que Mateus 6.28-34 me diz três vezes “não fiqueis ansiosos.” Semelhantemente, Hans Dieter Vetz argumenta que esses mandamentos são “categóricos, sem abrir nenhuma exceção.”4

Observe três características da versão teológica da visão cognitivista, a qual chamarei de voluntarismo emocional. Em primeiro lugar, emoções são juízos ou crenças. Segundo, porque as emoções vêm dos nossos corações, elas podem ser mudadas ao mudarmos a nossa atenção de lugar ou nos confrontarmos. Terceiro, porque a Bíblia ordena e proíbe certas emoções, nós devemos mudar nossas emoções.

Então, se estou tendo “a conversa” com um amigo que tem a posição cognitivista, que postura padrão ele terá com relação a minha ansiedade? Ele provavelmente me pressionará para que eu alinhe minhas emoções à “verdade”, assumindo que a ansiedade em si é um ato pecaminoso. Outras circunstâncias externas não importam, porque o problema está no meu coração, não em minhas circunstâncias. Eu sou o problema.

Essa abordagem pode funcionar para formas relativamente triviais de aflição emocional (a terapia cognitiva é muito eficiente para diversos casos). Para casos significativos de aflição ou trauma emocional, pode causar grande dano. O voluntarismo emocional deixa a pessoa traumatizada sozinha e envergonhada.

A abordagem possui três problemas. Primeiro, as emoções nunca são meros juízos, mas envolvem o corpo todo. O clima geral do corpo importa para uma tempestade emocional acontecer ou não. Segundo, as emoções são menos ações e mais algo que acontece conosco (paixões); nossas ações, mentais ou não, nem sempre mudam diretamente nossas emoções porque nossos juízos são inconscientes e automáticos. Terceiro, para mudarmos nossas emoções, precisamos saber quanto tempo levará. Eu tenho uma obrigação moral de mudar minhas emoções nos próximos quinze minutos ou nos próximos dois anos?

Emoções corpóreas: a visão materialista

Geralmente as pessoas que sofrem de certa aflição emocional deixam a igreja quando os líderes eclesiásticos os rotulam como “emocionalmente imaturos”. Esses líderes confundem instabilidade emocional com imaturidade emocional. Assume-se que a pessoa deveria ter controle sobre suas emoções. Os que estão sofrendo reagem num reflexo a isso: eu não sou o problema, minhas circunstâncias que são.

Muitas vezes eles abraçam o lado oposto do dilema, a visão materialista da emoção. De acordo com essa visão, as emoções negativas que causam o sofrimento são uma doença ou uma disfunção trazidas pelo estresse. Se a primeira visão restringe as emoções ao coração (alma), então a segunda as restringe às circunstancias e ao corpo.

Uma perspectiva secular das emoções tende a vê-las como uma reação corpórea, como “funções biológicas do sistema nervoso.”5 As emoções dizem respeito à saúde, não à moralidade. As emoções sinalizam disfunção, desequilíbrio ou relações sociais insalubres. Por serem completamente involuntárias, são amorais. Elas simplesmente acontecem conosco; não as desejamos.

Observe as características da visão materialista. Primeiro, as emoções são eventos corporais. Segundo, emoções são reações ao nosso ambiente segundo a tintura do nosso corpo particular. Terceiro, as emoções são amorais e relacionadas à saúde, mental e física. O problema não está no meu coração, mas fora de mim e com meu corpo.

Agora suponha: estou tendo “a conversa” com um amigo que suporta a visão materialista, que postura padrão ele terá com relação à minha ansiedade? Ele adotará uma postura muito mais empática. Provavelmente ouvirá ativa e atentamente, sem julgamentos. Empatia é terapia, de acordo com essa abordagem. E ele poderá sugerir passos ativos para que eu administre bem meu estresse.

A pessoa que sofre considerará essa abordagem profundamente consoladora. A aflição emocional produz alienação e vergonha, que são debilitantes. A empatia comunica que você não está maluco ou sozinho. Na superfície, essa abordagem é mais humana.

Entretanto, a longo prazo, a abordagem materialista comete o erro oposto de assumir que nossos problemas emocionais estão inteiramente fora de nós, sendo uma combinação de genética e ambiente. A vereda que leva à cura geralmente caminha pelos passos da responsabilidade pessoal e de uma revisão significativa de nosso modo de ver e agir no mundo. Por exemplo, os Doze Passos dos Alcóolicos Anônimos inclui um “destemido inventário moral”, admitindo a “natureza exata de nossas falhas” e o propósito de se corrigir onde errou.6

Uma psicologia tomista: a lógica corporificada

Então como resolvemos o paradoxo dos sentimentos? É possível reconciliar as melhores propostas de cada uma das duas abordagens. Observar a criação e a tradição cristã ajuda a reavaliar nossas suposições para uma leitura mais rica do texto bíblico.

A Bíblia vê os seres humanos como pessoas que estão “cultivando” os seus corpos, no sentido agrícola da palavra. As pessoas são como árvores (Gn 2—3; Sl 1), cultivados para a frutificação e a confiança em Deus e seus dons. Então, seguindo essa analogia, podemos escolher nossas emoções da mesma forma que um fazendeiro do Goiás pode escolher plantar pequi.

Tomás de Aquino defendia uma visão das emoções que as considera como corporificadas e significativas. Para Aquino, emoções são paixões. As paixões acontecem conosco e são apenas parcialmente voluntárias. Elas são responsivas aos rápidos juízos da percepção. Então, se eu vejo um graveto que parece uma cobra, meu corpo reage com medo antes mesmo de eu ter registrado o que de fato existe ali. As nossas emoções corporificam uma espécie de inteligência ou lógica.

Tentar mudar diretamente nossa forma de pensar pode afetar nossa percepção e nossas paixões, mas isso ocorre apenas de forma indireta e incompleta, porque o pensamento é consciente enquanto os julgamentos perceptivos são inconscientes. Pensar com o objetivo de corrigir nossas emoções pode ajudar ou não. Porque a percepção difere da reflexão racional, não importa o quanto eu pense “isso não é uma cobra”, isso não prevenirá a reação da próxima vez. Mas talvez aprender sobre cobras e sobre como manuseá-las possa ajudar.

Enquanto temos a responsabilidade de governar nossos corpos e emoções, essa responsabilidade tem dois limites significativos. De um lado, somos capacitados apenas na proporção do que recebemos na graça comum de capacidades humanas funcionais, na graça salvadora de Deus em Cristo e nos dons do Espírito. De outro, nossas expectativas de integridade são modificadas pela futilidade a que nossos corpos foram submetidos pela maldição do pecado.

A Bíblia nos diz que “o Espírito daquele que ressuscitou Jesus dentre os mortos habita em vós” e que ele “há de dar vida também aos vossos corpos mortais, pelo seu Espírito, que em vós habita” (Rm 8.11). O Espírito pode vivificar nossos corpos total e completamente agora mesmo.

E ainda assim esperamos com paciência pela redenção de nossos corpos. Nossos corpos estão sob o domínio da maldição do solo e o Espírito nos ajuda em nossas fraquezas (Rm 8.18-27). Nesses corpos, devemos esperar com paciência pela colheita da ressurreição (1Co 15.42-44, Tg 5.7). A ajuda e a esperança necessárias já nos foram dadas, mas o sofrimento ainda não foi removido.

Então, para retornar à “conversa”, que postura padrão assumirão os que têm uma visão tomista em relação à minha ansiedade? Primeiro, os ouvintes serão compassivamente curiosos sobre as dinâmicas internas e externas de qualquer dor humana. Eles tentarão imaginar como é ser alguém que sofre ao fazer perguntas empáticas sobre as circunstâncias e os sentimentos envolvidos.

Em segundo lugar, esses ouvintes praticarão a paciência. “Mas, se esperamos o que não vemos, com paciência o aguardamos” (Rm 8.25). O sofrimento significativo, como o trauma, pode trazer um dano à pessoa que só será curado com o tempo. Se administrarmos nossa emoções como um fazendeiro de Goiás administra seu campo, a tempestade e as enchentes podem causar um dano duradouro. A cura do trauma pode levar anos.

Terceiro, eles se sentirão livres para cuidar dos outros com ferramentas tanto da graça comum quanto da salvadora. Não somos corpos, nem almas, mas almas corporificadas. Os meios de graça para a cura e a santificação incluem Palavra e sacramento, práticas individuais e comunitárias, tudo mediado pela presença do Espírito de Deus. Mas há também meios de graça como descanso e comida, atividade física e contato com a natureza, medicação e toque físico. Esses instrumentos também mediam o amor cuidadoso de Deus. Em alguns momentos, o toque físico pode comunicar o amor cultivador de Deus melhor que as palavras.

Temos uma obrigação de estender bondade aos irmãos e irmãs em Cristo que estão sofrendo. A Bíblia diz: “Recusar a piedade a um amigo é abandonar o temor do Todo-poderoso” (Jó 6.14-15, BAVM) e “Levai os fardos uns dos outros e assim estareis cumprindo a lei de Cristo” (Gl 6.2). Porém, à parte do nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo, não temos nenhum poder para estender tal bondade e suportar tais fardos. Devemos o fazer na vinha e sob os cuidados do divino jardineiro. Nossa vida está somente em Cristo e tudo que ministramos são sua vida e seus dons.

Eu sou a videira verdadeira, e meu Pai é o agricultor. […] Permanecei em mim, e eu permanecerei em vós. O ramo não pode dar fruto por si mesmo, se não permanecer na videira; assim também vós, se não permanecerdes em mim. Eu sou a videira; vós sois os ramos. Quem permanece em mim e eu nele, esse dá muito fruto; porque sem mim nada podeis fazer.
João 15.1, 4-5


  1. O filósofo Robert Solomon foi um pioneiro da visão cognitivists. Ver “Emotions and Choice,” The Review of Metaphysics 27 no. 1. Setembro de 1973, p. 20-41. 
  2. Brain Borgman, Feelings and Faith, p. 128. 
  3. Borgman, Feelings and Faith, p. 130. 
  4. Hans Dieter Betz, The Sermon on the Mount, Hermeneia. Minneapolis: Augsburg Fortress, 1995, p. 469. 
  5. Joseph LeDoux, The Emotional Brain: The Mysterious Underpinnings of Emotional Life. New York: Simon & Schuster, 1996, p. 12.
  6. O vício se relaciona intimamente à saúde mental porque é uma forma doentia de lidar com a aflição mental. Os adictos são normalmente diagnosticados com algum transtorno mental.

Por: Mathew LaPine. © Mere Orthodoxy. Website: https://mereorthodoxy.com/the-logic-of-the-body/. Traduzido com permissão. Fonte: The Logic of the Body.

Original: A lógica do corpo (Mathew LaPine) © The Pilgrim. Website: thepilgrim.com.br. Todos os direitos reservados. Tradução: Arthur Guanaes. Revisão: Guilherme Cordeiro Pires.

Imagem:  Unsplash

O ponto de vista deste texto é de responsabilidade de seu(s) autor(es) e colaboradores diretos, não refletindo necessariamente a posição da Pilgrim ou de sua equipe de profissionais.